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O autor da Teoria da História inscrita no livro Gênese, subdividiu-a em duas grandes partes, que chamamos de Sistematização Teórica e Verificação Empírica. O Segundo Dia da Criação (Gn 1, 6-8) focaliza o nascimento da linguagem, na parte da Teoria da História que chamamos de Sistematização Teórica. O texto “Gn 1, 6-8″ referente ao Segundo Dia da Criação corresponde, na outra parte da Teoria da História, que nomeamos de Verificação Empírica, ao trecho Gn 2, 6-7.
No artigo “1° dia da criação VE” (primeiro dia da criação descrito na Verificação Empírica), vimos que o autor emprega, na descrição desse “1° dia VE”, a formula “No tempo em que o Senhor Deus fez a terra e os céus“. Fórmula esta análoga àquela empregada na “introdução” (No princípio, Deus criou os céus e a terra) do “1° dia da criação ST” (primeiro dia da criação exposto na Sistematização Teórica), descrito em duas etapas: primeira fase, e, segunda fase). O objetivo desse artifício foi demonstrar o paralelo entre essas duas abordagens, isto é, entre o primeiro dia da criação exposto na Verificação Empírica, e, o primeiro dia exposto na Sistematização Teórica. O autor continuará procedendo, embora sem explicitar, traçando paralelos entre, de um lado, os demais (seis) dias da criação formulados segundo a perspectiva da Sistematização Teórica, e do outro, os seis correspondentes dias expostos, então, de modo explicitamente exposto na Verificação Empírica. Desse modo, o trecho referente ao 2° dia da criação, que trata, na Sistematização Teórica, do “nascimento da linguagem” (Gn 1, 6-8), assim corresponde, na Verificação Empírica, ao trecho “Gn 2, 7″. Vejamos o texto em apreço:
“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente”. (Gn 2, 6-7).
Para o melhor entendimento acerca do trecho acima, precisamos focalizar outros trechos, que lhe são precedentes, e que já explicamos, ao abordarmos “O primeiro dia da criação descrito na Verificação Empírica”. Mas, é oportuno revermos alguns aspectos da tal explicação. Posto que, neles, o autor prepara condições, para fundamentar o enunciado das sentenças que tratam, especificamente, do nascimento da linguagem (Gn 2, 7).
Na sentença “Porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem havia homem que a cultivasse” (Gn 2, 5-c), o autor esclarece algo acerca das “águas” (da chuva que Deus não fizera cair). É oportuno lembrarmos o significado chave do signo “águas”, ensinado pelo Mestre: “O anjo me disse: ‘As águas que viste…, são povos e multidões, nações e línguas“(Ap 17, 15). Ou seja, o signo “águas” representa múltiplos e multiformes grupos sociais relacionados entre si através de trocas simbólicas e materiais. Em outros termos, através das interações significativas, para as quais empregam condutores simbólicos (linguagens orais ou escritas, sinais, gestos, sons e objetos diversos, etc.).[1]
A fórmula relativa às “águas” ensinada pelo Filho do Homem, pode ser aplicada à época do “princípio“, e considerarmos como “águas” os múltiplos e multiformes “grupos de famílias de primatas (hominídeos), que ainda permaneciam vivendo, sobretudo, suspensos nos galhos das árvores“. Época remota essa (“no princípio…” ou “no tempo em que…”) que corresponde àquela, que se convencionou chamar de Paleolítica Inferior e mesmo além, quando a linguagem ainda não havia se desenvolvido, mas apenas outros veículos de comunicação (sons, gestos, movimentos expressivos, sinais, etc.).
Na época do “princípio” acima apontada, então, as “águas” de chuva (citadas em Gn2, 5-c), que “Deus não tinha feito chover sobre a terra“, podem ser pensadas em outros termos, como as “águas que ainda permaneciam suspensas sobre a terra“. Nesses termos, o autor, representa a noção de “grupos de famílias de primatas (hominídeos), que ainda permaneciam vivendo, basicamente, suspensos nos galhos das árvores“. Ou seja, primatas que ainda não havia “descido” e desenvolvido a postura ereta. E, cujos veículos de comunicação consistiam, ainda, apenas em sons, gestos movimentos expressivos, etc.
O autor esclarece, também, que na referida época remota citada acima, “nem havia homem que a cultivasse” (isto ocorreria, posteriormente, no “3° dia da criação ST“: “apareça o elemento árido”). Nestes termos, ele fornece informação acerca do período sócio-histórico, que se convencionou chamar de Neolítico: ainda faltava longo tempo, para se desenvolver.
O autor emprega a figura das “águas caindo na forma de chuva“. Embora ele explique que “o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra“, a tal figura deixa subtendido, como resultado decorrente dela, que “as águas” quando caíssem, então, “iriam regar” ou “escorrerem e se espalhem” sobre a terra. Tal figura foi empregada pelo autor, para representar, alusivamente, a passagem de um antiquíssimo estágio para o imediatamente subsequente, também antiquíssimo. Isto é, a passagem do estágio anteriormente indicado (os hominídeos vivendo, ainda, prioritariamente em árvores = “águas permanecendo suspensas”), para o estágio subsequente, quando o homem “desce das árvores e passa a andar em suas pernas“ (= “águas descendo, na forma de chuva, ao solo e escorrendo ou regando e se espalhando sobre a terra”). Porém, o autor não vai retratar deste modo, o tal estágio subsequente. Pois, ele objetiva, apenas, induzir o leitor a imaginar a cena das “águas” (eretas) “escorrendo” (migrações e se espalhando) sobre a “terra encharcada” (ações objetiva; trabalho material (coleta, caça, etc.) face à natureza exterior adversa). Deste quadro, o autor vai elaborar o enunciado simbólico relativo a “Deus” (Trabalho Natura-Social) criando o homem: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra“. Ele vai representar, alegoricamente, o movimento das “águas”, mas como se estas estivessem se aprumando (da terra para cima), e em quantidade pouco densa ou “rarefeita”, isto é, como vapor.
Na sentença subsequente “Mas subia da terra um vapor (d’água) que regava toda a sua superfície” (Gn 2, 6), o autor explica, alegoricamente, o desenvolvimento de dois fenômenos sócio-históricos. Em primeiro lugar (mas subia da terra um vapor d’água), ele explica que de modo rarefeito (vapor d’água), isto é, em pequenos grupos de famílias de nossos ancestrais (hominídeos que ainda viviam prioritariamente nas árvores), determinados indivíduos iniciaram o desenvolvimento da postura ereta ou aprumada: “subia da terra”. Em segundo lugar (que regava toda superfície), o autor esclarece que “o desenvolvimento da postura ereta fora cultivada e se propagara” (regava) por toda a “superfície da terra”.
O autor ajuntou a figura da “águas” representando os grupos de famílias de primatas, que desenvolvera a postura ereta; mais a figura relativa a essas “águas regando toda a superfície da terra” representando o cultivo e a propagação sincrônica e diacrônica dessa postura. Desse modo, o autor formulou a alegoria “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra” (Gn 2, 7-a). A natureza do “homem formado do barro” que o autor se refere, obviamente consiste naquela que nós também conhecemos, e que o pensador contemporâneo rotulou de homo sapiens. Ou seja, o autor formulou tal alegoria, para representar o homo sapiens como produto da realidade sócio-histórica representada no Trabalho Natura-Social exercido pelas “águas” (famílias de primatas que desenvolvera a postura ereta: homo erectus) “regando toda superfície da terra” (migrando e se espalhando sobre a “terra encharcada”: ações objetiva, desenvolvendo o próprio corpo, instrumentos, etc.; trabalho material (coleta, caça, etc.) face à natureza exterior adversa).
O Trabalho Natura-Social exercido pelos primatas eretos, no contexto desenhado acima, além de moldar aprimorando o corpo do homem ereto e o seu modo elementar de vida, então, “criou” (desenvolveu) o modelo de homem, que corresponde, ainda, ao atual (homo sapiens). E, simultaneamente “inspirou” (aprimorou) “nas narinas” (o aparelho fonador). Desse modo, o Trabalho Natura-Social exercido pelos primatas eretos, no contexto desenhado acima, foi desenvolvendo, gradativamente, a linguagem. A qual expressara a primeira e mais elementar forma de consciência, em outros termos, “vida consciente” (= “ser vivente”). neste sentido, o autor diz:
“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivente (os grifos em negrito são nossos)”. (Gn 2, 7).
Marx e Engels nos ajudam a entender o contexto social em que se desenvolvera a linguagem, e sua natureza enquanto primeira e elementar forma de consciência:[2]
“Desde o início, pesa sobre o “espírito” uma maldição, a de ser “oprimido” por uma matéria que se apresenta sob a forma de camadas de ar agitadas, de sons, de linguagem, em suma. A linguagem é tão antiga como a consciência – a linguagem é a consciência, real, prática, que existe também para os outros homens, e portanto que existe igualmente para mim mesmo pela primeira vez, pois a linguagem, como a consciência, só nasce da necessidade, da exigência de intercâmbio com outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim. O animal não tem relação com coisa alguma, não conhece qualquer relação. Para eles, suas relações com os outros não existe como tal. A consciência é, portanto, desde o início, um produto social, e continua a sê-lo enquanto houver homens. Entenda-se que a consciência não é, a princípio, senão a consciência do mundo sensível mais próximo, e da ligação limitada com outras pessoas e outra coisas situadas fora do indivíduo que toma consciência. É ao mesmo tempo a consciência da natureza que se apresenta primeiro aos homens como uma potência totalmente estranha, poderosa e inatacável, em relação à qual eles se comportam de um modo puramente animal e que se impões a eles tal como às feras. É, portanto, uma consciência da natureza puramente animal (religião da natureza).
Vemos imediatamente que essa religião da natureza, ou essas relações definidas em relação à natureza são condicionadas pela forma da sociedade e vice-versa. Aqui como sempre, a identidade entre o homem e a natureza surge também sob essa forma, segundo a qual o comportamento restrito dos homens frente à natureza condiciona o seu comportamento restrito entre si, o qual, por sua vez, condiciona as relações restritas com a natureza, precisamente porque ela ainda não foi historicamente modificada e que, por outro lado, a consciência de entrar em contato com outros indivíduos que o cercam marca para o homem o início da consciência do fato de que vive, sobretudo, em sociedade“.
[1] Sorokin, Pitirim A. Sociedade Cultura e Personalidade – Sua estrutura e dinâmica – Sistema de sociologia geral, I Volume, Ed. Globo, Porto Alegre, 1968: (p.59) Sorokin define a noção “interação significativa: “O modelo mais geral de fenômeno sócio-cultural é a interação significativa de dois ou mais indivíduos humanos. Por “interação” entende-se todo evento pelo qual se manifesta em grau perceptível a influência de uma parte sobre as ações exteriores ou os estados mentais da outra. Onde falta esta influência tangível (unilateral ou mútua não nos encontramos diante de um fenômeno sócio-cultural. Um milhão de seres humanos completamente isolados entre si não dão um fenômeno social, ou uma sociedade, por isso que não existe uma influência de uns sobre outros. Por “significado” entende-se “tudo aquilo que se apresenta a uma mente qualquer como sinal de outra coisa. A acepção genérica de significado é aquela em que A significa ou possui sentido de B, no caso em que A atue como representante de B, quando ocupe seu lugar ou quando o evoque na consciência”. Interação significativa é qualquer interação na qual a influência de uma parte sobre a outra possui um valor ou significado que se superpõe à propriedades puramente físicas ou biológicas das ações correspondentes”. Nas p.80-81, Sorokin relaciona os condutores simbólicos fundamentais no mundo da interação significativa, e considera a linguagem oral e a música como os mais importantes veículos de interação ou condutores simbólicos do tipo sonoro, enquanto meios de interação significativa. Ele focaliza também a linguagem escrita. E, diversos ruídos como do tipo sonoro. Mas, ele enumera diversos outros tipos de condutores: Luminosos e cromáticos (anúncios luminosos e em cores, etc.); Pantomínicos (gestos e movimentos expressivos); Objetos materiais condutores (anel de noivado, uma relíquia de família, bandeira nacional, uma nota de dólar, etc.); Térmicos; Químicos; mecânicos; elétrico e radiofônicos; etc.
[2] Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã – E outros escritos. Editora Presença / Martins Fontes, SP, 1965, p. 26-27.