Primeira sentença (a sobrevivência do corpo subjetivo): é prioridade cuidar do corpo subjetivo, e consequentemente do corpo objetivo

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Trecho do livro “O Templo – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus”: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-%20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

Na primeira sentença, o Filho do Homem recomendou ao indivíduo, “não ajuntar tesouros”. Ou seja, não cultivar, indevida e demasiadamente em seu campo ou corpo subjetivo, valores “na terra”, isto é, voltados para as coisas do campo objetivo da sua conduta. “Terra” esta “onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furam e roubam”, ou seja, em que o desgaste físico e orgânico consome-as com o tempo, e os exploradores e ladrões podem se apropriar e/ou submetê-las.[1] Nestes termos, o Mestre ressalta que não convém ao indivíduo manifestar a existência subjetiva deste, valorizando, em demasia (ajuntando), as coisas do seu campo objetivo (aspecto orgânico do corpo, suas ações, posses, etc.). Pois, o corpo orgânico morre e se decompõe (a ferrugem e as traças corroem, etc.), então, conforme o caso: o indivíduo perde seus domínios, propriedades, posses, etc.; ou se livrará da escravidão, submissão física, exploração econômica e coisas do gênero.

Ainda nesta primeira sentença, o Mestre recomendou ao indivíduo “ajuntai para vós tesouros no céu”. Ou seja, cultivar (ajuntar), sistematicamente, o fator valorativo (subtende escolher e cultivar os valores ou “tesouros” condicionados pelos sentimentos de ordem amorosa) e os demais fatores assim condicionados, no “céu. Isto é, no campo ou corpo subjetivo da conduta individual, ou no “campo “espiritual (quando esta expressão tiver o sentido de campo subjetivo); e nas interações intersubjetivas (viabilizadas através das trocas significativas ou simbólicas, etc.).[2] Pois, o campo subjetivo estando assim bem cultivado, consiste no âmbito individual em que “não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furam nem roubam”. Ou seja, ele não é passível de deterioração física, orgânica, e tão pouco os exploradores e ladrões poderão se apropriar dele e submetê-lo. Nestes termos, o Mestre ressalva o fato do campo ou “corpo” subjetivo (sentimentos, valores,cognição, vontade, propósitos, consciência, etc.) sobreviver, ao advento da morte do campo objetivo (aspecto orgânico do corpo do indivíduo).[3]

O campo “céu” (subjetivo ou “metafísico”) assim bem cultivado, motivará, também, o campo objetivo da conduta (terra). Então, o indivíduo desenvolve autoconhecimento, capacidade de autodiligência e consciência social crítica e transformadora. Ou seja, ele passa a ser sujeito controlador do próprio “céu” (corpo subjetivo), e tem a possibilidade de impedir que ideólogos, políticos, empresários ou qualquer pessoa, ou situação interfiram no seu campo “céu”, de modo contrário ao seu critério de valores. Assim também, estes elementos não interfeririam no seu campo “terra” (campo objetivo).

O Filho do Homem justificou a recomendação supracitada, afirmando que “onde está o teu tesouro (fator valorativo), lá também está teu coração (fator sentimental)” (Mt 6, 21). Nestes termos, ele ensina que o fator sentimental ou afetivo (coração) do campo subjetivo (céu) é determinante, e condiciona, no campo “céu”, em primeiro lugar, o fator valorativo (tesouro), e não o inverso. Já vimos que a ciência moderna ratifica,com Piaget, a condição determinante dos sentimentos sobre os valores. Neste sentido, o Mestre exalta como excelência máxima, precisamente escolher e cultivar, em todo o campo “céu” ou subjetivo do indivíduo, a ordem amorosa de sentimentos, e na sua máxima intensidade. Cultivo esse voltado, simultaneamente, tanto para com o Senhor Deus Pai, como para com o próximo: “Amarás o teu Deus de todo teu coração (…) Amarás teu próximo como a ti mesmo” (cf. Mt 22, 36-b-39-b).

O Filho de Deus propôs a máxima acima indicada, em contraposição diametral à ideologia do meio-termo de Aristóteles, que exalta a escolha de emoções e ações medianas.[4] Ideologia esta que tinha, na época do Jesus histórico, muitos adeptos entre as elites hegemônicas israelitas.

Enfim, o Mestre recomendou ao indivíduo, prestar muita atenção e tomar consciência acerca desse seu campo subjetivo de conduta, para aprender a identificar a natureza dos diferentes fatores subjetivos, as variações pertinentes a cada um destes fatores, e as articulações existentes entre eles. E, cuidar e cultivar bem os seus valores (tesouros). Por dois motivos principais. Em primeiro lugar, porque no interior do campo subjetivo ou “céu”, o fator afetivo ou sentimental (coração) é determinante, em relação aos demais fatores. Ele condiciona, logo de início, os valores (tesouro). Depois, ele condiciona o fator cognitivo, a volição e os propósitos. Em segundo lugar, porque o conjunto formado pelos fatores do campo “céu” (subjetivo), assim articulados entre si, motiva o campo “terra” (objetivo) da conduta desse mesmo indivíduo.

 

[1] . Cf. http://tribodossantos.blogspot.com.br/2012/10/o-corpo-todo-individuo-como-totalidade.html

[2] . A palavra “espírito” é empregada, por vezes, no sentido de “atividade exercida no campo subjetivo” ou “pensamento” teórico (cf. Kosik, K. Dialética do Concreto, p. 19, 26, 34, 63; Mt 10, 28; Jo 6, 63).

[3] . A terminologia grega impregnada do dualismo alma-corpo de origem platônica aparece em Mt 10, 28. O redator que a empregou, na versão do grego popular (koiné), teve, certamente, a intenção de facilitar o entendimento da “novidade” ensinada pelo Filho do Homem: é a noção de campo subjetivo concebido como a parte o “corpo todo” do indivíduo, que se insere na dimensão “metasubjetiva” ou metafísica; não a noção imaginária e vazia de espírito ou “alma”, no sentido platônico. Mas, estas noções vazias poderiam ser comparadas com aquela, para o melhor entendimento acerca da relação entre o campo subjetivo e “metasubjetivo” e a dimensão metafísica ou “espiritual”. Novidade essa que estava sendo divulgada a todos os povos que viviam ao redor do Mediterrâneo. Os quais falavam essa língua “comercial” (koiné), além de suas próprias línguas (cf. Bíblia Sagrada. Tradução do P. Figueiredo, A. P. Com o “Dicionário Prático da cultura católica, bíblica e geral: “koiné”, p. 154). O original do livro de Mateus estava escrito em hebraico e/ou aramaico, mas se perdeu (ou foi destruído pelos padres) (cf. Bíblia Sagrada. Tradução do P. Figueiredo, A. P. Dicionário bíblico, p. 170; Bíblia de Jerusalém, p. 1690). Assim, não temos como compará-lo com a versão grega, para verificarmos se Mateus empregara, no original, a terminologia e respectivo dualismo grego. É improvável que o tenha feito. Ademais, já fazia muito tempo, que a filosofia grega havia se infiltrado na identidade cultural judaica. Neste sentido, a tradução (versão dos Setenta sábios de Alexandria) ocorrida nos séculos terceiro e segundo a.C., do AT em hebraico para o grego, contribuíra para a assimilação de palavras gregas, que não correspondiam plenamente à noção contida na palavra original em hebraico. (cf. Bíblia de Jerusalém, p. 21). Por exemplo, a palavra hebraica “nefesh” foi traduzida por “alma”. Neste sentido Rubio esclarece: “Só que o termo “alma”, no mundo ocidental a começar pelos gregos, raramente significa a mesma coisa que nefesh. Convém, pois, precisar o significado antropológico básico mais importante no Antigo Testamento. Muitas leituras “dualistas” da Sagrada Escritura originaram-se em traduções inexatas” (Rubio, A. G. Unidade na pluralidade – O ser humano à luz da fé e da reflexão cristã, p. 320). Situação análoga (terminologia grega impregnada do dualismo espírito-corpo) aparece em Jo 6, 63. A causa disto foi, certamente, semelhante ao que ocorreu no trecho de Mateus (Mt 10, 28), conforme esclarecemos acima. João diz “espírito” no lugar de ruah (sopro de vida, movimento rarefeito, enfim, “campo ou corpo subjetivo”, a partir do qual o indivíduo pode desenvolver “vida”, isto é autoconhecimento, capacidade de autodiligência e consciência social crítica e transformadora.

[4]. Aristóteles – Ética a Nicômacos, p. 140-146.

Postado há 24th October 2012 por Francisco Alves Machado