A maldição do comunismo – A maldição do comunismo e do cristianismo – Parte 2

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O presente texto faz parte de um tema mais amplo, cujo título esclarece bem, as duas abordagens contidas nele, e algumas das suas implicações. Esse título é: A maldição do comunismo e do cristianismo. A primeira parte desse tema mais amplo, que tem ao todo cinco partes, consta no texto, que publicamos anteriormente: A banda podre da Bíblia. Queira ver. No presente texto, vamos focalizar a segunda parte do tema geral: A maldição do comunismo.
No artigo “Estratégias de luta para a transformação social”, focalizamos, ligeiramente, o modelo de formação social caracterizado pelo capitalismo de Estado. A exemplo daquele que houvera se estabelecido na ex-União Soviética, na China, etc. Mostramos que esse modelo fora rotulado de “comunismo”, e que aqueles que postulavam essa noção, então, passavam, de modo falseado, a idéia de que a noção de “comunismo” era próxima ou mesmo que se identificava com a noção de “igualitarismo”: um sistema que preconiza a igualdade de condições justas e fraternas para todos. As elites dirigentes do capitalismo do Estado submetiam e exploravam, entretanto, seus segmentos trabalhadores e os excedentes deste, sob condições tão perversas quanto já o fazia a burguesia do capitalismo privado. Em razão disso, a noção de comunismo ficou conotada, negativamente, com as características perversas do capitalismo de Estado. O qual fora desenvolvido, via de regra, através de lideranças político-intelectual oriundas das classes médias e corpo burocrático anteriormente vigente. Estas lideranças aliciavam e mobilizavam membros das classes trabalhadoras e dos excedestes destas, inculcando-lhes a miragem da ditadura do proletariado. Desse modo, tais lideranças promoveram revoluções violentas, e se apropriaram dos aparelhos do Estado. Assim, elas operavam de tal jeito, que por um lado, desbancavam a burguesia da detenção privada dos meios e do modo de produção capitalista, e por outro, apropriavam-se desse modo de produção e dos respectivos meios, e entre estes estavam as classes trabalhadoras. As quais foram, em nome do comunismo, dominadas e exploradas, até que as elites dirigentes do capitalismo de Estado resolverem abandoná-lo, e empregar outro modelo econômico. Esta é a maldição do comunismo.
As elites do capitalismo de Estado deixaram, para os dias de hoje, uma auréola negativa sobre a noção de “comunismo”. Essa auréola vem prejudicando todos aqueles que valorizam o modelo de formação social justa e fraterna, que podemos chamar de igualitarismo ou de “comunismo”. A exemplo das comunidades igualitárias desencadeadas pelo Filho do Homem, e concretizadas pelos seus verdadeiros Apóstolos e demais discípulos, sob as bênçãos do Espírito Santo de Deus e o do próprio Escolhido.

A tal concretização aconteceu a partir do momento, em que o Jesus Ressuscitado designou, na Galileia, as lideranças-servas que ele havia preparado como seus  futuros “Apóstolos” (mensageiros), para avançarem com o movimento revolucionário, para todos os gentios, isto é, para todas as nações (cf. Mt 28, 9-10, 16-20; Jo 20, 21-23). Movimento esse que era de natureza libertária, fraternal, radicalmente pacifista e constituído de núcleos igualitários, que eram articulados entre si, em rede descentralizada, mas coordenados pelo Anjo de Jesus e sua doutrina. Assim, os verdadeiros Apóstolos do Mestre exerciam o modelo de liderança-serva.

Lucas denunciou, do modo sofístico que lhe era próprio, seguindo o exemplo de Paulo, seu mentor, o caráter revolucionário, do movimento de natureza libertária e igualitária dirigido pelos fiéis seguidores de Jesus. Essa forma sofística de denúncia foi dirigida, ao exemplo de como Paulo de Tarso o Anticristo fazia, às autoridades romanas. As quais Lucas chama, no prefácio de Ato dos Apóstolos, honorificamente, de “Teófilo” [amado ou amando ao Deus dos romanos]:

Em minha primeira narração, ó Teófilo, contei toda a sequência das ações e dos acontecimentos de Jesus” (At 1, 1).

O fato de Lucas ter denunciado, do modo sofístico que lhe era próprio, o genuíno modelo comunista de formação social, que começara a ser engendrado, pelos verdadeiros Apóstolo, em Jerusalém, pode ser corroborado com a afirmação, que consta no Dicionário da Bíblia de Easton:[1]

Considerando que Lucas se refere a Teófilo com o mesmo honorífico que Paulo se dirige a Félix, supõe que Teófilo era uma pessoa importante, possivelmente um oficial romano“.

John Wesley aponta para a mesma direção do Dicionário da Bíblia de Easton:[2]

Segundo John Wesley, o honorífico era usado para os governadores romanos. Teófilo seria um personagem importante de Alexandria“.

Vejamos o texto em que o discípulo de Paulo o Anticristo denuncia, de modo maquiavélico e sofisticamente, ao seu “Teófilo” (autoridades romanas), os genuínos Apóstolos de Jesus e as comunas dirigidas por eles:

Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo as necessidades de cada um (…) Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhe ajuntava outros, que estavam a caminho da salvação” (At 44-47);

A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía: mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam aos pés dos apóstolos. Repartiam-se então a cada um deles conforme a sua necessidade (At 4, 32-35).

Como nos livrar da pecha maldita, que o corpo burocrático do Estado, de cada país, em que vigorou o capitalismo de Estado, agora deixou conotado no termo comunismo e mesmo na noção que ele encerra? Pois, concebemos o capitalismo de Estado como um pseudo-comunismo, mas a conotação negativa que tais lideranças impingiram no termo em questão já está consagrada, e todos evitam empregá-lo, quando se pretende exaltar o modelo de formação social voltado para a justiça social, igualitarismo fraternidade  e pacifismo ativo.

Quando empregarmos o termo “comunismo”, seria, talvez, conveniente deixarmos bem claro em que sentido estaríamos empregando tal termo. Podemos, também, evitar o uso do termo comunismo, em favor do emprego do termo igualitarismo ou algo que o valha, mas sempre esclarecendo o sentido do termo ou expressão que estivermos usando.
O modelo estrutural das comunidades desencadeadas pelo Escolhido apresentava aspectos de igualitarismo, fraternidade e pacifismo radical. Entre outras coisas, esse modelo caracterizava-se, também e, sobretudo, por duas colunas ou “diretrizes pastorais” fundamentais:

1. O modelo servo de liderança ou “diretriz pastoral “. Ao indivíduo dotado de capacidade de liderança e de organização, assim, competia servir  “fermentar” ou “salgar” – por amor ao Deus do amor, do direito e da justiça, e ao próximo – os discípulos membros das massas populares. Os quais são carentes desses predicados, seja no campo intelectual, seja no campo político ou nas atividades econômicas propriamente ditas (produção, distribuição, etc.). Nessa direção Jesus ensinou:

Jesus, porém, os [doze] chamou e lhes disse: ‘Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate por uma multidão” (Mt 20, 24-28; Cf. Jo 13, 12-17) .

O modo servo de liderança é peculiar do Filho do Homem. Nesse contexto, é oportuno conhecer o significado da expressão Filho do Homem, que Jesus atribui a ele mesmo. Ou seja, o indivíduo humano enquanto unidade mínima da sociedade humana, expresso na sua maior e plena perfeição e poder de atuar, em todos os tempos, em defesa do cumprimento da ética da responsabilidade pessoal.[3] Este modo de servir, isto é, orientar os indivíduos em geral e preferencialmente aos mais carentes implicava, necessariamente, e era direcionado no sentido de tentar libertá-los do estado de submissão, de alienação e de exploração.  Estados nos quais tais indivíduos eram mantidos pelas elites constituídas de ideólogos (sacerdotes fariseus, saduceus e seus teólogos-escribas). Os quais eram aliados às elites políticas e econômicas, nacionais e romanas.

2. Servir nos dois sentidos indicados acima, então, implicava, necessariamente, que as lideranças servissem, mas sem se elitizarem. Ou seja, elas deveriam se manter no seio social, e no mesmo nível sócio-econômico das massas que ela estavam fermentando ou salgando. Este modelo de procedimento de “diretriz pastoral” consistia em agir, diligentemente, no sentido de não estruturar a comunidade de modo piramidal ou hierárquico. Pois, o modelo de comunidade desencadeada pelo Escolhido consistia num esboço de formação social revolucionária, que se conflitava com o modelo hierárquico ou piramidal tanto das formações sociais vigentes como das instituições religiosas hegemônicas, e demais instituições sociais inseridas neste outro modelo de formação social. O Mestre representara, alegoricamente, o modelo estrutural da formação social igualitária, na forma de uma cidade descrita, topograficamente, como sendo quadrangular, ou melhor, um cubo perfeito, (Ap 21, 16): a utópica “cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, revestida da glória de Deus” (cf. Ap 21, 10-11), que há de se concretizar.
Os genuínos Apóstolos e fiéis seguidores da doutrina original, que o Mestre lhes ensinara, assim mantinham funcionando as estruturas organizacionais das suas comunidades, de acordo as duas colunas fundamentais, que nos referimos. Por um aspecto, essas comunidades eram igualitárias, fraternais, radicalmente pacifistas e anti-hierárquicas. Por outro aspecto, cada uma dessas comunidades funcionava como uma assembléia (igreja) revolucionária, que era aberta permanentemente ao público em geral. Assembléia na qual se discutiam as questões sociais, que eram clareadas pela doutrina ensinada pelo Mestre. O qual desencadeou o modelo de formação social libertário, igualitário, fraternal, etc., e queria que ele fosse propagado, para todos os cantos do mundo.

Em suma, cada comunidade genuinamente fiel à doutrina do Mestre consistia, por um aspecto, no esboço de um singular modelo de formação social que apresentava as características já descritas, e por outro aspecto, esse modelo era notadamente revolucionário.

 

[1] Cf. Wikipédia: [https://pt.wikipedia.org/wiki/Te%C3%B3filo_(B%C3%ADblia)] “O Easton’s Bible Dictionary, considerando que Lucas se refere a…”

[2] Wikipédia: [https://pt.wikipedia.org/wiki/Te%C3%B3filo_(B%C3%ADblia)] “Segundo John Wesley…”

 

[3] A expressão “Filho do Homem” fora empregada tanto no Novo com no Antigo Testamento. O professor Emanuel Bouzon ensinava que “um conjunto de narrações do ciclo Eliseu trata de Eliseu entre os profetas. Os ‘profetas’ do ciclo de Eliseu são denominados com o termo técnico be nê hann eb’ îm. A expressão hebraica ben ou benê designa, principalmente no período pós-exílico, o membro de uma corporação, (cfr. Ne 3,8.31: bem-haraq-qahîm = membro da corporação dos perfumistas; bem-hassorepim = membro da corporação dos ourives”. O professor Bouzon citara como fonte dessa informações: I. Mendelsohn, Guilds in Babylonia and Assyria, JAOS 60 (1940) 68=72; idem, Guilds in Ancient Palestina, BASOR 80 (1940) 17-21; R. de Vaux, Lês Institutions de L’Ancient Testament, vol. I, págs. 119ss.).

Jesus empregou a expressão “Filho do Homem”, mas referindo-se a si próprio. No Antigo testamento, a palavra “Filho” (ben) empregada nessa expressão, tem o sentido de “homem enquanto pessoa ou indivíduo membro de um todo, ou melhor, a unidade mínima que compõe a sociedade humana”. Ezequiel definira de modo claro e preciso a ética da responsabilidade individual (cf. Ez 3, 16-21; 14, 12-23; 18, 1+; 33,1-20). Neste contexto, ele empregou a expressão “filho do homem” (Ez 2, 1+, etc.), atribuindo a Deus havê-la dirigido ao referido profeta, e incumbi-lo da missão de defender o cumprimento da referida ética, entre os indivíduos membros da sua nação. Daniel (Dn 8, 17) referiu-se a si, empregando de modo subtendido, a expressão em apreço, de modo próximo ao de Ezequiel. Mas, em outro trecho (Dn 7, 13), se referiu ao Escolhido de Deus, e ressaltou não simplesmente o indivíduo defensor da ética da responsabilidade, e sim o indivíduo no sentido lato do termo. Ou seja, o indivíduo humano enquanto unidade mínima da sociedade humana, expresso na sua maior e plena perfeição e poder de atuar, em todos os tempos, em defesa do cumprimento da ética da responsabilidade pessoal. Neste sentido, Jesus refere-se a si como “Filho do Homem” (cf. Mt 8, 20; 9, 6; 20, 28; Jo 3, 13).