Peregrinação de Abraão pelo Crescente Fértil no meio do dilúvio que abateu o mercado global pré-diluviano

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 Livro: Teoria da História (Art. 10, 1.2.4;1.2.5;1.2.6;1.2.7., p. 68-75) www.tribodossantos.com.br

 1.2.4. Início, fim e o dilúvio no mercado regional hitita.

   O mercado macro-regional hitita e o respectivo império começaram a apresentar seus respectivos apogeus por volta do ano 2000 a.C., conforme diz Burns:[1]os hititas alcançaram o zênite de seu poder nos anos compreendidos entre 2000 a 1200 a.C.”. O “zênite” alcançado pelo mercado regional hitita em torno de 2000 a.C. foi o resultado deste mercado haver se integrado plenamente ao grande mercado global, que nessa data se constituíra. Desse modo, os hititas se conectaram a todos os demais mercados regionais existentes na civilização àquela época. Cuja grande importância do papel de ponto de confluência desempenhado pelos hititas, entre outros grandes mercados regionais é inconteste, conforme atesta Burns:[2]

   “A importância dos hititas residiu primariamente no seu papel de intermediário entre o Oriente e o Ocidente. Foram eles um dos grandes elos de ligação entre as civilizações do Egito, do vale do Tigre-Eufrates e da região do Mar Egeu”.

   O referido autor observa, ainda, que esse “zênite” se estendeu até cerca de 1200 a.C. Caso essa observação corresponda à realidade histórica pertinente, então, o mercado regional hitita não teria sido afetado pelo processo de depressão e respectivo esfacelamentos diluvianos, que se alastraram por todos os demais mercados regionais integrantes do grande mercado global. Isto é improvável, considerando-se, sobretudo, a grande dimensão do papel de ponto de confluência desempenhado pelo mercado regional hitita entre outros grandes mercados regionais. Por exemplo, os mercados regionais egípcio, mesopotâmico, egeu e aquele constituído pela Fenícia, Canaã, e Síria, com os quais o mercado regional hitita intercambiava, e que foram seriamente afetados pela depressão e respectivo esfacelamento diluviano global, conforme acima indicamos.

    Esperamos obter mais informações, que possam nos ajudar a esclarecer melhor qual foi o comportamento apresentado pelo mercado regional hitita, durante o período entre os anos 1788 e 1580 a.C., quando o processo de depressão Noé e respectivo esfacelamento diluviano (= II Período Intermediário) assolaram todos os demais mercados regionais existentes naquele contexto. O livro Gênese (Cf. Gn 11,31; 12-50) talvez nos possa trazer alguma contribuição nesse sentido. Pois, ele focaliza o quadro de depressão e respectivo esfacelamento diluviano ocorridos em mercados regionais vizinhos ao hitita, ou seja, na mesopotâmia e mesmo no Egito, e naquele formado pela fenícia, Canaã e Síria. Dificilmente o mercado regional hitita não tenha sido afetado pelo esfacelamento diluviano mostrado nesse quadro. Em razão disto, convém falarmos aqui um pouco a respeito desse quadro.

    O quadro em tela foi desenhado através da conturbada peregrinação histórica, envolvendo Abraão, seus filhos e o neto Jacó. Peregrinação histórica transcorrida por volta do período de 1800 a 1700 a.C., e que apresenta o esfacelamento diluviano ocorrendo ao longo de toda a região conhecida como Crescente Fértil ou Meia-Lua Fértil . Conforme demonstra a trajetória iniciada, cerca de 1800 a.C., por Abraão, seu pai Taré e demais membros da tribo, em êxodo da cidade de Ur, na Mesopotâmia, e concluída por Jacó, neto de Abraão, aproximadamente em 1700 a.C., no Delta egípcio já dominado pelos hicsos. Taré, Abraão e respectiva tribo partiram da cidade de Ur, relativamente próxima da desembocadura do Eufrates no Golfo Pérsico, seguiram acompanhando o Crescente Fértil até a cidade de Harã, ao norte do vale do Tigre-Eufrates, onde faleceu Taré (Cf. Gn 11, 31-32). Daí, Abraão e seu sobrinho, Lot, e respectivas tribos prosseguiram acompanhando o Crescente Fértil, atravessando parte da Síria e da Fenícia, em direção à terra de Canaã, onde vagaram sem rumo (Cf. Gn 12,1-9). Por fim, Jacó, neto de Abraão se dirigira ao Delta egípcio, conduzindo sua tribo faminta, em busca de alimento (Cf. Gn 46, 8-27). O que o referido quadro mostra são tribos e nações assoladas pela fome, em êxodo de uma infinidade de cidades falidas (Ur; Harã; Sodoma; Gomorra; Salém; Siquem; Hai; Betel; Susa, a capital do Elam, etc.). Essas tribos e nações vagavam famintas e sem rumo, guerreavam entre si, saqueavam cidades, procuravam asilo onde supunham ainda haver alimento (Delta egípcio). Veremos mais alguns aspectos pertinentes a esse quadro diluviano, logo abaixo, ao focalizarmos o mercado regional constituído por fenícios, cananeus e sírios.

1.2.5. Início, fim e o dilúvio no mercado regional fenício-cananeu-sírio

    Indícios suficientes evidenciam ter havido florescente atividade produtiva e comercial, por volta da passagem do III para o II milênio, isto é, em torno de 2000 a.C., no mercado macro-regional que abrangia a Fenícia, a Síria e Canaã. Este mercado regional estabeleceu intenso comércio exterior, notadamente, com relação aos mercados regionais egípcio, mesopotâmico e egeu. Aymard e Auboyer apontam nesse sentido, referindo-se aos fenícios, quanto ao comércio marítimo, e aos sírios e possivelmente também aos cananeus, quanto ao comércio caravaneiro:[3]

    “A procura de matérias-primas e de escoadouros para os produtos dá grande incremento ao seu comércio. Praticavam-no desde cedo, acrescentando, aliás, às suas próprias necessidades, a função de comissários e retirando proveito da produção de outrem, produção cuja redistribuição se encarregavam: a partir do II milênio os comerciantes de Biblos estabeleceram relações desta ordem com o Egito e, no II milênio, Ugarit torna-se um verdadeira entreposto do mundo egeu. Em terra não praticam diretamente os transportes caravaneiros; mas situam-se no término de numerosas rotas e são suficientemente hábeis com os sírios”.

   Quanto ao intercâmbio entre a Fenícia e a Mesopotâmia, os referidos autores esclarecem:[4]

    “Durante todo o III Milênio e maior parte do II, conhecemos principalmente suas relações com o Egito, relações cujo centro era constituído em Biblos (…) Mas os senhores do Mesopotâmia exerciam, por seu lado, influência sobre Ugarit”.

   O mercado regional integrado por fenício, cananeus e sírio foi efetivamente afetado pela depressão e respectivo esfacelamento diluviano que assolaram o grande mercado global, cerca de 1788 a.C. Pois, em data bem próxima a esta, ou seja, cerca de 1800 a.C., e precisamente nessa região, temos conhecimento de ter se apresentado o quadro de esfacelamento diluviano, do qual já falamos anteriormente. Este quadro se estendeu e mesmo ultrapassou o ano 1700 a.C., conforme Burns nos ajuda a esclarecer:[5]

   “A primeira vez que os fundadores da nação de Israel aparecem na história é, contudo, no noroeste da Mesopotâmia. Já em 1800 a.C., segundo todas as probabilidades, um grupo de hebreus sob a chefia de Abraão se estabelecera ali. Mais tarde o neto de Abraão, Jacó, conduziu uma migração para o poente e iniciou a ocupação da Palestina. Foi de Jacó, subsequentemente chamado Israel, que os israelitas derivam o seu nome. Em época incerta, mas posterior a 1700 a.C., algumas tribos israelitas em companhia de outros hebreus, desceram ao Egito para escapar às consequências da fome. Segundo parece, instalaram-se nas vizinhanças do Delta e foram escravizados pelo governo do Faraó”.

   Na área do mercado regional em questão, a depressão global e o respectivo esfacelamento diluviano apresentaram múltiplos aspectos.

    Diversas hordas nômades famintas emigravam, desesperada e impetuosamente, dos arredores das cidades. Cidades onde outrora floresceram intenso comércio, produção agrícola (nos seus arredores) e manufatureira, e havia superpopulações concentradas no interior e em seus arredores, mas que agora se apresentavam em franca depressão. Arredores estes onde tribos nômades eventualmente se instalavam para cobrir parte de seu sustento, fazendo bons negócios, à medida que elas atuavam, também, como caravanas mercantis. Podemos citar dois aspectos de um exemplo claro e evidente deste fenômeno. Por um aspecto, vejamos a cidade de Ur. O império dos antigos babilônio e respectivo mercado regional, onde Ur se situava, em cerca de 1800 a.C. já se mostrava enfraquecido e decadente devido à grave depressão, e em razão disso foi destroçado pelos bárbaros cassitas logo a seguir, por volta de 1750 a.C. Por outro aspecto, vejamos o êxodo partido de Ur. Abraão partiu desta cidade, conduzindo a respectiva tribo faminta e peregrina ao longo do Crescente Fértil, passando por Harã, atravessando a Síria e a Fenícia, debateu-se nas terras de Canaã. O se neto, Jacó, encerrou, no Vale egípcio, essa faminta trajetória de cerca de cem anos de peregrinação.

    Ferozes nações nômades invadindo, destruindo, saqueando e/ou ocupando cidades. A exemplo dos hicsos ou Reis Pastores, que partiram da Ásia Ocidental por volta de 1750 a.C., certamente devastando por onde passava (Síria, Fenícia, Canaã, etc,), até chegar, invadir e ocupar o Egito, por mais de duzentos anos.[6]

    Êxodo em massa, abrupto e sem rumo certo de turbas compostas de pessoas famintas, até então habituadas à vida sedentária na cidade ou no campo ao redor desta. Êxodo este decorrente exclusivamente da grave convulsão social interna e da fome provocadas pela depressão, ou decorrente de invasão de nômades bárbaros, ou da conjugação desses três fatores. As turbas em êxodo da cidade e do seu derredor acabavam sendo chefiadas, cada qual, por um líder popular ou do que restara de suas antigas lideranças, visando um novo começo sedentário ou invadir e espoliar outras cidades. Todos esses tipos de agrupamentos humanos migrantes e famintos assolavam tudo que encontravam no campo, como nuvens de gafanhotos, por onde passavam, e guerreavam entre si. Esse quadro talvez explique a presença de bandos (elamitas, amorreus, hurritas, heteus e hebreus) oriundos de diferentes e relativamente distantes regiões saqueando cidades (Sodoma e Gomorra) situadas perto do rio Jordão e do Mar Morto, e dividindo o espólio entre si (cf. Gn 14, 1+).

    Diante de escassez geral de alimentos, alguns desses grupos famintos (notadamente aquelas tribos já habituadas a atuar, também, como caravanas comerciais) procuravam refúgio e trabalho em troca de alimentação e/ou oportunidade de negociar, onde isso ainda fosse possível.[7] Neste contexto sócio-histórico, mesmo as principais cidades fenícias foram afetadas, de um ou de outro modo. A indústria e o comércio de Biblos certamente foram afetados com a depressão ocorrida no Egito, entre 1788 a 1580 a.C., com o qual tinha intenso intercâmbio. Ugarit certamente também fora afetada com a depressão mesopotâmica que durou cerca de seiscentos anos, e que teve início mesmo antes da invasão dos cassitas em 1750 a.C. Pois, Ugarit tinha intercâmbio com a mesopotâmia. Aliás, a emigração da tribo de Taré e do seu filho, Abraão, advinda da cidade de Ur, cerca de 1800 a.C. já era indício da depressão manifestando-se na Mesopotâmia nessa data. A depressão e a consequente destruidora convulsão social ocorridas no mundo egeu, a partir de 1700 a.C., certamente também se refletiram em Ugarit, já que esta cidade tivera importante intercâmbio com o mercado regional egeu.

1.2.6. Início, fim e o dilúvio no mercado regional da bacia do rio Indo.

    O mercado macro-regional situado na bacia do Indo, já em cerca de 2600 a.C. mostrava intenso comércio com a Mesopotâmia.[8] Dispomos de poucas informações referentes ao mercado regional integrado pelas cidades Mohendjo Daro, Harapa e outras situadas na bacia do Indo. Mas, nada nos faz supor que aquele intenso intercâmbio entre a Mesopotâmia e a bacia do Indo houvesse esmorecido, por volta do ano 2000 a.C. e mesmo durante o período de vigência do grande mercado global (2100 a 1788 a.C.). O fato de o mercado regional mesopotâmico haver florescido em período aproximado a este, ou seja, de 2100 a 1750, e ter intercâmbio com o mercado regional da bacia do Indo, reforça a suposição que acima indicamos.

    Conforme o acima exposto, o mercado regional da bacia do Indo esteve integrado ao grande mercado global, já em 2100 a.C. E, perdurou assim até ser invadido e destruído, juntamente com suas cidades, presumivelmente por um ramo de pastores nômades arianos advindos da Rússia meridional, que se destacou da massa que havia chegado ao Irã. A data em que ocorreu essa destruição teria sido 1500 a.C., para alguns historiadores; para outros, isto teria acontecido por volta de 1750 a.C.[9]

    Portanto, o mercado regional da bacia do Indo esteve integrado ao grande mercado global, de 2100 até, possivelmente, 1788. O império dos antigos babilônicos e respectivo mercado regional foram dizimados pelos cassitas em torno de 1750 a.C. Isto deve ter afetado negativamente o mercado regional da bacia do Indo. A depressão e o respectivo esfacelamento diluviano atingiram este mercado regional, possivelmente, a partir de 1788 a.C., e se encerrou de modo fatal, pois ele foi extinto à medida que a nação parece ter sido exterminada ou levada como escrava pelos árias, aproximadamente em 1750 ou 1500 a.C.

1.2.7. Início, fim e o dilúvio no mercado regional elamita.

    Quanto ao mercado macro-regional elamita, nós também dispomos de poucas informações. Sabemos que ele detivera hegemonia sobre o mercado regional mesopotâmico durante o século XXI, isto é, subjugando os sumerianos e integrando-se, assim, ainda ao início da formação do grande mercado global. Mas, perdera essa hegemonia para os amorritas, por volta de 2000 a.C., os quais ergueram o império conhecido como os antigos babilônios. Possivelmente os elamitas foram submetidos pelos amorritas, e tiveram seu mercado regional prejudicado e anexado à hegemonia mesopotâmica. Esta situação deve ter perdurado até o império dos antigos babilônios ser submetido pelo povo bárbaro chamado cassitas, cerca de 1750 a.C., ou seja, até quase o fim do grande mercado global, que se deu aproximadamente em 1788 a.C.

    O advento da depressão e respectivo esfacelamento que afetou diversos outros mercados regionais, que constituíam o grande mercado global, certamente atingiu também o mercado elamita.

[1] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 130.

[2] Idem, p. 128.

[3] Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, p. 36-37.

[4] Idem, p. 34.

[5] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 112.

[6] Cf. Idem, p. 48.

[7] Podemos citar como exemplo, o triplo relato da desventura da mulher de um patriarca, em um país estrangeiro: 1º. Abraão conduzindo sua tribo para o Egito (Cf. Gn 12, 10-20); 2º. Abraão em Gerara (Cf. Gn 20, 1+); 3º. Isaac em Gerara (Cf. Gn 26, 1-11). Segundo o comentário de exegeta, na Bíblia de Jerusalém (Introdução ao Pentateuco), p. 22-24, essa tripla repetição seria o resultado de duas fontes, a tradição Javista e a Eloísta, reunidas numa só. Essas diferentes tradições poderiam conter, entretanto, reminiscências relativas a diferentes e diversos lugares, pelos quais essas tribos vagavam em busca de alimentos. Outro exemplo é o caso de Jacó levando sua tribo para o Egito (Cf. Gn 46, 8-27).

[8] Cf. Schneider, W. De Babilônia a Brasília, p. 44. Cf. Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 1º Volume, p.142.

[9] Cf. Schneider, W., idem, p. 45. Cf. Aymard, A. e Auboyer, J., idem, p. 226-227.