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Livro: O DILÚVIO (Art. 16, Cap. III, 8.;8.1.;8.2., p. 64-72) www.tribodossantos.com.br
- O “abismo” e as “águas” na “Estrutura do Sujeito Social”. O autor da Teoria da História (que inclui a teoria da genealogia de Adão) opera com determinado modelo teórico, o qual não explicita. Vamos esclarecer alguns aspectos pertinentes a esse modelo teórico, para um melhor entendimento acerca do tema. Tal modelo consiste na noção que denominamos de “Estrutura do Sujeito Social” (cf. Gn 1, 1-3):[1] O autor descreve esta estrutura na primeira parte da Teoria da História. Primeira parte esta que chamamos de Sistematização Teórica, e que no seu “1° dia da criação”, ela esta descrita. A segunda parte da Teoria da História consiste numa Verificação Empírica. Pois, o autor da Teoria da História a subdividiu, de modo geral, em duas grandes partes: Sistematização Teórica e Verificação Empírica. A Estrutura do Sujeito social se formou durante duas longas fases, nos primórdios da humanidade. Ela consiste na sociedade pensada como uma totalidade estruturada na forma de um campo de forças, onde diversos subcampos de força interagem entre si. É nessa noção de totalidade que encontramos os significados atinentes aos signos “abismo” e “águas”.[2] Vejamos, primeiramente, o significado do signo abismo.
8.1. O abismo e as trevas. Na noção de Estrutura do Sujeito Social, o signo “abismo” (relações sociais de produção) é concebido como base real da sócio-história. O “abismo” é pensado como estando “coberto” pelas “trevas”. Neste tipo de simbolismo, determinados aspectos da natureza são empregados como metáforas de relações sociais: o “abismo” (relações sociais de produção) é pensado como a estrutura básica e real da sócio-história, na qual o foco é o trabalho material produtivo nelas exercido;”as trevas” se desenvolvem sobre essa base estrutural, e é pensada como uma superestrutura, constituída dos segmentos sociais dominantes, os quais exercem, em síntese, trabalhos intelectuais. Esta concepção tem como referência o quadro da divisão social do trabalho material e intelectual, ou seja, a relação entre estrutura e supra-estrutura.
No simbolismo acima indicado, o autor enfatiza o aspecto abissal pertinente às relações sociais de produção: quando os indivíduos (e a coletividade) se introduzem no trabalho produtivo (inicialmente, a produção agrícola, depois também a industrial), ele inicia sua “queda” (submissão) longa e vertiginosa à instituição coletiva do processo de produção. Esta se torna autônoma e percorre a sócio-história à revelia dos seus criadores, isto é, os indivíduos vivendo em sociedade, e domina-os, cada vez mais. Neste sentido, Marx esclarece:
“O poder social, ou seja, a força produtiva multiplicada, que nasce da cooperação de vários indivíduos condicionados pela divisão do trabalho, não se apresenta a esses indivíduos como sua própria força, força da união, porque tal cooperação mesma não é voluntária, mas natural. Ela lhes parece, ao contrário, uma força estranha situada fora deles, de cuja origem e fim nada sabem, que não podem mais dominar e que, ao contrário, passa por uma sequência particular de fases e estágios de desenvolvimento tão independente da vontade e da marcha da humanidade que na verdade dirige essa vontade e essa marcha. Tal alienação, para usarmos uma expressão inteligível aos filósofos, não pode ser naturalmente abolida, senão depois de satisfeitas duas condições práticas. Para que ela se torne uma força ‘insuportável’, isto é, uma força contra a qual os homens vão à revolução; é necessário que tenha feito da massa da humanidade uma massa totalmente ‘destituída de propriedade’, que se encontra, ao mesmo tempo, em contradição com um mundo existente de riqueza e da cultura, coisas que supõem, ambas, um grande aumento do poder produtivo, ou seja, uma fase adiantada de seu desenvolvimento. Por outro lado, esse desenvolvimento das forças produtivas (que já implica a existência real de homens no plano da história mundial, ao invés de transcorrer no plano da vida local), esse desenvolvimento das forças produtivas é uma condição prática preliminar absolutamente indispensável, pois sem ela é a penúria que se tornaria geral, e, com a necessidade, e também a luta pela subsistência que recomeçaria, e voltaríamos fatalmente à velha carência” (os grifos em negrito são nossos; Idem, p. 31. No mesmo sentido, cf. Idem, p. 70-71).
As forças produtivas (o aspecto social do Criador) entram em exaustão, em decorrência de elas serem sobre-exploradas. Em razão disto, elas entram na fase Noé de repouso, e chegam ao “fundo” (fim de uma era) do “abismo” (relações sociais de produção), ao atingir, precisamente, o período do “dilúvio” (grave convulsão social generalizada e prolongada). Então, o Criador de todas as coisas faz emergir, na sócio-história, o Escolhido, para que este desencadeie e lidere a insurreição social voltada para libertar os indivíduos do jugo que as instituições coletivas lhes impõem.
8.2. As águas. O significado do signo “águas” é uma chave para a decifração de todos os enunciados esotéricos em que ele se apresenta inserido, sobremodo na Teoria da História em questão. Esse significado nos foi dado pelo Mestre, para entendermos todo o trecho (perícope) que os exegetas classificaram como sendo o capítulo dezessete do livro Apocalipse (Cf. Ap 18, 15):
“E disse-me: as águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas”.
O signo “águas” significa, portanto, “múltiplos e multiformes grupos sociais e respectivas trocas sociais e simbólicas” (que acompanham as trocas materiais). Esta noção concebe as relações sociais, “águas”, pelo aspecto das suas exclusivas inter-relações sociais, ou seja, fazendo abstração do trabalho material exercido por essas relações face à natureza exterior. A noção “águas” difere da noção representada no signo “abismo”, à medida em este signo representa as relações sociais concebidas pelo aspecto do trabalho material (predatório; transformador ou produtivo) por elas exercidas face à natureza exterior. A noção “relações sociais de produção” traduz satisfatoriamente o significado do signo “abismo”. O significado do signo “águas” será mais bem entendido, se o captarmos no contexto que ele foi abstraído, que é a formação social concebida como totalidade e sujeito social estruturado. Sujeito social no qual, a realidade sócio-histórica representada no signo águas consiste, por um aspecto, num campo de força que interage com determinados outros campos de força. Os campos de força que compõem a segunda fase da Estrutura do Sujeito Social, quando surge o campo de força “Luz”, como uma resultante da primeira fase, agora sâo representados nos signos “céus”, “terra”, “abismo”, “trevas”, “águas”, “Espírito de Deus” e “luz”. Podemos representar, topograficamente, a segundas fase da Estrutura do Sujeito Social, do modo abaixo indicado:

Os signos “céus”, “terra”, “abismo-trevas”, “águas-Espírito de Deus” e “luz” foram criados pela perspectiva sistemática do elaborador da Teoria da História, o qual entende a sociedade como uma totalidade estruturada, ou melhor, como um sujeito social estruturado resultante da expansão e gradual complexidade do Trabalho Natura-Social, o Criador. Assim, a Divindade é concebida como sendo estruturada. Os referidos signos são concebidos como os campos de força que interagem entre si, no interior da Estrutura do Sujeito Social.
O elaborador da Teoria da História distingue, entretanto, duas diferentes e subsequentes fases do processo geral de formação dessa Estrutura do Sujeito Social. A primeira fase compreende o “princípio”, isto é, inicia com Deus criando os céus e a terra e se estende até ao Espírito de Deus ser apresentado como que pairando sobre as águas (Cf. Gn 1, 1-2). A segunda fase se inicia com a criação do subcampo de força Luz, e se encerra com a conclusão do processo geral da formação da Estrutura do Sujeito Social, isto é, a conclusão do “primeiro dia” (Cf. Gn 1, 3-5). Vamos focalizar, neste artigo, somente a primeira fase.
8.3. A primeira fase da formação da Estrutura do Sujeito Social, e sua representação topográfica. No princípio do “primeiro dia da criação”, o Trabalho Natura-Social se expandiu dando gênese a dois amplos e básicos campos de força: o campo subjetivo representado, metaforicamente, no signo “céus”, no qual o trabalho intelectual e demais fatores subjetivos se manifestam; o campo objetivo metaforicamente representado no signo “terra”, no qual a ação prática e o trabalho material são exercidos.
O signo “terra” representa o campo de força que consiste no trabalho sócio-material. Inicialmente, no período Paleolítico, essa modalidade de trabalho era apenas material ou prático. Pois, ele ainda não se apresentava como transformador da natureza, isto é, não era produtivo, mas apenas predatório, por que o período Neolítico ainda estava por vir. A inexistência do modo produtivo de trabalho foi representada na noção de que “a terra estava informe e vazia”, (Cf. Gn 1, 2-a).
Dois subcampos de força se desenvolveram no campo de força “terra”: o subcampo “abismo” e o subcampo “águas”. “Sobre” o subcampo “abismo” (relações sociais de trabalho material, inicialmente só predatório, mas ao se iniciar a fase Neolítica, esse trabalho passou a ser também produtivo), desenvolve-se, no campo “céus”, o subcampo “trevas” (atividades intelectuais e respectivas categorias de conhecimentos de natureza ideológica, da estrita lógica de ordem binária, e uma consciência coletiva correspondente, que se identifica mais com o aspecto inerte da natureza). Inicialmente, entre esses dois subcampos não havia uma correspondente divisão social de trabalho. Mas, paralela e articuladamente ao gradativo processo de complexidade social se desenvolveu a divisão e oposição entre os segmentos sociais que exercem, respectivamente, trabalho material e intelectual. Nesta forma de divisão social, os segmentos que exercem trabalho intelectual dominam e exploram àqueles outros segmentos.
O termo “abismo” foi empregado para representar, simbolicamente, o subcampo que consiste nas relações sociais de trabalho material (inicialmente somente predatório, isto é, no período Paleolítico). Ele foi empregado a fim de ressaltar determinado aspecto inerente a esse tipo de relações sociais: os indivíduos ao cooperarem entre si comprometendo suas forças de trabalho material na natureza, assim eles desenvolvem e vão como que “caindo”, ou seja, vão se submetendo a uma entidade coletiva, as forças produtivas. As quais vão subjugando e alienando, cada vez mais, os seus criadores, até chegar ao fundo desse “abismo”. Essa “queda” ou submissão dos indivíduos à entidade coletiva por eles criada, as forças produtivas, passou a ser intensificada com o início do período Neolítico, isto é, quando os indivíduos se introduziram no trabalho material produtivo ou transformador (agricultura), face à natureza exterior.
Em razão de o indivíduo haver “caído” no “abismo” acima apontado é que o elaborador do livro em apreço atribui a Deus (o Criador), este dar, como meta, ao indivíduo humano dominar determinados fenômenos sociais gerados pelo Criador (Cf. Gn 1, 28):
“Deus os abençoou: ‘Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra (os grifos em negrito são nossos).”
Cabe aos indivíduos submeterem a “terra” e, assim, submetem os fenômenos sociais que nela se desenvolvem. Desse modo, submetendo-se a “terra” (signo este que representa o campo do trabalho material), estaríamos submetendo, por extensão, as instituições coletivas que nós, indivíduos, criamos, mas que agora nos submetem. Por exemplo, submeteríamos as “forças produtivas” (abismo), isto é, os “animais selvagens” ( grandes instituições sociais autônomas), os quais submetem e exploram os indivíduos, seus criadores, e transcorrem na sócio-história à revelia desswes indivíduos.
Cabe aos indivíduos dominar, também, os “seres que vivem nas águas”, ou seja, todos os grupos ou instituições sociais que se desenvolvem no subcampo “águas” (múltiplos e multiformes grupos ou instituições sociais que compõem o universo das trocas significativas, que acompanham as trocas materiais). As instituições sociais foram geradas no “5° dia da criação“. Mas, elas se propagaram e se tornaram mais complexas e poderosas, a partir do “6° dia da criação” Dominar, sobremodo, os grandes “monstros marinhos”, isto é, os mercados regionais, os grandes mercados macro-regionais, o grande mercado global, as pequenas e grandes instituições financeiras (Imagem da Besta), etc., que também submetem os indivíduos, e perpassam a história, à revelia das vontades dos seus criadores. Quanto à submissão dos indivíduos em relação à instituição do grande monstro marino ou Grande Mercado, Marx e Engels esclarecem:
“… como acontece ainda que o comércio, que não obstante representa a troca dos produtos individuais e das nações diferentes, e nada mais, domine o mundo inteiro pela relação entre a oferta e a procura – relação que, segundo um economista inglês, paira sobre a terra como a fatalidade antiga e distribui, de mão invisível, a felicidade e a infelicidade entre os homens, funda impérios e os aniquila, faz nascer e desaparecer povos (…) Na realidade, na história antiga, é fato perfeitamente empírico que, com a extensão da atividade ao plano da história universal, os homens se tornaram cada vez mais sujeitos a uma força que lhe é estranha – opressão que tomavam por uma manifestação do que se chama Espírito do Mundo -, força essa que se tornou cada vez mais maciça e que, em última análise, revelou-se como o mercado mundial” (os grifos em negrito são nossos; Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã, p. 32-33).
Cabe ao indivíduo submeter as “aves dos céus”, quer dizer, os tipos de indivíduos e respectivos grupos ou instituições por eles criadas. Cuja localização social e respectiva visão de mundo e concernentes valores são gerados no interstício do contexto social em que, de um lado, (campo terra) situa-se a massa dos segmentos sociais que exercem trabalho material (segmentos trabalhadores), a qual é subordinada, alienada e explorada, e do outro lado, (campo céus) estão os segmentos sociais médios e os elitizado e que exercem trabalho intelectual, subordinando, alienando e explorando àquela massa.
As “aves dos céus” são frações dos segmentos sociais chamados de excedentes dos segmentos trabalhadores ou lumpemproletariado. Elas emergem no subcampo “águas”, mas são gerados no interstício da divisão social do trabalho material e intelectual. Este é o sentido do trecho (Cf. Gn 1, 20): “Deus disse: ‘Pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem as aves sobre a terra, debaixo dos céus”. Elas são constituídas por indivíduos cujas localizações sociais que ocupam os favorecem entender razoavelmente bem toda trama social operada pelas elites, para alienar, submeter e explorar os segmentos pobres trabalhadores. Assim esses indivíduos e os respectivos grupos sociais (publicanos, prostitutas, bandidos, soldadesca, etc.) que eles compõem, tendem a não se iludirem com as ideologias falseadas (religiões, filosofias, ideologias políticas, e econômicas, “ciências”, etc.) que os ideólogos das elites elaboram e lhes impõem sedutoramente. Eles também não se sujeitam às humilhantes e miseráveis condições de vida que os segmentos sociais das elites impõem aos trabalhadores. Em razão disso, eles procuram um atalho violento e/ou político para ascenderem na escala sócio-econômica. Por um aspecto, as “aves dos céus” quando bem sucedidas em suas intenções acabam sendo cooptadas e assumindo os padrões de valor peculiares às elites no poder. Pois, elas atuam como “intelectuais passivos” ou “asas”. Assim, seu nível de elaboração valorativa e intelectual não alcança ao nível de elaboração falseada e sedutora própria dos intelectuais ativos, mas apenas assimilam-nos. Por outro lado, tais “aves” não alcançam ao nível lógico de elaboração e dos respectivos valores peculiares tanto ao subcampo Espírito de Deus como ao subcampo Luz, os quais serão abordados mais de perto logo adiante. Enfim, as “aves dos céus” dispõem de um entendimento melhor elaborado que os segmentos trabalhadores (que ocupam o campo terra), mas aquém do campo céus. As “aves dos céus” consistem em marginais e seus bandos, bandos de “meninos de rua”, os políticos e seus partidos políticos, a soldadesca e seus exércitos e generais, revolucionários e seus grupos, etc.
Cabe, aos indivíduos, por fim, dominar “todos os animais que se arrastam sobre a terra”, ou seja, todas as modalidades de grupos ou instituições sociais, tanto as de pequeno porte como e sobremodo os grandes grupos ou instituições sociais de natureza cultural, em que se manifestam a linha lógica estrita (binária) de pensamento e respectiva conduta. Instituições estas que se “arrastam”, isto é, têm como base às “relações sociais de produção” (subcampo “abismo” situado no campo “terra”), e que se desenvolvem de modo intimamente condicionado esta sua base, mas que emergem no campo do conhecimento ou céus, como uma superestrutura peculiar e dentro do campo do conhecimento estrito ou “trevas”, a exemplo das grandes instituições ideológicas hierarquizadas: religiosas, filosóficas, cientificistas, artísticas, etc. Os “intelectuais ativos”, “intelligentsia”, “bloco ideológico”, “mulher prostituta” (cf. Ap 17, 1+) são representados metaforicamente como os “astros” (estabelecidos e que clareiam ou escurecem os céus ou “firmamento”, isto é, o campo do conhecimento).[3] Os intelectuais ativos elitistas elegem seus valores e elaboram suas respectivas visões de mundo (conhecimento hegemônico), e os impõem ao conjunto dos diversos segmentos sociais da formação social em que estão inseridos, e submetem esses segmentos.
“Sobre” o subcampo “águas” (um universo de interações exclusivamente sócio-culturais, mas que obviamente tem por substrato o campo “terra”, na condição “abismo”) desenvolve-se como uma superestrutura o subcampo ”Espírito de Deus” (atividades intelectos-sociais e respectivas categorias de pensamento peculiares à rica lógica complexa, possibilitada pelas intensas trocas simbólicas e materiais, próprias do subcampo “águas”, isto é, a consciência coletiva que se identifica com o Trabalho Natura-Social, o Criador).
Para efeito de análise, o elaborador da Teoria da História concebe que o Trabalho Natura-Social se expandiu e se desdobrou basicamente em dois grandes e gerais campos de força: os “céus” ou trabalho intelectual, portanto subjetivo; e a “terra” ou trabalho material, por conseguinte, objetivo. Inicialmente (possivelmente até ao estágio Paleolítico Superior) não havia significativa diferenciação social entre esses dois campos (divisão social do trabalho material e intelectual), nem a “terra” era objeto de trabalho transformador (produtivo) exercido pelo homem. Assim, podemos dizer que a “terra” estava “informe”. A terra, neste sentido, portanto, também estava ausente ou “vazia” da presença do homem produtor. O homem se introduziu no trabalho produtivo (agrícola) somente há doze mil anos atrás, iniciando o período Neolítico.
Acima definimos os significados dos signos céus, terra, abismo, etc. Assim, agora podemos nos expressar utilizando esses signos, pressupondo conhecemos seus respectivos significados. Procederemos desse modo para efeito de economia.
Vimos que nos dois campos de força, céus e terra, desenvolveram-se, respectivamente, os subcampos “trevas”, “abismo”; “Espírito de Deus” e “águas”, do seguinte modo. De um lado, o subcampo “Trevas” se desenvolveu no campo “céus”, emergindo como uma supra-estrutura que tem como base o subcampo “abismo” gerado no campo terra; de outro lado, o subcampo “Espírito de Deus” se desenvolveu no campo “céus”, emergindo como uma superestrutura que tem como base o subcampo “águas” gerado no campo “terra”. Esses quatro subcampos de força interagem entre si, no interior da sociedade humana pensada como uma totalidade estruturada, ou melhor, como um sujeito coletivo estruturado, que tem como mais uma de suas características se manifestar como um sistema total de campos de força. Sistema este basicamente subdividido entre dois grandes campos, os “céus” e a “terra”, em que os quatros subcampos de força “trevas”, “abismo”, “espírito de Deus” e “águas” interagem entre si do jeito que se segue.
O subcampo trevas que se desenvolveu no campo céus, “sobre” o subcampo abismo, atua, por um lado, condicionando hegemonicamente este abismo, e por outro lado, atua no sentido de interditar a possibilidade e a tendência de se realizar a união hipostática entre o Espírito de Deus, e, sua base águas. Em outros termos, o subcampo trevas procura manter o subcampo Espírito de Deus apostasiado ou como que “pairando” sobre a base águas deste. Por outro aspecto, o subcampo Espírito de Deus e sua base águas atuam reciprocamente visando realizar a união hipostática entre si. Obviamente, o subcampo trevas dispunha de força suficiente para manter o seu poder absoluto e o sistema total funcionando deste jeito, mas apenas por um determinado período de tempo, que deve ter sido muito longo, nos primórdios da história da humanidade. A descrição desse sistema total de forças interagindo entre si, no interior do Sujeito Social Estruturado, encontra-se registrada, de modo econômico, no livro gênese (Cf. Gn 1, 1-2):
“No princípio, Deus criou os céus e a terra, a terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”.
O enunciado acima pode ser topograficamente representado na imagem que ilustra, lá no início, o presente artigo.
8.4. As trevas e os querubins. Podemos representar, “antropomorficamente”, as relações sociais entre, de um lado, as “relações sociais de produção”, concebidas como base estrutural sócio-histórica, e do outro lado, a superestrutura composta pelos segmentos que exercem trabalhos intelectuais de direção. Neste outro tipo de simbolismo, o autor enfatiza a relação e as “armas”, isto é, os meios de controle, mobilização e domínio exercidos pela superestrutura sobre a base estrutural. Neste simbolismo, as “trevas” são mais concebidas como uma forma de consciência coletiva ou espírito que norteia as condutas dos querubins. Assim, as trevas podem ser pensadas como sendo objetivadas nos próprios “querubins”. A referida representação “antropomórfica” aparece no livro Gênese (cf. G, 3, 24), e foi resgatada por Isaías (cf. Is 6, 1-4). Mas, Ezequiel foi quem a focalizou com mais detalhes (cf. Ez 1, 1s; 8, 4+; 10+).
Numa sociedade complexa, as “trevas” podem ser mais bem pensadas, sucintamente, como sendo as quatro principais atividades intelecto-sociais de direção ou operação (quatro querubins) articuladas entre si em agrupamento operatório: direção ideológica (figura humana com silhueta humana); direção política (figura humana com face de leão); direção da produção (figura humana com face de touro); direção da circulação comercial (figura humana com face de águia), e os respectivos grupos sociais (rodas) que as exercem. Cada querubim dirige as respectivas instituições sociais coletivas. As “trevas”, isto é, os “quatro querubins” mobilizam seus respectivos agentes ou “instrumentos físicos” (“asas”, “braços e mãos”, “pernas”), para vigiar os seguimentos pobres trabalhadores, e puni-los quando ocorrem transgressões às diretrizes determinadas pelos querubins. “Vigiai e puni” é o seu lema central. Os próprios querubins operam essa função precípua, através dos “olhos” que eles dispõem ao longo de “toda a circunferência de cada uma das respectivas quatro rodas”. Assim, eles dirigem ou operam a moldagem das condutas dos indivíduos e dos demais grupos sociais, controlando, mobilizando e explorando-os. As quatro “rodas” (grupos sociais) que exercem as quatro respectivas atividades intelecto-sociais (querubins) olham (vigiam e punem, moldam as condutas, mobilizam, etc.), atenta e continuamente, sobretudo as forças de trabalho, em todos os contextos que estas estejam inseridas, mas notadamente nas relações sociais de produção. Estas são representadas nos pés dos querubins, cujas formas semelhantes aos pés de touro simbolizam as forças de trabalho empregadas na produção agrícola, e cujo aspecto cintilante peculiar ao material (bronze polido) do qual é constituído simboliza àquelas empregadas no trabalho industrial.
O Mestre e Escolhido do Criador conhecia bem os quatro querubins, e as funções precípuas dirigida por estes: vigiar e punir os segmentos pobres de trabalhadores e os excedentes destes (cf. Ap 4, 6-8). Assim, Jesus enviou mensagem, através do discípulo que ele amava, objetivando alertar as “estrelas” ou “anjos” (lideranças intelectuais) das comunidades que ele houvera desencadeado. Cada uma dessas comunidades apresentava a forma de uma comuna em assembleia aberta permanentemente (“igrejas”). Ele alertou-as quanto às tais funções dirigidas pelos querubins. Mas, recomendo a essas lideranças resistirem e avançarem, a despeito da forte coerção exercida pelos querubins, seguindo as “diretrizes pastorais” do modelo servo de liderança, que o nosso Mestre preestabelecera (amar e servir aos demais membros, sem se elitizar nem explorá-los). Resistir e avançar com a revolução de natureza igualitária, horizontal, fraterna e radicalmente pacifista. Neste sentido, o Mestre admoestou algumas lideranças, quanto ao modo como elas vinham conduzindo as respectivas “igrejas”, mas exaltou a administração de outras lideranças.
[1] Machado, F. A. Teoria da História – do grande mercado global pré-diluviano ao grande mercado global contemporâneo, p. 131-136. Cf. http://tribodossantos.com.br/pdf/Teoria%20da%20Hist%C3%B3ria%20-%20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf
[2] Cf. ART. 41: A segunda fase da formação da Estrutura do Sujeito Social, e sua representação topográfica (Art. 41, 3.7.2., p. 266-271):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/a-segunda-fase-da-formacao-da-estrutura.html
Cf. ART. 42: O segundo dia da criação: o nascimento da linguagem (Art. 42, 3.8.,p.271-276):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/o-segundo-dia-da-criacao-o-nascimento.html
[3] Cf. Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã, p. 45-46.