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Livro: Os dois períodos intermediários do Antigo Egito, no contexto da expansão do Grande Mercado em tempo muito longoArt. 8. (Art. 8, Cap. III, 1.;2.;3.;4., p. 32-42) www.tribodossantos.com.br
- A gênese egípcia e a gênese mosaica
Neste capítulo, vamos apresentar uma abordagem nova acerca de um tema recorrente na arqueologia, pelo menos no âmbito da mídia. A imprensa divulga, eventualmente, notícias sensacionalistas de descobertas arqueológicas referentes à arca de Noé, no monte Ararat. Alguns religiosos propagam, de modo efusivo, tais notícias, sobretudo através da internet. Assim, esses religiosos visam respaldar, de modo supostamente empírico, a citação bíblica (Gn 8, 4), que diz: “No sétimo mês, no décimo sétimo dia do mês, a arca parou sobre as montanhas do Ararat”. Ora, este trecho bíblico foi formulado de modo alegórico. Desse modo, tanto a “arca” como a “montanha de Ararat” consistem, na realidade, na mera exposição dos pensamentos pertinentes, mas sob formas figuradas. Ou seja, tanto na forma de imagem plástica como na linguagem falada ou escrita, arca e montanha do Ararat representam outras coisas. As quais convêm serem esclarecidas.
O tipo inconsequente de notícia sensacionalista acima indicado deprecia, parece-me, mais que enaltece a Arqueologia, Ele impinge uma forte conotação folclórico-religiosa à Arqueologia, e assim impressiona o público. O cinema tem contribuído para isto: o filme “2012” foi baseado, em parte, na “arca da salvação”. O público merece ser esclarecido acerca do verdadeiro significado tanto da arca como da montanha do Ararat, e da relação entre estes. Assim, esperamos combater a picaretagem que vem sendo feita em nome e contra a boa arqueologia. Nesse sentido, vamos contribuir, adiante, com alguns comentários pertinentes.
O trabalho arqueológico sério deveria considerar, que a gênese bíblica fora elaborada de modo repleto de representações alegóricas. Pois, antiquíssima tradição judaico-cristã considerava Moisés como o autor dessa gênese.[1] Moisés (cerca de 1300-1250 a.C.) conhecera essa gênese no Egito, sua terra natal e onde ele foi aculturado. Ele a transmitira aos hebreus. Moisés morrera no deserto, mas os hebreus carregaram tal gênese para a Palestina. Moisés era considerado profeta, mas também teólogo iniciado “em todas as ciências dos egípcios”, segundo Estevão (At 7, 21-b-22):
“A filha de Faraó o recolheu e o criou como seu próprio filho. Moisés foi instruído em todas as ciências dos egípcios, e tornou-se forte em palavras e em obras”.
Os teólogos do Antigo Egito tinham o costume de representar suas noções acerca da gênese, através de alegorias (simbolismo concreto), isto é, na forma de artes plásticas (desenhos, pinturas e gravuras murais, etc.) Assim, eles representaram, por exemplo, a gênese ou criação do mundo. No imaginário simbólico das pessoas cuja civilização era considerada como “um presente do rio Nilo”, a barca ou arca construída com a função de transporte aquático tinham papeis relevantes. Na referida gênese, a figura e respectiva noção de barca representa o meio de locomoção empregado pelo deus sol (Ré), para proceder a sua trajetória cíclica desde o seu nascer até o seu poente. Aqui, a “barca solar” está inserida num sistema “teórico” todo representado alegoricamente. No qual, a trajetória da barca solar desloca-se, por um aspecto, irrompendo as “águas primitivas”. As quais são concebidas, também, como o caos, a escuridão ou trevas, o silêncio e a inércia, e são nomeadas Nun, e que se estendia para lá das fronteiras do céu e da terra. Por outro aspecto, a barca solar desloca-se sobre a deusa Nut, a abóbada celeste personificada, alegoricamente, num corpo feminino preenchido de estrelas. Note-se, o corpo da deusa Nut (abóbada celeste) permanece como que “pairando sobre” e afastado do corpo do deus Geb, que personifica a terra. O deus da atmosfera é chamado Chu. Ele é quem interdita a possibilidade da união hipostática entre a deusa Nut e o deus Geb. Vejamos a figura alegórica do sistema teórico acima descrito.[2]
Parece óbvio que a gênese bíblica (Gn 1, 1+) atribuída a Moisés é correlata à gênese egípcia.[3] É provável, por conseguinte, que o trecho do livro Gênese que cita, entre outras figuras, a “arca” e o “monte do Ararat” se trate, também, de narração alegórica, e que todas essas figuras sejam alegóricas.
A “montanha do Ararat” e as nomarquias do Alto Egito
A alegoria das “montanhas do Ararat” expressa as nomarquias do Alto Egito. As quais começaram a se reerguer e se reestruturar, lideradas por Tebas e a partir de cerca de 1650.[4] E, a seguir iniciaram a revolta contra os hicsos e o processo de libertação do Egito, que Amósis I concluiu, inaugurando a XVIII Dinastia e o período que chamamos de Novo Império.[5] Assim, as “montanhas do Ararat” começaram a “emergir” à medida que, por um lado, atenuava-se e ia findando o período que compreendeu a grave e prolongada convulsão social que abatera e derrubara o Médio Império (XII Dinastia), por volta de 1785,[6] e por outro lado, a dominação dos hicsos ia recuando. Essa convulsão social teria durado quarenta anos, e teria sido seguida de cento e dez anos de submissão aos hicsos.[7] Estas duas ocorrências sócio-históricas e respectivos anos de duração compreenderam o período que se tratou da catástrofe sócio-histórica que a gênese de Moisés (Gn 7-8) representa na alegoria do “dilúvio” (inundação universal),[8] e que os egiptólogos chamam de Segundo Período Intermediário egípcio.
Os teólogos egípcios tinham grande familiaridade com a noção figurada na imagem das “colinas primordiais” que primeiro “emergiam” ao baixarem as cheias anuais do rio Nilo. Cheias que submergiam tudo, mas fertilizavam o solo do Egito. Essa noção inspirou a ideia de representar o processo sócio-histórico que compreendeu: a queda do XII Dinastia no caos social seguido da invasão e expulsão dos hicsos. Desse modo, Moisés elaborou três figurações:
- A cheia anual do rio Nilo = o período de caos social interno em que submergiu a XII Dinastia seguido da invasão e submissão aos hicsos = início e duração do Segundo Período Intermediário. Moisés representou o período que compreendeu o caos social interno em que submergiu a XII Dinastia, e que foi seguido da submissão aos hicsos, na figura da inundação universal (dilúvio). Período esse que perdurou durante longo tempo, e que se convencionou chamar de Segundo Período Intermediário. Esta figuração foi inspirada nas devassadoras cheia anuais do Nilo, que submergiam tudo;
- O baixar da cheia anual do rio Nilo = O baixar das águas do dilúvio = ao esmaecer do Segundo Período intermediário. Moisés representou o esmaecer das duas catástrofes sociais (caos social interno e submissão aos hicsos) que afetaram as elites egípcias, na figura do baixar das águas do dilúvio, inspirado na lembrança da imagem do baixar a cheia anual do Nilo;
- A reemergência das “colinas primordiais” = a reemergência das “montanhas do Ararat” (e dos “cumes das montanhas”) = a reemergência das nomarquias do Alto Egito (e da XII Dinastia). Por fim, Moisés representou, respectivamente, o esmaecer do Segundo Período Intermediário e a proporcional reestruturação e reemergência das nomarquias do Alto Egito, na figura do baixar das águas do dilúvio e na proporcional reemergência das montanhas do Ararat. Esta figuração foi inspirada no baixar das cheias anuais do Nilo deixando aparecer as “colinas primordiais”. Mas, ao invés de representar as nomarquias do Alto Egito lideradas por Tebas, nas modestas “colinas primordiais”, ele preferiu realçar a grande dimensão do império que se reestruturava, figurando-o nas grandes montanhas do Ararat.
A reemergência das nomarquias do Alto Egito lideradas por Tebas foi pensada como a recriação do mundo das elites egípcias, ou seja, o reinício do Egito faraônico, conforme Rogério Ferreira de Souza deixa transparecer:[9]
“O mundo anterior à criação era visualizado como um oceano primordial, o Num, cujas águas caóticas continham, em potência toda a criação. Na religião egípcia , o papel das águas do Num era ambivalente e revestia-se de um significado simultaneamente negativo e positivo. À semelhança da cheia que submergia tudo mas fertilizava o solo do Egito, o Num infinito, sem forma, caótico e insondável era também a fonte da regeneração do mundo e continha, em potência, todas as possibilidades da criação. Foi deste mundo informe que emergiu um elemento essencial das cosmogonias egípcias que assinalava o início da criação: a colina primordial. Baseando-se no fenômeno anual das cheias do Nilo que, à medida que se retirava, deixava à vista pequenas elevações de terra firme, os teólogos egípcios concentravam nessa imagem todo poder evocativo do início do mundo. Na maior parte dos casos a colina primordial consubstanciou-se no próprio corpo do criador”.
- A “arca de Noé” e a “barca do sol”
A alegoria da “arca” expressa, de modo assemelhado à “barca do sol”, mas no contexto do “dilúvio”, a noção de veículo ou meio de locomoção. Meio este que o autor atribui a “Noé” e demais passageiros empregarem no sentido de “preservarem-se” ou “salvarem-se”, malgrado o “dilúvio” (grave e prolongado caos social). E, fazerem, embora vagando durante tal dilúvio, a trajetória entre a XII Dinastia, (Médio Império) que desabara, e, a XVIII Dinastia (Novo Império ou Império Tebano), que reerguera o Egito faraônico. Ou seja, a “arca” figura a preservação, embora precária de determinadas estruturas sociais que o autor quis ressalvar. Algumas dessa estruturas são relativamente “eventuais” (tempo médio), a exemplo de “Noé”, que significa “descanso” ou “repouso” de todo o processo genético empreendido pelo Criador, isto é, retração do Trabalho Social.[10] O “repouso” Noé do Trabalho Social redundou em vertiginosa queda da produção, da circulação de mercadorias, das finanças, da cultura, desemprego, fome, etc. Enfim, o repouso Noé do Trabalho Social gerou caos social grave, prolongado e generalizado por toda grande rede global de mercados macro-regionais (Lamec), no qual o mercado macro-regional egípcio estava inserido.[11]
Outra estrutura relativamente eventual “preservada”, isto é, que “embarcou na arca da salvação”, fora figurada nos três filhos de Noé: Sem, Cam e Jafet. Os quais figuram a fragmentação tripartite do grande mercado global Lamec. Fragmentação esta que se desenvolvera durante a depressão Noé deste grande mercado.[12] A alegoria “Sem, Cam e Jafet” (filhos de Noé) representa a fragmentação tripartite da configuração espacial pertinente ao grande mercado global pré-diluviano em depressão Noé, conforme o exegeta da Bíblia de Jerusalém nos informa:[13]
“Sob a forma de um quadro genealógico este capítulo fornece uma tábua dos povos, agrupados menos segundo suas afinidades étnicas do que suas relações históricas e geográficas: os filhos de Jafé povoam a Ásia Menor e as ilhas do Mediterrâneo; os filhos de Cam, os países do Sul: Egito, Etiópia, Arábia e Canaã lhes é ligado em lembrança da dominação egípcia sobre esta região; entre esses dois grupos estão os filhos de Sem: elamitas, assírios, arameus e os antepassados dos hebreus”
O autor da gênese bíblica ressalva, também, a salvação de dois tipos de estruturas sociais permanentes: “mulheres”, alegoria esta que o autor sempre emprega no sentido de “forças de trabalho”; “animais”, que figuram as diversas modalidades de instituições sociais.[14]
- A relação entre a “arca de Noé” e a “montanha do Ararat”
A alegoria que expressa a relação entre a “arca” e as “montanhas do Ararat”, isto é, a arca “parar sobre” a montanha do Ararat implica as noções de “aportar e desembarcar”. Ou seja, implica dizer que as estruturas sociais eventuais e permanentes acima citadas vagavam devido ao caos social e invasões. Mas, se reestruturaram e se estabilizaram, gradativamente, juntamente e a partir da reestruturação e reemergência dos “nomos do Alto Egito” (montanhas do Ararat).[15]
[1] Cf. Bíblia “Ave Maria”, p. 17
[2] Souza, R. F. O Imaginário simbólico da criação do Mundo no antigo Egito, p. 316-317, 332.
[3] Cf. ART. 41: A segunda fase da formação da Estrutura do Sujeito Social, e sua representação topográfica (Art. 41, 3.7.2., p. 266-271): http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/a-segunda-fase-da-formacao-da-estrutura.html
Cf. ART. 42: O segundo dia da criação: o nascimento da linguagem (Art. 42, 3.8.,p.271-276):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/o-segundo-dia-da-criacao-o-nascimento.html
[4] Cf. Lévêque, P. As primeiras Civilizações – Volume I – Os Impérios do Bronze, p. 184-186.
[5] Cf. Idem, p. 186-193.
[6] Cf. Idem, p. 175.
[7] Cf. Dias representando anos no processo diluviano: passagem da era pré para a pós-diluviana:
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2012/06/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html
[8] Cf. Machado, F. A. O Dilúvio na realidade sócio-histórica pré e pós-diluviana interpretada pela cronologia da teoria da genealogia de Adão, p. 27. Cf. ART. 9: INÍCIO E TÉRMINO DA QUEDA DO MERCADO GLOBAL PRÉ-DILUVIANO: no Egito, na mesopotâmia e na civilização egéia (Art. 9, 1.2;1.2.1;1.2.2;1.2;3. P. 62-66):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/02/inicio-e-termino-da-queda-do-mercado.html
Cf. ART. 10: Peregrinação de Abraão pela Crescente Fértil no meio do dilúvio que abateu o mercado global pré-diluviano (Art. 10, 1.2.4;1.2.5;1.2.6;1.2.7. p.66-75):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/02/peregrinacao-de-abraao-pela-crescente.html
[9] Souza, F. S. O Imaginário simbólico da criação do Mundo no antigo Egito, p. 317.
[10] Bíblia “Ave Maria”: vejam citação no rodapé da p. 53, referente ao Gn 5, 29: “Noé: em hebraico Noah, significa descanso”. Noé no sentido de “descanso do trabalho próprio do Criador” é dado pelo autor: (Gn 2, 2) “Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho”; (Gn 5, 28-29) “Lamec… gerou um filho ao qual pôs o nome Noé, dizendo: ‘este nos trará, em nossas fadigas e no duro labor de nossas mãos, um alívio tirado da terra mesma que o Senhor amaldiçoou”.
[11] Cf. Machado, F. A. Teoria da História – Do grande mercado global pré-diluviano ao grande mercado global contemporâneo, p. 39-44, 60-62. Cf. ART. 6: O mercado regional egípcio (Médio Império) como referência para o estudo da formação do grande mercado global pré-diluviano (Art. 6, 1.1. e 1.1.1, p. 39-47):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/02/o-mercado-regional-egipcio-medio.html
[12] Idem, p. 236-238. Cf. ART. 36: NOÉ: IRREVERSÍVEL CRISE DO MERCADO GLOBAL – DILÚVIO: GRAVE E LONGA CONVULSÃO SOCIAL – DIVISÃO TRIPARTITE DO MERCADO: SEM, CAM E JAFET (ART. 36, 3.5.; 3.5.1.; 3.5.2., p. 236-244):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/noe-irreversivel-crise-do-mercado.html
[13] Bíblia de Jerusalém, rodapé da p. 47, item “a”, referente ao Gn 10, 1.
14 Cf. Machado, F. A. Teoria da História – Do grande mercado global pré-diluviano ao grande mercado global contemporâneo, p. 248-252. Cf. ART. 38: A salvação dos casais de animais na arca de Noé (Art. 38, 3.6.1., p. 248-252):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/a-salvacao-dos-casais-de-animais-na.html
15 Cf. Machado, F. A. O Dilúvio na realidade sócio-histórica pré e pós-diluviana interpretada pela teoria da genealogia de Adão, p. 21-22.
