O quarto dia da criação ST/VE: divisão e oposição social do trabalho agrícola (Caim = Lua) e pastoril (Abel = Sol)

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Livro Teoria da História (Art. 24, 2.5., p. 161-171) www.tribodossantos.com.br

    O elaborador da Teoria da História subdivide esta teoria, em duas grandes partes: Sistematização Teórica, e, Verificação Empírica. Neste artigo, vamos abordar alguns aspectos pertinentes a essas duas grandes partes. Na Verificação Empírica, o referido elaborador concebe, resumidamente, o estado social precedente à gênese da divisão social do trabalho agrícola e pastoril, pelo prisma do pleno estabelecimento da divisão social do trabalho material e intelectual. Estabelecimento este caracterizado já pela hegemonia patriarcal (o primeiro Adão, cf. Gn 3, 29) sobre as “mulheres” (forças de trabalho). Observem que o referido autor representa as forças de trabalho, através do símbolo “mulher”. A Teoria da História emprega a noção de “genealogia” como metáfora de sucessivas e encadeadas gêneses de fenômenos sócio-históricos, mas tendo a divisão social do trabalho como unidade de mudança, e também como instituição estrutural dominante. Nessa metáfora, “Adão” e sua “mulhercooperam entre si. Assim, eles formam um casal, que gera dois “filhos”, isto é, dois fenômenos sociais decorrentes dessa “união” (cooperação).

    A hegemonia patriarcal (o primeiro Adão, cf. Gn 3, 29) implica a dominação exercida por determinados homens (regime patriarcal: ideólogos aliados às lideranças políticas e econômicas: os querubins) sobre os segmentos trabalhadores em geral. Neste contexto, “Adão conheceu sua mulher”, ou seja, ocorrera grande crescimento populacional, que foi favorecido pelo surgimento da agricultura. Assim, os segmentos trabalhadores geraram, no âmbito do trabalho produtivo agrícola, um “filho” (fenômeno social decorrente), “Caim”, isto é, a propriedade privada. O termo “Caim” empregado pelo autor, assemelha-se ao termo qana, que significa “adquirir”.[1] O termo “Caim” recebe o atributo de “lavrador”. Com esses dois artifícios, o elaborador da Teoria da História informa que o estado social anterior (“Adão” explorando os segmentos trabalhadores, segundo a divisão social do trabalho material e intelectual) deu gênese à propriedade privada no campo, isto é, no âmbito em que se exerce o trabalho agrícola. Mais precisamente, deu gênese, de um lado, ao estrato social constituído de proprietários agrícolas, e de outro lado, aos agricultores sem terra e/ou escravos. Neste sentido, vejamos (Gn 4, 1):

    “Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim (o grifo é nosso), e disse: ‘Possuí um homem com a ajuda do Senhor’. E deu em seguida à luz Abel, irmão de Caim. Abel tornou-se pastor e Caim lavrador (o grifo é nosso)”.

    No texto acima, o autor mostra, que “o estado social precedente” (divisão social do trabalho material e intelectual) à gênese da propriedade privada e ao significativo aumento populacional engendrou, também, no campo, logo a seguir, o trabalho pastoril independente dos proprietários agrícolas. Este trabalho é representado no termo “Abel”: “E deu em seguida à luz Abel, irmão de Caim. Abel tornou-se pastor…” A diametral oposição que ocorre nessa fase inicial da divisão social do trabalho agrícola e pastoril, consiste no seguinte fato. O trabalho agrícola condicionado pela divisão social do trabalho material e intelectual, assim tende a engendrar, por um lado, a propriedade privada no campo, e por outro lado, uma forma de resistência à tal propriedade privada. Resistência esta representada por aqueles que se dedicam, prioritariamente, ao trabalho pastoril independente. Esta modalidade de trabalho consiste num fator estrutural, que representa, portanto, uma forma de resistência tanto à divisão social do trabalho material e intelectual como à propriedade privada em geral, inclusive a agrícola.

    Evans-Pritchard, E. E. mostra, em seu livro “Os Nuer”, diversos aspectos peculiares à comunidade que exerce, prioritariamente, o trabalho pastoril. Aspectos estes que demonstram ser o trabalho pastoril, um fator estrutural que propicia, ao povo que nele se dedica prioritariamente, certa independência política, econômica e cultural, com relação tanto a outros povos pastoris como aos povos cujo trabalho prioritário é o agrícola. Enfim, propicia independência e resistência tanto à divisão social do trabalho material e intelectual como em relação à propriedade privada em geral. E, em particular, em resistência à propriedade agrícola, cujos detentores atuam no sentido de avançar com a propriedade privada sobre a atividade pastoril. Vejamos o referido autor:

    “Não se pode tratar as relações as relações econômicas dos Nuer em si mesmas, pois elas sempre formam parte de relacionamentos sociais diretos de tipo geral. Assim, a divisão do trabalho (o grifo é nosso) é parte dos relacionamentos gerais, entre pessoas de sexos diferentes e de diferentes idades, entre conjugues, entre pais e filhos (…), e assim por diante. A pessoa que quer um objeto e a pessoa que o faz sempre pertencem à mesma comunidade local e fazem o negócio entre si, não havendo intercâmbio de objetos ou de serviços através de terceira pessoa (o grifo é nosso), e sempre há entre elas um relacionamento genérico de alguma espécie, e suas relações econômicas – se é que podem ser chamadas assim – devem estar conformes a esse padrão geral de comportamento. Há pequenos desníveis de riqueza e nenhum privilégio de classe. Uma pessoa não adquire mais objetos de que pode usar (…) Deve-se também reconhecer que a pesca, a caça, cuidar do rebanho e as demais atividades que descrevi são sempre, num certo sentido, coletivas”. (p. 103);[2]

    “Os Nuer não vendem sua força de trabalho” (grifo é nosso). (p. 101);

    “Entre as tribos Nuer não há organização comum ou administração central e, daí, não há qualquer unidade política a que possamos nos referir como formando uma nação”. (p. 136);[3]

    “Em sentido estrito, os Nuer não têm lei”. (p. 173);[4]

    “Satisfeitos com alguns poucos bens, eles desprezam tudo que se situa além destes; seu orgulho zombeteiro deixa um estrangeiro espantado. Dependentes uns dos outros, são leais e generosos para seus parentes (…) As qualidades mencionadas – coragem, generosidade, paciência, orgulho, lealdade, teimosia e independência – são valores que os próprios nuer exaltam, e esses valores mostram-se muito adequados para o modo de vida simples que levam e para o conjunto simples de relações sociais que geram (o grifo é nosso)”. (p. 102);[5]

    “Condições do meio ambiente, bem como necessidade de cereais a fim de suplementar a dieta de leite, impedem que os nuer sejam totalmente nômades, mas a alimentação baseada no leite permite-lhes levar uma vida errante durante uma parte do ano e lhes dá mobilidade e capacidade evasiva, tal como é mostrado por sua história e como ficou recentemente demonstrado na campanha do governo contra eles. O leite não exige estocagem nem transporte, sendo renovado diariamente (…) Uma vida assim nutre as qualidades do pastor – Coragem, amor à luta e desprezo pela fome e pelas dificuldades – mais do que forma o caráter do camponês (o grifo é nosso). (p. 33).[6]

    É oportuno observar, que o tipo de formação social peculiar ao povo Nuer, produz alguns tipos de “plantas” (papéis sociais) do gênero “árvore” (intelectual). Entre estes destacamos, de um lado, o “chefe da pele de leopardo”, cuja função principal é mediar e conciliar vendetas (p. 182), e de outro lado, os “profetas”, os quais foram focos de oposição ao governo, aos escravistas árabes, e contra tribos vizinhas.[7] Estes fazem profecias, curam esterilidade e doenças.

    A Teoria da História focaliza, em destaque na Verificação Empírica, a divisão social do “trabalho agrícola” (Caim) e “pastoril” (Abel), pela perspectiva da noção de “localização social do pensamento” (Mannheim).[8] A localização social “Caim” gera e reproduz ideólogos-serpente (sacerdotes tipo “árvore da ciência do bem e do mal”). Os quais são representados na expressão “frutos da terra”. E, entre estes, emerge o papel social singular, do tipo protagonizado por Paulo de Tarso o Anticristo, ou seja, um “intelectual ativo” (cf. Max, K. e Engels, F. Ideologia Alemã – E outros escritos. Editora Presença / Martins Fontes, SP, 1965, p. 45-46) dotado de poderoso e sofisticadíssimo discurso e respectivas encenações falseadas. A localização social “Abel” gera intelectuais do tipo “árvore da vida”: os profetas que desenvolvem a categoria de pensamento profético; o maior e singular profeta, o qual sistematiza essa categoria de pensamento; e seus fieis sucessores. Os intelectuais do tipo “árvore da vida” são representados, simbolicamente e tendo a localização social “Abel” como referência, nos “primogênitos do seu rebanho e nas gorduras deles. O maior e singular profeta por excelência é a “árvore da vida”: indivíduo dotado de autoconhecimento, capacidade de autodiligência e de consciência social crítica e transformadora. Ele é, também, um “intelectual ativo”, a exemplo do Jesus Histórico. O qual é dotado de poderoso e sofisticadíssimo discurso e respectivas ações simbólicas, as quais o Mestre denomina “verdade”.

    Podemos traçar analogia entre, de um lado, o Cristo (Jesus) versus o Anticristo (Paulo de Tarso o Anticristo), e de outro lado, a “árvore da vida” versus a “árvore da ciência do bem e do mal”, e considerarmos que esta “árvore” poderia ser nomeada, também, como “árvore antivida”, ou somente “Antivida”. Tanto o conjunto complexo da conduta individual da “Antivida” a exemplo do “Anticristo” (Paulo de Tarso: a “árvore da ciência do bem e do mal”) como o do “Cristo” (Jesus: a “Árvore da vida”) é voltado para a divindade. Mas, somente a “árvore da vida” a exemplo do Cristo agrada o Espírito Santo do Criador, porque ela atua no sentido de realizar a união hipostática entre esse Espírito e os indivíduos e respectivas “águas” (múltiplos e multiformes grupos sociais e respectivas línguas ou interações significativas). Por outro aspecto, ela atua no sentido de romper a interdição, que a “árvore da ciência do bem e do mal” houvera institucionalizado e mantivera entre o Espírito Santo e as “águas”. Vejamos o trecho em tela (Gn 4, 3-8):

    “Passado algum tempo, ofereceu Caim frutos da terra em oblação ao Senhor. Abel, de seu lado, ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso e o seu semblante tornou-se abatido. O Senhor Deus disse-lhe: ‘Por que estás irritado? E por que está abatido o teu semblante? Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-lhe; mas, tu deverás dominá-lo’. Logo que chegaram ao campo, Caim atirou-se sobre seu irmão e matou-o”.

    O conjunto complexo de conduta dualista próprio da “árvore da ciência do bem e do mal” não agrada o Espírito Santo, posto que tal conjunto atua no sentido de produzir e administrar a interdição anteriormente citada. A “árvore da vida” emerge atuando na localização social “Abel”. Ela atua, portanto, exercendo a postura revolucionária, isto é, manifesta resistência contra os ideólogos-serpente hegemônicos. O “Anticristo” ou a “Antivida” emerge atuando como liderança entre os “frutos da terra” (bloco ideológico) da localização social “Caim”. O sentido da sua atuação é de diametral oposição e resistência à “Árvore da vida”, a qual lhe houvera precedido, imediatamente, e empreendido uma revolução libertadora vitoriosa. A “Antivida” combate os profetas e respectivas doutrinas que precedem à “Árvore da vida”. Ele combate a doutrina que esta sistematizou, e os seguidores desta. Neste combate, a “Antivida” emprega, sobretudo, recursos ideológicos, e os seus aliados (lideranças políticas e econômicas) empregam recursos físicos. Enfim, ambos empreendem um processo sistemático de extermínio físico e cultural, com relação aos profetas, a “árvore da vida” e aos sucessores desta. O resultado desse extermínio é que sucede um prolongado período de acentuado declínio cultural, a exemplo da cultura religiosa inaugurada pela igreja criada por Paulo de Tarso o Anticristo: a Idade das Trevas que veio com o sucessor do Anticristo, isto é, os teólogos e sacerdotes da Igreja.

    A gênese da divisão social do trabalho agrícola e pastoril e das respectivas e conflitantes categorias de pensamentos está representada, no quarto dia da criação, isto é, da Teoria da História, ou seja, na parte relativa à Sistematização Teórica (Cf. Gn 1, 14-19). O papel social singular do tipo “árvore da ciência do bem e do mal” a exemplo de Paulo de Tarso o Anticristo é ali representado na figura do “luzeiro menor” (lua). Ele exerce a função sócio-histórica de presidir, em tempo muito longo, a fase “tarde”, que é seguida da “noite” (antítese) do processo dialético de produção do conhecimento e respectivas transformações sócio-históricas. O papel singular do tipo “Arvore da vida” a exemplo do Cristo é representado na figura do “luzeiro maior” (Sol). Ele exerce a função sócio-histórica de presidir a fase “dia” (síntese) do processo dialético acima indicado. Notem que é a categoria de pensamento presidida e introduzida pelo “Sol” que apresenta, verdadeiramente, a característica de sistematização do conhecimento, em relação ao pensamento dualístico peculiar à fase “noite” que lhe precedeu, mas que resiste. Os indivíduos se encontram, de modo geral, entre o confronto de ideias estabelecido ente o Sol (árvore da vida) e a Lua (árvore da ciência do bem e do mal).  A “tarde” representa a fase de passagem do “dia” para a “noite”. Ela é a categoria de pensamento resultante do confronto entre o Sol e a lua, caracterizada por reunir, numa amalgama ordinária, de um lado, a categoria de pensamento dualista próprio da fase “trevas”, e de outro lado, a categoria de pensamento atinente à fase “dia” que adentra, nesse “entardecer”, com o seu conteúdo adulterado. Os intelectuais (“árvores”) menos perspicazes, que produzem conhecimentos menos “intensos”, ou seja, que expressam capacidade menor de abstração e de sistematização são representados, simbolicamente, na figura da “estrela”. Vamos ao texto pertinente:

   “Deus disse: ‘Façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos; e resplandeçam no firmamento dos céus para iluminar a terra‘. E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite; e fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para que iluminassem a terra, presidissem ao dia e à noite, e separassem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quarto dia (os grifos em negrito são nossos)”. (Gn 1, 14-19).

    Acima afirmamos que o autor da Teoria da História focalizara a divisão e oposição do trabalho agrícola (Caim) e pastoril (Abel), pelo prisma da localização social do pensamento voltado para o Espírito Santo do Criador. Esta nossa afirmação é confirmada pelo próprio autor em questão. Ele mostrara a emergência do intelectual tipo “árvore da vida” e respectiva categoria de pensamento. Emergência esta que ocorrera na localização social pastoril (Abel), quando a humanidade vivia, exclusivamente, ainda no estágio do campo, e quando “Abel” ainda mantinha sua independência e resistência, com relação ao “Caim”. Mas, esse quadro sofreu alteração, após “Caim” (proprietários agrícolas) haver “matado”, isto é, estendido, através de sua força ideológica acompanhada de violência física, sua prática de propriedade privada sobre o trabalho pastoril. Pois, assim, “Caim” eliminara as citadas independência e resistência. Ou seja, a emergência de profetas e da respectiva categoria de pensamento deixara de ocorrer a partir de então. Isto se estendeu por longo tempo, que perpassa o período correspondente à formação e o desenvolvimento inicial das cidades de uma mesma grande macro-região. Após esse longo tempo e respectivo contesto sócio-histórico, o papel social e respectiva produção da categoria de pensamento profético ou tipo “árvore da vida” voltara a emergir, com as mesmas características, ou seja, voltados para religar os indivíduos ao Espírito Santo (consciência social masculina ou Pai) do Criador (Trabalho Natura-Social). A volta da “Árvore da vida” e da respectiva categoria de pensamento ocorreriam, então, no âmbito citadino, mas com o advento da complexidade de várias cidades e da emergência da primeira escala imperial de expansão do grande mercado (Set), e sobretudo a partir da segunda e subsequente escala imperial (Enos). Neste sentido, vejamos (Gn 4, 25-26):

    “Adão conheceu outra vez sua mulher, e esta deu à luz um filho ao qual pôs o nome Set, dizendo: ‘Deus deu-me uma posteridade para substituir Abel, que Caim matou’. Set teve também um filho, que chamou Enos. E o nome do Senhor começou a ser invocado a partir de então (os grifos em negrito são nossos)”.

    Jesus era conhecedor, profundo, acerca da Teoria da História. Assim, ele se refere ao intelectual tipo ideólogo sacerdote (escribas e fariseus), identificando-o como sucessor da “serpente” (indivíduo dotado de discurso poderosamente sedutor, falseado e alienante, com o qual seduzira “Eva”), E, como tendo assassinado “Abel” (Mt 23, 29-35):

    “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas (o grifo e nosso), que edificais os túmulos dos profetas e enfeitais os sepulcros dos justos e dizeis: ‘se estivéssemos vivos nos dias dos nossos pais, não teríamos sido cúmplices deles no derramar o sangue dos profetas’. Com isto testificais, contra vós, que sois filhos daqueles que mataram os profetas (o grifo é nosso). Completai, pois, a medida dos vossos pais! Serpentes! Raça de víboras! (o grifo é nosso) Como haveis de escapar do julgamento da geena? Por isto vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis, a outros açoitareis em vossas sinagogas e perseguirei de cidade em cidade. E assim cairá sobre vós todo o sangue dos justos derramado sobre a terra, desde o sangue do inocente Abel (o grifo é nosso) até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo: tudo isto sobrevirá a esta geração!

    O autor da Teoria da História focalizou mais alguns aspectos relativos ao período sócio-histórico, no qual “Caim” houvera “matado” “Abel”. Ou seja, ele focalizou aspectos relativos ao fato de “Caim” haver estendido a divisão social do trabalho material e intelectual, e a propriedade privada ao âmbito do trabalho pastoril. O referido autor mostrou aspectos pertinentes ao fato dos proprietários agrícolas (Caim) haverem se transformado em proprietários agrícola-pastoril, e algumas consequências decorrentes desta transformação. Não cabe explicarmos, aqui, detalhadamente, todos esses aspectos. Basta observarmos que a partir dessa transformação, o conjunto dos grupos sociais que exerce a função de centro diretor (os querubins) da divisão social do trabalho material e intelectual, tomará rumo à gradual criação da cidade. Grupo este liderado e tendo, então, como entro de poder econômico e político a propriedade privada agrícola (“Caim”). O qual “será maldito e expulso da terra, que abriu sua boca para beber de tuas mãos o sangue de teu irmão” (Gn 4, 11). Enfim, o referido centro diretor “sairá” do campo e estender-se-á no sentido da criação da cidade, onde se estabelecerá. Antes, porém, ele passará pelo estágio de “Nod” (Cf. Gn 4, 16), isto é, o estágio de “aldeia” fortificada, estágio este precursor da cidade.[9]

[1].  Cf. a explicação fornecida pelo exegeta na Bíblia de Jerusalém, p. 52, referente ao Gn 1, 4.

[2] Evans-pritchard, E., E. Os Nuer, p.103.

[3] Idem, p. 136.

[4] Idem, p.173.

[5] Idem, p.102.

[6] Idem, p. 33.

[7] Idem, p. 182.

[8] Cf. Mannheim, K. Ideologia e Utopia, p. 29-33. A noção de “localização social do pensamento” foi mais bem estabelecida pelo autor em tela, e consiste na tese principal da Sociologia do Conhecimento: cada categoria de pensamento é formulada não por indivíduo isolado, mas pelo grupo social em que este esteja inserido, e no contexto de grupos sociais agindo uns contra os outros.

[9] Cf. Schneider, W. De Babilônia a Brasília, p. 19.