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As elites do capitalismo de Estado deixaram, para os dias de hoje, uma auréola negativa sobre a noção de “comunismo”. Essa auréola vem prejudicando todos aqueles que valorizam o modelo de formação social justa e fraterna, que podemos chamar de igualitarismo ou de “comunismo”. A exemplo das comunas desencadeadas pelo Filho do Homem, e concretizada pelos seus verdadeiros apóstolos e demais discípulos, sob as bênçãos do Espírito Santo de Deus e o do próprio Escolhido. Essa concretização aconteceu a partir do “Dia do Pentecostes”: o igualitarismo fraternal e radicalmente pacifista constituído por discípulos do Mestre e sob a liderança-serva dos verdadeiros apóstolos:“Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo as necessidades de cada um (…) Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhe ajuntava outros, que estavam a caminho da salvação” (At 44-47); “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía: mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam aos pés dos apóstolos. Repartiam-se então a cada um deles conforme a sua necessidade (At 4, 32-35).
Como nos livrar da pecha maldita, que àquelas lideranças deixaram conotada no termo comunismo e mesmo na noção que ele encerra? Pois, concebemos o Capitalismo de Estado como um pseudocomunista, mas a conotação negativa que tais lideranças impingiram no termo em questão já está consagrada, e todos evitam empregá-lo, quando se pretende exaltar o modelo de formação social voltado para a justiça social, fraternidade e pacifismo ativo. Quando empregarmos o termo “comunismo”, seria, talvez, conveniente deixarmos bem claro em que sentido estaríamos empregando tal termo. Podemos, também, evitar o uso do termo comunismo, em favor do emprego do termo igualitarismo ou algo que o valha, mas sempre esclarecendo o sentido do termo ou expressão que estivermos usando.
O modelo estrutural das comunidades desencadeadas pelo Escolhido apresentava aspectos de igualitarismo, fraternidade e pacifismo radical. Entre outras coisas, esse modelo caracterizava-se, também e, sobretudo, por duas colunas ou “diretrizes pastorais” fundamentais:
1. Ao indivíduo dotado das capacidades de liderança e de organização competia servir (Mt 20,24-28; Jo 13, 4-17) “fermentar” ou “salgar” – por amor ao próximo – os discípulos membros das massas populares carentes desses predicados, seja no campo intelectual, seja no campo político ou nas atividades econômicas propriamente ditas (produção, distribuição, etc.). Este modo de servir, isto é, orientar os indivíduos em geral e preferencialmente aos mais carentes implicava, necessariamente, e era direcionado no sentido de tentar libertá-los do estado de submissão, de alienação e de exploração. Estados nos quais tais indivíduos eram mantidos pelas elites constituídas de ideólogos (sacerdotes fariseus, saduceus e seus teólogos-escribas). Os quais eram aliados às elites políticas e econômicas, nacionais e romanas.
2. Servir nos sentidos acima indicados implicava, necessariamente, que as lideranças servissem, mas sem se elitizarem. Ou seja, elas deveriam se manter no seio social, e no mesmo nível sócio-econômico das massas que ela estavam fermentando ou salgando. Este modelo de procedimento de “diretriz pastoral” consistia em agir, diligentemente, no sentido de não estruturar a comunidade de modo piramidal ou hierárquico. Pois, o modelo de comunidade desencadeada pelo Escolhido consistia num esboço de formação social revolucionária, que se conflitava com o modelo hierárquico ou piramidal tanto das formações sociais vigentes como das instituições religiosas hegemônicas, e demais instituições sociais inseridas neste outro modelo de formação social. O Mestre representara, alegoricamente, o modelo estrutural da formação social igualitária, na forma de uma cidade descrita, topograficamente, como sendo quadrangular, ou melhor, um cubo perfeito, (Ap 21, 16): a utópica “cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, revestida da glória de Deus” (cf. Ap 21, 10-11), que há de se concretizar.
Os genuínos apóstolos e fiéis seguidores da doutrina original que o Mestre lhes ensinara, mantinham as estruturas organizacionais das suas comunidades, funcionando de acordo com dois aspectos gerais. Por um aspecto, elas eram igualitárias, fraternais, radicalmente pacifistas e anti-hierárquicas. Por outro aspecto, cada uma dessas comunidades funcionava como uma assembleia (igreja) revolucionária aberta permanentemente ao público em geral. Assembleia na qual se discutiam as questões sociais, clareadas pela doutrina ensinada pelo Mestre, o qual queria que o modelo de formação social igualitário, fraternal, etc. por ele desencadeado fosse propagado para todos os cantos do mundo. Em suma, cada comunidade genuinamente fiel à doutrina do Mestre consistia, por um aspecto, no esboço de um singular modelo de formação social que apresentava as características já descritas, e por outro aspecto, esse modelo era notadamente revolucionário.
Duas categorias de ideólogos formaram as primeiras e mais eficazes frentes de resistência, que se levantaram contra o modelo de formação social protagonizado pelos primeiros e genuínos discípulos da verdadeira doutrina do Mestre:
1. Os ideólogos (sacerdotes, mestres, escribas, etc.) que já estavam estabelecidos e assim tiravam seus rendimentos, ocupando altos cargos de direção em instituições culturais hierarquizadas. Inicialmente aquelas instituições hegemônicas (saduceus, fariseus) próprias do universo cultural judaico. Pois, a revolução igualitária desencadeada pelo Filho do Homem tivera início no seio da nação judaica. Depois, outros tipos de ideólogos (magos, hierofantes, filósofos, místicos, etc.) que já estavam estabelecidos em suas respectivas instituições hierarquizadas se levantaram, também, contra o modelo de formação social igualitário. Isto ocorria em qualquer lugar para onde os genuínos apóstolos avançassem, fora de Jerusalém, com tal modelo de formação social, cujas duas principais diretrizes que norteavam as condutas das lideranças consistiam em servir por amor ao próximo, e, não se elitizarem. Diretrizes estas que estavam, diametralmente, em desacordo com as diretrizes correlatas valorizadas e assumidas por todas as categorias de ideólogos. Cada uma dessas categorias de ideólogos atuava, organicamente, como aliada aos demais segmentos das elites das respectivas nações, ou seja, aliadas às elites políticas e econômicas nacionais. Em muitas das nações sob o domínio romano, as elites constituídas de ideólogos mancomunavam-se, servilmente, a exemplo dos ideólogos judeus, às elites romanas, na subjugação e exploração das camadas pobres das suas respectivas populações.
2. Os ideólogos iniciantes que visavam e atuavam, ambiciosamente, no sentido de ascender aos altos cargos, por dentro de instituição cultural hierarquizada já estabelecida. Havia, também, ideólogos que ambicionavam criar, respectivamente, suas próprias instituições culturais hierarquizadas, para nelas ocuparem altos cargas e deles tirarem seus fartos sustento. Ora, os quadros de acesso por dentro das instituições culturais hierarquizadas das religiões antigas tendiam ser, em muitos casos, restringidas à transmissão hereditária. O ideólogo ambicioso que encontravam muitas barreiras, para ascender economicamente por dentro do quadro de acesso de sua instituição religiosa, tendia atuar no sentido de inventar uma doutrina nova ou a variante de doutrina já existente, arrebanhar fiéis e assim criar sua instituição religiosa hierarquizada, e dela tirar seu sustento. Nas escolas, o discípulo remunerava o seu Mestre, para que este lhe transmitisse conhecimento. Depois de haver adquirido tais conhecimentos, o ex-discípulo tinha que arrebanhar adeptos, para destes subtrais seu sustento e se tornar mestre.
Focalizamos, acima, um quadro em que muitos e diferentes tipos de ideólogos concorriam entre si, disputando arrebanhar adeptos, para deles subtraírem seus respectivos sustento. Nesse mesmo procedimento, tais ideólogos iam criando suas religiões. Esse quadro nos é familiar, na atualidade: a Igreja é como um balcão de mercado, ela sozinha oferece velhas mercadorias, mas vem criando novas (conservadores radicais; progressistas; estilo evangélico norte-americano, com muita música e dança; etc.) para cada gosto; uma multidão de ideólogos vem arrebanhando ovelhas e criando múltiplas religiões ditas protestantes ou evangélicas; um sem número de outros ideólogos arrebanham ovelhas para seita ditas de origem oriental; mil outros tantos ideólogos arrebanham adoradores de pirâmides, das cores, dos números, etc.; uma nuvem de “mestres” da “autoajuda” ou “hei de vencer” andam atrás de discípulos carentes; diversas seitas ditas esotéricas proliferam por toda parte, etc.
Os ideólogos das duas frentes de oposição ao genuíno movimento igualitário e revolucionário desencadeado pelo Escolhido, sentiram-se ameaçados quanto à segurança dos seus interesses exclusivamente materiais. Os primeiros sentiam-se ameaçados de perderem os desfrutes e prerrogativas inerentes à suas posições já elitizadas. João focalizou, claramente, esse sentimento de ameaça, que Jesus e o movimento por ele desencadeado suscitavam nos ideólogos já hegemônicos (Jo 11, 48):
“Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação”.
Os segundos sentiam ameaçadas as expectativas de usufruírem os desfrutes inerentes à posição de elite que almejavam e estavam empenhados, firmemente, em conquistarem. Os interesses consistiam: nos dízimos, dádivas, etc. que os sacerdotes subtraíam das suas vitimadas ovelhas; e o prestígio, terras, construção de templos, etc. que eles obtinham dos reis, em razão de se aliar a estes e ajudá-los a controlar o povo, mantendo este entorpecido e encadeado, nas ideologias falseadas que inculcava nos indivíduos da massa popular; a remuneração e dádivas que os mestres subtraíam dos seus discípulos, e o prestígio (status) que lhes propiciava prerrogativas. Todas essas e outras tantas modalidades de interesses materiais próprios dos ideólogos só se realizavam à medida que eles, por um lado, assumiam a forma elitista ou anti-serva de “diretriz pastoral”, e por outro lado e por isso mesmo, produzia ou reproduziam o modelo hierarquizado de estrutura da comunidade ou instituição cultural.
Os ideólogos mais retrógrados entenderam que a segurança e preservação dos seus interesses materiais estavam ameaçados, diante da diretriz serva e não-hierarquizante de liderança intelectual. Pois essas diretrizes avançavam junto com as lideranças que expandiam as comunidades igualitárias dos discípulos do Escolhido, tanto em Jerusalém como para outras nações, e conseguia a adesão de muitos dos ideólogos mais progressistas. Pois, os ideólogos retrógrados já estabelecidos e respectiva classe social viam na propagação e crescimento da igreja igualitária dos seguidores do Escolhido, a possibilidade de perderem seguidores, ou melhor, perderem os valores que subtraiam desses. Os noviços viam as possibilidades das suas expectativas de subtrair valores dos devotos não se realizarem. Tudo isso indicava a tendência dum descenso da classe dos ideólogos israelitas até então hegemônicos e aliados às elites da dominação romana. Na realidade, a partir de Jerusalém isso já vinha acontecendo, e também para onde o movimento igualitário ia avançando. Nesse sentido, podemos notar a presença e o conflito entre, de um lado, os genuínos apóstolos e alguns intelectuais favoráveis ao movimento igualitário desencadeado pelo Mestre, e do lado oposto, ideólogos contrários a primeira comuna genuinamente cristã, localizada em Jerusalém, a qual atuava como base central ou “quartel general” desse movimento social revolucionário. Havia ideólogos contrários oriundos dos mais diversos e distantes lugares, e entre estes estava Paulo oriundo de Tarso (At 6, 7-10):
“Divulgava-se sempre mais a palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número dos discípulos em Jerusalém. Também grande número de sacerdotes aderia à fé (o grifo é nosso). Estevão, cheio de graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo. Mas alguns da sinagoga, chamada dos libertinos, dos Cirenenses, dos Alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia (o grifo é nosso) levantaram-se para disputar com ele. Não podiam, porém, resistir à sabedoria e ao Espírito que o inspirava”.
Os ideólogos retrógrados entenderam que a segurança dos seus interesses materiais e da respectiva classe social estava ameaçada. Pois, muitos entre eles passavam a valorizar e aderiam ao tipo servo de liderança a ser exercida pelo intelectual e ao modelo de formação social igualitária. Isto levou os ideólogos retrógrados mais renitentes, a resistirem, atacarem e matarem líderes e membros do genuíno movimento igualitário desencadeado pelo Mestre. O assassinato de Estevão foi um exemplo dessa resistência, liderada por Paulo originário de Tarso (cf. At 8, 1-a). Ainda assim, a assembleia igualitária e revolucionária avançava.
Pierre Bourdieu desenvolveu uma teoria que ajuda-nos a entender o fenômeno social acima indicado. Fenômeno este caracterizado pela ação reacionária e violenta exercida por membros retrógrados da classe de ideólogos, contra o avanço das lideranças (apóstolos) que praticavam a diretriz “serva”, contrária à hierarquização da sociedade. Bourdieu mostra a importância da situação de classe e como ela afeta a posição de classe:
“A posição de um indivíduo ou de um grupo na estrutura social não pode jamais ser completamente definida dum ponto de vista estritamente estático, isto é como posição relativa (‘superior’, ‘média’ ou ‘inferior’) dentro de uma estrutura dada em um momento dado do tempo: o ponto da trajetória, que apreende um corte sincrônico, oculta sempre a inclinação da trajetória social: por conseguinte, sob pena de deixar escapar tudo aquilo que define concretamente a experiência da posição como etapa duma ascensão ou dum descenso, como promoção ou regressão, é preciso caracterizar cada ponto pela diferencial da função que exprime a curva, isto é, por toda a curva. Segue-se que se pode distinguir as propriedades ligadas à posição definida sincronicamente e as propriedades ligadas ao devenir da posição: com efeito, duas posições aparentemente idênticas do ponto de vista da sincronia podem revelar-se profundamente diferentes se são referidas ao único contexto real, a saber, o devenir histórico da estrutura social no seu conjunto, e analogamente, da posição; e inversamente indivíduos (…) ou grupos (classes ascendentes e declinantes) podem possuir propriedades comuns na medida em que tenham em comum, senão a sua trajetória social, pelo menos a inclinação, ascendente ou descendente, de sua trajetória”.[1]
Pierre Bourdieu ensina que o problema fundamental para indivíduos e grupos é o da segurança. Desse modo, se os limites de dada situação forem ultrapassados, e isto prejudicar tal segurança, então, essa ultrapassagem poderá produzir efeitos: indivíduos e/ou grupos empreenderão ações visando preservar a segurança dos seus interesses.[2] Assim, podemos entender o fato dos ideólogos oriundos de diferentes lugares haverem entendido que a segurança dos seus interesses materiais estava ameaçada, frente ao avanço da comuna cristã, e que essa questão de segurança é que motivou a contrarrevolução empreendida pelos ideólogos retrógrados.
Paulo de Tarso foi o campeão da oposição ao genuíno movimento social em prol do igualitarismo desencadeado pelo Mestre. Paulo empregou, inicialmente, a estratégia de combate por extermínio dos genuínos discípulos de Jesus (cf. At 7, 58-60; 8, 1-a, 3; 9,1). Ele seguia, neste sentido, a orientação de seus superiores, mas percebera que a revolução em favor do igualitarismo avançava (cf. At 8, 4s), malgrado o emprego desse método de combate. Ele mudou, então, a estratégia de combate.
Paulo de Tarso não foi um mero embusteiro, como pensam alguns. Muito ao contrário, ele foi um sofista pródigo e maliciosamente sagaz. Ele percebera que o genuíno discípulo do Filho do Homem sentia-se glorificado, ao mesmo tempo em que glorificava Deus, quando era sacrificado, em razão de levar, por amor ao próximo, ao extremo a luta pela libertação de outros indivíduos. Libertação do estado de alienação e de miséria, no qual esses indivíduos eram mantidos pelos sacerdotes e seus aliados (lideranças políticas e econômicas). Nisto consistia a glória, o sacrifício ou holocausto perpétuo, a exemplo de como o Mestre levou essa luta até o limite.
É importante notar que os sacerdotes são, em potencial, assassinos por excelência, e quando eles percebem que estão perdendo o embate de argumentos para profetas, diante da opinião pública, então, eles matam o profeta para quem perdera o embate: eis o real significado do Jesus na cruz e do apedrejamento de Estevão. Os sacerdotes em geral e os sacerdotes judeus em particular costumam empregar uma sui generis estratégia ideológica, quando percebem que estão perdendo a disputa argumentativa, para profetas genuínos, frente à opinião pública. Essa peculiar estratégia consiste, primeiramente, em matar o profeta e demais pessoas que lutam por justiça. Depois, os próprios sacerdotes assassinos passam a exaltar e edificar monumentos aos profetas e demais pessoas justas. Assim, os sacerdotes se aproveitam do carisma que a lembrança dos profetas e demais pessoas justas desfrutam junto à opinião pública. Mas, adulteram e desviam de si as críticas e acusações que os profetas e pessoas justas desfecharam-lhes. O Filho do Homem conhecia essa estratégia ideológica empregada pelos sacerdotes contra os genuínos profetas e demais pessoas justas:
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificais sepulcros aos profetas, adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos manchado nossas mãos como eles no sangue dos profetas… Testemunhais assim contra vós mesmos que sois de fato os filhos dos assassinos dos profetas. Acabai, pois, de encher a medida de vossos pais! Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis do castigo do inferno? Vede, eu vos envio profetas, sábios, doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. Persegui-lo-eis de cidade em cidade, para que caia sobre vós todos o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo, todos esses crimes pesarão sobre esta raça. ‘Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!” (Mt 23, 29-35)
Paulo de Tarso o Anticristo integrava o grupo de sacerdotes fariseus e saduceus que empregaram a estratégia ideológica acima descrita. Em primeiro lugar, eles atuaram como autores intelectuais da morte do Filho do Homem. Coube a Gamaliel e seu discípulo Paulo desenvolverem a segunda etapa da estratégia em questão. Coube, mais precisamente a Paulo o Anticristo exaltar a pessoa do profeta Jesus, elaborar a idéia satânica do monumento da imagem do cristo na cruz, e inverter e desviar dos sacerdotes, as criticas e denúncias empreendidas pelo Cristo.
O Anticristo passou a empregar a estratégia ideológica de combate “pacífico” ao genuíno cristianismo, e foi bem sucedido nessa sua empreitada. Essa estratégia de luta foi-lhe ensinada por seu mestre e mentor (cf. At 22, 3), um fariseu, doutor da lei e membro do Grande Conselho dos judeus (Sinédrio nacional) chamado Gamaliel. O qual propusera aos seus pares e discípulos – que “aceitaram o seu conselho” -, a maquiavélica estratégia ideológica de combate “pacífico”, contra a revolução igualitária liderada pelos genuínos apóstolos do Escolhido (cf. At 5, 34).
Paulo de Tarso o Anticristo forjou haver recebido mensagem do espectro do Cristo para pregar aos gentios (cf. At 22, 6-8, 17-21). Assim, ele também forjou haver se convertido ao cristianismo, a fim de se infiltrar entre os genuínos apóstolos do Filho do Homem. Os principais objetivos dessa infiltração eram: a) aprender a verdadeira doutrina ensinada pelo Mestre; b) ele visava elaborar, através da sua pródiga sofística, sua própria doutrina, abstraindo alguns pontos da doutrina de Jesus, mas invertendo, sobretudo, a diretriz serva e não-hierarquizante, além de adulterar os sentidos originais de diversos outros pontos (o assassínio de Jesus, cujos autores intelectuais desse crime foram os sacerdotes; as noções de glória, graça, justificação, etc.); c) ele pretendia disfarçar-se de apóstolo do Cristo; d) apoiar sua falsa “autoridade” de apóstolo, sua amálgama doutrinária e a religião que pretendia criar, no forte carisma que o Jesus histórico deixara inculcado, indelevelmente, nas lembranças das pessoas. Desse modo, o Anticristo pretendia impressionar, seduzir, aliciar e submeter ideologicamente pessoas, para a religião que tinha em mente criar. Na qual, as lideranças constituídas de ideólogos assumiriam a postura elitista, e a comunidade seria estruturada de modo hierarquizado. Enfim, ele pretendia combater, através da religião que tinha a intenção de criar e da maquiavélica estratégia ideológica “pacifista”, o genuíno movimento revolucionário de natureza igualitária liderado pelos verdadeiros apóstolos do Filho do Homem.
O Mestre valoriza, ao máximo, o indivíduo que lute – por amor ao próximo e de modo manso e radicalmente pacifista – por justiça social, conforme ele proclamou em suas bem-aventuranças (Mt 5, 6- 14):
“Bem aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa de justiça, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. Vós sois o sal da terra. Se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem vosso Pai que está nos céus!”
De modo diametralmente oposto ao movimento igualitário e revolucionário desencadeado pelo Filho do Homem, Paulo o Anticristo propugnou uma religião cujas lideranças fossem, de modo desavergonhado, aliadas às elites dominantes, e demais seguidores assumissem a postura alienada e serviçal em relação às tais elites. Senão, vejamos:
“Cada qual seja submisso às autoridades constituídas. Porque não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem atraem sobre si a condenação. Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer a justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal. Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência. É também por esta razão que pagais os impostos, pois os magistrados são ministros de Deus, quando exercem pontualmente este ofício. Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito” (Rm 13, 1-7);
“Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, o homem, que se entregou como resgate por todos. Tal é o fato, atestado em seu tempo; e deste fato – digo a verdade, não minto – fui constituído pregador, apóstolo e doutor dos gentios, na fé e na verdade” (I Tm 2 1-8).
Nos termos acima indicados, Paulo o Anticristo atraiu, para em torno de si, ideólogos de origens diversas, os quais visavam se estabelecerem como sacerdotes na esfera dominante das respectivas comunidades religiosas, que eles ajudavam o Anticristo fundar. Assim, este constituiu, rapidamente, suas lideranças: Timóteo, Tito, etc.
A igreja pseudo cristã criada por Paulo o Anticristo se articulou às elites políticas e econômicas das diversas nações, que integravam o Império Romano, no combate ao movimento revolucionário genuinamente cristão em prol do igualitarismo. Enquanto Paulo o Anticristo combatia ideologicamente, as elites políticas e econômicas combatiam fisicamente, empregando o método de chacina precedido de martírio. Desse modo, a igreja pseudo cristã do Anticristo prosperou. O movimento revolucionário do igualitarismo genuinamente cristão foi, gradativamente, sendo vencido. E, por fim, ele baqueou, em razão do combate sistemático empreendido, ideologicamente, pela igreja do Anticristo, acompanhado do extermínio sistemático praticado pelas elites políticas e econômicas das nações.
Finalmente, a força expansiva da revolução desencadeada pelo Filho de Deus cessara. Então, reuniram-se em Nicéia: O representante (Constantino) das elites do Império Romano; e as elites dirigentes (bispos) das diversas comunidades que seguiam o modelo hierarquizado de igreja pseudo cristã criado por Paulo o Anticristo. Lá, eles realizaram, no ano 325, o Concílio de Nicéia, onde marcaram e celebraram a vitória final, da luta que empreenderam, durante séculos, contra a genuína igreja desencadeada pelo Filho de Deus, caracteristicamente revolucionária, igualitária, fraternal e radicalmente pacifista.
O termo “cristianismo” (e outras derivações do termo “Cristo”) recebera uma conotação maldita, desde o início, em razão da contrarrevolução desencadeada por Paulo o Anticristo e sua igreja pseudo cristã, contra os genuínos cristãos. Esta conotação maldita acompanhou a prática escusa e perversa dos sacerdotes das religiões que sucederam e herdaram o modelo piramidal da igreja de Paulo, isto é, os sacerdotes da Igreja e das suas derivações (ortodoxa, anglicana, as diversas denominações protestantes, evangélicas, etc.). Assim, as práticas malditas próprias dos sacerdotes dessas religiões pseudo cristãos impregnaram de igual modo o termo cristianismo. Essas práticas e respectivas conotações malditas permearam a primeira (Idade das Trevas, de 400 a 800 d.C.) e a segunda (de 800 a 1400) fases da Idade Média. Elas perpassaram a Idade Moderna, e vêm se estendendo pela Idade Pós-Moderna. Tudo isso é percebido por qualquer pessoa, que consegue notar que Paulo de Tarso não foi um mero sofista e embusteiro, mas sim o próprio Anticristo.
O emprego do termo “cristianismo” coloca-nos diante de um problema, semelhante àquele com que nos deparamos em relação ao emprego do termo “comunismo”, conforme focalizamos, anteriormente, a “maldição do comunismo”. Como nos livrarmos da conotação e pecha maldita, que os sacerdotes seguidores de Paulo o Anticristo impingiram no termo “cristianismo”? Eis a questão!
Podemos citar um exemplo bem atual, de tentativa de solucionar o problema acima exposto. Mas, essa tentativa foi aplicada, de modo infeliz, pelos elaboradores do documentário chamado Zeitgeist. Estes aludidos elaboradores desconhecem, certamente, tanto o sentido original do pensamento do Mestre como a história do genuíno movimento em prol do igualitarismo por este desencadeado. Eles desconhecem, ainda, a história do modelo teórico do pseudo cristianismo e da respectiva instituição religiosa hierarquizada criados por Paulo o Anticristo. Eles desconhecem, também, o conflito entre, de um lado, o Anticristo e sua igreja hierarquizada, e do outro lado, os genuínos apóstolos e demais membros da referida revolução em prol do igualitarismo, desencadeada pelo Filho do Homem.
Em razão de todos os desconhecimentos acima relacionados, os elaboradores do Zeitgeist “misturaram, num mesmo saco, alhos e bugalhos”, e “jogaram no lixo tanto a placenta como a criança”. Ou seja, esses elaboradores visam, com toda razão, se livrar da pecha maldita, que as práticas escusas dos teólogos e sacerdotes seguidores de Paulo o Anticristo impingiram no termo e respectiva ideia de “cristianismo” (e todas as derivações do termo “Cristo”). Mas, para realizar esse objetivo, eles empregaram, equivocadamente, o método que concebe o evento Jesus histórico como sendo mera invenção ou mito. Ora, os idealizadores do Zeitgeist foram, efetivamente, infelizes ao empregarem tal método simplório, porém a intenção foi boa. Eles exaltam pontos cruciais da doutrina do Mestre: o amor incondicional; o igualitarismo; a transformação da consciência e respectiva prática do indivíduo, enquanto unidade mínima que compõe o todo social, como único meio de transformar esse todo para uma forma mais justa e fraterna, ou seja, igualitária; etc.[3]
Nietzsche fora, em sua obra genial “O Anticristo – Maldição do Cristianismo”, mais sagaz que os elaboradores do Zeitgeist. Ele exaltou o “Mensageiro Feliz”, isto é, Jesus, e sacou, claramente, o caráter asqueroso da conotação, que o termo “cristianismo” (e todas as demais derivações do termo “Cristo”) vinha carregando consigo, então, durante dezenove séculos. Nietzsche sacou, também, que essa conotação asquerosa corresponde às práticas igualmente asquerosas exercidas pelos teólogos e sacerdotes católicos e protestantes. Senão, vejamos:
“Só nós, espíritos libertos, possuímos as condições para compreender alguma coisa que dezenove séculos entenderam falsamente, aquela retidão transformada em instinto e paixão que declarou guerra à ‘mentira sagrada’ num grau bem maior do que a qualquer outra mentira… Estávamos indizivelmente distante da nossa querida e prudente neutralidade, de toda educação espiritual, com a qual se torna possível o conhecimento de coisa tão estranha, tão delicada: naquele tempo, com um egoísmo sem pudor, só buscava a vantagem pessoal; a igreja foi erguida sobre a negação do Evangelho… Veremos que a humanidade se ajoelha diante da antítese daquilo que no início era o sentido e a lei do Evangelho, que no conceito de ‘igreja’ santificou-se justamente o que o ‘mensageiro feliz’ considerava inferior e ultrapassado em relação a esse conceito; porém, procuraremos em vão uma forma maior de ironia da história mundial (…) A partir da morte na cruz, a história do cristianismo é justamente o progressivo relato do mal entendido cada vez mais grosseiro de um simbolismo primitivo. Com a expansão do cristianismo sobre povos mais extensos e primitivos, o fosso tornava-se cada vez maior entre suas premissas e suas intenções: tornou-se necessário vulgarizar, barbarizar o cristianismo; absorveram-se doutrinas e ritos de todos os cultos subterrâneos do Império Romano (…) A barbárie doentia aumentou até chegar ao poder a igreja; a igreja, essa forma de inimizade mortal por toda integridade, pela elevação da alma, pela educação do espírito, por toda humanidade franca e benévola. Os valores cristão. Os valores nobres: somente nós, espíritos emancipados, retomamos esse maior anti-valor que existe!”;[4]
“Os alemães privaram a Europa da última grande colheita cultural que jamais poderia ter existido, privaram-na da Renascença (…) Até o presente momento só houve uma grande guerra, não houve outro movimento que levantasse a questão de forma mais decidida do que a Renascença; minha questão foi a questão dela: tampouco existiu em todo o front uma forma de ataque mais fundamental, mais dirigida ao centro! (…) A própria sede do Cristianismo (…) Cesare Borgia como Papa… Podem imaginar? Pois bem, esta seria a única vitória que eu realmente desejaria: com isso o cristianismo teria acabado! O que aconteceu? Um monge alemão, Lutero, foi para Roma. Esse monge com o corpo tomado de todos os instintos de vingança de um padre falido indignou-se em Roma contra a Renascença… Ao invés de compreender com um profundo agradecimento aquele prodígio, a superação do cristianismo na sua cidade-sede, seu ódio não soube retirar desse espetáculo senão seu alimento. Um homem religioso pensa apenas em si. Lutero enxergou a perversão do papado, enquanto exatamente o contrário era indubitavelmente óbvio: a velha podridão, o peccatum original, o cristianismo já não estava sentado na cadeira do Papa! Mas sim a vida! O triunfo da vida! O sonoro sim a tudo que é elevado, belo, audaz!… E Lutero restabeleceu a Igreja: atacou-a… a Renascença; um acontecimento sem sentido, um grande movimento em vão! Ah, esses alemães, o que já nos custaram! Em vão, isso sempre foi a obra dos alemães. A Reforma; Leibnitz; Kant e a tal Filosofia alemã; a guerra da libertação; o Reich, cada vez um em vão para alguma coisa existente, para algo irrecuperável (…) Pesa-lhes na consciência também a espécie mais imunda, incurável e irrefutável do cristianismo, o protestantismo… Se não conseguirmos acabar com o cristianismo, será por culpa dos alemães...”[5]
Nietzsche percebeu e identificou, claramente, o papel social de Anticristo desempenhado por Paulo de Tarso, em diametral oposição ao “mensageiro da boa nova”, isto é, Jesus.[6] Ele mostrou, devidamente, Paulo de Tarso o Anticristo e os sacerdotes católicos que o sucederam como “falsários obcecados pelo ódio”. Nietzsche pôs em relevo, entre outras tantas estratégias ideológica empreendida pelo Anticristo, para combater o “mensageiro da boa nova”, àquela que consistiu em exaltar, maquiavelicamente e numa perspectiva metafisicamente, a morte na cruz. Ou seja, Paulo o Anticristo atribuiu à morte na cruz um sentido negativo e contrário ao espírito que norteava o histórico movimento social revolucionário transformador, real e existente empreendido pelo Mestre, contra toda podridão sacerdotal e religiosa: “Paulo deslocou o centro de gravidade de toda existência para depois da existência”. Vejamos Nietzsche focalizando Paulo de Tarso o Anticristo:
“Nós vemos o que teve fim com a morte na cruz (… ) À ‘boa nova’ seguiu-se imediatamente o pior de todas: a de Paulo. Paulo personifica o tipo oposto do ‘mensageiro da boa nova’, o gênio do ódio, na visão do ódio, na lógica implacável do ódio (o grifo é nosso). O que esse desevangelista não sacrificou em nome do ódio! Principalmente o Redentor: pregou-o na cruz. A vida, o exemplo, a doutrina a morte, o sentido e a justiça do Evangelho, tudo deixou de existir quando esse falsário obcecado pelo ódio compreendeu que lhe poderia ser útil. Não a realidade, não a verdade histórica!… E mais uma vez o instinto sacerdotal dos judeus causou um crime igualmente notável contra a história, simplesmente riscou do cristianismo seu ontem e anteontem, inventou uma nova história do início do cristianismo. Mais ainda: falsificou novamente a história de Israel, fê-la parecer uma pré-história para seus feitos: todos os profetas haviam falado do ‘Redentor’… Mais tarde, a Igreja falsificou até a história da humanidade tratando-a como uma pré-história do cristianismo… A personalidade do Redentor, a doutrina, a prática, a morte, o sentido da morte, até mesmo o pós-morte, nada ficou intacto, nada ficou próximo da realidade. Com a mentira da ‘ressurreição de Jesus’, Paulo deslocou o centro de gravidade de toda essa existência para depois da existência. Na realidade ele não tinha necessidade alguma da vida do Redentor, precisou da morte na cruz e de algo mais… Considerar sincero um Paulus que tem como pátria e sede principal do iluminismo estoico e que usa alucinação para demonstrar que o Redentor ainda vive, ou acreditar que tenha sofrida essa alucinação, seria uma verdadeira patetice de psicólogo: Paulo desejava o fim, portanto também os meios… No que ele próprio não acreditava, acreditaram os idiotas que se submeteram à sua doutrina. O que ele queria era o poder, e através dele os sacerdotes retomaram o poder; Paulo só precisava das ideias, das doutrinas, dos símbolos para tiranizar as massas, transformá-las em rebanhos”.[7]
É oportuno notar que Nietzsche sacou, também de modo sagaz, a versão maometana da estratégia ideológica inventada e empreendida por Paulo o Anticristo:
“Em quem foi que Maomé plagiou mais tarde o cristianismo? A invenção de Paulo, os seus meios para a tirania dos sacerdotes, a crença na imortalidade para a formação de rebanhos, isto é, a doutrina do ‘juízo’...”[8]
Muitos teólogos, sacerdotes e mesmo alguns leigos católicos, protestantes e das religiões ditas evangélicas odeiam Nietzsche, em razão deste haver entendido e divulgado, através do seu livro “O Anticristo – Maldição do Cristianismo”, algumas verdades insofismáveis: 1. A verdadeira natureza demoníaca do verdadeiro mentor dessas suas religiões: Paulo de Tarso o Anticristo; 2. A verdadeira natureza das religiões que abraçaram: elas são diametralmente adversas tanto à genuína doutrina como às práticas propostas pelo Jesus histórico. Enfim, Tais teólogos, sacerdotes e muitas das suas ovelhas adotam a “fé paulina” como uma máscara para dissimularem seus verdadeiros, ambiciosos e escusos interesses materiais.
Bibliografia
Bourdieu, Pierre. Comdition de classe et position de classe, Archives Européenes de Sociologie, tome VII, nº 2, 1966.
Bourdieu, Pierre. La société traditionnelle; attitude à l’égard du temp set conduite économique, Sociologie du Travail, nº 1, 1963.
Mietzsche, Friedrich W. O Anticristo – Maldição do Cristianismo. Newton ComptonBrasil Ltda., Rio de Janeiro, 1992.
Comentários
Zeitgeist Addendum
[1]Bourdieu P. Condition de classe et position de classe, p. 205-206.
[2] Bourdieu, P. La société traditionnelle; attitude à l’égard du temp set conduite économique, p. 44.
[3] Cf. Zeitgeist Addendum
[4] Nietzsche, F. W. O Anticristo – Maldição do Cristianismo, p. 58-59, parágrafos 36-37.
[5] Idem, p. 91-92, parágrafo 61.
[6] Idem: Nietzsche se identifica com o Jesus histórico e alude a ele exaltando-o de modo carinhoso: “só nós, espíritos libertos”, “mensageiro feliz” (p. 58, parágrafo 36); “espíritos emancipados” (p. 59, parágrafo 37); “mensageiro da boa nova” (p. 64, parágrafo 42).
[7]Idem, p. 64-65, parágrafo 42.