O segundo dia da criação ST: o nascimento da linguagem

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Livro: Teoria da História  (Art. 42, 3.8., p.278-283) www.tribodossantos.com.br 

   O elaborador da Teoria da História subdividiu-a em duas grandes perspectivas sócio-históricas, que chamamos de Sistematização Teórica (cf. Gn 1, 1-2, 4-a) e Verificação Empírica (cf. Gn 2, 4-b-8, 18). Ele concebe que no segundo dia da criação “ST” (Sistematização Teórica), o Trabalho Natura-Social desenvolveu a linguagem (firmamento dos céus) entre os grupos de indivíduos. Linguagem esta que gerou as elementares estruturas sociais permanentes, que consistem na diferenciação e na estratificação social. Em outros termos, a linguagem se desenvolveu entre as “águas” (múltiplos e multiformes grupos sociais) e “firmou” ou fixou a separação (diferenciação social horizontal) umas das outras, e ainda desenvolveu a estratificação social, ou seja, “separou as águas que estão debaixo do “firmamento” (linguagem) daquelas que estão por cima” . Vejamos o texto em tela, na sua íntegra (Gn 1, 6-8):

   “Deus disse: ‘Faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele umas das outras‘. Deus fez o firmamento e separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. E assim se fez. Deus chamou ao firmamento CÉUS. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o segundo dia (os grifos em negrito são nossos)

 O significado do signo “águas”  nos foi dado pelo Mestre, para entendermos todo o trecho (perícope) que os exegetas classificaram como sendo o capítulo dezessete do livro Apocalipse (Cf. Ap 18, 15):

E disse-me: as águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas”.

O signo “águas significa, portanto, “múltiplos e multiformes grupos sociais e respectivas trocas sociais e simbólicas” (que acompanham as trocas materiais)

   Ainda no estágio que convencionamos chamar de Paleolítico Inferior, isto é, para além de 30 000 anos a.C., o Trabalho Natura-Social exercido em função da sobrevivência da espécie, aprimorou a cooperação entre os indivíduos, e a vida grupal. Cooperação esta necessária para a satisfação das necessidades básica e superação das adversidades (na atividade predatória, nas migrações, na defesa do ataque de outros agrupamentos ou de animais ferozes, etc.).

   O Trabalho Natura-Social em cooperação desenvolveu, concomitantemente, a complexão do corpo físico do indivíduo, e assim desenvolveu o aparelho fonador, a fala e a palavra. Em outros termos, na Verificação Empírica, o autor diz: “o Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Cf Gn 2, 7). O Trabalho Natura-Social em cooperação e propiciou uma melhor elaboração das representações e trocas simbólicas (que ainda eram elementares).[1] Assim, o Trabalho Natura-Social desenvolveu a linguagem, que é representada metaforicamente no signo “firmamento”, ou “céus”. Ou seja, o veículo sonoro que expressa o campo intersubjetivo dos indivíduos condicionados pela cooperação, pela vida grupal. Pois, diversos fatores inerentes ao campo intersubjetivo ou “céus” (sentimentos, valores, normas, processo intelectual do pensamento, linhas lógicas de raciocínio, configuração das trocas simbólicas ou significativas, volição, intencionalidade, memória, conhecimentos, etc.) colaboraram entre si para a complexa elaboração da linguagem, no processo do pensamento, e sua verbalização (condutor ou veículo sonoro de transmissão de significados).

   A linguagem permitiu a cada indivíduo socializado, a possibilidade de se expressar e comunicar, de modo mais sofisticado que antes, aos companheiros. E, transmitir às gerações posteriores, o quê se havia aprendido. Os indivíduos inseridos no mesmo grupo e referido código linguístico, e que tivessem assimilado este código poderiam emitir mensagens, e o receptor poderia decifrar o código e entender as mensagens transmitidas, efetivando-se assim o aprimoramento da comunicação intersubjetiva.

   O fenômeno social da linguagem consiste em um entre diferentes outros aspectos do campo subjetivo ou céus. Mas, o elaborador da Teoria da História identificou o campo céus com a linguagem e a representou simbolicamente no signo “firmamento” (Cf. Gn 1, 8), visando enfatizar a grande dimensão da importância desse fenômeno social, com relação à formação, firmação e vinculação dos agrupamentos sociais, no que tange à diferenciação e estratificação. Essa grande dimensão pode se esclarecida por Sorokin:[2]

   “A linguagem é o meio mais importante de comunicação e de interação significativa. É, portanto, a condição mais indispensável para a existência para qualquer grupo sócio-cultural. Nesse sentido, converte-se num dos valores mais significativos do indivíduo e num dos vínculos mais fortes de união ou desunião”.

   Enfim, nos primórdios da humanidade, o Trabalho Natura-Social e a inerente cooperação eram exercidos por diferentes grupos de famílias. Os quais desenvolveram diferentes linguagens e respectivas identidades culturais. Assim, a linguagem falada (veículo sonoro) viabilizou a comunicação intelectual ou interação significativa que se realiza no campo intersubjetivo ou “céus”. Neste sentido, a linguagem foi e ainda é o principal fator que determina a diferenciação social, ou seja, a separação e o “firmamento” ou fixação de diferentes formas de diferenciação sociais.

   Por um aspecto, a linguagem ou “céus” foi e ainda é o principal fator, também, que determina a separação e o firmamento ou fixação estratificada entre grupos sociais. Estratificação social esta que surgira, possivelmente, no período chamado Paleolítico Superior, que durou cerca de duzentos séculos, ou seja, aproximadamente de 30 000 a 10 000 a.C.[3] Segundo Sorokin, “Os estratos reais que constituem um grupo, assim como os grupos com respeito uns aos outros, são classificados como superiores e inferiores, mais altos e mais baixos, controladores e controlados, dominadores e subordinados, privilegiados e desprivilegiados.[4]

   Originalmente, numa formação social simples e comunal, o ideólogo-serpente (árvore da ciência do bem e do mal) do grupo, isto é, o feiticeiro, pajé, xamã, etc. se manifesta como um elemento isolado, como também o chefe político (árvore da vida) isto é, o cacique, morubixaba, etc. Entretanto, o ideólogo (feiticeiro) era o tipo de indivíduo que atuava dentro do seu próprio grupo, no sentido de se estabelecer e/ou se manter numa posição superior, mais alta, controladora, dominadora e privilegiada, utilizando, de certo modo, basicamente a linguagem, para alcançar esses objetivos. Eles faziam o uso sofisticado da linguagem ou “céus”, isto é, no sentido de discurso poderosamente sedutor e falseado, para se eximirem do trabalho material, que no período Paleolítico Superior ainda era apenas predatório, enquanto a vida era nômade.

   O campo “céus” ou “firmamento”, ou seja, o campo da comunicação e interação significativa veiculado sonoramente através da linguagem, então, apresentou-se como um “divisor de águas”. Ele foi maliciosamente operado por ideólogos-serpente (feiticeiros), para “separar as águas que estão de baixo do firmamento” (a massa popular e de senso comum (erva), que falava uma linguagem simples e distinta daquela utilizada sofisticadamente pelo feiticeiro), “daquelas que estão por cima” (o feiticeiro, o líder político e tradicional seguidor dos passos ou sentido dado por àquele, e os auxiliares de ambos). Pois, o ideólogo (feiticeiro do grupo) aplicava essa modalidade de linguagem, visando enganar e submeter persuasivamente os demais indivíduos membros do grupo. Neste sentido, o feiticeiro do grupo foi, certamente, quem formulou e aplicou um complicado sistema de magia simpática, que se apresentou no homem de Cro-Magnon, que existiu nesse período. A magia simpática se baseia no princípio de que, se imitarmos um resultado desejado, produziremos automaticamente esse resultado. Pinturas representando a captura de animais na caça, encontradas em cavernas onde o homem de Cro-magnon habitou, possivelmente foram feitas por feiticeiros (ideólogos-serpente), em conformidade com a magia simpática.[5] Os ideólogos obtinham poder e privilégios, também desenvolvendo e dirigindo os mecanismos totêmicos de moldagem de conduta, controle e mobilização social. Neste sentido, eles subdividiam o mesmo grupo em duas grandes fratrias, e às vezes outras menores, e realizavam rituais conflitivos, mantendo assim o controle e a unidade do grupo. Diversas estratégias ideológicas eram aplicadas pelos ideólogos para se eximirem do trabalho material, enquanto mantinham os demais membros do grupo engajados nesta modalidade de trabalho, e recebendo destes o seu sustento.

   À medida que o enganador (ideólogo feiticeiro) ia sendo bem sucedido na sua empreitada, recorria também ao uso de diferentes formas de coerção, sobretudo física, sendo nisto auxiliado pelo líder político do grupo, que seguira os mesmos passos dados pelo ideólogo. Desse modo, desenvolveu-se a hierarquização ou estratificação social, que correspondeu a uma elementar forma de divisão social do trabalho material e intelectual, desenvolvida no período Paleolítico Superior.

   A estratificação social teve início, também, através de grupo social belicoso, que se identificava, psicossocial e culturalmente, com a própria linguagem que utilizava e afirmava, enquanto se distinguia e negava a linguagem diferente da sua e o outro grupo que a fala. Assim, linguagens distintas se apresentavam como importantes elementos da interação antagônica, entre os respectivos grupos que as utilizavam, sobretudo, porque o ideólogo a utiliza, de modo sedutor e falseado, para insuflar de belicosidade o chefe e os demais membros do grupo. Desse modo, o ideólogo e o chefe político que o segue, produzem e administram a violência social, como meio de domínio, moldagem de conduta individual e coletiva, controle e mobilização social. O grupo belicoso atuava, assim, no sentido de estabelecer antagonismo e submeter fisicamente outro ou mais grupos, que falavam linguagens diferentes da sua, impondo a estes sua linguagem e respectiva cultura, valores e normas. Neste contexto, certamente alguns grupos eram mais belicosos que outros, e diferentes grupos belicosos concorriam entre si para a obtenção de hegemonia. Enfim, o grupo belicoso se constituía num estrato social superior mais alto, controlador e privilegiado em relação aos grupos que ele dominou e impôs sua linguagem.

[1] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Oriental, p. 10.

[2] Sorokin, P. A. Sociologia, Cultura e Personalidade, p. 313. No mesmo sentido, cf. idem, p. 80.

[3] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Orienta,l p. 10-12.

[4] Sorokin, P. A. Sociologia, Cultura e Personalidade, p. 432.

[5] Cf. Burns, E. M. Idem, p. 12.