Nietzsche versus Maomé – O Estado Islâmico, protestante, ortodoxo e católico – Jesus contra o poder do Estado e da religião – O Dia da Expiação

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Introdução

Nietzsche sacou, genialmente, quem foi o mentor de Maomé, qual o caráter desse mentor e o modo dele operar. Antes de adentrarmos neste ponto, resumidamente traçaremos, segundo a sócio-história em muito longa duração, a genealogia dos sucessivos Estados, que se desenvolveram, como uma reação em cadeia. Para combater e neutralizar, especificamente, o revolucionário movimento social igualitário, descentralizado, anti-hierárquico, etc., que o Jesus Histórico houvera desencadeado, e seus Apóstolos deram prosseguimento. Vejamos o quadro geral dessa reação em cadeia e seus desdobramentos.

A partir do começo da queda e fragmentação do Império Romano, com Constantino I iniciando, em 330, a criação do Império Bizantino e convocando, em 325, o Concílio de Nicéia, então, teve início o esboço da formação de dois grandes blocos religiosos: a igreja ortodoxa e a Igreja católica. Ambos caracterizados pelo reacionário modelo hierárquico e autoritariamente centralizados de instituição social religiosa. Modelo reacionário esse criado, quase trezentos anos antes, pelo contrarrevolucionário Paulo de Tarso o Anticristo: a sua igreja pseudocristã. Na realidade existente, esta igreja hierarquizada se apresentava, ainda, de modo fragmentado. Cada qual sob a direção de bispos e patriarca.

A partir da intervenção conciliadora exercida por Constantino I, o bloco católico e o ortodoxo se mantiveram claramente associados às respectivas formas de governo de Estado. A igreja católica sediada em Roma, e aliada com o Estado do lado ocidental do Império, já em decadência e se fragmentando. A igreja Ortodoxa sediada em Constantinopla, e aliada ao Estado bizantino, do lado oriental do império. “Finalmente, em 455, o imperador Valentiniano III proclamou um decreto determinando que todos os bispos ocidentais se submetessem à jurisdição do Papa“, em Roma. A igreja ortodoxa permaneceu fragmentada.[1]

Na Europa Ocidental, o desenvolvimento do regime feudal caracterizado pela descentralização política, descaracterizou os aspectos pertinentes à noção de Estado, embora o regime feudal estivesse articulado ao modelo católico de instituição social hierarquizada e autoritariamente centralizada, que sobreviveu à queda do feudalismo, e vem acompanhando, ao longo da Idade Moderna, à criação e manutenção do Estado moderno religioso.

O Estado moderno se desenvolvera, na Europa Ocidental, no final do século XV e logo no início da Idade Moderna, com a ascensão do absolutismo, do mercantilismo e do capitalismo. Ele pode ser definido como uma “poderosa e autoritária centralização política e legislativa de natureza coercitiva; dotada de soberania; de um corpo burocrático; de delimitação territorial e nacional, etc.”[2]   Dois modelos de Estado se desenvolveram, então, o modelo de Estado católico, e, o modelo de Estado protestante.

   O modelo de Estado católico a exemplo da França, Itália, etc. foi condicionado pelo desenvolvimento e globalização do capitalismo, e pela concorrência com o respectivo modelo protestante de Estado. O qual é, caracteristicamente, mais empreendedor que o Estado católico, em decorrência de seguir mais fielmente a ética protestante, isto é, o espírito do capitalismo (incremento racionalmente orientado e insaciável da produção, do consumo e da acumulação capitalista).

Ao longo da modernidade, alguns Estados-nação se transformaram, em termos estatísticos, em hegemonicamente protestante ou hegemonicamente católico, mas todos sob a égide do modelo paulino de instituição religiosa hierarquizada e autoritariamente centralizada, e sob a égide do espírito do capitalismo.

A “ética econômica do entesouramento” enquanto resquício do feudalismo sob a égide da Igreja católica, que os estados-nação católicos ainda arrastavam consigo, ao longo da modernidade teve que se adaptar e acompanhar, ao espírito do capitalismo. Uns se adaptaram mais rápido e plenamente, (França, Itália); outros se adaptaram menos, a exemplo de Portugal e da Espanha, que inauguraram, entretanto, a formação de impérios coloniais. Outros Estados-nação que no início da modernidade ajudaram ao desenvolvimento da ética protestante, vem se desvencilhando de toda podridão religiosa, a exemplo da Holanda[3]

Em cerca de 622, Maomé se inspirou no modelo hierarquizado de instituição religiosa criada por Paulo de Tarso o Anticristo, e em parte, nos métodos empregados por este. Desse modo, Maomé criou sua instituição religiosa hierarquizada, com algumas inovações, conforme veremos, mais adiante, de modo mais detalhado. Assim, ele iniciou o modelo geral do Estado Islâmico, e da respectiva Civilização Sarracena, que se expandiu, e que durou de 630 a 1300.[4] O modelo de Estado Islâmico permanece, entretanto, até hoje. Embora diferentes governantes desses modelos de Estado (Egito, Síria, etc.) foram submetidos, desde o início da Idade Moderna, por governos de Estados europeus hegemonicamente protestantes (Inglaterra) ou hegemonicamente católicos (França). A Inglaterra e a França combinavam entre si e dividiam áreas de influência, no mercado global além do Oriente médio, que abarcava a formação de um vasto império colonial na América, África e Ásia. Mais adiante, os outros Estados-nação (Alemanha, Bélgica, Itália, etc.) membros do centro dinâmico do sistema capitalista participaram, também, da formação de impérios coloniais.[5]

  1. A revolução igualitária, fraternal, e radicalmente pacifista desencadeada por Jesus

Vamos voltar no tempo, e focalizar a revolução igualitária, fraternal, e radicalmente pacifista desencadeada por Jesus, na Palestina subordinada ao Império Romano. O genuíno movimento revolucionário desencadeado pelo Jesus Histórico, na verdade se desenvolvera no seio e contra o Estado. Não somente contra o Estado judeu, e o Império Romano, enquanto um macro Estado, em que o Estado judeu estava inserido, mas também contra toda forma de Estado.

Os escribas e sacerdotes planejaram, exigiram e obtiveram a morte do Jesus Histórico. Logo após isto, os genuínos Apóstolos e demais fiéis seguidores de Jesus incrementaram, a revolução que o Mestre houvera desencadeado, inicialmente em Jerusalém, e a seguir a disseminaram por todo o Império Romano e mesmo fora dele.

O genuíno movimento revolucionário desencadeado pelo Jesus Histórico, na verdade consistiu, embora de modo elementar e inicial, no modelo de formação social igualitário, fraternal e radicalmente pacifista. Senão, vejamos como ele se apresentou em Jerusalém:

Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-no por todos, segundo as necessidades de cada um (At 2, 44-45). A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que era suas as coisas que possuía: mas tudo entre ele era comum” (At 4, 32).

1.1. O modelo servo de liderança e as comunas descentralizadas sob a égide do Espírito de Deus e o de Jesus

Vejamos agora o modelo servo de liderança exercido e recomendado pelo Jesus Histórico, e que se apresentava nas comunas descentralizadas, e sob a égide do Espírito de Deus e do Espírito de Jesus. O movimento revolucionário desencadeado por Jesus não era, porém, apenas igualitário, fraternal, etc. Ele era constituído de núcleos ou comunas descentralizadas, e ostensivamente anti-hierárquicas. Ao exemplo das “doze tribos de Israel” (que durou cerca de 200 anos, antes da centralização promovida por sacerdotes mancomunados com Davi).[6] A exemplo também das “sete igrejas” citadas no livro Apocalipse, e representadas na figura de “sete candelabros de ouro” (cf. Ap 1, 4, 11-12, 20). Cujo modelo “servo” de liderança atuava, entre outras coisas, no sentido de impedir o desenvolvimento da hierarquização e de clero profissional, no interior do núcleo. Modelo servo este que o Espírito de Jesus representou no signo “estrela” (cf. Ap 1, 16, 20). Note que os símbolos aqui empregados, intencionalmente remetem o leitor atento, para a teoria da sócio-história exposta tanto nos dez primeiros capítulos do livro gênese como nas formas e disposições dos móveis do Tabernáculo, que consistem, também, na referida teoria, mas em escrita tipo hieroglífica. O modelo “servo” foi exercido exemplarmente e proposto pelo Mestre às lideranças, que ele estava preparando, para elas darem continuidade e avançarem com a revolução. Vejamos apenas uma das muitas passagens do NT, em que o Jesus Histórico deixou isso bem claro e evidente, ao se dirigir às suas lideranças:

Jesus, porém, os chamou e lhes disse: ‘Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do homem, veio não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão” (Mt 20, 25-28).

Os grandes profetas individuais já conheciam a noção de “servo”, como o revolucionário modus operandi peculiar ao Ungido do Criador, contra o poder de Estado, a exemplo do profeta Deutero-Isaías (Livro da Consolação). Veja os poemas sobre o “servo” (cf. Is 42, 1-4, etc.; Mt 12, 18-21).

O centro articulador das diversas comunas genuinamente cristãs consistia, de um lado, no Espírito Santo do Deus Criador, outrora chamado Iahweh, que no Apocalipse está representado na figura dos “sete espíritos que estão diante do trono” (cf. Ap 1, 4-b). E, do outro lado, no Espírito de Jesus expresso literalmente: “E da parte de Jesus Cristo, testemunha fiel, primogênito dentre os mortos, e soberano dos reis da terra” (Ap 1, 5-a). O forte carisma deixado, indelevelmente, pelo Jesus Histórico, na lembrança das pessoas do povo, também contribuía para a manutenção do movimento revolucionário. Mas, Iahweh, o Espírito do Criador e o Espírito de Jesus foram os que atuaram como centro articulador das comunas descentralizadas, enquanto havia indivíduos com fé neles.

1.2. Jesus superou as três tentação básicas do poder

O fato de Jesus atuar no sentido diametralmente oposto ao poder, de acordo com o modelo servo de liderança, também está demonstrado nas três tentações básicas do poder exercidas e superadas por ele. A aversão de Jesus em relação ao poder era tamanha, que a sua vitória sobre a tentação do poder foi narrada como precondição do início da sua vida pública revolucionária. Isto está patente no episódio da “Vitória de Jesus sobre as três tentações exercidas pelo poder” (cf. Mt 4, 1-11). Essas três tentações só podem ser entendidas, como a relação entre, de um lado, um virtuoso jovem político-intelectual destro, vigoroso e grandemente dotado tanto de conhecimentos como de capacidade de argumentação, e do outro lado, o desejo e o sentimento de ambição de poder. Relação esta inserida, de modo geral, na interação entre três contextos:

1°. No quadro das interações pessoais, cujo tipo de conduta é motivada, predominantemente, por sentimentos de ordem odiosa e respectivos valores egoísticos. Nestas interações, os indivíduos estão representados na figura de “pedras” e enquanto estes indivíduos sejam usados como objetos de se extrair “pão”, isto é, valor e sustento, do modo como alguns indivíduos fazem explorando outros: “O tentador aproximou-se dele e lhe disse: ‘Se é filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães” (Mt 4, 3). Jesus superou, neste quadro, a tentação de poder, senão, ele poderia ter se transformado no tipo de pessoa possessiva, que atua no sentido de dominar e explorar outros indivíduos;

2°. No quadro dos mecanismos de produção e administração da violência cultural representado em “ponto mais alto do templo de Jerusalém“, ou seja, o sumo sacerdócio: “O demônio transportou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe; ‘Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé nalguma pedra” (Mt 4, 5-6). Jesus superou, ainda neste quadro, a tentação exercida pelo desejo e sentimento de poder. Caso não o fizesse, então, ele poderia ter criado uma nova e poderosa instituição religiosa hierarquizada, ou ter conquistado o posto de sumo sacerdócio judaico;

3°. No quadro dos mecanismos de produção e administração da violência política e econômica representado em “um monte muito alto”, ou seja, o reinado ou mesmo o império: “O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: ‘Dar-te-ei tudo isto, se, prostrando-te diante de mim, me adorares” (Mt 4, 8-9). Jesus superou, também neste quadro, a tentação exercida pelo desejo e sentimento de poder. Caso contrário, ele teria se transformado num grande líder político, a exemplo de Davi, e criaria um grande império.

O jovem Jesus dotado das referidas virtudes superou a tentação exercida pelo desejo e o sentimento de ambição em relação ao poder, nesses três contextos. Tentações estas que ele concebia como de natureza satânica, isto é, do hiper-opositor do Deus do amor, da justiça social e do pacifismo. O indivíduo membro da podridão teológica e sacerdotal pseudocristã nunca aborda, objetivamente, as “três tentações do poder”, precisamente porque ele não resiste à tentação do poder, nos três sentidos: ele domina outros indivíduos; ele se conduz voltado para criar ou manter instituição religiosa hierarquizada e poderosa; ele procura se mancomunar com políticos, para criar ou manter o poder de Estado. Veremos mais detalhadamente o caso das três tentações em outra palestra.

1.3. Jesus inverteu os valores eleitos, nos povos sob o Império Romanos

Jesus atuou no sentido de inverter os valores eleitos, tanto pelas elites como pela massa popular sob o Império Romano, como estratégia de transformação social para uma sociedade mais justa e fraterna. Ou seja, transformação essa a ser obtida através do aprimoramento pessoal ou humanização do indivíduo, então, violentado, explorado e embrutecido. Embrutecido sobremaneira através dos mecanismos de produção e administração da violência, empregados como meios de moldagem da conduta violenta, controle e mobilização social.

Toda sociedade funciona, basicamente, segundo os valores nela eleitos. Mas, o bloco ideológico ou a intelligentsia são os agentes que tanto elaboram e elegem como inculcam esses valores nas pessoas do povo, formando a identidade cultural de uma nação ou de várias nações sob o mesmo império. Jesus atuou no sentido de inverter a natureza dos valores, então, eleitos no âmbito do grande Império Romano, e conseguiu, através dos seus fiéis seguidores, propagar esses novos valores. Um número significativo das pessoas do povo ia assumindo tais novos valores. Esse número foi o suficiente, para solapar as bases valorativas, sobre as quais o Império estava erguido. Assim, este Império e o Grande Mercado que ele gerenciava, então, foram se enfraquecendo aos pouco, e se fragmentando, em três grandes civilizações:

Na Europa Ocidental (metade ocidental do Império Romano), desenvolveu-se o feudalismo na Idade Medieval, que teve inicio com o grande poder da Igreja ou “deserto cultural” ou ainda a Idade das Trevas (400 a 800), e se estendeu até 1500.

Na Europa Oriental e demais partes da metade oriental do Império Romano, desenvolvera-se a Civilização Bizantina (de 500 até a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453). O Império Bizantino preservou, em relação à Europa Ocidental, melhor nível de atividade comercial, industrial e cultural, e também muitos aspectos administrativos do extinto Império Romano.[7]

A Civilização Sarracena (630 a 1300) originária da Arábia, com uma onda de expansão estendeu-se sobre parte da configuração espacial da Civilização Bizantina, parte da península Ibérica, etc., ou seja, ocupou parte do que fora a metade oriental do extinto Império Romano.[8]

Os povos que integravam o Império Romano, então, valorizavam, a riqueza, a força física, a beleza exterior, o poder, a inteligência mais no sentido da astúcia e demais coisa do gênero. Jesus inverteu isso tudo, com o objetivo preciso de transformar a injusta e violenta realidade social existente, para uma forma mais justa e fraterna. Neste sentido, ele proclamou, enfaticamente, como de valor máximo, novos modos de conduta, conforme consta no “Sermão da Montanha” (cf. Mt 5-7), e em particular nas “bem-aventuranças”.

Em outros termos, o Jesus Histórico inverteu os valores, então, vigentes, e proclamou, como de “máxima excelência moral”, a disposição do indivíduo escolher, como padrão de medida dos sentimentos que motivam a conduta objetiva ou ação social, os mais intensos sentimentos de ordem amorosa, tanto em relação a Deus como ao próximo (cf. Mt 22, 34-40). Isto, em diametral oposição à conservadora ideologia aristotélica do meio-termo, então, em voga.[9] Vejamos alguns dos “valores” (bem-aventuranças) propostos por Jesus:

Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!…

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus!

   Bem-aventurados sereis quando vos caluniares, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos…, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo…” (Mt 5, 3-14).

  1. Vejamos o “Dia da Expiação”: ritual como linguagem empregada por Moisés, para descrever importantes aspectos pertinentes à teoria da sócio-história em muito longa duração

Vamos explicar os significados de alguns elementos do “ritual” (teoria) do “Dia da Expiação”, suas relações e o contexto da realidade sócio-histórico em muito longo tempo, de onde a concernente teoria foi abstraída. Vamos explicar, ainda, o posterior contexto da realidade sócio-histórica, que o referido “ritual” (teoria) servia como prognostico, no curso da teoria da história. Posterior contesto esse que desemboca na formação dos “dez chifres”, isto é, dez poderosos Estados. Os quais compõem o centro motor do sistema capitalista do Grande Mercado. A referida teoria da história foi registrada por Moisés, através das formas e disposições tanto dos móveis como do próprio tabernáculo, onde se realizava o ritual (teoria) do “Dia da Expiação”.

Veremos os significados do Carneiro para o holocausto perpétuo; o bode ofertado ao Senhor, em sacrifício pelo pecado do povo; o outro bode a ser conduzido vivo durante muito longo tempo até Azazel; no “deserto” (cultural), sob a hegemonia da Igreja (Idade das Trevas) (cf. Lv 16, 1-29).

O “Dia da Expiação” consiste num ritual, que Moisés empregou como linguagem, para descrever importantes aspectos pertinentes à teoria da sócio-história. Por conseguinte, só podemos entender o ritual do “Dia da Expiação”, caso nos posicionarmos na perspectiva dos grandes profetas individuais hebreus.[10] Os quais enfocavam a sócio-história, por um lado, pelo ponto de vista do indivíduo justo e indignado diante de tanta injustiça, corrupção, violência e hipocrisia, nas interações sociais, nas respectivas sociedades em que viveram, e por outro lado, pela perspectiva da sócio-história em muito longa duração.

2.1. O carneiro para o holocausto

1250 anos antes do Jesus Histórico, Moisés considerou de suma importância o ritual do “Dia das Expiações”, e recomendou o seu cumprimento anual, perpetuamente. Posto que toda a teoria da história que ele ensinava, na verdade estava voltada para a preparação do povo, quanto à vinda, então, do próximo Ungido do Criador. Vinda esta que ocorreria no contexto da 6ª escala imperial (2° Henoc) pós-diluviano ou Pós-II Período Intermediário. Essa sexta escala consistiria no Império Romano, cujo Ungido viria a ser o Jesus Histórico.

Moisés já sabia, em 1250 a.C., de acordo com a teoria da história, e em particular de acordo com o “ritual” ou teoria do “Dia da Expiação”, que o 3° Ungido do Criador emergiria num contexto sócio-histórico singularmente conflituoso, com o seu arqui opositor, e que esse conflito prosseguiria em muito longa duração. No qual, o Ungido e seus sucessores cumpririam, cada qual ao seu tempo, o holocausto perpétuo. Este fato sócio-histórico está representado, no referido ritual, na figura “Carneiro para o holocausto” (Lv 16, 3, 24-25).

O simbolismo “Carneiro para o holocausto” já havia sido empregado, de modo análogo, na figura dos “primogênitos do rebanho e das suas gorduras” representando a 1ª emergência do Ungido, que fora “ofertado”, isto é, ocorrera na localização social “Abel” (comunidade pastoril), no contexto “Caim versus Abel” (cf. Gn 4, 4). Mas, o contexto sócio-histórico ao qual Moisés se refere, pode ter sido o da 2ª emergência do Ungido, possivelmente Osíris, na contexto da sexta escala imperial de expansão (2° Henoc) do Grande Mercado, isto é, a VI Dinastia egípcia, que se fragmentara e cuja configuração espacial regrediu ao nível do campo ou modo feudal de formação social. Modo este que os egiptólogos chamam de I Período Intermediário ou mais apropriadamente de Idade Feudal egípcia.

O Jesus Histórico lutou até ao limite da “glória”. Cujo objetivo consistiu em transformar a realidade social injusta, corrupta e perversa e hipócrita, para uma forma justa e fraterna. Para alcançar este objetivo, ele precisava, simultaneamente, libertar os indivíduos das “prisões ideológicas” (doutrinas religiosas, filosóficas, etc.) elaboradas pelos ideólogos, e assim livrar esses indivíduos das instituições religiosas hierarquizadas. Por este motivo, Jesus concentrou, estrategicamente, sua luta, sobre o bloco ideológico judeu (teólogos e sacerdotes fariseus e saduceus).[11] Desse modo, o Jesus Histórico cumpriu o holocausto perpétuo, e interpretou o papel social do “Carneiro para o holocausto” (Lv 16, 3, 24-25). Simbolismo este já empregado no contexto “Caim versus Abel” (cf. Gn 4, 4).

Os “escribas” (teólogos), sacerdotes e os “anciãos do povo” compunham o Sinédrio. A expressão “anciãos do povo” consistia na aristocracia rural, mercantil e financeira com representantes no Sinédrio, ao lado de escribas e sacerdotes fariseus e saduceus.[12] Mateus repetiu fartamente (cf. Mt 26, 47, 57; 27, 1-3,12, 20, 41), para ficar bem claro a composição desse conjunto, que pode ser pensado como o “bloco hegemônico” judeu. O qual planejou, exigiu e obteve a morte do Filho de Deus.

2.2. O “bode expiatório”: o modelo hierárquico e autoritariamente centralizado de igreja criado por Paulo o Anticristo

O signo “bode expiatório” representa, de modo mais amplo, a doutrina anticristã elaborada por Paulo o Anticristo, o respectivo modelo hierarquizado e autoritariamente centralizado de instituição social religiosa, mais os teólogos e sacerdotes e concernentes movimentos sociais. Ou seja, “bode expiatório” representa a contra-revolução desencadeada por Paulo o Anticristo, para neutralizar o movimento revolucionário igualitário e descentralizado desencadeado pelo Jesus Histórico. Essa contra-revolução vem permeando um período de muito longa duração, e chegou até aos dias atuais.

Paulo de Tarso o Anticristo forjou uma mentira alucinante, ou seja, forjou contato com o Espírito de Jesus, no caminho para Damasco. Assim, ele forjou, também, sua conversão (cf. At 9, 1-19). Cujo objetivo foi combater, ideologicamente, o genuíno movimento revolucionário desencadeado por Jesus. Com esse objetivo, Paulo se infiltrou entre os genuínos Apóstolos de Jesus, para conhecer a doutrina, e assim poder adulterá-la, e também para disfarçar-se de genuíno seguidor de Jesus e de Apóstolo. O fim último consistiu em criar a sua igreja hierarquizada contra-revolucionária. Esse é o mesmo Paulo o Anticristo que é, hoje, o patrono de todo tipo de teólogo e sacerdote pseudo cristão (católico, protestante, evangélico, ortodoxo, etc.) de instituição religiosa hierarquizada. Naquela época, o Anticristo já era contra-revolucionário e também “homófobo” (cf. Rm 1, 26-27).

Paulo o Anticristo inverteu, de modo maligno, mentiroso, descarado, desavergonhado e odioso, as bem-aventuranças e tudo mais que Jesus valorizava. Neste sentido, o Anticristo arrastou consigo os ideólogos elitistas que o seguiam (Lucas, Marcos, Timóteo, Tito, etc.) e respectivas ovelhas-robô, para defender, estabelecer maligna aliança e subserviência, com as injustas e sanguinárias autoridades políticas, jurídicas, econômicas e ideológicas tanto de Roma como de outras nações sob o Império Romano. Nesta direção, ouçamos o que Paulo escreveu e distribuiu às suas lideranças, para estas lerem e ditarem, nas comunidades religiosas hierarquizadas e com clero profissional que estava sendo criando, que assim como Paulo, também subtraía valores das suas vitimadas ovelhas-robô:

Cada qual seja submisso às autoridades constituídas. Porque não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem atraem sobre si a condenação. Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Portanto é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência“.

O texto é meio longo, mas convém prosseguirmos, para desmascararmos, de uma vez por todas, Paulo de Tarso, que não foi um mero embusteiro, mas um pródigo sofista e o próprio Anticristo. Ele acrescentou:

É também por esta razão que pagais os impostos, pois os magistrados são ministros de Deus, quando exercem pontualmente este ofício. Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto a quem deveis o imposto; o tributo a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito” (Rm 13, 1-7; cf. ainda no mesmo sentido: 1Tm 2, 1-7; Tt 3, 1).

Caso olharmos para o Brasil, o país da corrupção, onde a casta portuga-descendente, seus aliados eugenistas e respectivos sacerdotes das suas religiões instituíram, perversa e desavergonhadamente, a corrupção, a violência, a religião, etc., como meios de controle social e de exploração sobre o povo. Situação esta análoga tanto às elites judaicas como às romanas, da época de Paulo de Tarso o Anticristo. Então, teremos uma idéia bem próxima da natureza maligna do caráter e das intenções de Paulo de Tarso, ao propor aos ideólogos mancomunados com ele e às suas vitimadas ovelhas-robô, a aliança de que falamos. O tal olhar denunciaria, também, a natureza maligna dos teólogos e sacerdotes pseudocrístãos (católicos, protestantes, evangélicos, etc.) seguidores de Paulo o Anticristo e mancomunados com a casta portuga-descendente e seus aliados eugenistas.

2.3. Vejamos, agora: “Estes homens, em seu louco desvario… desprezam a soberania e maldizem as glórias” (Jd 8)

Esta frase que coloquei como sugestivo subtítulo, para o pertinente tema, copiei da Carta de Judas Tadeu, em que este Apóstolo fez alusão a Paulo o Anticristo, no contexto do conflito entre, de um lado, Paulo o Anticristo, seus asseclas e sua igreja hierarquizada e autoritariamente centralizada, e do outro, os genuínos Apóstolos e sua igreja igualitária em comunas descentralizadas.

Paulo o Anticristo adulterou, estrategicamente, diversos outros pontos essenciais da doutrina de Jesus. Por exemplo, a noção de “glória” era conhecida desde os grandes profetas individuais. Ela significa lutar, até ao limite da glorificação, para libertar os indivíduos das garras ideológicas dos teólogos e sacerdotes, e para transformar a sociedade injusta, corrupta e violenta e hipócrita, para uma forma mais justa e fraterna. Glorificação essa que o Jesus Histórico deu o exemplo, cumprindo o holocausto perpétuo (cf. Jo 17, 1-5). Holocausto este que é do agrado do Deus Criador. Assim, a luta até ao limite consiste tanto em glorificar a Deus como ser glorificado por Deus. Esta noção impulsionava o avanço do movimento revolucionário, pois o martírio de um genuíno seguidor de Jesus, isto é, a glorificação, então, dava mais força ao movimento revolucionário.

Paulo o Anticristo entendeu a grande importância estratégica da noção de glória. Em razão disto, ele inverteu, também estrategicamente, o sentido original da noção de “glória”, a fim de deturpar, confundir e combater a verdadeira noção de “glória”, e enfraquecer o movimento revolucionário liderado pelos Genuínos Apóstolos de Jesus. Pois, essa noção contribuía para motivar o avanço do movimento revolucionário.

Paulo o Anticristo inventou a prisão ideológica da “justificação pela fé“, alegando que “todos pecaram e estão privados da glória de Deus“, e que em decorrência da morte e redenção de Jesus, “todos são justificados gratuitamente por sua graça” (cf. Rm 3, 22-24). Desse modo, “fervoroso” e “gratuito”, ou seja, fanático, alienado e cego, ninguém mais precisaria lutar, para tentar transformar a sociedade injusta, corrupta e violenta, para uma forma mais justa e fraterna. Ninguém precisaria se libertar e/ou tentar libertar outras pessoas das malignas garras ideológicas (doutrinas falsas) elaboradas pela podridão teológica e sacerdotal, e tão pouco sair das religiões hierarquizadas dirigidas por essa podridão. Podridão esta que mantém as vitimadas ovelhas-robô alienadas e exploradas. Voltemos ao nosso querido e amado “bode destinado, em sacrifício, ao Senhor“.

2.4. O Acordo Tácito entre Paulo com sua igreja, e, as autoridades romanas, contra a revolução liderada pelos Apóstolos

   Vejamos o “bode destinado, em sacrifício, ao Senhor(as comunas descentralizadas e genuinamente cristãs), no contexto do acordo tácito estabelecido entre, de um lado, Paulo e sua igreja, e do outro, as autoridades romanas.

A alegoria do “bode destinado, em sacrifício, ao Senhor” (cf. Lv 16, 5-9, 15-19, 27-28) representou e consistiu no movimento igualitário chamado de “comuna de Jerusalém”, que era liderado por Tiago Menor (o irmão do Senhor) e demais genuínos Apóstolos, e que se propagava por todo o Império e mesmo além dele. Mas, foi perseguido e exterminado, sistematicamente, através do acordo tácito estabelecido entre a contra-revolução desencadeada por Paulo o Anticristo, e, as autoridades romanas.

Vimos que Paulo o Anticristo propusera aliança às autoridades romanas, e assim estabeleceu, com elas, um acordo tácito. Enquanto, de um lado, Paulo o Anticristo e seus asseclas combatiam, ideologicamente, os genuínos Apóstolos e demais fiéis seguidores de Jesus, do outro lado, as autoridades políticas, jurídicas econômicas e ideológicas do Império Romano combatiam, fisicamente, através do extermínio precedido de martírio. Esse acordo tácito levou mais de duzentos anos, para fazer baquear o “bode destinado, em sacrifício, ao Senhor“, ou seja, o revolucionário movimento igualitário e descentralizado liderado pelos genuínos Apóstolos e seus sucessores.

O outro “bode”, isto é, o “bode expiatório” seria mantido, porém, vivo, por muito longo tempo. Ou seja, o modelo hierarquizado e autoritariamente centralizado de instituição social religiosa, mais os concernentes movimentos sociais desencadeados por Paulo o Anticristo, então sobreviveria até aos dias atuais.

2.5. O “deserto” (cultural) de Constantino I o Azazel, ou seja, a Idade da Trevas na Europa Ocidental

A doutrina e respectivo modelo de igreja hierarquizada e autoritariamente centralizada, que Paulo de Tarso o Anticristo desencadeou, então, percorreu, como o “bode expiatório”, quase 300 anos até chegar à época da emergência do imperador e também sagas ideólogo chamado Constantino I o Azazel. Quando este viu que a Europa Ocidental (Metade ocidental do Império) já começava a se transformar, em 330, no deserto cultural do seu Império. Ou seja, no deserto cultural de Azazel (cf. Lv, 16, 10, 20-22, 26), a Idade da Trevas, então, Constantino I mudou a capital do que restava do Império Romano, para Bizâncio.

Em Bizâncio, Constantino I fundou Constantinopla, a capital do poderoso Estado que incluía as províncias dos césares no Oriente Próximo. Nesse mesmo período, os patriarcas (atanasianos, arianos, nestorianos, gnósticos, maniqueus, etc.) sucessores e líderes do modelo hierarquizado e autoritariamente centralizado de igreja desencadeado por Paulo o Anticristo, já disputavam entre si, a hegemonia sobre o conjunto legado pelo Anticristo. Cada qual proclamava doutrina estapafúrdia, besteirol.[13]

Constantino I convocou, em 325, toda podridão “emitida” ou desencadeada, a quase 300 anos atrás, por Paulo de Tarso o Anticristo, para o Concílio de Nicéia, com três objetivos, em termos de prioridades. Em primeiro lugar, contemporizar as divergências ideológicas entre as diversa facções paulinas, e estabelecer a unida doutrinária, da igreja a serviço do seu império. Em segundo lugar, definir a hierarquia do conjunto das diversas facções, e contemporizar esta hierarquia, com sua hierarquia administrativa imperial. Em terceiro lugar, celebrar, clara e publicamente, por um lado, a aliança firmada entre os vitoriosos, isto é, entre o Império e a igreja paulina hierarquizada, e por outro lado, celebrar a vitória final sobre a revolução igualitária liderada pelos Apóstolos e seus sucessores.

O sagas Constantino I desempenhou o papel de Azazel (cf. Lv 16, 8, 10, 26). Ele, tomou a iniciativa de receber toda “podridão” (o “bode expiatório”: o modelo hierarquizado e fortemente centralizado de instituição religiosa) “defecada” (desencadeada) ou “emitida” por Paulo o Anticristo. Constantino I o Azazel se incumbiu, também, da missão de organizar, contemporizar divergências internas e institucionalizar toda essa podridão, como hegemônica, em seu império. O objetivo de Constantino I o Azazel foi estabelecer unidade ideológica, para o seu império. Ou seja, ele recebeu todos os Patriarcas dos movimentos sociais religiosos advindos e desencadeados por Paulo o Anticristo.

Em outros termos, Paulo de Tarso o Anticristo foi o emissor ou desencadeador da “mensagem“. O “bode expiatório foi a mensagem mantida viva (não sacrificada, cf. Lv 16, 20-23, 26) desde quando foi desencadeada, até chegar ao receptor, ou seja, até chegar a Constantino I o Azazel.

A mensagem, isto é, o bode expiatório consistiu, portanto, na doutrina anticristã elaborada por Paulo o Anticristo (emissor), o respectivo modelo hierarquizado e autoritariamente centralizado de instituição social religiosa, mais os concernentes movimentos sociais, que chegaram até ao receptor (Constantino I o Azazel), e que se encontravam fragmentados.

2.6. O processo inicial da formação do Estado religioso católico, protestante, ortodoxo e islâmico

O “bode expiatório” (o modelo hierarquizado de religião criada pelo Anticristo) ou “forma elementar” da divisão e oposição social do trabalho, enquanto fio condutor da gênese sócio-histórica atua se mancomunando com lideranças políticas e econômicas. Assim, essa mancomunação se desdobrara e se bifurca, gradativamente e em muito longa duração, formando um leque de quatro principais Estados religioso, que podemos pensar como modelos ou tipos ideais, para efeito de análise: o Estado religioso católico, protestante, ortodoxo e islâmico. Vejamos esse desdobramento e bifurcação em muito longa duração.

   Inicialmente, a partir do século IV e em torno do Concílio de Nicéia ocorrido em 325, então, delineou-se o esboço e fase inicial da divergência e respectivos dois grandes blocos pseudocrístãos: o católico e o ortodoxo. Esta divergência inicial ocorreu em razão de escusos interesses de natureza política, mas sobretudo econômica. Isto é, a disputa pelo órgão centralizador geral do pseudocristianismo, que Constantino I o Azazel esperava criar. Órgão central que iria arrecadar e receber valores (dízimos, terras, etc.) de parte dos valores, que cada um dos Patriarcas já arrecadava exclusivamente para si. Essa disputa de natureza econômica e política era dissimulada na disputa entre as doutrinas esdrúxulas, que cada podridão patriarcal apresentava e defendia nos encontros promovidos, no Concílio de Nicéia, por Constantino I o Azazel. Por fim, venceu a doutrina da “trindade” do bispo de Alexandria, Atanásio, e as demais foram consideradas como heresias. O imperador Valentiniano III promulgou, em 455, um decreto determinando que todos os bispos ocidentais se submetessem à jurisdição do Papa, em Roma. Os patriarcas do Oriente consideraram as reivindicações papais como uma atrevida presunção, e mantiveram patriarcados tanto independentes entre si como do papado de Roma.[14] E. criaram, desde o século VII, o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla das igrejas cristãs ortodoxas autocéfalas.[15]

A divergência inicial entre o bloco das igrejas pseudocristãs do Ocidente (católico) e as do Oriente (ortodoxo) se cristalizou, definitivamente, no Grande Cisma, em 1054, e as respectivos lideranças políticas acompanharam essa divisão.

O bloco do Estado pseudocrístão ortodoxo Bizantino compreendia parte da Europa e mais as províncias dos césares no Oriente Próximo. Em torno de 860[16] o modelo pseudocrístão ortodoxo de Estado começou a ser adaptado pelo Estado da Rússia e de outros países da região.

No bloco católico e na Europa Ocidental, a noção de “Estado” foi se descaracterizando, em razão, por um lado, pela acentuada queda do comércio, da indústria, da cultura e da cidade-estado, e por outro, pelo paralelo desenvolvimento do regime feudal, em que o “rei”, ou seja, o mais poderoso suserano não era propriamente um chefe de Estado, pois cada um dos seus senhores feudais e vassalos tinha relativa autonomia sobre suas terras. Mesmo reis como Carlos Magno contribuíram para o desenvolvimento do regime feudal, porque expropriavam terras da Igreja e outras, e as entregavam aos seus coadjuvantes, como prêmio de serviços militares.[17] De modo geral, o regime feudal teve como bloco ideológico o clero romano, ao longo da Idade Média, que manteve sua tradição e poder mesmo após ao cisma de 1054.

O modelo de formação social feudal mostrava, a partir dos fins do século XIII, sinais claros de que estava se complexando. Nesta direção, ocorreu o recrudescimento do comércio, o desenvolvimento de burgos e de grandes cidades, o aumento da produção agrícola, o surgimento de classes médias e entre estas, uma burguesia ascendente, sobretudo na França e Itália.

  1. A formação e desenvolvimento do poder do Estado religioso moderno e seus dez chifres

O desenvolvimento das monarquias nacionais (França, Inglaterra, etc.) preparou a criação do modelo do Estado moderno.[18] Contribuíram para o desenvolvimento do poder do Estado-nação, a Revolução Comercial iniciada em torno de 1400, seguida das viagens ultramarinas de descobrimento e conseqüente fundação de impérios coloniais. A elaboração e disseminação da ética protestante e do respectivo espírito capitalista (produção, consumo e enriquecimento racionalmente insaciáveis) foram permeando e ajudando a incrementar o desenvolvimento da monarquia absoluta, substituindo a estrutura fraca e descentralizada do feudalismo. A ética protestante ajudou a incrementar, também, o mercantilismo, que é definido como um sistema de intervenção governamental, para enriquecer e aumentar o poder do rei e, do corpo burocrático do Estado, e também dos seus aliados privados, a burguesia mercantil, industrial e financeira.[19]

Na Europa Ocidental, o desenvolvimento da ética protestante é considerado, por convenção, como um marco do início da Idade Moderna (1500), e das nações-estado.[20] Desenvolvera-se, então, o Estado religioso moderno, que atuou e vem atuando como carro-chefe do centro motor do sistema capitalista, em que podemos destaca a média de oito a dez Estados-nação poderosos e empreendedores. Os quais concorriam entre si, pela hegemonia sobre o mercado mundial, enquanto incrementava, assim, esse mercado, ao longo da Idade Moderna. Podemos identificar alguns dos primeiros Estados-nação, que se destacaram no sistema: Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda, etc. Alguns desses Estados-nação perdem a capacidade de competir com àqueles que se mantém hegemônico no sistema. Os Estados religiosos que perdiam essa capacidade, então, eram substituídos por outros.

3.1. Daniel conheceu a teoria dos “dez chifres“: o centro dinâmico do sistema capitalista de mercado

Daniel foi o primeiro grande profeta individual que teorizou a respeito do fenômeno sócio-histórico do centro dinâmico do sistema do poder, na concorrência pela hegemonia sobre o Grande Mercado. Teoria esta que posteriormente Jesus também utilizou, conforme veremos mais adiante. Daniel focalizou o centro dinâmico, constituído por dez potências, que representou na figura de “dez chifres“: Roma, “Cartago” (por três vezes), Egito ptolomaico, Macedônia, Império Selêucida, Siracusa, Esparta, Liga Etólia, liga Aquéia, etc. Dez potências ou “dez chifres” que concorriam entre si, pela hegemonia sobre o Grande Mercado, no contexto da transição entre dois grandes impérios e respectivas escalas imperiais de expansão do Grande Mercado. De um lado, o declínio do Império Macedônio representado, na teoria da genealogia de Adão, no signo Jared, o 5° filho de Adão ou 5ª escala imperial pós-diluviana ou Pós-II Período Intermediário. E, do outro lado, o início da ascensão do “Império Romano” (6ª escala imperial, 2° Henoc pós-diluviano ou pós-II Período Intermediário).

Daniel simbolizou o Império Romano, enquanto “6ª escala imperial em ascensão do Grande Mercado, na figura de “um quarto animal, medonho, pavorosa e de uma força excepcional… Ao contrário dos outros animais precedentes, ostentava dez chifres” (Dn 7, 7-b). Porém, enquanto apenas uma potência em ascensão, entre os nove outros preexistentes, Daniel representou Roma na figura de um “chifre menor, que surgiu entre os já existentes, e que “três desse foram arrancados“, para dar lugar ao pequeno, que entretanto “parecia maior” (cf. Dn 7, 8, 19-25).

Os três chifres arrancados simbolizaram Cartago três vezes submetidas por Roma em ascensão (264, 218 e 149 a.C.). Ao fim da última guerra (146 a.C.), Roma escravizou e vendeu os sobreviventes e “arrasou até os alicerceis da cidade”.[21] Daniel representou esta estratégia arrasadora, que Roma empregara, em 217 a.C., também contra Siracusa, na alegoria “Possuía dentes de ferro; devorava, depois triturava e pisava aos pés o que sobrava” (Dn 7, 7-b).

Daniel ordenou o Império Romano como o “4° animal”, considerando-o como tendo emergido, obviamente, depois do 3°. Isto é, depois do Império Macedônio (Jared). O qual foi representado na figura de uma “pantera com ‘quatro asas‘ [a grande agilidade com que Alexandre se deslocava para diversos lados e conquista vasto império] e ‘quatro cabeças ( a divisão do império depois da morte de Alexandre, entre os seus 4 principais generais]” (cf. Dn 7, 6).

O “2° animal” simboliza o Império Babilônico caldeu, que foi representado, na figura de “um urso que se erguia-se sobre ‘um lado [este lado era a Pérsia, o outro era a Média] “e tinha a boca, entre seus dentes, ‘três costelas [três principais conquista dos persas: Lídia, Mesopotâmia e o Egito]” (cf. Dn 7, 5).

O “1° animal” foi representado por Daniel, na figura de “um leão” [grande poder político]. O qual “tinha asas de águia” [poder político baseado em intensa e extensa atividade comercial]. “Suas asas foram-lhe arrancadas” [redução significativa da atividade comercial], “foi levantado da terra e erguido sobre seus pés como um homem, e um coração humano lhe foi dado” [emergiu algum rei e/ou movimento social de tendência humanista, talvez Nabucodonosor, no período em que esteve “demente”].

3.2. É oportuno observarmos que o modelo religioso de instituição social hierarquizada consiste na forma elementar, da estrutura social fundamental e permanente, que atua como fio condutor de toda gênese sócio-histórica, ou seja, a divisão e oposição social do trabalho material e intelectual.

O “bode expiatório” ou “modelo religioso de instituição social hierarquizada e autoritariamente centralizada” consiste na forma elementar, em que se apresenta a estrutura social fundamental e permanente. A qual atua como fio condutor de toda gênese sócio-histórica. Ou seja, a divisão e oposição social do trabalho material e intelectual. Pois, o modelo de religião hierarquizada consiste, de um lado, em teólogos e sacerdotes exercerem trabalhos intelectuais, e do outro, as vitimadas ovelhas-robô que exercem, em geral, trabalhos materiais ou serviços práticos subalternos, e que são pessoas de senso comum. Teólogos e sacerdotes submetem, de modo persuasivo, sutil e ideologicamente, as pessoas que exercem trabalho material, e delas subtraem, direta ou indiretamente, valores, para sustentarem as respectivas formas materiais de existência, de teólogo, de sacerdote. Todos os teólogos e sacerdotes consistem, portanto, numa forma de “vírus”, parasitas ou câncer social.

Pior ainda que representar a tal podridão religiosa como “vírus”, câncer social, etc., Jesus se referia aos sacerdotes e teólogos fariseus e saduceus, enquanto amostras exemplares, do modo como opera “o grande Dragão, a primitiva serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro” (cf. Ap 12, 9-b). Enfim, Jesus se refere ao modo como operam os teólogos, sacerdotes e ideólogos em geral, tendo como referência e protótipo, o modus operandi da “primitiva serpente chamada demônio ou Satanás“, que seduziu “Eva” (cf. Gn 3, 1-13). O signo “Eva” representa os primeiros segmentos sociais femininos, que exerceram e inauguraram o trabalho produtivo agrícola e respectivo período Neolítico. Segmentos sociais estes que foram seduzidos por “xamãs” (“serpentes“: ideólogos de sociedades simples) a “comerem” (assimilarem) o modo de existência peculiar a esses feiticeiros. Isto é, elitizarem-se. Assim, “Eva” inaugurou o período Matriarcal.

Na mesma direção indicada acima, Jesus (cf. Mt 23, 29-33) e João Batista (cf. Mt 3, 7) se referem ao grupo social ou “bloco ideológico” constituído de “escribas” (teólogos) e “fariseus” (tanto teólogos como sacerdotes) designando-os de “serpentes, raça de víboras“. (a primitiva serpente chamada demônio ou Satanás). Pois, o papel social odioso desempenhado pelos antigos “escribas” (teólogos) e sacerdotes hebreus, característico por terem promovido a morte de inúmeros antigos grandes profetas individuais, na verdade é análogo ao papel social, que seria desempenhado, então, pelos escribas e sacerdotes contemporâneos de Jesus. Essa denúncia seria confirmada. Pois, os escribas e sacerdotes contemporâneos de Jesus planejariam exigiriam e obteriam a morte do maior de todos os profetas, o Jesus Histórico.

Jesus demonstrou que tanto os antigos teólogo e sacerdotes como os que lhe foram contemporâneos, na verdade consistem em amostras exemplares e protótipos de assassinos de grandes profetas individuais. Modelos exemplares e protótipos esses que se aplicam, plenamente, aos teólogos e sacerdotes atuais (católicos, protestantes, evangélicos, ortodoxos, maometanos, budistas, etc.). Portanto, devemos estar sempre atentos e prevenidos contra os atuais teólogos e sacerdotes, notadamente por ocasião da volta do Mestre. Teólogos e sacerdotes esses sempre e notoriamente empenhados, na criação de “prosélitos” (novas subdivisões e oposições religiosas e/ou partidárias). Ou seja, criar, “pequenas igrejas, grandes negócios“, pois, “templo é dinheiro“.

Vamos ao texto em que Jesus se referia aos “padres, pastores, xeiques, padres ortodoxos, rabinos, etc.”, daquela época. Os quais na época de hoje, “adornam, os monumentos dos justos” e exaltam o nome de Jesus e de Deus, mas objetivando seduzir, enganar e submeter, ideologicamente, as ovelhas-robô, para lhes subtrair valores:

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificai sepulcros aos profetas, adornai os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos manchado nossas mãos como ele no sangue dos profetas… Testemunhais assim contra vós mesmos que sois de fato os filhos dos assassinos dos profetas. Acabai, pois, de encher a medida de vossos pais. Serpentes! Raça de víboras! Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis do castigo do inferno? Vede, eu vos envio profetas, sábios, doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. Persegui-lo-eis de cidade em cidade, paras que caia sobre vós todo o sangue inocente derramado sobre a terra… Em verdade vos digo, todos esses crimes pesam sobre esta raça” (Mt 23, 29-36).

Os teólogos e sacerdotes e os ideólogos em geral (filósofos, cientificistas, etc.), isto é, a “raça” do “bloco ideológico” atua sempre, no sentido de aliciar e se mancomunar com os “reis” (lideranças políticas) e lideranças econômicas, visando se articular com essas lideranças, para juntos dominarem e explorarem

os segmentos que exercem trabalhos materiais e serviços práticos subalternos. Desse modo, a “forma elementar” da divisão e oposição social do trabalho material e intelectual, ou seja, o “bode expiatório” ou instituição religiosa hierarquizada vem desempenhando a função de “fio condutor” da gênese sócio-histórica em muito longa duração.

3.3. O grande dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas

Vejamos, agora, o “bode expiatório” ou instituição religiosa hierarquizada desempenhando a função de “fio condutor” da gênese sócio-histórica em muito longa duração. Mas, representados na figura do grande dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas.

O clero e sua instituição social religiosa hierarquizada e autoritariamente centralizada, sempre aliado à coroa (rei) preexistiu em todas as etapas de expansão do Grande Mercado da era pré-diluviana ou pré-II Período Intermediário.

O clero e sua instituição hierarquizada aliados aos reis preexistiu, também, às subseqüentes “sete” etapas de expansão do Grande Mercado pós-diluviano ou Pós-II Período Intermediário. Nesta direção, Jesus operou com a teoria da genealogia de Adão, para representar, na alegoria do “Grande Dragão vermelho com sete cabeças”, isto é, sete etapas sócio-históricas em muito longa duração, em que se apresentam o clero e seu modelo de instituição social hierarquizada e autoritariamente centralizada.

Jesus recorreu à teoria do “centro dinâmico do sistema de mercado capitalista desenvolvida por Daniel e simbolizada em “dez chifres”, conforme falamos anteriormente, para representar a média de dez Estados que disputam entre si a hegemonia sobre o Grande Mercado, na passagem de cada escala imperial de expansão do Grande Mercado, para a subseqüente.

Finalmente, Jesus representou na figura de uma “coroa real“, cada uma das sete escalas de expansão do Grande Mercado. Ou seja, em primeiro lugar, ele representou, em referência ao período pós-diluviano ou Pós-II Período Intermediário, as seis sucessivas escalas imperiais: Set, o Novo Império egípcio; Enos, Império Assírio; Cainan, o Império Babilônico caldeu; Malaleel, o Império Persa; Jared, o Império Macedônio; o 2° Henoc, o Império Romano. Em segundo lugar, ele representou a sétima, mais expansiva e última escala, mas reunindo ou compreendendo, de um lado, o sistema feudal-Igreja representado no signo Matusalém (o sétimo sucessor de Adão), e do outro lado, a grande rede global de mercados macrorregionais representada no signo 3° Lamec (o oitavo sucessor de Adão). Pois, o Mestre entende que essa rede global 3° Lamec, na realidade consiste, mais precisamente, numa resultante engendrada, como um processo natural de expansão e de complexidade do modelo de formação social feudal.[22] Embora a grande rede global de mercados macrorregionais representada no signo 3° Lamec (o oitavo sucessor de Adão), por outro aspecto pode, também, como a oitava etapa do Grande Mercado.

Finalmente, Jesus associou o significado contido em cada signo “coroa real“, a cada uma das sete “cabeças do grande Dragão vermelho”. Ele representou essa associação, colocando cada uma das sete coroa, nas respectivas sete cabeças do grande Dragão. Sete cabeças estas que representam os respectivos sete desdobramentos da estrutura social dominante e permanente, que atua como fio condutor da gênese sócio-histórica, e que consiste na divisão e oposição social do trabalho material e intelectual. Cuja “forma elementar” dessa divisão, ou seja, o “bode expiatório”, vimos que consiste na instituição coletiva religiosa hierarquizada e autoritariamente centralizada. A qual vem desempenhando a função de “fio condutor” da gênese sócio-histórica em muito longa duração.

3.3.1. conflito fundamental na humanidade: Ideólogos versus trabalhadores

Vejamos, agora, Jesus focalizando os dois elementos do conflito fundamental, na humanidade. Conflito que está definido, de modo alegórico, na teoria da história registrada no livro Gênese:

Porei ódio entre ‘ti’ [o ideólogo representado na figura da serpente] e a ‘mulher’ [signo representativo dos segmentos trabalhadores], entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirá o calcanhar” (Gn 3, 15).

O conflito em tela está inscrito no contexto da divisão e oposição social do trabalho material e intelectual: trabalhadores versus ideólogos. De um lado, os segmentos sociais trabalhadores representados na figura da “mulher”, isto é, a localização social onde “nasce” (emerge) o “Sol”. Signo este que representa o Ungido do Criador, que neste caso foi o Jesus Histórico, mas inserido na teoria dos ciclos em muito longa duração, entre o “Sol” (o Ungido), e, a “lua” (o mega opositor di Ungido, que neste caso foi o Paulo de Tarso o Anticristo). A teoria dos ciclos em muito longa duração está definida, também de modo alegórico, na teoria da história registrada no livro Gênese:

Deus fez os dois grande luzeiros: o maior [o Sol] para presidir ao dia, o menor [a lua] para presidir à noite; e fez também as ‘estrelas’ [intelectuais de menor envergadura em relação ao ‘Sol’ e à ‘lua’]. Deus colocou-os no ‘firmamento dos céus’ [campo do conhecimento] para que iluminassem a terra, presidissem ao dia e à noite, e separassem a luz das trevas” (Gn 1, 16-18-a).

Jesus focalizou, também os doze Apóstolos, mas os representou na figura de “doze estrelas”, que se apresentam afixadas numa “coroa”, que Jesus posiciona na “cabeça da mulher”. Do outro lado, Jesus focaliza o seu mega opositor, e o representa na figura da “lua” sob os pés da “mulher”, isto é, sendo combatida e dominada pela “mulher” (segmentos trabalhadores), que se apresenta, então, prestes a gerar o Ungido do Criador. Eminente geração esta simbolizada na figura da “mulher” em trabalho de parto. Desse outro lado, Jesus focaliza, ainda, o clero e a respectiva instituição coletiva hierarquizada e autoritariamente centralizada, que são representados, na figura de um réptil, o “grande Dragão vermelho”:

Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, a lua debaixo dos seus pés, e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas“. (Ap 1, 3).

A seguir, Jesus focaliza o referido Dragão e suas “estrelas” (intelectuais decaídos), a exercerem tentação sobre o jovem Jesus Histórico, na expectativa de cooptá-lo para si. Mas ele resistiu e cumpriu o holocausto perpétuo, e “foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono”. (cf. Ap 12, 4-5). Adiante, Jesus focaliza os desdobramentos dessa luta, no curso sócio-histórico em muito longa duração (cf. Ap 12, 6-18; 13, 1+, até à sua volta (cf. Ap 14, 1).

3.3.2. A teoria dos dez chifres desenvolvida por Daniel (Dn 7, 7-b) e operada por Jesus (cf. Ap, 12, 3; 13, 1; 17, 3, 7,11, 16)

   Na passagem sócio-histórica, em que o modelo de formação social feudal se definhava, e assim engendrava, como resultante de sua expansão complexidade, a grande rede global de mercados macrorregionais, então, desenvolveram-se os estados-nação religiosos. O período que compreende o início dessa passagem até recentemente, convencionou-se chamar de Idade Moderna. Logo nesse início começaram a se formar o dez Estados-nação ou “dez chifres”, que integrarão o centro dinâmica do sistema capitalista do Grande Mercado. Já vimos que alguns Estados não conseguem se manter nesse sistema, enquanto outros ascendem ao referido sistema.

Cada um dos estados-nação e o sistema dinâmico formado por eles, gradativamente vão se complexando, segundo o desenvolvimento técnico e científico impelido pela maldita ética protestante e o igualmente maldito espírito capitalista. Desse modo, eles e o respectivo sistema expandem, não somente durantes as grandes guerras, mas permanentemente, as suas áreas de ação destruidora, genocida e exploradora. Assim, eles exploram e destroem tanto a natureza como os seres humanos. Neste sentido, Burns focaliza as destruições mortes causada pelas duas últimas grande guerras, como inseridas num mesmo processo sócio-histórico, que é o da Idade Moderna:[23]

Milhões de pessoas viram-se envolvidas num conflito cujo horror superava tudo quanto havia presenciado antes. O nome pelo qual é geralmente conhecido esse conflito não está bem aplicado. Não foi ela a segunda guerra mundial da história, mas fez parte de uma série que data dos começos do sistema moderno de estados… Foi na realidade a décima. O fato é que conflitos como a Guerra dos Trinta Anos, a guerra dos sete anos e as guerras napoleônicas foram conflagrações mundiais em tudo menos no nome. A Primeira e a Segundo Guerras Mundiais envolveram muitas nações, mas isso se deveu em grande parte à circunstância de se haver completado sobre uma área maior a europeização do globo e de ter, por conseguinte, o sistema europeu de estados uma extensão mais ampla“.

É notória a desgraça que os Estados católico, ortodoxo, islâmico e o protestante vem causando sobre os segmentos trabalhadores e de modo geral sobre os povos por onde eles pisaram ou continuam pisando. Não precisamos, portanto, nos delongarmos muito com exemplos pertinentes.

3.4. O Estado católico

O Estado português e o espanhol são exemplos do modelo de Estado hegemonicamente católico, que se adaptaram menos ao espírito do capitalismo, em relação ao Estado hegemonicamente católico italiano e sobretudo ao francês. No entanto, Além da violência, alienação e impiedosa exploração exercida por cada corpo burocrático e político dos Estados-nação e seus aliados econômicos e ideológicos, contra os respectivos segmentos trabalhadores, todos eles produziram, permanentemente, genocídio, miséria e sofrimentos nos povos das respectivas colônias, em diversa portes do mundo.

A casta portuga-descendente e seus aliados eugenistas vem dando continuidade ao extermínio de índio. Mas também, de mestiços, negros e mesmo brancos pobres, nas periferias das cidades, a falso título de combate á criminalidade e o narcotráfico. Na verdade, essa casta opera com os “mecanismos de produção e administração da violência” (MPAVS) como meio de moldagem da conduta violenta, controle e mobilização social, a fim de neutralizar qualquer possibilidade de revolução popular.[24] Mecanismos esses instaurado pelos Estados Unidos e imposto a todos os Estados-nação sob seu domínio.[25]

3.5. O Estado protestante

O Estado protestante inglês e o norte-americano promoveram sistemático extermínio de índios na América do Norte. O império inglês provocou genocídio, desgraça e miséria, desde o início da Idade Moderna, nas suas respectivas colônias espalhadas por toda parte do globo. O Estado protestante norte-americano e o inglês vêm levando, notoriamente, genocídio, miséria e alienação aos segmentos trabalhadores, por onde eles pisam.

3.6. O Estado Ortodoxo

O Estado ortodoxo russo se libertou, em 1480, de cerca de duzentos anos de jugo tártaro-mongol (muçulmano), e a seguir estandardizou a defesa da igreja ortodoxa, face à queda de Constantinopla, em 1453 para o Império Otomano, e fim da Civilização Bizantina[26] Desse modo o Estado ortodoxo russo incremento a expansão imperial sobre outros Estados circunvizinhos, levando morte e misérias tanto sobre os seus segmentos trabalhadores como os desses outro Estados.

A partir da revolução russa de 1917, sacerdotes e políticos marxistas desbancaram, a falso título de implantar a ditadura do proletariado, tanto o corpo burocrático do Estado ortodoxo, a aristocracia rural e o respectivo clero como a insipiente e retardatária burguesia russa, da posse dos meios e modo de produção. Assim, eles instauraram o Estado marxista, caracterizado pelo capitalismo de Estado, em que os segmentos trabalhadores continuaram sendo explorados, agora, pelo corpo burocrático do Estado marxista. Com o fim da União Soviética, em 1991, a igreja ortodoxa passou a desfrutar de mais liberdade, sobretudo com o premiê Putin.

3.7. Nietzsche versus Maomé – O Estado Islâmico – A ascensão do Acampamento dos Santos

O Islamismo de Maomé e seu Alcorão. Segundo Nietzsche, Maomé teria plagiado Paulo de Tarso, em vários aspectos. Neste sentido, em primeiro lugar, Nietzsche focalizou diversas artimanhas empregada, de modo sutil e falso, por Paulo contra Jesus. Desse modo, Paulo fingiu seguir e ainda exaltou o nome Jesus. Mas, na verdade, Paulo odiava Jesus e sua doutrina, e tinha como único objetivo combatê-los. Nessa direção, Nietzsche considera e diz: “Paulo personifica o tipo oposto do ‘mensageiro da paz“. Em segundo lugar, Nietzsche conclui que Maomé plagiou as estratégicas artimanhas, antes empregadas por Paulo, sobretudo a estratégia do “juízo“. Ou seja, Paulo dissimulou o Jesus Histórico revolucionário, que atuou, por um lado, objetivando transformar a realidade social em que vivia (injusta, violenta e opressora dos trabalhadores), e por outro, objetivando criar uma sociedade mais justa e fraterna. No lugar do Jesus revolucionário, Paulo projetou um Jesus pregado na cruz, e vivendo na dimensão metafísica, com o único objetivo de julgar os mortos. Enfim, Nietzsche conclui que desse modo, Maomé plagiou Paulo, “o tipo oposto do “mensageiro da paz“, que objetivava “tiranizar as massas, para transformá-las em rebanhos“, através da “tirania dos sacerdotes“. Senão, vejamos:[27]

Paulo só precisava das idéias, das doutrinas, dos símbolos para tiranizar as massas, transformá-las em rebanhos. Em que foi que Maomé plagiou mais tarde o cristianismo? A invenção de Paulo, os seus meios para a tirania dos sacerdotes, a crença na imortalidade para formação de rebanhos, isto é, a doutrina do ‘juízo’… ( o grifo é nosso)”

Quanto aos diversos aspectos que Nietzsche sugere, que Maomé plagiara Paulo de Tarso, vamos por etapa. Dissemos que Nietzsche atribuiu ao odioso teólogo e sacerdote Paulo de Tarso, a condição de falsário tanto da genuína doutrina como da vida pública do Jesus Histórico, que buscava justiça social. Pois, na verdade, Paulo consistiu no próprio mega opositor do mensageiro da paz, ou seja, Paulo consistiu no Anticristo. Também esses “meios para a tirania dos sacerdotes” empregados por Paulo, Nietzsche diz que “Maomé plagiou mais tarde o cristianismo” (de Paulo). Vejamos o texto a que Nietzsche se refere:[28]

À ‘boa nova’ seguiu-se imediatamente a pior de todas: a de Paulo. Paulo personifica o tipo oposto do ‘mensageiro da boa nova’, o gênio do ódio, na visão do ódio, na lógica implacável do ódio. O que esse desevangelista não sacrificou em nome do ódio! Principalmente o Redentor: pregou-o na cruz. A vida, o exemplo, a doutrina, a morte, o sentido e a justiça do Evangelho, tudo deixou de existir quando esse falsário obcecado pelo ódio compreendeu o que lhe poderia ser útil. Não a realidade, não a verdade histórica!… E mais uma vez, o instinto sacerdotal do judeu causou um crime igualmente notável contra a história, simplesmente riscou do cristianismo seu ontem e anteontem, inventou uma nova história do início do cristianismo… A personalidade do Redentor, a doutrina, a prática, a morte, o sentido da morte, até mesmo o pós-morte, nada ficou intacto, nada ficou próximo da realidade“.

Vejamos outro aspectos que Nietzsche se refere, ao afirmar que Maomé plagiara Paulo de Tarso. O qual forjara uma alucinação, em que teria sido contatado, no caminho para Damasco, pelo Espírito de Jesus, que lhe incumbira uma “gloriosa” missão. Ou seja, levar a versão de “cristianismo”, que Paulo estava forjando, para todos os “gentios”. Isto é, para todo o mundo além dos judeus (cf. At 9, 1-9). Cujo objetivo era, precisamente, combater o avanço, no âmbito do Império Romano, do sentido original tanto da revolucionária doutrina como do respectivo movimento social igualitário, fraternal, descentralizado. Movimento este cuja única e verdadeira entidade coletiva que agia como pólo central e articulador das comunas descentralizadas, então, consistia no Espírito Santo do Criador, isto é, o Pai Iahweh, e o Espírito de Jesus com ele. Nessa direção, Paulo elaborou um amalgama doutrinário e criou uma instituição religiosa, cujo modelo era diametralmente oposto ao modelo da igreja de Jesus. Ou seja, Paulo criou uma igreja hierarquizada com clero profissional e autoritariamente centralizada. Vejamos Nietzsche:[29]

Paulo deslocou o centro de gravidade de toda a existência para depois da existência. Na realidade ele não tinha necessidade alguma da vida do Redentor, precisou da sua morte na cruz e de algo mais… considerar sincero um Paulus que tem como pátria a sede principal do iluminismo estóico e que usa uma alucinação para demonstrar que o Redentor ainda vive, ou acreditar que tenha sofrido essa alucinação, seria uma verdadeira patetice de psicólogo: Paulo desejava o fim, portanto também os meios… No que ele próprio não acreditava, acreditaram os idiotas que se submeteram à sua doutrina. O que ele queria era o poder, e através dele os sacerdotes retornaram ao poder; Paulo só precisava das idéias, das doutrinas, dos símbolos para tiranizar as massas, transformá-las em rebanhos.” Neste ponto, reitero o esclarecimento que Nietzsche dá a seguir:Em que foi que Maomé plagiou mais tarde o cristianismo? A invenção de Paulo, os seus meios para a tirania dos sacerdotes, a crença na imortalidade para a formação de rebanhos, isto é, a doutrina do ‘juízo

No entendimento de Nietzsche, Maomé forjara a alucinação de ter contatado com o anjo Gabriel, mas plagiando, de modo análogo ao Paulo, que simulou a alucinação de ter contatado com o Espírito de Jesus, no caminho para Damasco. A partir dessa falsa visão e em suas epístolas malditas, Paulo fala fartamente de Jesus, sempre forjando a falsa impressão, de ser um fiel seguidor de Jesus. O plagio a que Nietzsche se refere, certamente consiste em Maomé haver divulgado notícia. Na qual, ele teria visto o anjo Gabriel, e deste anjo recebeu a revelação da existência de um único Deus, palavra que em árabe se diz Alá. O qual escolheu Maomé como o último profeta enviado à humanidade, depois de Jesus, Moisés, etc. E, atribuiu-lhe a missão de anotar e “recitar” (divulgar) os “versos” (doutrina religiosa) transmitidos por Alá.[30] Desse modo, na perspectiva de Nietzsche, Maomé elaborou uma doutrina, que se aproveitou, ao exemplo de Paulo, de figuras carismáticas da religião judaico-cristã: Jesus, anjo Gabriel, Abraão, Moisés, etc.[31]

Vimos que Paulo de Tarso o Anticristo estabelecera acordo tácito com as autoridades políticas, jurídicas e econômicas, no âmbito do Império Romano, ainda dotado de todo o seu vigor. Assim, Paulo se limitou a atacar o genuíno cristianismo apenas de modo ideológico, deixando a cargo do Império combater fisicamente, através do extermínio precedido de martírio. Maomé pode, em 622, com o Império Romano já extinto, e com o Império Bizantino perdendo sua força expansiva, criar as condições ideológicas, para a expansão Sarracena.[32] Ou seja, Maomé criou a doutrina, que consta a figura do sacerdote, o qual também age como líder político. Doutrina esta que serviu como unidade ideológica, para o desenvolvimento do Estado religioso islãmico. Posteriormente surgiriam divergências.

3.8. O conluio e a concorrência entre Estados religiosos no Oriente Médio, sobre os trabalhadores e o petróleo dessa região  

Os Estados protestantes inglês e norte-americano, o Estado sionista, o Estado católico francês, o Estado ortodoxo russo e também alguns Estados islâmicos (Arábia Saudita e Irã) concorrem entre si, no Oriente Médio e no norte da África. Cujo objetivo consiste, não podermos perder de vista, na exploração dos segmentos trabalhadores, e também por questão estratégica voltada para o petróleo abundante nessa região. Desse modo, eles incrementaram e concentraram o genocídio e exploração dos segmentos trabalhadores, nessa região. Com tais objetivos, eles vêm operando com os mecanismos de produção e administração da violência política, como meio de moldagem de conduta (violenta), controle e mobilização social. Neste contexto, eles produziram o mais recente, singular e espetacular modelo de simulacro violento, para ser interpretado, de modo hiper-real, por jovens revoltados com o mundo podre e injusto em que vivemos.[33] Jovens esses que estão, entretanto, alienados e desenformados acerca de outros meios, verdadeiramente eficazes, para transformar e melhorar, o mundo em que vivemos. Vejamos primeiramente a invenção alemã do black bloc.

3.8.1. Black bloc como simulacro

O Black bloc consiste numa invenção de “alta tecnologia” na área social, que foi produzida pelo governo do Estado protestante-católico alemão pós hitlerista. Cujo objetivo foi forjar justificativas, para o fechamento político do governo. A estratégia é simples. Basta reprimir, violentamente, jovens pacíficos, mas revoltados, porque aspiram por uma sociedade mais justa e fraterna, a exemplo dos squats (ocupações). Com o objetivo de apressar a produção desse tipo de simulacro basta ao Estado religioso local infiltrar, nos movimentos de rua, alguns falsos ” Black bloc” mais agressivos.[34]

Qualquer Estado religioso pode produzir black bloc em série. Um determinado Estado religioso local pode fazê-lo, e simultaneamente outros Estados religiosos fora desse Estado local também podem infiltrar, neste Estado, falsos “Black bloc”. Caso esses outros Estados estejam interessados em incrementar, no Estado local em tela, o fechamento político e/ou em suas possíveis conseqüências.

3.8.2. O combatente do Estado islâmico como “simulacro”. Em outros termos: “Vaidade das vaidade – diz Coélet – vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2).

Diversos Estados religiosos empregaram a tecnologia alemã de produção do simulacro black bloc, notadamente durante a “Primavera Árabe. O Estado religioso sírio produziu, em janeiro de 2011, esse tipo de simulacro.[35] O contexto em que o simulacro Black bloc sírio foi produzido, então, ajuda-nos entender a produção, em torno desse mesmo contexto, do simulacro do “combatente do Estado islâmico“.

Outros Estados religiosos (EUA, Inglaterra, França, Arábia Saudita, Irã, Israel, etc.) fora da Síria tinham interesse no conflito sírio e em outros conflitos no Oriente Médio e no norte da África. E, já vinham operando com os mecanismos de produção e administração da violência política, como meio de moldagem de conduta (violenta), controle e mobilização social. Alguns desse Estados religiosos fora da Síria certamente infiltraram, de modo direto (através de agentes de serviços reservados) ou “indiretamente” (através de grupos guerrilheiros), na Síria, falsos “Black bloc”. Pois, tinham interesse em exacerbar o fechamento político e/ou em suas possíveis conseqüências. Por exemplo, precipitar a prática revolucionária de grupos étnicos, religiosos, etc. opostos ao grupo no governo sírio estabelecido. Propiciar, assim, a conseqüente possibilidade de implosão do governo estabelecido, conforme fizeram com o governo líbio de Gaddafi. Com esse mesmo objetivo, os tais Estados religiosos conseguiram suscitar a revolução e mantêm a guerra na Síria.

Neste contexto, tais Estados religiosos operam com os mecanismos de produção e administração da violência política, como meio de moldagem de conduta violenta, controle e mobilização social. Desse modo, e com todo o aparato midiático, cinematográfico, etc. voltado para a indústria cultural, que visa a exaltação da violência, no quadro dos referidos mecanismos, então, esses Estados religiosos produziram o simulacro do “guerrilheiro do EI“. Mas, eles já haviam produzido o simulacro do “homem bomba”. Outro papel social desse gênero foi produzido pelo Estado protestante norte-americano, através dos mecanismos de produção e administração da violência em geral: o franco atirador que executa pessoas indefesas, no interior dos EUA, aparentemente sem motivação substancial.

O governo do Estado protestante norte-americano criou, a falso título do combate ao narcotráfico, os mecanismos de produção e administração da violência social, como meio de moldagem da conduta violenta, controle e mobilização social. No contexto internacional, em 1962, o então presidente norte americano Richard Nixon consagrou a bandeira “Guerra contra a droga”. Ou seja, a proibição legal da produção, venda e uso de tóxico. Proibição esta que cria, intencionalmente, um forte mercado informal desse produto, para quem achar, equivocadamente, que vale a pena se arriscar nessa “reserva de mercado”. Nixon impôs essa “proposta” em convenção da ONU, manipulada pelos EUA, e imposta aos diversos Estados religiosos que lhes eram e continuam sendo submissos.

Os mecanismos de produção e administração da violência social consistem, mais especificamente, como meio de extermínio e de encarceramento dos excedentes dos segmentos trabalhadores (desempregados, jornaleiros, lumpemproletariado, etc.), geralmente negros, mestiços, hispânicos, etc. Extermínio sobretudo daqueles elementos mais jovens e ativos, e também propensos à sedição, e chamados de membros das “classes perigosas“. Membros estes embebidos, assim como as pessoas em geral, pelos valores vigentes (ostentação de riqueza, poder, etc.). O membro dotado de melhor capacidade de liderança, assim pode ser levado a uma ilusão fatal: vale mais a pena assumir, ainda jovem, os valores vigentes, e correr o risco de ser morto ou preso, que viver uma longa vida miserável. Tudo isso foi levado em conta por Nixon e demais elaboradores dos mecanismos de produção e administração da violência social.

Os operadores da produção e administração da violência empregam, notadamente, a “exaltação” (propaganda) da violência, através da poderosa mídia que controlam. Toda indústria cultural (cinema, noticiário, etc.) voltada para a produção do tipo violento de simulacro, que consiste, por outro aspecto, em papeis sociais, a exemplo do “bandido convicto“, o “policial justiceiro“, o “homem ou mulher bomba”, o soldado do Estado Islâmico, etc.

De acordo com a biografia de vida de dada pessoa, esta pode estar propensa e mesmo interpretar um papel social simulacro hiper-real, ao qual mais se adéqüe. Nesta direção, jovens de diferentes partes do mundo se deslocam para o “palco de operações“, nos arredores da Síria e Iraque, a fim de vivenciar, de modo hiper-real, o referido papel social ou simulacro do soldado do Estado Islâmico Conclusão: “Vaidade das vaidade – diz Coélet – vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2).

No caso da ideologia da “Guerra contra a droga”, o objetivo final do extermínio consiste em neutralizar qualquer possibilidade de revolução popular, recrutando desempregados, etc., de um lado, para as forças policiais, e de outro, para a delinqüência. A falso título de combater a criminalidade e o narcotráfico, essa macabra estratégia de moldagem de conduta e de controle social leva ao extermínio tanto de delinqüentes como de policiais, ambos recrutados entre os desempregados, e aprimorados em instituições coercitivas (prisões, quartéis, etc.).[36]

Só no Estado católico brasileiro, onde a casta portuga-descendente e seus aliados eugenistas vêm operando com os perversos mecanismos em tela, essa aliança vem produzindo grande extermínio tanto policiais como delinqüentes, e também de inúmeras pessoas simples do povo, através das “balas perdidas”. Sobretudo nos inúmeros bairros pobres, onde mora a massa trabalhadora citadina. Além disso, a tal aliança produziu a quarta maior população carcerária do mundo.

Exceto o Uruguai do nosso grande e querido Mujica, caso somarmos à chacina produzida pela casta portuga-descendente e seus aliados eugenistas, com a chacina produzida no próprio interior do Estados Unidos, e ainda nos inúmeros países que obedecem à sua política da “Guerra contra a droga”. E, mais as diversa guerras localizadas, em que os norte-americanos estão, direta (Líbia, Afeganistão, Iraque, Síria, etc.) ou indiretamente metidos. Essa soma acompanhada de muita desgraça e sofrimentos, então, supera muito, no mesmo período todo o mal causado pelo Estado Islâmico.

Em resumo, a luta primordial e preparatória para a vinda do Filho do Homem, desde já deve ser concentrada, de modo pacífico e com o embate de idéias e desmascaramento, contra todo tipo de ideólogo: teólogos e sacerdotes (católico, ortodoxo, protestante, evangélico, anglicano, muçulmano, sionista, budista, etc.), filósofos elitistas, cientificistas, etc. O objetivo dessa luta é libertar os indivíduos de todo tipo de prisão ideológica e do jugo aos respectivos sacerdotes e religiões. Pois, vimos que o Mestre considera o conflito fundamental, àquele estabelecido entre os ideólogos, e, os trabalhadores, e que ele segue, neste ponto, a teorias da história trazida por Moisés.

É em razão da ação ideológica exercida pelos ideólogos em geral, e em particular por teólogos e sacerdotes, que tanto induzem a atividade política como econômica, e mais o senso comum, que o Filho de Deus mostrou, estrategicamente, como exemplo e amostra a concentração de toda luta, no desmascaramento do bloco ideológico, que no caso consistia nos “escribas” (teólogos) tanto fariseus como saduceus, e os respectivos sacerdotes. Desse modo, o Jesus Histórico desarticulou o bloco histórico judeu aliado aos romanos,[37] para abrir contexto favorável ao desenvolvimento e expansão das comunas descentralizadas. Muitas das quais duraram mais de duzentos anos.

O Mestre prognosticou para sua próxima vinda, a submissão e “prisão”, por “mil anos”, de todas as entidades, que seguem o modelo hierarquizado de instituições coletiva religiosa autoritariamente centralizada. Ou seja, “o Dragão, a primitiva serpente, que é o Demônio e Satanás“. E mais, ele prognosticou, também, o desenvolvimento e alicerçamento das comunas descentralizadas, ou seja, os “Acampamentos dos Santos“, pelos mesmos mil anos (cf. Ap 20, 1-6).

[1] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental. Volume I, Editora Globo, Porta Alegre, 1975, p. 262

[2] Cf. Wikipédia. Estado: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado

[3] Cf. “A decadência da religião no Holanda”: http://www.gracaesaber.com/2011/06/decadencia-da-religiao-na-holanda.html

[4] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 297-302.

[5] História do Oriente Médio. Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Oriente_M%C3%A9dio; A expansão Imperialista do século XIX http://sergiokbsa.blogspot.com.br/2009/08/expansao-imperialista-do-seculo-xix.html

[6] Cf. Gottwalt, Norman K. As tribos de Iahweh – Uma Sociologia da Religião de Israel liberto 1250-1050 a.C. Ediçõe Paulinas, São Paulo, 1986, p. 617-619, 697-700.

[7] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 251, 283-285.

[8] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 297-304.

[9] Aristóteles. Ética a Nicômaco, 3ª edição, Editora Fundação Universidade de Brasília, Brasília, 1992, p. 40-43, itens 5-6.

[10] Cf. Linguagem e Ritual – Pierre Bourdieu. Em esclarecedor artigo de Cibele Barbalho Assênsio, e, Jorge Gonçalves de Oliveira Júnior: http://ea.fflch.usp.br/obra/linguagem-e-ritual-pierre-bourdieu

[11] Cf. Jesus o estrategista I: http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2012/08/jesus-o-estrategista.html

[12] Cf. Schlaepfer, C. F.; Orofino, F. R.; Mazzarolo, I. A Bíblia: Introdução historiográfica e literária. Editora Vozes, Petrópolis, 2004, p. 134-135.

[13] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 258-262.

[14] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 262.

[15] Cf. Patriarcado Ecumênico: Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Patriarcado_Ecum%C3%AAnico_de_Constantinopla

[16] Cf. Igreja Ortodoxa Russa, Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Ortodoxa_Russa

[17] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 244-247, 256.

[18] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 335-342.

[19] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 487-490, 497, 503.

[20] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 449-455.

[21] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 220-221.

]22] Cf. Machado, F. A. Os dois períodos intermediários do Antigo Egito na contexto da expansão do Grande Mercado, em muito longa duração. Edição do autor, Rio de Janeiro, 2010.

[23] Burns, E. M. Idem, Volume II, p. 931

[24] Cf. Meios formais (estratégia da proibição legal do tóxico) e informais empregados nos MPAVS: http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2013/06/meios-formais-estrategia-da-proibicao.html

[25] Cf. As elites dos EUA e os mecanismos de produção e administração da violência social (MPAVS): http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/06/as-elites-dos-eua-e-os-mecanismos-de.html

[26] Cf. Moscóvia. Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mosc%C3%B3via

[27] Nietzsche, Friedrich W. O Anticristo – Maldição do Cristianismo. Newton Compton Brasil ltda., Roma, Itália, 1992, p.64-65, item 42.

[28] Nietzsche, F. W. O Anticristo – Maldição do Cristianismo, p. 64, item 42.

[29] Nietzsche. F. W. O Anticristo – Maldição do Cristianismo, p. 64-65, item 42.

[30] Maomé, Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maom%C3%A9

[31] Cf. Maomé, Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Isl%C3%A3o

[32] Cf. Burns, E. M. Idem, p 285.

[33] Cf. Baudrillard, Jean. Simulacros e simulação. Relógio d’água Editores Lda. Lisboa, 1991, p. 8-9, 14.

[34] Cf. Wikpédia: A tática Black bloc foi produzida pelo governo alemão pós-hitlerista, nos anos 1980: https://pt.wikipedia.org/wiki/Black_bloc

[35] Cf. Black bloc produzido na Síria: https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria

[36] Cf. As elites dos EUA e os mecanismos de produção e administração da violência social (MPAVS): http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/06/as-elites-dos-eua-e-os-mecanismos-de.html

[37] Cf. Jesus estrategista I: http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2012/08/jesus-o-estrategista.html