MELQUISEDEC O ESCOLHIDO, CRUCIFICADO NA FASE NOÉ. A VOLTA DE JESUS, NA FASE NOÉ PÓS-DILUVIANA

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Livro: Teoria da História (Art. 45, 3.11., p. 294-301) www.tribodossantos.com.br

   Devemos ressaltar que a depressão Noé fora acompanhada da revolução cultural liderada pelo Escolhido, o qual libertara muitos indivíduos do estado de extrema alienação, tornando-os autoconscientes, autodiligentes e dotados de consciência social crítica e transformadora. Indivíduos estes que formavam comunidades fraterna, horizontais e pacíficas, em que imperava o igualitarismo. A manifestação desse modelo de indivíduo e respectiva forma estrutural de comunidade é que dera início ao rompimento das “barreiras” sociais. Contudo, tal manifestação fora acompanhada, no rompimento das “barreiras” sociais, por pessoas famintas, desesperadas e dotadas de diferentes outras modalidades de conduta individual. Pessoas alienadas, individualistas, violentas, hipócritas, etc., e que se agrupavam de diversos modos: organizavam-se em movimentos sociais violentos, formavam multidões apáticas, etc. Este quadro geral se proliferou por todos os mercados regionais. Esta propagação foi propiciada porque esses distintos mercados estavam interligados na rede em nível global de trocas materiais, mas também culturais.

    Desse modo, as “águas” que estavam concentradas e reprimidas nos interiores das cidades, sobremodo nas grandes, e nas suas respectivas periferias, entraram nas mais extremas e generalizadas convulsões sociais. Revoltas populares acompanhadas de vandalismos se alastravam, vingando-se dos poderosos, destruindo palácios, templos, fábricas, etc. Turbas saíam famintas em êxodos citadinos impetuosos e violentos. Elas devastavam tudo por onde passavam: cidades menores; tudo que houvesse para comer no campo; caravanas comerciais; navios com carga e ancorados próximos ao litoral, etc. Enquanto hordas de nômades bárbaros devastavam e/ou ocupavam cidades e até impérios inteiros. Este é o contesto ocorrido em torno de 1800 a.C.,[1] que os antigos descreveram tribos famintas, a exemplo daquela chefiada por Abraão em pleno dilúvio, em êxodo da cidade de Ur, na Mesopotâmia. Tribo esta que acompanhara o Crescente Fértil, atravessara a Síria, a Fenícia, vagara pelas terras de Canaã, e acabara procurando comida no Delta egípcio (Cf. Gn 12-46+).[2]

    Chefes de bandos das mais diversas nações oriundas de regiões distantes entre si foram vistos nas terras de Canaã. Eles conduziam seus bandos em busca de comida e do saque em geral, contra cidades e os arredores destas. Depois, eles guerreavam entre si, disputando o espólio já tomado (Cf. Gn 14+).

    O elaborador da teoria da genealogia de Adão mostra que o Escolhido (Emanuel: Deus conosco) houvera emergido, também, na fase Noé de depressão do grande mercado global (Lamec). Neste sentido, ele utilizou a mesma fórmula “Henoc andou com Deus” (Cf. Gn 5, 24) empregada ao focalizar a emergência do Escolhido, na escala imperial Henoc (Sexta Dinastia, na era pré-diluviana), para indicar a emergência do Escolhido, também, no estágio Noé (Cf. Gn 6, 9):

    “Esta é a história de Noé. Noé era um homem justo e perfeito no meio dos homens de sua geração. Ele andava com Deus (o grifo é nosso)”.

    A análise literária do texto em apreço permite-nos a dedução acima indicada.

   Os grande profetas individuais aplicavam, na era pós-diluviana, a teoria acima indicada, para localizar o Ungido ou Messias na sócio-história. Daniel vislumbrou o Messias (Filho do Homem) emergindo no contexto do Império Romano.

        No Apocalipse, Jesus revelara a João que o Escolhido já houvera emergido e sido crucificado, também, em Sodoma (e também no Egito) (Ap 11, 8):

   “E jazerão seus corpos mortos na praça da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma (o grifo é nosso) e Egito, onde o seu Senhor também foi crucificado (o grifo é nosso)”.

   Sodoma aparece na história precisamente na época que ocorreu a depressão Noé do grande mercado global (Lamec) pré-diluviano. Essa cidade aparece, mais precisamente, no contexto do esfacelamento diluviano. Note que o narrador de um dos trechos em que Sodoma é citada aplica o signo “Sol”, nascendo, para marcar o contexto que vai descrever simbolicamente a seguir (Cf. Gn 19, 23-25):

     “O sol levantava-se sobre a terra quando Lot entrou em Segor. O Senhor fez então cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vindo do Senhor, do céu. E destruiu estas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo”.

    O “Sol”, ou seja, o Escolhido emergiu, portanto, em Sodoma. Pois, na Teoria da História (Cf. Gn 1, 14-19) o signo “Sol, gerado no “quarto dia da criação, representa a personificação da fase Luz, ou melhor, representa um determinado indivíduo real existente, que precede, introduz e “preside” a fase Luz (síntese) do processo genético-dialético de produção do conhecimento e respectivas transformações sócio-históricas, em tempo muito longo.

    O “Sol” ou Escolhido pode ter nascido e atuado publicamente em outra cidade situada na mesma planície em que Sodoma parece ter sido a principal cidade. Possivelmente, sua terra natal tenha sido Salém. Salém parece ter sido a mesma Jerusalém da época do Jesus Histórico.[3] O Escolhido pode ser identificado com o personagem Melquisedec, concebido como “rei” dessa cidade e “sacerdote de Elohin (…) Deus Altíssimo que criou os céus e a terra” (o grifo é nosso)” (Cf. Gn 14, 18-19). Esta concepção relativa a Melquisedec indica ou pelo menos sugere que ele era conhecedor da teoria da criação, ou seja, a Teoria da História, se é que ele não foi um dos seus elaboradores ou “reveladores” àquela época. Certamente, o texto indica que o “Sol”, isto é, o Escolhido emergiu ou teve como seu ponto alto de atuação a cidade de Sodoma e a de Gomorra. Parece ter ocorrido uma situação semelhante àquela que ocorreu com Jesus e o movimento social que ele desencadeou. Jesus nasceu em Belém, e teve a Galiléia como sua base de operação ou “quartel general” das investidas feitas aos arredores dessa base. Mas, ele teve Jerusalém como ponto alto da revolução que desencadeou, e base das ações posteriormente voltadas para a propagação deste movimento social, para as demais regiões do Império Romano.

    Georg Fohrer ensina que o personagem Melquisedec e a partilha do pão e do vinho citados no livro Gênese (Cf. Gn 14, 18-20) consistem em reminiscências históricas de origem cananéia, ou seja, a memória do rei e sacerdote cananeu que tinha esse nome, e que reinara na cidade chamada Salém. Reminiscências estas que foram preservadas por antigos sacerdotes hebreus, os quais elaboraram a releitura histórica do povo israelita, e adaptaram e incorporaram tais reminiscências no referido livro. Esta adaptação e a respectiva incorporação tiveram por objetivo atribuir o caráter divino à dinastia davídica, e assim exaltá-la. Os sacerdotes procuravam, assim, inculcar nos indivíduos do povo a ideia de legitimação e garantia divina evocada pelo rei. Os sacerdotes – que eram aliados do rei – objetivavam, também, exaltar e legitimar sua suposta condição de intermediário entre a divindade e cada indivíduo do povo.[4]

    Os antigos sacerdotes hebreus incorporaram à história do seu povo um personagem enobrecido pelo povo, e que era, então, ainda legendário e carismático. Mas, eles visavam satisfazer objetivos escusos. O Melquisedec histórico e o respectivo movimento social por ele desencadeado e liderado existiram, possivelmente, na realidade sócio-histórica. Tratou-se, respectivamente, de eventos análogos, ao Jesus Histórico e ao genuíno movimento social por este desencadeado, o qual era de natureza horizontal, igualitária, fraterno e radicalmente pacifista.

    A ação simbólica da partilha do pão e do vinho narrada por antigos sacerdotes hebreus, envolvendo Melquisedec e Abraão, obviamente nunca ocorrera de fato, pois este episódio consistiu em mera narrativa inventada pelos referidos sacerdotes. Mas, é certo que tal modelo de ação simbólica ocorrera efetivamente em outro contexto, e era conceituada como de suma importância, não só pelos cananeus, mas também pelos hebreus. O próprio Melquisedec histórico desfrutara de poderoso carisma junto à opinião pública. Carisma este que perdurou por muito tempo após sua morte. O fato dos sacerdotes hebreus recorrerem à lembrança que o povo guardava de Melquisedec, para legitimar e exaltar a dinastia davídica e a eles próprios, testemunha a grandeza do carisma que o referido rei e sacerdote desfrutavam junto à opinião pública. Grande carisma este ainda presente muito tempo após sua morte, ou seja, já na época em que os referidos sacerdotes elaboravam a releitura da história do seu povo. O Salmo 110, 1-4 aponta neste mesmo sentido, e o seu autor parece conceber que a história é cíclica, e que o Messias prometido e esperado apresentaria características análogas ao sacerdote e rei Melquisedec. E deixa subtendido que a doutrina esotérica representada na ação simbólica da partilha do pão e do vinho seria levantada novamente pelo Messias, enquanto sacerdote do Altíssimo. Vejamos o referido Salmo:

    “Oráculo de Iahweh ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés.’ Desde Sião Iahweh estendeu seu cedro poderoso, E dominas em meio aos teus inimigos. A ti o principado no dia do teu nascimento, As horas sagradas desde o seio, Desde a aurora da tua juventude. Iahweh jurou e jamais desmentirá: ‘Tu es sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.

    Este Salmo é importante porque o próprio Jesus se referiu a ele (Cf. Mt 22,41-45), com o objetivo de reivindicar para si tanto a condição de “sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” como a de Ungido, ou seja, a realização do próprio oráculo.

    É oportuno notar que o próprio Jesus (o Sol, o Escolhido, o Emanuel) profetizou, que o seu retorno ao processo genético sócio-histórico (que transcorre em tempo longuíssimo) ocorreria na fase Noé de depressão do grande mercado global (Lamec). Ocorreria, precisamente, num período anterior ao “dilúvio”, ou seja, no período de esfacelamento diluviano do grande mercado global. Neste sentido, vejamos Cf. Mt 24, 37-42):

   “Como nos dias de Noé, será a vinda do Filho do Homem. Como naqueles dias que precederam o dilúvio, estavam eles comendo bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não perceberam nada até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem. E estarão dois homens no campo: um será tomado e o outro deixado. Estarão duas mulheres moendo no moinho: uma será tomada e a outra deixada. Vigiai, portanto, porque não sabeis em que dia vem vosso Senhor (os grifos em negrito são nossos)”.

       A narração feita a respeito de Melquisedec, demonstra que ele era um sacerdote que conhecia, cultivava e propagava a doutrina representada na ação simbólica do pacto da partilha do pão e do vinho. Jesus o Escolhido emergira no contexto da escala imperial Henoc pós-diluviana (Império Romano). Neste contexto, ele atuara, também, como “sacerdote do Deus Altíssimo que criou o céu e a terra”. E, também conhecia, cultivava e propagava a referida doutrina.[5] Já focalizamos e explicamos o significado da citada ação simbólica, da forma como ele foi originalmente concebido por Jesus, e no contexto que este o apresentou. Podemos, de um lado, focalizar o evento Jesus Histórico e o respectivo contexto em que ele ocorrera, e de outro lado, presumir a natureza da realidade sócio-histórica em que ocorrera o evento Melquisedec Histórico e o concernente contexto em que este evento ocorrera. Assim, poderemos entender melhor o significado da ação simbólica instituída por Melquisedec, que consistiu na partilha do pão e do vinho. Podemos entender melhor, também, o contexto que Melquisedec o Escolhido emergiu e atuou durante o período do esfacelamento diluviano, que ocorrido na fase da depressão econômica nomeada Noé. Assim, podemos presumir, ainda, a natureza de algumas características pertinentes ao contexto Noé contemporâneo, nas quais o Escolhido voltará a emergir, isto é, nas quais ocorrerá a segunda vinda de Jesus.

    O Mestre emergira no contexto da sexta escala imperial (Império Romano) de expansão do grande mercado (o segundo Henoc da teoria da genealogia de Adão) pós-diluviano; Melquisedec emergiu no nono estágio (Noé) do processo de regressão do grande mercado global (o segundo Lamec) pré-diluviano. Na teoria da genealogia de Adão, as etapas Henoc (segundo Henoc) do processo de expansão do grande mercado, e, o estágio Noé de regressão do grande mercado global correspondem a contextos sócio-históricos diferentes. Mas, por outro aspecto, esses dois contextos têm muitos pontos em comum, sobretudo no que tange à exacerbação das coerções exercidas pelas grandes instituições coletivas (“grandes animais selvagens”) e seus respectivos agentes diretores sobre cada indivíduo.

    Para finalizar, observamos que o estudo acerca da Teoria da História e em particular a teoria da genealogia de Adão abre um leque muito amplo de possibilidades de pesquisas, em muitas das quais nos dedicamos. Não disponho, entretanto, de condições para desenvolver, isoladamente, todas essas possibilidades. Peço ajuda neste sentido, inclusive na forma de doações, traduções, correções, etc.

[1] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 112.

[2] Cf. Peregrinação de Abraão pela Crescente Fértil no meio do dilúvio que abateu o mercado global pré-diluviano (Art. 10, 1.2.4;1.2.5;1.2.6;1.2.7. p.66-75):

http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/02/peregrinacao-de-abraao-pela-crescente.html

[3] Veja o esclarecimento fornecido pelo exegeta, na Bíblia de Jerusalém, no rodapé da p.52, item “b”, referente ao Gn 14, 18-a.

[4] Cf. Fohrer, G. História da Religião de Israel, p. 60, 151, 169.

[5] Cf. Ações simbólicas na Ceia: a partilha do pão e do vinho; o lava-pés (Art. 22, 2.3., p. 146-155):

http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/03/acoes-simbolicas-na-ceia-partilha-do.html