A malícia do Anticristo: elaborar tipologia dualista e inculcá-la no inconsciente psíquico do indivíduo

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Livro O Templo – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus

Nos exemplos acima indicamos o modelo platônico de tipologia dualista ou dicotômica, que Paulo o Anticristo empregara como meio de moldagem de conduta individual. Todo ideólogo sagas a exemplo de Paulo o Anticristo, Platão e Marx sabe, até intuitivamente, que o modelo dualístico ou dicotômico de tipologia ideológica se encaixa, plenamente, na estrutura psíquica elementar e inconsciente de todo indivíduo. Estrutura esta que consiste, nas relações sociais, em o indivíduo afirmar sua identidade, enquanto nega a do outro, e este procede de igual modo. Quanto mais fragilizado, egocêntrico e egotista for o indivíduo, mais ele se conduz, arraigadamente, segundo tal estrutura psíquica inconsciente. Em razão disto, o indivíduo tende a apresentar o modo de pensar, imaginar e representar segundo a lógica binária, isto é, através de pares de oposto e das correlações, das exclusões e das inclusões, das compatibilidades e das incompatibilidades. Neste sentido, Lévi-Strauss esclarece alguns aspectos, cita e comenta alguns autores. Inicialmente, ele cita Radcliffe-Brown:[1]

“A concepção australiana do que designamos aqui pelo termo ‘oposição’ é uma aplicação particular da associação por contrariedade que é um traço universal do pensamento humano e que nos incita a pensar por meio de pares de contrários: alto e baixo, forte e fraco, preto e branco. Mas a noção australiana de oposição combina a ideia de um par de contrários e a de um par de adversários”.

Lévi-Strauss comenta a respeito de Radcliffe-Brown:

“(…) O associacionismo teve o grande mérito de delinear os contornos desta lógica que é como o menor denominador comum de todo pensamento, e faltou apenas conhecer que se tratava aí de uma lógica original, expressão direta da estrutura do espírito (e atrás do espírito e talvez do celebro) e não de um produto passivo da ação do meio sobre uma consciência amorfa. Mas, contrariamente ao que Radcliffe-Brown ainda se inclinava a crer, é esta lógica das oposições e das correlações, das exclusões e das inclusões, das compatibilidades e das incompatibilidades, que explica as leis da associação, não o contrário: um associacionismo renovado deveria ser fundado sobre um sistema de operações que teria analogia com a álgebra de Boole. Como as próprias conclusões de Radcliffe-Brown o mostram, sua análise dos fatos australianos o conduz para além de uma simples generalização etnográfica: até às leis da linguagem e mesmo do pensamento”.

O modelo “corpo mau versus espírito bom” de ideologia tipo dualista foi elaborada pelo ideólogo, voltada para induzir o indivíduo a aplicá-la, prioritariamente, em seu conflito íntimo, embora se formam, de um lado, grupos que exaltam a mortificação do corpo, e do outro, grupos que exaltam a “espiritualidade”. Tal modelo tende a conduzir o indivíduo para seminários, conventos, enfim, para “instituições totais”. Mas, é aplicado, também, por muitos leigos fanáticos, a exemplo de grupos de inspiração nazifascista originários da Europa, que vem se ramificando, como um câncer maligno, para outras partes do mundo.

O modelo “trabalhador versus empresário” ou o seu corolário “comunismo versus capitalismo” consistem, também, em emblemas tipológicos dualistas. Ou seja, consistem em tipos de ideologias elaboradas por ideólogos, voltadas para induzir o indivíduo a aplicá-la na sua relação conflituosa com o outro. Desse modo, em toda assembleia (sentido lato deste termo), a proliferação dessa aplicação resulta que os membros tendem a se bipolarizarem, hegemonicamente, em torno de aspectos distintos e diametralmente opostos entre si, acerca do tema tratado. E mais, as relações sociais assim bipolarizadas tendem a se reproduzirem no espaço. Outros grupos menores podem se formar. O modelo dualista de tipologia pode se apresentar em sistemas religiosos totêmicos de sociedade tanto simples como complexa. Pois, a lógica do pensamento religioso e o pensamento cientificista apresentam o mesmo padrão lógico, conforme Durkheim esclarece, sendo citado por Lévi-Strauss:[2]

“Embora o princípio totêmico resida por escolha numa espécie animal ou vegetal determinada, não pode contudo permanecer localizado nela. O caráter sagrado é contagioso ao extremo; ele se estende pois do ser totêmico a tudo aquilo que o toca de perto ou de longe…: substância da qual se alimenta… coisas que lhe são semelhantes… seres diversos com os quais estão constantemente relacionados… enfim, o mundo inteiro se encontra repartido entre os princípios totêmicos da mesma tribo (…) Está longe da verdade dizer que esta mentalidade não tenha conexão com a nossa. Nossa lógica nasceu desta lógica… Hoje, como outrora, explicar é mostrar como uma coisa participa de uma ou de várias outras… Todas as vezes que unimos por um laço interno termos heterogênios, identificamos inevitavelmente os contrários. Provavelmente os termos que assim unimos não são aqueles que o australiano aproxima; nós os escolhemos segundo outros critérios e por outros motivos; mas o procedimento pelo qual o espírito os coloca em relação não difere essencialmente. (…) Assim, entre a lógica do pensamento religioso e do pensamento científico não há um abismo. Uma e outra são compostas com os mesmos elementos essenciais, mas desigual e diferentemente desenvolvidos. O que parece caracterizar sobretudo a primeira é um gosto pelo natural, tanto para as confusões imoderadas como para os contrastes abruptos. Ela é voluntariamente excessiva nos dois sentidos. Quando aproxima, confunde; quando distingue, opõe. Não conhece as medidas e as nuanças, procura os extremos; emprega consequentemente os mecanismos lógicos com uma certa falta de jeito, mas não ignora nenhum”.   

De acordo com o que acima indicamos, o indivíduo, por um lado, apresenta o modo de pensar segundo a lógica das oposições binárias, e por outro, tende a assimilar, facilmente, tipologias dicotômicas que ideólogos elaboram e induzem-no a assimilá-las. E mais, segundo a biografia e experiência de vida de um indivíduo, este pode se encontrar mais propenso a assimilar esse tipo de tipologias. E, quando um indivíduo assimila uma ideologia (a exemplo das tipologias dicotômicas “corpo versus espírito”, e, “trabalhador versus empresário”), esta ideologia pode produzir efeitos reais, na conduta tanto subjetiva como objetiva desse indivíduo. Pois, o indivíduo se comporta diante de uma situação, não do jeito que a natureza real desta situação sugere, mas sim do modo como ele a representa, isto é, como ele a define. E mais, um indivíduo pode definir uma dada situação de modo falseado, e seduzir outro indivíduo a acreditar nessa definição falseada. Assim, este outro indivíduo irá se comportar de modo equivocado diante da situação real, ou seja, será enganado por àquele.

[1] . Cf. Lévi-Strauss, C. Totemismo Hoje, p. 94-95. Ele cita Radcliffe-Brown.

[2]. Lévi-Strauss, C. Idem, 100-101.