Visão islâmica da volta de Jesus ou A profecia que se cumpre por si mesma

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Vamos mostrar a visão islâmica da Profecia de Jesus, relativa a taça da ira de Deus derramada nas águas do Eufrates, quando ocorreria a volta de Jesus. Podemos rotular o atual empenho dos teólogos e sacerdotes do Estado Islâmico e seus apoiadores e financiadores, segundo a noção de “A profecia que se cumpre por si mesma” ou “a definição da situação”. Vamos explicar.

Os teólogos e sacerdotes islâmicos são chamados de imanes ou Sheik (pregadores do culto islâmico). Eles acreditam em um “hadith” (relatório testemunhal de supostos ditos de Maomé). No qual consta a narrativa de uma batalha, que seria travada, na cidade de Dabiq, entre, de um lado, tropas dos “infiéis personificados nos romanos”, que representam o Ocidente, e do outro lado, as tropas dos “fiéis”, que são os muçulmanos, e que representam o Oriente. Nessa batalha em Dabiq, os fiéis muçulmanos vencerão, então, o Apocalipse começará, com a volta de Jesus. Nessa direção, teólogos muçulmanos têm feito farta divulgação na internet, por exemplo:[1]

“A cidade de Dabiq fica no norte da Síria. Ela é mencionada em um ‘hadith’ (relatórios testemunhal) sobre o Armageddon. ISIS [ou Estado Islâmico] acredita que Dabiq é onde as forças dos muçulmanos [o Oriente] e a dos infiéis [o Ocidente] acabarão por enfrentar um ao outro. Depois, da derrota das forças infiéis [o Ocidente], o apocalipse começará”.

Na realidade, o ISIS está fazendo aquilo que chamamos de “profecia que se cumpres por si mesma” ou “definição da situação”.[2] Segundo terminologia empregada por Merton e atribuída a W. I. Thomas:

“Se a teoria de Thomas e suas implicações fossem mais difundidas, seria maior o número de indivíduos que conheceriam melhor o funcionamento da nossa sociedade… Se os indivíduos definem as situações como reais, elas são reais em suas conseqüências… Os homens reagem não somente aos traços objetivos de uma situação, como também, e às vezes principalmente, no sentido que a situação tem para eles. E, assim que atribuam um sentido à situação, sua conduta conseqüente, e algumas das conseqüências dessa conduta são determinadas pelo sentido atribuído”… A profecia que se cumpre por si mesma é, inicialmente, uma definição falsa da situação que provoca uma nova conduta a qual, por sua vez, converte em verdadeiro o conceito originalmente falso”.

A “definição da situação” ou “profecia”, no caso do ISIS, já preexistia tanto nas escritos islâmicos como nas lendas populares dos muçulmanos. Os teólogos e sacerdotes do ISIS estão tentando, agora, realizá-las, mas dentro dos seus “estritos” limites, e também dentro da estreita versão islâmica, do Apocalipse de Jesus. Isto nada tem a ver com as dimensões da genuína profecia, que consta no Apocalipse de Jesus. Esta se realizará, sim, porque é determinação que vem de Deus, como “revelação de Jesus Cristo, que lhe foi cofiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve” (Ap 1, 1)

No contesto do Apocalipse, a tradição escatológica islâmica acredita que ocorrerá a volta de “Isa” (o nome árabe de Jesus). O qual derrotará um personagem, que essa tradição chama de “Al-dajjal o falso Messias”. No Apocalipse de Jesus, esse personagem corresponde ao Falso Profeta (cf. Ap 16, 13; 19, 20; 20, 10), que Jesus combate e vence. Na mesma direção, outra publicação de exegeta islâmico informa, através da internet:[3]

“A tradição muçulmana acredita que Jesus voltará à terra perto do Dia do Juízo para restaurar a justiça e para derrotar a Al-dajjal ‘o falso messias’, também conhecido como o Anticristo”.

O hadith (relatório testemunhal) que cita a grande batalha entre o Ocidente e o Oriente, e a emergência de Jesus Cristo, na “última hora” ou no final dos tempos é o de número 6924. Esse hadith é rotulado como “Pertencente à turbulência e portentos da Última Hora”. Ele foi coletado por Sahih Muslim, que viveu entre os anos 817 e 874), e que nasceu em uma família persa, em Nishapur (no atual Irã).[4] Consta no hadith n° 6924:

“Abu Huraira relatou o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) dizendo: A Última Hora não viria até que os romanos aterrissariam em al-A’maq ou em Dabiq. Um exército formado pelos melhores (soldados) dos povos da terra naquele tempo virá de Medina (para contra-atacar)… Eles então lutarão… ganhariam e seriam conquistadores de Constantinopla. E como eles estariam ocupados em distribuir os despojos da guerra (entre si) depois de pendurar suas espadas pelas oliveiras, o Satanás gritaria: O Dajjal [que corresponde ao Falso Profeta que Jesus enfrenta, no Apocalipse (cf. Ap 16, 13; 19, 20; 20, 10)] tomou seu lugar entre sua família. Eles iriam então sair, mas seria inútil. E quando eles viessem para a Síria, ele (Dajjal ) iria sair enquanto eles ainda estariam se preparando para a batalha… Certamente, o tempo da oração virá e então Jesus (paz esteja com ele) filho de Maria desceria e os guiaria em oração. Quando o inimigo de Deus o visse, desapareceria assim como o sal se dissolvesse na água e se ele (Jesus) não os confrontasse de todo, mesmo assim se dissolveria completamente, mas Deus os mataria… E mostrou-lhes o seu sangue na sua lança (a lança de Jesus Cristo)”.

É oportuno esclarecer que os relatos escatológicos citados tanto originalmente por Maomé, no Alcorão, como nos diversos “ahadith” (relatórios coletados por supostas testemunhas de ditos de Maomé) consistem em adaptações feita a partir das profecias do Apocalipse de Jesus. Pois, as profecias de Jesus foram feitas cerca de quinhentos anos antes de Maomé.

Maomé e os ahadith ilustraram essas adaptações, pela perspectiva etnocêntrica do seu povo, que valoriza o seu contesto sócio-cultural. Assim, Maomé e os redatores de ahadith fizeram acréscimos de dados pertinente a locais de deslocamento de exércitos (Roma, Síria, Medina, Constantinopla), o local da batalha: al-A’maq ou em Dabiq, e a intervenão de Dajjal [o Falso Profeta que Jesus enfrenta e vence, no livro Apocalipse (cf. Ap 16, 13; 19, 20; 20, 10)]. Eles acrescentaram também outros dados.

Maomé estudou as profecias de Jesus, no livro Apocalipse, e adaptou ao seu contexto sócio-histórico e cultural, o seu entendimento a respeito delas. As profecias de Jesus focalizam, pela perspectiva histórica de muito longa duração, os desdobramentos sócio-históricos, que ocorreriam, a partir da intervenção que ele exercera, no seu contexto sócio-histórico. Desdobramentos esses que focalizam a sua 2ª vinda, num futuro muito distante, e vai mesmo além. Isto é, Jesus focaliza, no tempo do fim, a sua 3ª volta, e o seu casamento perfeito, com o modelo de formação social, que desde o início ele projetou e lutou pela sua concretização, e que representa na figura da “cidade santa, a nova Jerusalém” (Ap 21, 2).

O modelo de formação social simbolizado na “nova ou reformada Jerusalém”, apresenta a natureza libertária, fraternal, radicalmente pacifista, e em núcleos igualitários articulados entre si em rede descentralizada, e sob o modelo servo ( não elitista) de liderança.

O modelo de formação social libertária e igualitária propugnado desde o Jesus Histórico, nada tem a ver nem com o modelo injusto, violento e explorador, que vem vigorando tanto no Ocidente como no Oriente. No Oriente, vem vigorando o modelo injusto, perverso e rigidamente hierarquizado e centralizado de formação social. Cuja direção foi apenas substituída desde os poderosos teólogos e sacerdotes maometanos, aliados aos poderes políticos e econômicos. Na realidade, o califa reúne a direção desses três poderes. No Ocidente, vem ocorrendo algo análogo ao Oriente, com uma única diferença. Ou seja, que são outros tipos de teólogos e sacerdotes e de seus aliados políticos e econômicos, que igualmente vêm explorando, impiedosa e violentamente, os segmentos trabalhadores.

Maomé fez adaptações do Apocalipse, pela perspectiva etnocêntrica do seu contexto sócio-histórico, cultural e configuração espacial, com projeções em tempo eventual (o seu contexto histórico), em tempo médio e também para o futuro da humanidade muito mais distante (“a última hora”; o fim do mundo, o tempo do fim, etc.). Na “última hora”, o seu povo também estaria, de alguma forma, inserido. Outros teólogos posteriores a Maomé também fizeram o mesmo, em seus ahadith (relatórios testemunhais). Pois, assim como Maomé, eles sabiam que desde muito antes dos seus respectivos contextos históricos, e durante estes, e também muito depois, a região do Eufrates em tela (Síria, Iraque e Constantinopla) vem se apresentando como principal corredor comercial, migratório e de disputa entre reinos, entre impérios, enfim, entre o Ocidente e o Oriente.

Enquanto principal corredor comercial, migratório e de disputa violenta entre reinos, entre impérios e entre o Ocidente e o Oriente, a região do Eufrates se encontra, sobretudo agora, no contexto da globalização. Ou melhor, ela se encontra, sobretudo, no contesto em que o grande mercado global Lamec chegou no seu limite de expansão e de complexidade, e já adentrou, desde as décadas de 70-80, na irreversível crise “Noé” de prolongada depressão econômica, e consequentes crises políticas, culturais e sociais agudas.

Maomé e os “escritores” (coletores de relatórios testemunhais) de ahadith realmente “previram”, através do Apocalipse de Jesus, uma batalha de grandes proporções, entre forças do Ocidente, e, do Oriente, nas imediações do rio Eufrates (síria, Iraque, etc.). Mas, baseando-se, sem explicitar claramente, no trecho do Apocalipse, referente a sexta taça da ira do Deus Criador, contendo flagelos a serem derramados no “rio Eufrates”. E também na previsão da subsequente conflagração de guerras na rede global de mercados: a batalha do Grande dia do Deus Dominador ou o Har-Magedon; e ainda na “volta de Jesus” (Eis que venho como ladrão) nesse contexto histórico. Senão, vejamos o que o Apocalipse de Jesus diz:

“O sexto anjo derramou a sua taça sobre o grande rio Eufrates, e secaram-se as suas águas, para que se abrisse caminho aos reis do Oriente. Vi (sair) da boca do Dragão, da boca da fera e da boca do falso profeta, três espíritos imundos semelhantes a rãs; são espíritos de demônios que realizam prodígios, e vão ter com os reis de toda a terra, a fim de reuni-los para a batalha do Grande dia do Deus Dominador. (eis que venho como ladrão)… Eles os reuniram num lugar chamado em hebraico Har-Magedon” (Ap 16, 12).

Quanto ao trecho do Apocalipse que focaliza os “três espíritos imundos semelhantes a rãs” (Ap 16, 13-14). O qual segue, imediatamente, ao trecho que trata da “sexta taça da ira de Deus contendo flagelos e derramada no rio Eufrates” (Ap 16, 12). Consulte a explicação que já fornecemos, e que consta no vídeo-palestra intitulado “Os 3 espíritos imundos do Apocalipse”, que se encontra postado no Youtube.[5]

[1] Wikipédia: Dabiq: https://en.wikipedia.org/wiki/Dabiq_(magazine).
[2] Merton, R. K., em Sociologia – Teoria e Estrutura, Editora Mestre Jou, São Paulo, 1970 p. 515, 517.
[3] Wikipédia: Jesus no Islã: https://en.wikipedia.org/wiki/Jesus_in_Islam
[4] O Livro dos Hadiths de 177 hadith encontrados em ‘The Book Pertencente à turbulência e portentos da Última Hora (Kitab Al-Fitan wa Ashrat As-Sa`ah)’ de Sahih Muslim (http://searchtruth.com/book_display.php?book=041&translator=2&start=0&number=6924). Hadith 6924. A respeito de Sahih Muslim: cf. Wikipédia: https://en.wikipedia.org/wiki/Sahih_Muslim
[5] Cf. Machado, F. A.: vídeo-palestra: “Os três Espíritos Imundos”: https://www.youtube.com/watch?v=haXJbnh9x2c Para consulta esse tema na forma de TEXTO acompanhado de citação bibliográfica, etc.: http://tribodossantos.com.br/2016/03/os-3-espiritos-imundos-do-apocalipse/