(TEXTO) Três tentações: Jesus contra o poder – PARTE 1: a “pedra” (pessoa) que domina outra pessoa – PARTE 2: poder ideológico e político

Tempo de leitura: 22 minutos

Nesta palestra, vou focalizar, mais detalhadamente, apenas o primeiro dos três contextos da tentação, que se manifesta, no quadro dos mecanismos de produção e administração da dominação: a “pedra” (pessoa)  que domina outra pessoa. Porém, vou focalizar, também, mas de modo menos detalhado, todas as três tentações.

O jovem e sagaz Jesus Histórico soube resistir as três principais tentações exercidas pelo PODER

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As “três tentações sofridas mas rejeitadas por  Jesus”, na realidade são exemplares. De certo modo, elas de aplicam na atualidade. Tais tentações só podem ser entendidas, como a relação entre dois lados

De um lado, um virtuoso jovem intelectual destro, vigoroso e dotado tanto de grandes conhecimentos como da enorme capacidade de argumentação.

Do outro lado, o sentimento odioso que valoriza e produz o desejo e a ambição de poder, e que era valorizado, de modo geral, na identidade cultural daquela época, como hoje também é valorizado. Nesse sentido, é que aparece a figura do “Demônio” tentando Jesus. Embora alguma pessoa, seja um teólogo, sacerdote, que na perspectiva de Jesus são como “serpente”, “raça de víboras” (Cf. Mt 23, 33). Nesse mesmo sentido, Em outra passagem, Jesus diz; o Dragão, a primitiva serpente, que é o Demônio e Satanás” (cf. Ap 20, 2).

Portanto, a figura do “Demônio”citado por Mateus, na realidade pode ter sido qualquer pessoa, que estivesse imbuída da cultura farisaica, e que tenha notado em Jesus, as grandes capacidades das quais ele era dotado. Tal pessoa “demoníaca”, então, pode ter sugerido a Jesus, que atuasse no sentido de uma ou outras das três tentações em apreço. Neste caso hipotético, Mateus teria representado esse quadro, de modo alegórico.

Jesus era um jovem intelectual dotado das virtudes em tela, e superou a tentação exercida pelo sentimento e respectivo desejo de ambição em relação ao poder, em três contextos. Tentação esta que ele concebia como de natureza satânica, isto é, tentação feita por Satanás, o hiper-opositor do Deus do amor, do direito, da justiça social e do pacifismo. A tal relação está inscrita no quadro dos mecanismos de produção e administração da dominação, em três contextos:

  1. Dominação de uma pessoa sobre outra pessoa. O poder da dominação que uma pessoa pode exercer, de modo físico e/ou ideológico, sobre outra pessoa, que seja mais fraca e/ou menos dotada de recursos intelectuais, ao exemplo das pessoas de senso comum. Pessoa mais fraca e/ou menos dotada essa representada, metaforicamente, na figura da pedra (ou tijolo).

Pois, uma pedra (ou tijolo) pode ser pensada, literalmente, como a unidade mínima da construção de um todo complexo, o edifício.

Na cultura judaica, metáfora da pedra (ou tijolo) era costumeiramente empregada (cf. Mt 16, 18; Mt 21, 42-44), alegoricamente, como a unidade mínima componente de um todo complexo, o “edifício” social, isto é, a sociedade concebida como um todo complexo. Vejamos o texto em tela:

“O tentador aproximou-se dele e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães’. Jesus respondeu: ‘Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Deut 8, 3). (Mt 4, 3-4).

  1. Produção e administração da dominação violenta de natureza ideológica ou cultural exercida por instituição coletiva hierarquizada e fortemente centralizada, sobre múltiplas pessoas, sobre a coletividade. Ou seja, a instituição religiosa, que é simbolizada, exemplarmente, no ponto mais alto do templo de Jerusalém (o poder de sumo sacerdote). Vejamos o texto em questão:

“O demônio [da tentação] transportou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé nalguma pedra’ (Salmo 9, 11). Disse-lhe Jesus: ‘Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” (Deut 6, 16). (Mt 4, 5-6).

  1. Produção e administração da dominação violenta e física de natureza política e econômica exercida por instituição coletiva hierarquizada e fortemente centralizada. Isto é, o reino ou império (o Estado), que é representado na figura um monte muito alto. Ou seja, o poder de um rei (ou imperador) e respectivo corpo burocrático do Estado e demais funcionários, ao exemplo do rei Davi e do reino (ou império) de Israel, que ele criou. Vamos ver o texto em tela:

“O demônio [tentação] transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a sua glória, e disse-lhe: ‘Dar-te-ei tudo isto, se, prostrando-te diante de mim, me adorares’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Pra trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Deut 6, 13). (Mt 4, 8-10).

Vou focalizar mais detalhadamente, apenas o primeiro contexto em que a tentação de que falamos, se manifestam, no quadro dos mecanismos de produção e administração da dominação.

Um breve aparte.Veja aqui embaixo, na descrição deste vídeo, o link do texto referente a presente palestra, em que consta a citação bibliográfica. E outro link que te possibilita acessar, gratuitamente, a introdução do livro que estou lançando, cujo título é “Enigma do discípulo que Jesus amava – Parte 1: Grupo de referência de Jesus: publicanos, prostitutas e devassos – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus“. Vamos voltar ao tema em tela.

A primeira tentação focalizada mais detalhadamente: A tentação do poder que uma pessoa sente, de exercer domínio sobre outra pessoa.

   A tentação do poder que uma pessoa ou indivíduo pode estar motivado, e que podemos chamar, metaforicamente, essa pessoa e também a outra de “pedras“, conforme já vimos. A “Pedra” que sofre esse tipo de tentação do poder, é dotada, porém, mais que a média dos indivíduos ou “pedras” de uma coletividade, de recursos intelectuais e/ou de tino político e/ou empresarial.

Assim essa pessoa (ou “pedra”) atentada, então, pode ser motivada pela tentação do poder e de ordenar”, conforme esta escrito no texto, cujo sentido é dominar, moldar e submeter a conduta de outra pessoa (ou “outra pedra“), transformando-a em “pão“, e assim subtrair desta “outra pedra, o seus sustento.

O Jesus Histórico resistiu e superou a tentação do sentimento e respectivo desejo de ambição de poder “ordenar” outra ou mais pessoa (ou “pedra”). Isto é, ele resistiu de exercer seu grande poder intelectual e de persuasão, no sentido de seduzir e submeter “ideologicamente” (através do discurso sedutor e falseado) as “pedras”.

Assim, Jesus resistiu, também, da tentação de transformá-las em “pão” ou seja, em ovelhas alienadas e pagadoras de dízimos, através dos quais os teólogos e sacerdotes arrancam seus sustentos.

Ao contrário do Jovem Jesus que resistiu à tentação de transformar “pedras” em “pães”, o intelectual que não resistiu a essa tentação, então, transforma “pedras” em “pães”. Ao exemplo de como os teólogos e sacerdotes fariseus e saduceus atuavam sobre os seus concidadãos, transformando-os em “pães”. Ou seja, em ovelhas alienadas e pagadoras de dízimos, através dos quais estes intelectuais se sustentavam fartamente, enquanto deixavam seus “pães” na miséria.

Caso análogo ao intelectual que não resistiu à tentação, de transformar “pedras” em “pães”, vem ocorrendo contemporaneamente. Os “novos fariseus” (teólogos e sacerdotes evangélicos e protestantes e outros desse gênero), e também com os “novos saduceus”(teólogos e sacerdotes católicos). transformam “pedras” em “pães”, e se sustentam desses pães alienados, que são suas respectivas ovelhas-robô.

De modo análogo a Jesus, isto é, o intelectual que resistiu à tentação em tela, também um jovem dotado de habilidades políticas e/ou econômicas, então pode superar a tentação exercida pelo sentimento e respectivo desejo de ambição em relação ao poder. E, assim não transformar outra ou mais “pedras” (pessoas de senso comum), em “pão”.

Ao contrário, o jovem dotado de habilidades políticas e/ou empreendedora na área econômica, que não resistir à tentação do poder, então, esse jovem transforma, em suas respectivas áreas de atuação, “pedras” (pessoas) em “pães”, dos quais arrancam seus fartos sustentos, e mormente deixam a massa dos seus “pães” mal remunerados.

Por exemplo: o político que transforma uma “pedra”, no tipo “cabo eleitoral” fanático, e que se enriquece se servindo dela; os teólogos ou sacerdotes evangélicos, protestantes ou católicos, ou ainda o “crente mais esperto”, entre outras ovelhas, que transformam “pedras” (pessoas) carentes, em seus empregados e os exploram em suas empresas, etc.

Jesus dominou o seu desejo e o sentimento de ambição satânicos do tipo de poder a “pedra” (pessoa mais esperta)  dominar outra pessoa, que seja menos esperta, e “Jesus respondeu a esse desejo egoísticos”, em dois sentidos:

Em primeiro lugar, e em outros termos, “disse Jesus: sei que nem só de “pão” (pessoas transformada em coisa de consum) o indivíduo humano vive. Mas, sobretudo da ‘palavra que procede da boca de Deus’ (conhecimentos divinos ou reino dos céus, isto é, conhecimento objetivo, despido de prenoções e preconceitos). Palavras estas que sou porta-voz, enquanto profeta e Filho de Deus”.

Em segundo lugar, e em outros termos, “Jesus respondeu à tentação do poder de transformar “pedra” em “pão”: “transmito palavras que procedem do Deus do amor, do direito e da justiça, para as tais “pedras” (indivíduos alienados), não para as transformar em “pão”, mas para libertá-las do estado de alienação, no qual são mantidas pelos ideólogos e sacerdotes, pois viso transformá-las em ‘pedras vivas”. Vamos ao texto:

“O tentador aproximou-se dele e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães’. Jesus respondeu: ‘Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Deut 8, 3). (Mt 4, 3-4).

FIM

Três tentações: Jesus contra o poder – PARTE 2: poder ideológico e político

O jovem e sagaz Jesus Histórico soube resistir as três principais tentações exercidas pelo PODER.

Nessa palestra Vou focalizar mais detalhadamente, os dois seguintes contextos em que a tentação se manifestam, no quadro dos mecanismos de produção e administração da dominação: o poder ideológico de natureza sacerdotal e o poder político.

Na palestra anterior, Três tentações: Jesus contra o poder, focalizei, de modo geral as três tentações de Jesus. Porém abordei, mais detalhadamente, apenas a primeira tentação, que trata do desejo de poder, que uma pessoa sente de dominar e explorar outra pessoa.

As “três tentações sofridas mas rejeitadas por  Jesus”, na realidade são exemplares. De certo modo, elas de aplicam na atualidade. Tais tentações só podem ser entendidas, como a relação entre dois lados

De um lado, um virtuoso jovem intelectual destro, vigoroso e grandemente dotado tanto de grandes conhecimentos como de capacidade de argumentação.

E do outro lado, o sentimento odioso que valoriza e produz o desejo e a ambição de poder, e que era valorizado, de modo geral, na identidade cultural daquela época, como hoje também é valorizado. Nesse sentido, é que aparece a figura do “Demônio” tentando Jesus. Embora alguma pessoa, seja um teólogo, sacerdote, que na perspectiva de Jesus são como “serpente”, “raça de víboras” (Cf. Mt 23, 33); e também são como “o Dragão, a primitiva serpente, que é o Demônio e Satanás” (cf. Ap 20, 2). Ou qualquer outra pessoa que tenha notado as grandes capacidades das quais Jesus era dotado, então, essa pessoa possa ter sugerido a Jesus, que atuasse no sentido de uma ou outras das três tentações em apreço.

Jesus era um jovem intelectual dotado dessas virtudes, e superou a tentação exercida pelo sentimento e respectivo desejo de ambição em relação ao poder, em três contextos. Tentação esta que ele concebia como de natureza satânica, isto é, tentação feita por Satanás, o hiper-opositor do Deus do amor, do direito, da justiça social e do pacifismo. A tal relação está inscrita no quadro dos mecanismos de produção e administração da dominação, em três contextos:

  1. Uma pessoa sobre outra pessoa. O poder da dominação que uma pessoa pode exercer, de modo físico e/ou ideológico, sobre outra pessoa, que seja mais fraca e/ou menos dotada de recursos intelectuais, ao exemplo das pessoas de senso comum. Pessoa mais fraca e/ou menos dotada essa representada, metaforicamente, na figura da pedra (ou tijolo).

Pois, uma pedra (ou tijolo) pode ser pensada, literalmente, como a unidade mínima da construção de um todo complexo, o edifício.

A metáfora da pedra (ou tijolo) pode ser pensada, alegoricamente, como a unidade mínima componente de um todo complexo, o “edifício” social, isto é, a sociedade concebida como um todo complexo. Vejamos o texto em tela:

“O tentador aproximou-se dele e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães’. Jesus respondeu: ‘Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Deut 8, 3). (Mt 4, 3-4).

  1. Produção e administração da dominação violenta de natureza ideológica ou cultural exercida por instituição coletiva hierarquizada e fortemente centralizada, sobre múltiplas pessoas, sobre a coletividade. Ou seja, a instituição religiosa, que é simbolizada, exemplarmente, no ponto mais alto do templo de Jerusalém (o poder de sumo sacerdote). Vejamos o texto em questão:

“O demônio [da tentação] transportou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé nalguma pedra’ (Salmo 9, 11). Disse-lhe Jesus: ‘Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” (Deut 6, 16). (Mt 4, 5-6).

  1. Produção e administração da dominação violenta e física de natureza política e econômica exercida por instituição coletiva hierarquizada e fortemente centralizada. Isto é, o reino ou império (o Estado), que é representado na figura um monte muito alto. Ou seja, o poder de um rei (ou imperador) e respectivo corpo burocrático do Estado e demais funcionários, ao exemplo do rei Davi e do reino (ou império) de Israel, que ele criou. Vamos ver o texto em tela:

“O demônio [tentação] transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a sua glória, e disse-lhe: ‘Dar-te-ei tudo isto, se, prostrando-te diante de mim, me adorares’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Pra trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Deut 6, 13). (Mt 4, 8-10).

A segunda tentação focalizada mais detalhadamente: o intelectual muito virtuoso tentado e atraído pelo “ponto mais alto do templo de Jerusalém”, isto é, o poder máximo na instituição cultural hierarquizada judaica.

O Jesus Histórico resistiu e dominou a tentação exercida pelo sentimento odioso e respectivo desejo e ambição de poder. Os quais o induziam a exercer seu grande poder intelectual, no sentido de se apoderar da mais poderosa condição do intelectual judeu. Ou seja, o “ponto mais alto do templo de Jerusalém”, que representa a condição de sumo sacerdote dos judeus, ou criar uma nova instituição religiosa com clero profissional e hierarquizada nos moldes da religião dos fariseus e a dos fariseus.

A instituição religiosa dos fariseus e ainda a dos saduceus funcionavam, também, como partidos políticos. Pois, ambos e mais os “anciãos do povo” (aristocracia laica judaica) ocupavam e controlavam o Sinédrio, isto é, uma espécie de “junta governante” da nação judaica, aliada de modo submisso ao interventor romano.

   Os teólogos e sacerdotes do partido dos fariseus eram mais fortes, mais “democráticos” e mais numerosos, que os teólogos e sacerdotes do partido dos saduceus. Em razão disso, o partido dos fariseus exercia controle sobre a maior parte da opinião pública judaica, e também o que mais combateu e foi combatido pelo Jesus Histórico. Esses dois partidos compunham o bloco ideológico judeu, isto é, moldavam, hegemonicamente, a opinião pública da nação judaica.

Na direção acima indicada, e enquanto Filho de Deus, o desejo e a ambição do poder sugeriram a Jesus: “lança-te abaixo”. Isto é, lançar-se, de cima para baixo, no sentido de empreender a concretização do modelo hierárquico de instituição cultural religiosa, transmitindo “ordens a teu respeito”. Em outros termos, seduzindo e submetendo ideologicamente determinados “anjos” (as lideranças constituídas de “intelectuais passivos”).

Os “anjos” ou “intelectuais passivos” são aqueles que não têm recursos intelectuais suficientes para elaborar as ideologias da sua classe, mas atuam na prática política propriamente dita, para a objetivação da ideologia elaborada pelo seu líder, o “intelectual ativo”.[1] Desse modo, o “intelectual ativo” dá  “ordem” (induz ideologicamente) aos “anjos” (intelectuais passivos),  no sentido deles atuarem, para a obtenção do referido sumo poder intelectual dos judeus. Esses “Anjos” (intelectuais passivos) atuariam em dois sentidos.

Num sentido, os “anjos” atuariam visando a obtenção do poder de sumo sacerdote, em favor do seu líder intelectual,

No outro sentidos, tais “anjos” atuariam no sentido, conforme diz no texto de  “proteger-te com as mãos, com cuidado”.

Nos dois sentidos indicados, Mateus quis dizer: os referidos “anjos” (intelectuais passivos) atuariam buscando proteger tanto o líder como a meta, através das suas respectivas “mãos”, isto é, as suas destras práticas políticas.

Os “anjos” protegeriam, no exercício da prática política, a execução da meta, e também o líder, contra eventuais oposições “… para não machucares o teu pé nalguma pedra”. Ou seja, para blindar o líder, da possibilidade de “machucares o teu pé”, isto é, da possibilidade do líder e “teu pé” (sua base, e também a meta) serem “machucados” (prejudicados).

A tal oposição poderia advir da parte de alguma “pedra” (metáfora de indivíduo), em duas situações. Uma situação trata do indivíduo de senso comum e alienado, que poderia resistir, mas seria necessário submetê-los ideologicamente, para transformá-los em ovelhas. A outra situação trata também de alguma “pedra” (indivíduo), mas aquela do tipo intelectual (passivo e/ou ativo), tipo político ou com interesse econômico, etc. “Pedra” esta que também poderia resistir e fazer oposição, ao novo líder e/ou à meta deste.

Jesus dominou o desejo e o sentimento de ambição satânicos dessa ordem de poder, “e disse-lhes”: “não tentará o Senhor teu Deus”. Nestes termos, Mateus descreve o Jesus Histórico firmando e atestando sua condição de Filho do Deus do amor, da justiça social e do pacifismo radical. Filho e Deus este que submeteu o sentimento de ordem odiosa e respectivo desejo egoístico de ambição de poder.

Ao dominar tal ordem odiosa de sentimento e de desejo de poder, então, Jesus manifestou, conseqüentemente, sentimentos e desejos diametralmente opostas. Ou seja, o revolucionário sentimento e desejo e de amor ao próximo, de justiça e de pacifismo, que  aspira e projeta o modelo de formação social libertária, fraternal em núcleos de comunidades igualitária articuladas entre si em rede descentralizada. Pois, o desejo e a ambição de poder intelectual voltados para a institucionalização hierarquizada da cultura, necessariamente produz alienação, submissão e exploração dos trabalhadores. Vejamos voltar ao texto em tela:

“O demônio [da tentação] transportou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé nalguma pedra’ (Salmo 9, 11). Disse-lhe Jesus: ‘Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” (Deut 6, 16). (Mt 4, 5-6).

A terceira tentação focalizada mais detalhadamente: o intelectual muito virtuoso tentado e atraído por “um monte muito alto” (reino: o poder político e respectivo modelo hierarquizado de formação social).

   O Jesus Histórico resistiu e submeteu a tentação demoníaca do sentimento odioso e respectivo desejo e ambição de poder. Tentação essa que o impelia exercer seu grande poder intelectual, no sentido de submeter, ideologicamente, os segmentos sociais que já exerciam a atividade política, e também os segmentos que desejavam obter o poder em sua nação. E desse modo, Jesus resistiu e submeteu a tentação conduzir esses dois segmentos, no sentido de tomarem o poder político (reino) de sua nação, e se tornar em um novo rei Davi.

Tal possibilidade poderia ocorrer, somente através da revolução armada, pois lá não havia eleições democráticas, e a Judéia estava ocupada pelos romanos. E a partir da posse deste “um monte muito alto” (reino judaico), também estender seu poder para “todos os reinos do mundo e a sua glória”. Quer dizer, para outras nações, e assim formar um grande e glorioso império, que foi eternamente desejado desde os teólogos e sacerdotes hebreus.

Diante dessa ordem de tentação, o Jesus Histórico atuou sobre seus sentimentos e respectivo desejo e ambição de poder intelectual (de natureza invulgar). Sentimento e desejo estes que lhe vislumbrara a idéia da possibilidade de seduzir, submeter e conduzir os políticos desejosos do poder do Estado judeu. Os quais ambicionavam restaurar um grande império, semelhante ou maior que àquele da época do rei Davi.

Jesus atuou sobre o seu desejo e sentimento de ambição de poder, e “respondeu-lhes”: “recuem e se contenham! Sentimento e desejo de poder satânicos! Adoro, exclusivamente, o Senhor Deus do amor, da justiça social e do pacifismo. Deus que se contrapõe, diametralmente, ao poder político. Pois, o poder político produz e reproduz, necessariamente, conquistas, violências, mortes, opressão e sempre redunda na submissão e exploração dos segmentos sociais de trabalhadores. Vamos ao texto:

“O demônio [tentação] transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a sua glória, e disse-lhe: ‘Dar-te-ei tudo isto, se, prostrando-te diante de mim, me adorares’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Pra trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Deut 6, 13). (Mt 4, 8-10).

[1] . A noção de “anjos” tem, no texto, o sentido muito peculiar na cultura judaica de “intelectuais passivos”: aqueles intelectuais de segundo plano, que atuam mais propriamente na “prática política”, como as lideranças “mais ativas”, as quais seguem a orientação de um “intelectual propriamente ativo”, isto é, o qual elabora a ideologia ilusória dessa classe de intelectuais. Neste sentido, veja Marx, K. Ideologia Alemã – E outros escritos, Editorial presença / Martins Fontes, SP, 1965, p. 45-50: “… embora não tenhamos senão duas categorias de pessoas dentro da mesma classe: os pensadores da classe, capazes de formular a teoria, que tiram sua subsistência principalmente da elaboração da ilusão que a classe tem sobre si mesma, e os outros, que terão uma atitude mais passiva e receptiva frente a esses pensadores e ilusões, por serem os membros realmente ativos dessa classe, e terem menos tempo para alimentar ilusões e idéias sobre suas próprias pessoas”.