Foucault: “o professor e a universidade aparecem, talvez não como elementos principais, mas como ‘permutadores’, pontos de cruzamento privilegiado”

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Foucault: “o professor e a universidade aparecem, talvez não como elementos principais, mas como ‘permutadores’, pontos de cruzamento privilegiado”

Diante e em oposição ao quadro violento decorrente do poder, e independente de quem o exerça eventualmente, hoje se impõe determinados pensadores. Os quais por convenção são denominados de “rebeldes”: Foucault, Deleuze e outros. Eles e suas ideias têm entrado, mais frequentemente, na pauta de alguns debates contemporâneos. Pois, tal pensamento “rebelde” parece ser mais adequado tanto como método de interpretação da realidade sócio-histórica como estratégia de resistência e luta contra a exacerbada violência exercida pelos que estão na posse do poder. Violência exercida também, pelos picaretas que ainda não o detêm, mas o desejam, seja da direita, da esquerda, de cima, de baixo, seja pelos que adotam a podre ideologia nacionalista, seja com motivação religiosa imunda, seja em nome do que for. E, neste sentido procuram seduzir jovens incautos. Tais picaretas que desejam o poder, e buscam-no, também, pela via da “anestesia democrática” mesclada com “corruptocracia”, a exemplo das lideranças esquerdistas que foram cooptadas às elites brasileiras portuga-descendentes e seus aliados eugenistas.

A perspectiva sociológica Foucaultiana focaliza com destaque, o poder, que é exercido em níveis variados, por quem o detém, eventualmente, e de modo escalonado, na rede social de micros poderes, integrados ou não ao Estado. E, no contexto de instituições e grupos diversos, nos quais o indivíduo se encontra inserido (familiar, religioso, profissional, vizinhança, nação, Estado, etc. Nesse contexto, os indivíduos intelectualizados são chamados a atuar de modo político-intelectual, na condição que Foucault rotula de “intelectual específico” (em distinção ao intelectual “universal”).[1] Ou seja, atuar “em setores determinados, em pontos precisos em que os situam, sejam suas condições de trabalho, seja sua condição de vida (a moradia, o hospital, o asilo, o laboratório, a universidade, as relações familiares ou sexuais). Neste contexto da luta, Foucault observa experiências, que já vinham sendo praticadas como “um novo modelo de ‘ligação entre teoria e prática’ (…) Certamente com isso ganharam uma consciência muito mais concreta e imediata da luta”.[2]

Entre outros aspectos, Foucault sugere como estratégia de resistência e luta, a atuação político-intelectual como “intelectual ‘específico” (a partir de cada grupo social em que o indivíduo esteja, de alguma forma, inserido: familiar, religioso, profissional, vizinhança, nação, etc.). Foucault propõe a atuação como intelectual específico, por oposição ao “intelectual ‘universal”. Nestes âmbitos específicos, o intelectual específico se depara com lutas reais, materiais e cotidianas. Lutas estas que correspondem a problemas notadamente específicos, mas também aqueles que afetam, de modo geral, os trabalhadores. Diferentes intelectuais específicos e as respectivas especificidades podem se articular em rede, potencializar a resistência e intercambiar experiências neste sentido, etc.

Foucault observa que o papel social do professor é desempenhado em “pontos de cruzamento privilegiado”, e pode exercer importante função na condição de intelectual específico: “O professor e a universidade aparecem, talvez não como elementos principais, mas como ‘permutadores’, pontos de cruzamento privilegiado”.[3] É oportuno observar, que a categoria dos professores do Rio de Janeiro, notadamente do degradante ensino público (Educação como Nova Catequese positivista-cientificista) fundamental e médio assumiu, heroicamente, a luta nos movimentos de rua.

Enquanto “pontos de cruzamento privilegiado”, os professores vêm sendo usados pelo bloco histórico, no contexto da Nova Catequese de natureza republicana (positivista), em substituição, mas com função alienadora análoga ao do sacerdote da “Antiga” Catequese. Esta que ainda perdura nas escolas religiosas, nas TVs religiosas, nos templos-edifícios, etc. Muitos professores que também são ou foram estudantes desenvolveram consciência social crítica e transformadora. Eles se sentem indignados, por serem obrigados a exercerem, no referidos “ponto de cruzamento privilegiado”, a função alienante análoga a do sacerdote da Antiga Catequese, e tratar o aluno como “ovelha” laica.. A modalidade de ensino alienante que o bloco histórico nacional impõe ao exercício de professor é de natureza positivista-cientificista, em distinção ao discurso religioso igualmente alienante.

No seio da instituição social da Nova Catequese e no singular grupo social dos professores em tela, muitos destes já vinham atuando, de fato, como “intelectuais específicos”, conhecendo ou não este rótulo proposto por Foucault. Mas, indignados diante do modelo alienante de ensino que o bloco histórico nacional lhes impõe inculcar nos jovens, e das péssimas condições de trabalho, salarial, quadro de acesso, etc. Estas são, no nosso entender, as condições indignantes, que motivaram a categoria de professores assumiu a resistência, nas ruas e nas ocupações, por melhorias em termos de salário, quadro de acesso e condições de trabalho, mas também e por um ensino de qualidade. Por outro lado, é esclarecedor o objetivo da descabida e grande violência dirigida contra os professores, pelas elites brasileiras portuga-descendentes, seus aliados eugenistas e as lideranças esquerdistas traidoras dos trabalhadores e estudante. Tal coerção aparentemente descabida visa manter, especificamente, o modelo alienante em que o papel social de professor é desempenhado em “pontos de cruzamento privilegiado”.

A categoria profissional dos professores assumiu, heroicamente, a luta, após a repressão violenta e indiscriminada haver inibido a participação de outros seguimentos sociais, nas manifestações de rua e de ocupações. Enquanto isso, a velhacaria docente das universidades públicas permanece empoleirada, de modo dissimulado, como intelectuais funcionais que corporificam importante setor do bloco ideológico nacional. Velhacaria essa que convém ser desmascarada, criticada e assim arrastada para o debate público.

A estratégia de resistência acima apontada por Foucault, também consiste noutra forma muito eficaz de se exercer a atuação político-intelectual. Ela pode ser exercida por fora e contra os agentes do poder, que empregam a estratégia que engloba a alternância entre a fratria raposina e a fratria leonina. Ambas integrantes e operadas pelas castas estabelecidas no poder: elites brasileiras portuga-descendentes, seus aliados eugenistas. As quais cooptaram, recentemente e pela via da “anestesia democrática”, as lideranças esquerdistas traidoras dos trabalhadores e estudantes pobres. Ou seja, o “intelectual específico” pode atuar, no sentido pacifista em prol da justiça social, de modo político-intelectual por fora e contra tanto o “jogo roubado” (corruptocracia mesclada com a “anestesia democrática”) como contra a ditadura, seja civil ou militar.[4] Pois, nas condições atuais, a luta por transformar, efetivamente, a sociedade para uma forma mais justa, somente pode ocorrer, de modo objetivo, em tempo mais longo que as eventuais eleições (jogo roubado).

A luta nas condições acima aventadas deve levar em consideração, que ela se insere no contexto da estratégia da alternância leonina-raposina do poder e dominação operada pelas elites, e que essa estratégia é exercida, no contexto sócio-histórico em tempo médio. História esta que se distingue, conforme Fernand Braudel ensina, tanto da história em tempo breve ou eventual como as de tempo longo e mesmo longuíssimo.[5] Podemos focalizar três aspectos pertinentes a um dado período cíclico da alternância leonina-raposina. Em primeiro lugar, o período sob a hegemonia da fratria leonina. Em segundo lugar, o período sob a hegemonia da fratria raposina, que é próprio do “jogo roubado”: as eleições “democráticas” eventuais operadas pelas elites em tela, isto é, pela casta portuga-descendente e seus aliados eugenistas. Eleições que servem para viabilizar e respaldar, pela via da “anestesia democrática” mesclada com a “corruptocracia”, o desejo, a busca e a efetiva posse do poder, pelo político. Em terceiro lugar, o retorno do período sob a hegemonia da fratria leonina.

O somatório do último período de alternância consistiu em vinte anos de ditadura (hegemonia da fratria leonina) mais vinte e oito anos de “anestesia democrática” operada pela fratria raposina. Temos, então, um total de cerca de quarenta e oito anos de maquiavélica manipulação. Neste contexto de sócio-história em tempo médio, o jovem impaciente é induzido a desejar o poder, de modo eventual, seja através da revolução violenta, seja através do jogo roubado (democracia). Desses dois modos, ele cai na armadilha do poder, e assim ajuda a reproduz e aprimorar os mecanismos repressivos do poder, e o mesmo quadro social injusto.

[1]. Foucault, M. Microfísica do Poder, p. 8-9. O intelectual universal:“Durante muito tempo o intelectual dito ‘de esquerda’ tomou apalavra e viu reconhecido o seu direito de falar enquanto dono de verdade e de justiça. As pessoas o ouviam, ou ele pretendia se fazer ouvir como representante do universal. Ser intelectual era um pouco ser a consciência de todos (…) uma ideia do marxismo e de um marxismo débil (…) O intelectual, pela sua escolha moral, teórica e política, quer se portador desta universalidade, mas em sua forma consciente e elaborada (…) uma universalidade da qual o proletariado seria a forma obscura e coletiva”.

[2] . Cf. Foucault, M. Microfísica do Poder. Edições Graal Ltda., Rio de Janeiro, 1979, p. 9, 74.

[3] . Cf. Foucault, M. Microfísica do Poder. Edições Graal Ltda., Rio de Janeiro, 1979, p. 9, 74.

[4]. Cf. Foucault, M. Microfísica do Poder. Edições Graal Ltda., Rio de Janeiro, 1979, p. 8-12, 77.

[5] . Braudel, F. História e Ciências Sociais – A longa Duração, p. 44, 49. Extraído de “Annales E. S. C., nº 4, out.-dez.1958, Débats et Combats, pp. 725-753”: “A história tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivíduo, ao evento, habituou-se há muito tempo à sua narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto. A nova história econômica e social põe no primeiro plano de sua pesquisa a oscilação cíclica e assenta sobre sua duração: prendeu-se à miragem, também a realidade das subidas e descidas cíclicas dos preços (…) Bem além desse segundo recitativo, situa-se uma história de respiração mais contida ainda, e, desta vez, de amplitude secular: a história de longa e mesmo, de longuíssima duração (o grifo é nosso). …Além dos ciclos e interciclos há o que os economistas chamam, sem estudá-la, sempre, a tendência secular. Mas ela ainda interessa a raros economistas e suas considerações sobre crises estruturais, não tendo sofrido a prova das verificações históricas se apresentam como esboços ou hipóteses, apenas enterrado no passado recente”.

Postado há 6th October 2013 por Francisco Alves Machado