(TEXTO) Intelectual Específico 3. Irmãos de Jesus não criam nele e queriam sua morte

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Determinados irmãos e/ou membros da parentela de Jesus não acreditavam nele, conforme disse João Evangelista: “Com efeito, nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele” (Jo 7, 5). Tais irmão de Jesus também não conseguiram mantê-lo “crucificado”, isto é, preso no seu grupo familiar, conforme demonstramos, claramente, na palestra anterior. E, nesse sentido explicamos a passagem bíblica (Cf. M 12, 46-50), em que Jesus, por um lado, repudiou e se libertou do seu grupo familiar (mãe e irmãos), e por outro lado, adotou o grupo constituído por ele, enquanto Mestre, e os seus discípulos.
Determinados irmãos e/ou membros da parentela de Jesus ainda tentaram induzi-lo a se dirigir a Jerusalém, na Judeia, com o ardil de incentivá-lo a fazer, nessa cidade, suas obras diante do público e dos seus discípulos (cf. Mt 7, 3-4). Porém, esses irmãos incrédulos e traiçoeiros pretendiam, na verdade, que os sacerdotes judeus matassem Jesus. Pois, tais irmãos sabiam que esses sacerdotes planejaram tirar a vida de Jesus, durante a festa judaica chamada das Tendas ou Tabernáculos, que se aproximava. Vejamos o texto em tela:
“Jesus percorria a Galileia. Ele não queria deter-se na Judeia, porque os judeus procuravam tirar-lhe a vida. Aproximava-se a festa dos judeus chamada dos Tabernáculos. Seus irmãos disseram-lhe: ‘Parte daqui e vai para a Judeia, a fim de que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes estas obras, revela-te ao mundo. Com efeito, nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele” (Jo 7, 1-5).
Jesus respondeu aos seus irmãos incrédulos, os quais desejavam vê-lo morto. Nessa resposta, ele empregou, implicitamente, a noção de “morte”, como metáfora do “estado do indivíduo alienado”, ao se dirigir e atribuir esse estado (morto, mas no sentido de alienado) aos seus irmãos incrédulos. Em outros termos, Jesus disse: “para vós a hora [da “morte” = estado de alienado] é sempre favorável”. Pois, de modo geral, Jesus concebia os indivíduos vivos biologicamente, como indivíduos alienados.
Um breve aparte. Veja aqui embaixo, na descrição deste vídeo, o link do texto referente a presente palestra, em que consta a citação bibliográfica. Esse link te remete ao meu blog Tribo dos Santos, em que você pode pegar outro link, que te possibilita adquirir o livro que trata do presente tema, que é “Enigma do discípulo que Jesus amava – Parte 2: A volta do reprimido”. Ou adquirir outros livros meus. Vamos voltar ao tema em tela.

Para entendermos melhor a referida resposta dada por Jesus, aos seus irmãos incrédulos, convém observarmos como ele definia sua noção de “alienação”. Em outra ocasião, Jesus havia respondido a um dos seus discípulos, que lhe pedira para o esperar, enquanto esse discípulo iria enterra o pai recém falecido. Mas Jesus estava em campanha e tinha pressa, pois iria se deslocar par outra cidade, então, Jesus respondeu:
“Deixa que os ‘mortos’ (indivíduos “morto” no sentido de alienados) enterrem seus ‘mortos’ (indivíduos “morto” no sentido literal desse termo)” (Mt 8, 22).
Agora, podemos voltar à resposta dada por Jesus aos seus irmão incrédulos. Jesus lhes informou que o término do tempo da vida do próprio Jesus, isto é, a sua “morte” (sentido literal), ainda não havia chegado, embora seus irmãos a desejassem.
Mas, quanto aos seus irmãos, Jesus disse que estes já estavam e permaneceriam “mortos”, mas no sentido metafórico desse termo, isto é, “alienados”. Em outros termos, ele disse: “para vós a hora é sempre favorável”. vamos ao texto na íntegra:
“Disse-lhes Jesus: ‘O meu tempo [de ser literalmente morto] ainda não chegou, mas para vós a hora [ do estado de alienação] é sempre favorável” (Jo 7, 6).
Jesus desconfiou dos seus irmãos incrédulos e traiçoeiros, que eles houvessem planejado matá-lo, no caminho de subida, para a festa em Jerusalém. Em razão dessa desconfiança, ele não os acompanhou em direção a Jerusalém, na Judeia. E, para despistá-los, Jesus disse-lhes: “Subi vós para a festa”. Disse-lhes, ainda, que não iria até Jerusalém, mas permaneceria na Galileia, “porque ainda não chegou o meu tempo” (de ser morto). Porém, após seus irmãos incrédulos e traiçoeiros partirem para a Judeia, então, Jesus também partiu, mas às ocultas, isto é, não em público, e sim sem ninguém perceber. Mateus narrou esse episódio:
“Subi vós para a festa; quanto a mim, eu não irei, porque ainda não chegou o meu tempo.’ Dito isto, permaneceu na Galileia. Mas, quando os seus irmãos tinham subido, então subiu também ele à festa, não em público, mas despercebidamente” (Mt 7, 8-10).
É oportuno notar algo a respeito do Apóstolo Tiago, “Menor” “menor no sentido de mais baixo, em relação e em distinção ao Tiago Maior (mais alto), irmão de João, ambos os filhos de Zebedeu. Tiago Menor também era da parentela de Jesus e se referiam a ele como “o irmão do Senhor”, o Justo, etc. Ele e Judas Tadeu não era como os demais irmãos de Jesus, incrédulos e traiçoeiros. Bem ao contrário, Tiago Maior e Judas Tadeu creram em Jesus, e também se “descrucificaram” do grupo familiar, que eles e Jesus integravam, e passaram a integrar ao grupo dos discípulos de Jesus (cf. Tg 1, 1; 2, 1).
Jesus incumbiu o Tiago Menor, da importantíssima missão de coordenar os demais genuínos Apóstolos, no exercício do modelo servo de liderança, no movimento em rede descentralizada de comunidades igualitárias, libertárias, fraternais, e radicalmente pacifistas, conforme Tomé testemunhou: [O Evangelho de Tomé…., item 12]
“Os discípulos disseram a Jesus: Sabemos que nos deixarás; quem dentre nós será o maior? Respondeu-lhes Jesus: No lugar em que estiverdes, seguireis a Tiago, o Justo: ele é que está a par das coisas do céu e da terra”. (O Evangelho de Tomé, item n° 12)
Voltemos com o nosso foco, para a libertação do indivíduo, do estado de “crucificado”, no grupo social. A “descrucificação” consiste, entretanto, num procedimento revolucionário radical. O qual pode gerar divisões e oposições, entre os diferentes membros do mesmo grupo social, conforme demonstramos anteriormente. Cujo exemplo foi o caso da “descrucificação” de Jesus, com referência ao seu grupo social familiar. Nessa direção, referindo-se ao grupo familiar, disse Jesus: “Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa”.
Pois, no curso desse procedimento revolucionário radical, o indivíduo tende, por um lado, a se indispor, mesmo atuando pacificamente, com os demais membros renitentes, no interior de cada grupo, e por outro lado, esse nosso indivíduo tende a sofrer todo tipo de coação e discriminação desses membros renitentes. Os quais são instigados pelos membros do bloco histórico, nessas ações coercitivas e discriminadoras.
A estratégia de libertação ou “descrucificação” praticada, ensinada e recomendada por Jesus, na verdade consiste num instrumento de luta por libertação, tanto do coercitivo grupo moldado pelo bloco histórico como da ação coercitiva exercida, indiretamente, por estes, através desses grupos coercitivos. Os quais são moldados por tal bloco. Jesus representou esse instrumento de luta revolucionário, na figura da ESPADA. Nessa direção, Jesus proclamou que não veio trazer a “paz” covarde, alienada e subserviente daqueles acomodados, que ele considera indignos, e aos quais se dirige dizendo: “quem não toma a sua CRUZ e não me segue, não é digno de mim”. Vamos a integra do testo, em que o Jesus Histórico emprega, claramente, o símbolo “espada”, enquanto instrumento de luta voltado para o indivíduo, que queira se libertar dos próprios grupos sociais coercitivos:
“Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas A ESPADA. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim.Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim. Quem não toma a sua CRUZ e não me segue, não é digno de mim. Aquele que tentar salvar a sua vida, a perderá. Aquele que a perder por minha causa, a achará” (Mt 10, 34-39).
A força impactante dessa imagem ideal era respaldada pelos evangelhos e respectiva prática dos genuínos Apóstolos e demais seguidores de Jesus: João, Mateus, Felipe, Tomé, Maria Madalena e outros. Assim, a força da marca registrada por Jesus Histórico, a “espada”, então se propagava rapidamente.
A estratégia de libertação do indivíduo crucificado em seus grupos sociais específicos, na verdade pode ser entendida melhor, através da assemelhada estratégia de atuação política proposta por Foucault e chamada de intelectual específico, em oposição ao intelectual “universal”. A atuação do intelectual específico é verdadeiramente eficaz e libertadora, ao contrário da ação política do intelectual “universal”. O qual pode atuar, seja pela via “pacífica” isto é, “democracia” (corruptocrcia), seja pela via revolucionária do intelectual universal, e mesmo “orgânica”, quando esta for voltada para preparar a revolução violenta.
Por esta ótica, Foucault enquanto filósofo ativista e libertário poderia parafrasear Jesus: “Toma as suas especificidades sociais e siga-me”. Veremos posteriormente, mais analogias entre a noção de “espada de descrucificação” em Jesus, e, a de intelectual específico em Foucault.