Parte 1. A maldição do cristianismo: os opositores ao modelo SERVO de liderança exemplificado por Jesus

Tempo de leitura: 13 minutos

   Vamos focalizar o “Modelo servo de liderança”, que foi praticado e proposto por Jesus, aos seus fiéis seguidores, e que muita gente não conhece. Porque os teólogos e sacerdotes das religiões pseudo cristãs o esconderam dos seus fiéis, em razão desses teólogos e sacerdotes exercerem o modelo elitista de liderança ou de diretriz pastoral. O qual é diametralmente opostos ao modelo servo de liderança praticado e proposto por Jesus.

Vamos por em foco as duas principais linhas de ação do modelo servo de liderança ou de diretriz pastoral. Vamos focalizar também os dois principais opositores ao modelo servo de liderança. A presente palestra é a Primeira Parte desse tema. Em breve apresentaremos a Segunda Parte do tema.    

A maldição do cristianismo hoje em voga e que Nietzsche denunciou, no início consistiu, em dois campos de resistência ao modelo servo de liderança e ao modelo de sociedade igualitária, ambos desencadeados por Jesus. Essa maldição do cristianismo continuou se desdobrando, entretanto em diversas outras formas de resistência, durante dois mil anos, até chegar aos nossos dias, nessas diversas e malditas formas, que consistem nas diversas formas de clero pseudo cristão: católico, ortodoxo, islâmico, anglicano, protestante, evangélico, cientificista, etc.

Duas linhas fundamentais do modelo servo de liderança. No vídeo-palestra anterior, que intitulamos “A maldição do comunismo”, e que já está postado no Youtube – queira ver – focalizamos o modelo estrutural das comunidades desencadeadas pelo Jesus Histórico. Modelo esse que apresentava aspectos de comunidade libertária, igualitária, fraternal, radicalmente pacifista.[1]

Essas comunidades eram articuladas, estrategicamente, entre si, em rede descentralizada. Cujo Anjo de Jesus e sua doutrina atuavam como unívoco centro coordenador, que permeavam tanto as “estrelas”como os “castiçais”. O signo “estrela” representa o tipo de intelectual-político, que exercia o modelo servo de liderança ou de diretriz pastoral, em cada comunidade igualitária. O signo “castiçal” simboliza cada núcleo da rede descentralizada de comunidades igualitárias. Não havia, portanto e estrategicamente, um líder nem um órgão físico central, nessa rede descentralizada, senão, o Espírito de Jesus sob a égide do se Pai, o Deus do amor, do direito e da justiça. Essa estratégia empreendida pelo Filho do Homem, então, mostrou-se eficaz, e resistiu por mais de dois séculos.

Confira o significado dos signos “estrela” e “castiçais”, no contexto da alegoria pertinente, em Ap 1, 19-20. Cada “estrela” ou modelo servo de liderança exercia, entre outras coisas, a organização do trabalho, da distribuição igualitária de produtos e serviços, etc. O líder servo exercia, também e, sobretudo, por duas linhas de ação fundamentais, características próprias do modelo servo de “diretriz pastoral”. Modelo esse que Jesus definiu claramente, para as lideranças (os doze principais discípulos), que ele estava preparando, a fim de darem continuidade ao movimento revolucionário:

Jesus, porém, os chamou e lhes disse: ‘Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes a governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de uma multidão” (Mt 20, 25-29).

O modelo servo de liderança já havia sido definido, pelo Segundo Isaías, no Livro da Consolação, através dos “Poemas sobre o Servo” ( cf. Is 42, 1-9; 49, 1-6; 50, 4-11; 52, 13-53, 12).

A primeira linha de ação fundamental pertinente ao modelo servo de liderança consistia em “fermentar” ou “salgar” os indivíduos da massa pobre trabalhadora. Fermentar ou salgá-los, no sentido de ajudá-los, através dos conhecimentos técnicos, de ordem psicológica, a exemplo da “espada” de Jesus e de todos os “grandes profetas individuais“.[2] Quer dizer, o sentido profundo da noção de conversão individual, que Jesus aprimorou e ensinou, e que se propagou junto com o movimento que ele desencadeou.

Os conhecimentos técnicos enfeixados pela perspectiva psicológica consistem na espada de Jesus. Isto é, um instrumento de luta, que pode ser voltado, em favor do indivíduo, para o desenvolvimento de
autoconhecimento, capacidade de autodiligência e consciência social crítica e transformadora. Ou seja, instrumento de luta voltado para a libertação do indivíduo, tanto das cadeias ideológicas como das garras igualmente ideológicas exercidas pelos ideólogos.

Libertação das cadeias ideológicas. Essas cadeias consistem em ideologias falsas e alienantes: ao exemplo dos dogmas católicos, das doutrinas protestantes, evangélicas, islâmicas, etc. Doutrinas falsas essas que os ideólogos inventam e as inculcam nos indivíduos, e que funcionam como a noção de “definição da situação“.[3] Ou seja, independentemente da atuação presente do ideólogo que inculcou uma “doutrina” (ideologia = “cadeia”) no entendimento da ovelha-robô, esta ovelha carregará consigo essa ideologia falsa, como se estivesse preso nela, isto é, a tal cadeia influenciará a conduta subjetiva e objetiva da ovelha-robô.

Libertação também das garras ideológicas (as ações, omissões, encenações, etc.) exercidas pelos ideólogos. Garras essas voltadas para seduzir os indivíduos, tanto a assimilarem tais ideologia alienantes como a se manterem presos nessas cadeias. As garras dos ideólogos são exercidas sobre os indivíduos, sobretudo, no interior dos variados tipos de tempo-edifício, que Jesus rotula de “sinagogas de Satanás” (cf. Ap 2, 9; 3, 9).

Jesus advertiu seus seguidores a terem cuidado, para onde eles avançassem com o movimento libertário e igualitário, com os membros das sinagogas de Satanás, e deu exemplos. Essa situação se aplica na atualidade, com referência as atuais sinagogas de satanás, evangélicas, católicas, protestantes, etc. que seus teólogos e sacerdotes chamam, respectivamente, de congregação, catedral, templo, casa de oração, salão do reino e outras denominações do gênero. Nesse sentido, Jesus nos alertou:

Cuidai-vos dos homens. Eles vos levarão para seus tribunais e açoitar-vos-ão com varas nas suas sinagogas. Sereis por minha causa levados diante dos governadores e reis: Servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos. Quando fordes presos, não vos preocupeis nem pela maneira com que haveis de falar, nem pelo que haveis de dizer. Porque não sereis vós que falareis, mas é o espírito de vosso Pai que falará em vós” (Mt 10, 17-20).

A segunda linha de ação fundamental pertinente ao modelo servo de liderança consistia, por um aspecto, em o líder servo não se elitizar, e por outro, em atuar, também, no sentido de impedir a elitização e a estratificação no interior da comunidade igualitária. Quer dizer, impedir a formação do pérfido tipo de clero assalariado ou de algo análogo.

As duas frentes de resistência ao modelo servo de liderança e à comunidade igualitária. Duas categorias de ideólogos formaram as primeiras e mais eficazes frentes de resistência, que se levantaram contra o modelo servo de diretriz pastoral e o modelo de formação social igualitária. Diretriz e modelo esses que foram protagonizados pelos primeiros e genuínos discípulos da verdadeira doutrina do Mestre:

1. A primeira frente de resistência ao modelo servo de liderança e à comunidade igualitária consistia nos ideólogos (sacerdotes, mestres, escribas, etc.) que já estavam estabelecidos e eram membros de famílias sacerdotais hegemônicas. Assim, eles tiravam seus rendimentos, ocupando altos cargos de direção em instituições culturais hierarquizadas. Em foco, a instituições hegemônicas dos saduceus e a dos fariseus) que eram próprias do universo cultural judaico. Pois, a revolução igualitária desencadeada pelo Filho do Homem tivera início no seio da nação judaica.

Depois, os líderes que seguiam o modelo servo de diretriz pastoral, então, se confrontaram com outros tipos de ideólogos elitistas de outras nações (os magos da Pérsia ou de Babilônia; hierofantes da Grécia ou do Egito; filósofos da Grécia, Roma; enfim, místicos, esotéricos, gnósticos de todos os lugares, etc.). Ideólogos elitistas esses que já estavam estabelecidos em altos cargos nas suas respectivas instituições sociais hierarquizadas. Pois, esses ideólogos elitistas também se levantaram, tanto contra os líderes do modelo servo de diretriz pastora como contra o modelo de formação social igualitário.

O conflito entre, de um lado, o seguidor de Jesus que exercia o modelo servo de liderança, e do outro, o ideólogo elitista, então, ocorria em qualquer lugar, para onde os genuínos Apóstolos avançassem, fora de Jerusalém, com o modelo igualitário de formação social. Cujas duas principais diretrizes do modelo servo de diretriz pastoral que norteavam as condutas desses fiéis seguidores de Jesus, sem dúvida consistiam em servir por amor ao próximo, e, não se elitizarem. Diretrizes estas que estavam, diametralmente, em desacordo com as diretrizes correlatas valorizadas e assumidas por todas as categorias de ideólogos elitistas. Cada uma dessas categorias de ideólogos elitistas atuava, organicamente, como aliada aos demais segmentos das elites das respectivas nações, ou seja, aliadas às elites políticas e econômicas nacionais. Em muitas das nações sob o domínio romano, as elites constituídas de ideólogos mancomunavam-se, servilmente, a exemplo dos ideólogos judeus, às elites romanas, na subjugação e exploração das camadas pobres das suas respectivas populações.

2. A segunda frente de resistência ao modelo servo de liderança e à comunidade igualitária era constituído, notem, pelos ideólogos elitistas iniciantes ou noviços. O tipo noviço de ideólogo elitista atuava, ambiciosamente, no sentido de ascender aos altos cargos, por dentro de instituição cultural hierarquizada já estabelecida. Havia, também, o tipo de ideólogo noviço que ambicionava criar sua própria instituição cultural hierarquizada, para nela ocupar alto cargo, a fim de manter farto sustento, porém subtraindo valores das suas vitimadas ovelhas.

Ora, o quadro de acesso aos postos superiores, por dentro da instituição cultural hierarquizada das religiões antigas, na verdade era restringido, em muitos casos, pelo acesso por transmissão hereditária. Esse modelo de quadro de acesso criava um afunilamento, isto é, criava restrição e descontentamento entre os noviços elitistas de famílias não hegemônicas, ao exemplo de Paulo de Tarso.

O ideólogo noviço elitista e muito ambicioso encontrava muitas barreiras, para ascender economicamente, por dentro do quadro de acesso de sua instituição religiosa. Esse tipo ambicioso de noviço elitista tendia a atuar, então, no sentido de inventar uma doutrina variante de doutrina já existente, ou inventar uma doutrina completamente nova. Desse modo, o tipo ambicioso de ideólogo noviço elitista se empenhava, afincadamente, em arrebanhar fiéis para a sua doutrina, e assim criar sua instituição religiosa hierarquizada, e dela tirar seu farto sustento. Situação análoga vem ocorrendo, contemporaneamente, com as religiões protestantes e evangélicas, que se prolifera rapidamente. E assim, vêm traçando, junto as outras religiões pseudo cristãs (católica, ortodoxa, etc.), como que “teias de raízes cancerígenas” de natureza cultural, na sociedade.

Nas escolas filosóficas, sapienciais, etc., o discípulo remunerava o seu Mestre, para que este lhe transmitisse conhecimento. Depois de haver adquirido tais conhecimentos, o ex-discípulo tinha que arrebanhar adeptos, para destes subtrais seu sustento e se tornar mestre.

[1] Cf. Canal Tribo dos Santos: A maldição do comunismo: http://tribodossantos.com.br/2016/12/a-maldicao-do-comunismo-a-maldicao-do-comunismo-e-do-cristianismo-parte-2/

[2] Cf. Fohrer, G. História da Religião de Israel, p. 328-330: os grandes profetas individuais procederam por duas linhas de ação contestadora.  Por um aspecto, eles combateram e amaldiçoaram o templo-edifício de Jerusalém, os sacerdotes, os falsos profetas e a aliança deste com as elites políticas (casa real) e econômicas. E, por outro aspecto, exaltaram a conduta justa e fraterna do indivíduo, como aquilo que é, verdadeiramente, do agrado de Iahweh, Deus do amor ao próximo e da justiça social. Eles advertiram os hebreus quanto ao uso maligno que os sacerdotes e seus aliados (elites políticas e econômicas) faziam, tanto em relação ao templo-edifício de Jerusalém, no Reino do sul (Judá) como nos santuários do Reino do Norte (Israel). Os grandes profetas individuais se distinguem das demais categorias de “profetas”, por diversos aspectos. Por exemplo, eles são chamados de “individuais”, porque cada qual exercia, de modo isolado e independente, seu ministério. Não vivia em grupo ou guilda de profetas, conforme viviam outras categorias, cujos integrantes também eram chamados de “profetas”, por exemplo, Eliseu e seu grupo de profetas. Fohrer mostra que durante todo período pré-exílico e mesmo até ao início do período pós-exílico havia entre os israelitas diversas categorias desses “falsos profetas”. Os quais inventavam “profecias” mentirosas e otimistas, para enganar a nação, enquanto facilitava as elites explorar, impiedosamente, os trabalhadores pobres. Em razão desse modo de proceder, eles são chamados, também, de “profetas otimistas”, a exemplo de Naum e Habacuc (cf. p. 326). Havia, ainda, a categoria de profetas cultuais, a exemplo de Abdias (cf. p. 290; 398). Os quais podem se chamados, também, os de “profetas da corte” ou “profetas profissionais”, que atuavam mancomunados com os sacerdotes e as lideranças políticas (reis), e econômicas (agiotas, grandes latifundiários e comerciantes, etc.), juízes corruptos, etc., nos cultos executados dentro ou fora do templo.

[3] Merton, R. K. Sociologia – Teoria e Estrutura, p. 515. Merton emprega a noção de “definição da situação” ou “profecia que se cumpre por si mesma”, que atribui a W. I. Thomas. Essas expressões dizem que “se os indivíduos definem as situações como reais, elas são reais em suas conseqüências”. Assim, independentemente da presença do ideólogo que inculcou uma “doutrina” (ideologia, “cadeia”) no entendimento da ovelha-robô, esta carregará essa ideologia como se estivesse preso nela, isto é, a tal cadeia influenciará a conduta subjetiva e objetiva da ovelha-robô.