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Livro: Teoria da História (Art. 15, 2.2.2., p. 100-109) www.tribodossantos.com.br
Para entendermos a teoria da “árvore frutífera” temos que considerar, previamente, que o elaborador da Teoria da História em apreço, primeiramente concebe o indivíduo como um sujeito estruturado, nos termos de um conjunto complexo de conduta. O qual é constituído de um campo subjetivo e motivador do campo objetivo. O campo subjetivo é constituído de diversos fatores, entre os quais o fator afetivo ou sentimental é determinante e condiciona, de início, o fator valorativo. Assim articulados entre si, esses dois fatores condicionam os demais fatores subjetivos: o processo cognitivo (pensamento, linhas lógicas de raciocínio, inteligibilidade e respectivos conhecimentos produzidos); a vontade; e a intencionalidade.
O campo subjetivo da conduta individual é articulado do modo indicado acima, e motiva o campo objetivo (as ações sociais) desse mesmo indivíduo. Os sentimentos são considerados como que um leque, que num extremo os sentimentos de ordem amorosa podem se apresentar, e no outro extremo, os de ordem odiosa. Os sentimentos de ordem amorosa condicionam valores altruísticos; os de ordem odiosa condicionam os valores egotistas. Entre esses dois extremos, os sentimentos e respectivos valores podem se apresentar segundo suas diferentes nuanças ou gradações. O campo subjetivo do indivíduo pode estar, permanente ou temporariamente (conforme as circunstâncias) sob a predominância de uma dessas gradações. O indivíduo pode ter ou não conhecimento acerca de sua condição de conjunto complexo de conduta, nos termos acima indicados. Ele pode, também, operar ou não de modo autodiligente sobre esse seu conjunto, ao lidar com outros indivíduos.
A noção de “conjunto complexo de conduta” aparece em diversos pontos da doutrina de Jesus, profundo conhecedor da Teoria da Historia. Vejamos alguns desses pontos, nunca entendidos e sempre distorcidos pelos teólogos, exegetas e sacerdotes.
Jesus mostra a íntima conexão que existe, no campo subjetivo da conduta individual, entre, de um lado, o fator determinante básico, que é o fator sentimental, isto é, afetivo, e que ele representa, simbolicamente, na noção “coração”, e de outro lado, o fator que chamamos de valores, e que ele representa, simbolicamente, na noção “tesouro”. Sabemos que a máxima que o Mestre recomenda ao indivíduo é cultivar, intensamente, o sentimento de amor, tanto para com o próximo como para com o Deus Criador (Trabalho Natura-Social) (Cf. Mt 22, 35-40). Ele concebe, portanto, o fator sentimental (coração) como determinante e condicionante do fator valorativo (tesouro), e não o contrario. Assim como, o fator afetivo condiciona os valores, ele condiciona, também, todos os demais fatores subjetivos (cognição, volição e intencionalidade) e, por fim, ele é preponderante no modo como o campo subjetivo motiva, em seu conjunto, o campo objetivo (as ações sociais) da conduta do mesmo indivíduo. Essas noções psicológicas apresentadas por Jesus, já eram admitidas pelos grandes profetas individuais, que o precederam, a exemplo de Isaías (Cf. Is 6,9-10+), o qual Jesus cita em Mt 13, 13-15. A ciência contemporânea admite, também, essas noções.
Jean Piaget concebe a noção de que os sentimentos condicionam os valores e a inteligência e, por fim, a ação. Ele se apóia em P. Janet, Claparède e Lewin, para fundamentar essa noção:[1]
“A conduta, assim concebida em termos de intercâmbios funcionais, implica por si dois aspectos essenciais e intimamente interdependentes: o aspecto afetivo e o cognitivo.
Muito já se debateu sobre as relações entre afetividade e conhecimento. De acordo com P. Janet, é preciso distinguir ‘ação primaria’, ou relação entre o sujeito e o objeto (inteligência, etc.) e ‘ação secundária’, ou reação do sujeito à sua própria ação: esta reação, que constitui os sentimentos elementares, consiste em regulações da ação primária e garante o consumo das energias internas disponíveis. Mais ao lado destas regulações, que determinam afetivamente o energético ou economia interna da conduta, parece-nos necessário reservar um lugar para aquelas que regem sua finalidade ou seus valores, e esses valores caracterizam um intercâmbio energético, ou econômico, com o meio ambiente exterior. De acordo com Claparède, os sentimentos atribuem objetivos à conduta, ao passo que a inteligência restringe-se a fornecer os meios (a ‘técnica’). Existe, porém, uma compreensão de objetivos e meios, e ela chega inclusive a modificar incessantemente a finalidade da ação. Na medida em que o sentimento dirige a conduta ao atribuir valor a seus fins, devemos nos limitar a dizer que ele fornece as energias necessárias para a ação, ao passo que o conhecimento lhe impõe uma estrutura. Daí a solução proposta pela chamada psicologia da forma: a conduta implica um ‘campo total’, abrangendo o sujeito com os objetos, e a dinâmica desse campo constitui os sentimentos (Lewin), enquanto sua estruturação é assegurada pelas percepções, motricidade e inteligência. Adotaremos fórmula análoga, salvo o esclarecimento de que nem os sentimentos, nem as formas cognitivas dependem exclusivamente do ‘campo’ atual, mais também de toda a historia anterior do sujeito ativo. Por conseguinte, diremos apenas que cada conduta implica um aspecto energético ou afetivo, e um aspecto estrutural ou cognitivo, o que engloba de fato os diversos pontos de vista precedentes”.
Jesus concebia, assim como Isaías, a noção de que o fator afetivo (“coração”) é condicionante básico para a percepção obtida através dos sentidos (visão, audição, etc.), e para o entendimento (campo cognitivo) do indivíduo.
Assim, o indivíduo que esteja condicionado sob a predominância de sentimentos de ordem “odiosa” (“coração insensível”, “endurecido”), torna-se refratário a entender, através da percepção, os aspectos fraternos pertinentes à realidade. Na qual, ele se encontra inserido. Ele torna-se, também, refratário aos conhecimentos externos (que lhe tentarem inculcar) formulados sobre a condição afetiva predominantemente amorosa. Mas, torna-se permeável a entender e assimilar aspectos egoísticos pertinentes ao meio em que vive, e aos conhecimentos elaborados sob a condição afetivamente odiosa.
O contrario também é verdadeiro, ou seja, o indivíduo que esteja sob a predominância de sentimentos de ordem amorosa torna-se, em seu entendimento, refratário a assimilar aspectos da realidade odiosamente motivados. Torna-se também, refratário em concordar com conhecimentos formulados sob a condição afetiva predominantemente odiosa. Mas, torna-se permeável a entender, concordar e assimilar conhecimentos externos (que alguém tente lhe inculcar) formulados sob a condição afetiva predominantemente amorosa.
As concepções acima indicadas, admitidas por Jesus e outros grandes profetas individuais, eram por eles pensadas como teorias. As quais Jesus ensinava aos seus discípulos (Cf. Mt 13, 10-11,13-b-15):
“Aproximando-se os discípulos, perguntaram-lhes: ‘Por que lhes fala em parábolas?’ Jesus respondeu: ‘ por que a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não (…) porque veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. É neles que se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Certamente haveis de ouvir, e jamais entendereis. Certamente haveis de enxergar, e jamais vereis. Porque o coração deste povo se tornou insensível. E eles ouviram de má vontade, e fecharam os olhos, para não acontecer que vejam com olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e assim eu os cure (os grifos em negrito são nossos)”.
Jesus era profundo psicólogo e pedagogo, e sabia que os indivíduos do povo estavam com os fatores afetivos (corações) dos seus respectivos campos subjetivos de conduta sob a predominância de sentimentos de ordem odiosa. Ele se baseava na teoria de que o fator afetivo condiciona o entendimento. Em razão disto, ele realizava fenômenos paranormais, de natureza caritativa e fraterna (milagres: curas, desobsessão, ressuscitamento, multiplicação e distribuição de pães aos famintos, etc.). Assim, ele visava, sobretudo, sensibilizar as pessoas presentes, a fim de fazer nelas aflorarem os sentimentos de ordem amorosa. Deste modo, Jesus visava torná-las mais permeáveis aos ensinamentos que ele elaborara sob sua condição afetiva, intensamente abundante de sentimentos de ordem amorosa. Ainda assim, ele encontrava muita resistência por parte das pessoas. Resistência em estas assimilarem os conhecimentos, que ele procurava lhes inculcar. Pois, muitas das pessoas que o procuravam, tinham apenas a intenção de fazê-lo rei, em razão de o Mestre ter-lhes dado pão (Cf. Jo 6,15). Neste sentido, Jesus desabafara (Jo 6, 26-27,45):
“Em verdade, em verdade, vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciais. Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, alimento que o Filho do Homem vos dará, pois Deus, o pai, o marcou com um selo (…) está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim”.
Vejamos outro ponto da doutrina ensinada por Jesus, aos que o seguiam, e aos seus discípulos em particular. Ponto no qual ele trata da noção de conjunto complexo da conduta individual, mostrando que o “coração” (fator sentimental: determinante no campo subjetivo) condiciona as “palavras proferidas” (um dos aspectos próprios das ações pertinentes do campo objetivo: “o que sai da boca”). Nesse trecho aludido, Jesus mostra, também, que o fator subjetivo “coração” (sentimento) condiciona os pensamentos – que no caso exemplificado pelo Mestre, trata-se de pensamentos maus – e respectivas intenções. Ele mostra, enfim, que o fator afetivo condiciona a compreensão ou entendimento (fator subjetivo de ordem cognitiva). Pensamentos esses que se expressam, no campo objetivo, na forma de ação caracterizada por “palavras proferidas” (“que sai da boca”). Jesus mostra ainda, que o “coração” (fator afetivo de ordem subjetiva) pode condicionar outros aspectos pertinentes ao campo objetivo da conduta individual. Por exemplo, os sentimentos de ordem odiosa podem motivar ações de assassínios, adultérios, etc. Vejam o trecho aludido (Mt 15, 16):
“Mas o que sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro. Com efeito, é do coração que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações (os grifos em negrito são nossos)”.[2]
O Mestre recomenda ao indivíduo não exacerbar em valorizar (“ajuntar tesouro”) o campo objetivo da conduta do próprio indivíduo. O campo objetivo da conduta individual consiste nas ações, reações, omissões, etc., sejam nas interações objetivas e intersubjetivas com outros indivíduos, sejam em relação com as coisas com que ele lida (apropria, utiliza, consome, etc). Jesus representa, simbolicamente, o “campo objetivo da conduta individual”, na noção de “terra”. Nesse sentido, ele diz (Mt 6, 19):
“Não ajunteis para vós tesouros (o grifo é nosso) na terra (o grifo é nosso), onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam”.
O Mestre recomenda, por outro lado, que o indivíduo valorize (“ajunte tesouro”), sim, exacerbadamente, o campo subjetivo e motivador deste mesmo indivíduo. Campo subjetivo este que é constituído, conforme já vimos, dos fatores afetivo, valorativo, cognitivo (processo do pensamento, linhas lógicas de raciocínio, inteligibilidade, produção de conhecimento, etc.), a volição e a intencionalidade. Jesus representa, simbolicamente, o campo subjetivo e o campo intersubjetivo, na noção de “céu”. Neste sentido, ele disse (Mt 6, 20):
“Mas ajunteis tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam (os grifos em negrito são nossos)”.
O Mestre explica e justifica, que convém ao indivíduo exacerbar em valorizar (“ajuntar tesouros”) o campo subjetivo (céu) deste mesmo indivíduo, porque os valores estão, neste campo, intimamente intricados e condicionados pelo fator sentimental. O qual condiciona, de modo determinante, tanto os demais fatores subjetivos como o campo objetivo (ações sociais) do indivíduo. Nesta direção, ele diz (Mt 6, 21):
“Pois, onde está o teu tesouro aí estará também teu coração (os grifos em negrito são nossos)”.
Jesus considera, segundo seu critério de valor, os sentimentos de ordem amorosa como sendo positivos (bons ou sãos), e os respectivos valores que essa ordem de sentimentos condiciona, ele considera serem, também, positivos (bons ou sãos). Ao contrário, ele considera os sentimentos de ordem odiosa como sendo negativos (maus ou doentios), e os respectivos valores que essa ordem de sentimentos condiciona, ele considera serem, também, negativos (maus ou doentios).
Jesus mostra que o modo como os sentimentos (coração) e os respectivos valores (tesouros) estejam articulados entre si, assim eles condicionam nossa percepção e concernente entendimento acerca das coisas e das pessoas com as quais lidamos. Percepção (e entendimento) esta que obtemos através dos sentidos, cuja visão ele dá como exemplo, citando o aparelho ocular (olhos). Pois, o Mestre explica que os “olhos” (percepção) são como que a “lanterna” ou “lâmpada” do “corpo” concebido como “um conjunto complexo de conduta” (campo subjetivo individual que motiva o respectivo campo objetivo). “Lanterna” esta cuja função é focalizar determinados aspectos das coisas e contextos que nos chamam atenção e nos interessam, em detrimento de outros aspectos pertinentes a essas mesmas coisas e contextos. Nossa percepção e entendimento acerca das coisas têm, por conseguinte, como precondição os nossos sentimentos e valores. Mais precisamente, nossa percepção e respectivo entendimento têm como precondição, a natureza de nossos sentimentos (amorosos = bons; odiosos = maus) e valores (altruísticos = bons; egoísticos = maus). Assim, se a percepção (que obtemos através dos sentidos, cuja visão obtida através dos olhos, Jesus dá como exemplo) for condicionada por sentimentos de ordem amorosa e valores altruísticos (bons ou saudáveis), então, todo o “corpo” (conjunto complexo de conduta individual) ficará “iluminado”. O termo “iluminado” representa, aqui, a forma de Consciência e de entendimento, cuja linha lógica de raciocínio é ampla e apresenta o caráter de síntese.
Jesus considera que os sentimentos de ordem amorosa condicionam o fator cognitivo, propiciando-lhe a forma de inteligibilidade, entendimento e conhecimento, cuja linha lógica de raciocínio é ampla e complexa e tem o caráter de síntese. Ao contrário, os sentimentos de ordem odiosa condicionam o fator cognitivo, propiciando linhas lógicas de raciocínio estritas e fragmentadas (“trevas”). Desse modo, ele “nega” a existência de uma “razão pura” que atuaria, na inteligibilidade, como se fosse um sujeito metafísico dotado de autonomia. Em razão dessas considerações, o Mestre assume a máxima e a recomenda aos indivíduos: amar, com toda intensidade, tanto o indivíduo que lhe seja o próximo (relações face a face) como o Todo (Trabalho Natura-Social, isto é, o Criador e o Espírito Masculino (Pai) deste, ou seja, o Espírito de Deus, Elohim ou Iahweh). Neste sentido, vejamos (Mt 22, 35):
“Os fariseus ouvindo que ele fechara a boca dos saduceus, reuniram-se em grupo e um deles – a fim de pô-lo à prova – perguntou-lhe: ‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?’ Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas (os grifos em negrito são nossos)”.
Com essa máxima, o Mestre combatia, a ideologia do meio-termo de Aristóteles, muito em voga entre os ideólogos israelitas de sua época.[3] O Mestre empregava a tal máxima, também como estratégia intelectual de luta, cuja prática serve para o aprimoramento pessoal, e para combater e neutralizar todo tipo de ideologias dualistas (divisões e oposições). Ideologias estas que os ideólogos (árvores da ciência da bem e do mal) empregam, inculcando-as nos indivíduos, e através destes, nos grupos sociais, como meios de moldagem de conduta e controle social. Neste sentido, o Mestre exaltava o amor ao próxima e a Deus. Ele exaltava, enfim, o pacifismo radical, como meio de combater, sobretudo, os mecanismos de produção e administração da violência política e social (MPAVPS)
Mas, se a percepção e respectivo entendimento (que obtemos através dos sentidos ou “olhos”) forem condicionados por sentimentos ordem odiosa e respectivos valores egoísticos (maus ou doentios), então, o “corpo” (conjunto complexo de conduta) ficará “escuro” (forma de entendimento cuja linha lógica de raciocínio é estrita, binária e apresenta o aspecto fragmentado). Vejamos Jesus explicando o condicionamento que os sentimentos e respectivos valores exercem sobre a percepção e entendimento, acerca das coisas que captamos através dos sentidos, cuja visão exercida com os olhos é dada como exemplo (Mt 6, 22-23):
“A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se teu olho estiver são, todo teu corpo ficará iluminado; mas se teu olho estiver doente, todo o teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas”!
[1] Piaget, J. Psicologia da inteligência, p. 14-15.
[2] No lugar de “más intenções” conforme consta na citação em tela, transcrita do Bíblia de Jerusalém, o Novo Testamento Interlinear Grego-Português, p. 63, considera “pensamentos maus” como a tradução mais apropriada.
[3] Aristóteles. Ética a Nicômacos, p. 41-47.