A ideologia corpo versus alma não vem da doutrina de Jesus, é de Paulo o Anticristo

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A ideologia corpo versus alma não vem da doutrina de Jesus, é de Paulo o Anticristo (Art. 24, 6.1.;6.2., p. 146-150)
Livro O templo – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

 

Convém, inicialmente, ressaltarmos dois aspectos referentes à análise operada pelo Mestre, a respeito da natureza do corpo do indivíduo concebido como totalidade e sujeito estruturado.

6.1. Conjunto complexo de conduta não integrado: hipocrisia ou conduta “dual”.

Por um aspecto, o Mestre concebe o indivíduo real existente dotado de dois campos ou corpos articulados entre si não por oposição: 1. O campo ou “corpo” subjetivo (sentimentos, valores, cognição, volição, propósitos e consciência); 2. O campo objetivo (estrutura orgânica, isto é, o corpo físico ou “carne” e respectivas ações inseridas no contexto das interações sociais). O campo subjetivo motiva o campo objetivo, segundo o tipo práxis de interação entre esses dois campos. Diversos tipos de interação podem ocorrer entre os referidos dois campos. O tipo de “dualismo” que pode ocorrer e efetivamente é próprio dos sacerdotes e ideólogos em geral, acontece entre os dois campos acima apontados. Consiste no tipo hipócrita ou não integrado de conduta individual.[1] Tipo este que o Jesus Histórico constatou e criticou de modo severo e reiteradamente (cf. Mt 6, 5; 15, 7; 16, 4; 23, 13, 14, 15, 23, 25, 27, 28, 29). Ou seja, o campo interior subjetivo cheio de sentimentos de ordem odiosa, assim condiciona os demais fatores subjetivos. E, deste modo o campo interior subjetivo motiva o campo exterior objetivo do mesmo indivíduo, com práticas injustas e perversas. Este indivíduo dissimula, entretanto, diligentemente, tanto a natureza odiosa do seu campo subjetivo como as respectivas práticas injustas e perversas. Dissimulação esta procedida através de encenações falseadas, que são acompanhadas de discursos igualmente falseados. Encenações e discursos falseados estes apresentados no campo objetivo, diante das simplórias ovelhas-robôs. Desse modo, o ideólogo engana, seduz e submete, ideologicamente, essas ovelhas simplórias.

No sentido acima apontado, o Mestre constatara e criticara a natureza hipócrita do conjunto complexo de conduta própria dos teólogos e sacerdotes. E, recomendara “limpar” o campo interior subjetivo (enchê-lo de sentimentos de ordem amorosa), isto e, cuidar bem do campo subjetivo, para que este campo ficasse integrado, positivamente, com o campo objetivo:

   “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais por fora o copo e o prato e por dentro estais cheios de roubo e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o que está fora fique limpo. ‘Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, ma por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. Assim também vós, por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mt 23, 25-28).

6.2. O dualismo corpo versus alma (ou espírito) não provém da doutrina do Mestre.

Por outro aspecto, o Mestre não concebe as relações (motivação; práxis) existentes entre o campo ou “corpo” subjetivo e o campo ou corpo (orgânico) objetivo, em se tratando de relação dicotômica, isto é, par de opostos complementares entre si, os quais formariam uma suposta unidade. Ele concebe, sim, as interações entre o campo subjetivo e o campo objetivo da estrutura do sujeito pensado como totalidade, de modo radicalmente diferente dos teólogos pseudocrístãos. Pois, estes adotam a concepção platônica da dicotomia alma ou espírito versus corpo. Eles exaltam, enaltecendo, a noção de “alma” (entidade metafísica ou espiritual imaginária e vazia de conteúdo, quando referida ao indivíduo real existente), e depreciam a noção de “corpo orgânico”, e o concebem como despido de toda motivação subjetiva, que sobres este corpo atua. Ao contrário disto, o Mestre aplica, conforme já demonstramos, de modo bastante evidente, o método analítico, o caminho ou détour. Assim, ele mostra o campo subjetivo rico sob diversos aspectos: os diversos fatores subjetivos, suas variações e determinações entre estas, a natureza motivadora exercida pelo conjunto do campo subjetivo sobre o campo objetivo; a natureza do campo objetivo, e como presumir a natureza (amorosa ou odiosa) da “árvore” (campo subjetivo) através da natureza do “fruto” (conduta objetiva), pois as ações são subjetivamente indicadas, etc.

Mesmo o conjunto complexo de conduta hipócrita, que Tomé chama de “dual” ou “dois” não é concebido, a rigor, no sentido dicotômico (cf. Evangelho de Tomé, p. 17, item 11; 21, item 22; 39, item 106). Pois, a noção de hipocrisia se insere no contexto do conjunto complexo de conduta, ricamente detalhado pelo Mestre. Ou seja, o campo subjetivo é abundante de sentimentos odiosos, etc., os quais motivam o campo objetivo de correspondentes procedimentos egoísticos. Procedimentos estes dissimulados , entretanto, através de encenações e discursos falsamente fraternais. A oposição entre o campo subjetivo odioso e o campo objetivo falsamente fraternal e justo é somente aparente e falsa.

[1] . Sorokin, P. A. Sociedade , Cultura e personalidade – Sua estrutura e dinâmica – Sistema de Sociologia geral, p. 500-503.