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- O campo objetivo (ações sociais) da conduta individual ou campo “fora de vós”
O indivíduo que pratica a psicologia ensinada pelo Mestre e transmitida por Tomé, então, abre para si, a possibilidade de sair do estado de “Ilusão”, “pobreza” (intelectual) ou “morte” (alienação). Desse modo, ele pode se libertar, deixando de ser manipulado, a partir do “exterior” (fora de vós), nas interações sociais significativas, por outros indivíduos, mormente por ideólogos (sacerdotes, teólogos, filósofos, etc.) ou mesmo por contingências. Neste sentido, Tomé atribui a Jesus ensinar:
“O Reino está dentro de vós e, também fora de vós. Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai, o Vivente; mas se não vos conhecerdes, então estareis na ilusão, e sereis ilusão” (Cf. O evangelho de Tomé, p. 15, item 3, 8ª linha).[1]
- O Vivente: indivíduo autoconsciente, auto-diligente e dotado de consciência social crítica e transformadora – O Morto: indivíduo alienado ou privado de tudo
O indivíduo que pratica a psicologia ensinada pelo Jesus Histórico, assim se “converte” ou se transforma, e passa a ser sujeito das suas próprias ações. Isto é, sujeito autoconsciente, auto-diligente e dotado de consciência social crítica e transformadora. Ele atua, então, no sentido de transformar a sociedade injusta, corrupta e violenta, em que ele se encontre inserido. Jesus concebe essa condição individual, como a ideal, e a nomeia, metaforicamente, “Vida”, em distinção e oposição à condição de “Morte” (alienação).[2] Tomé percebera e entendera isto, e também que o Mestre tanto ensinava como se manifestava na condição de “Vivo”. Isto é, “sujeito autoconsciente, auto-diligente e dotado de consciência social crítica e transformadora”, tanto de si mesmo como da sociedade injusta, corrupta e violenta em que vivia. É neste sentido que Tomé nomeia de “Vivente”, tanto o Mestre como o Pai:[3]
“Eis as palavras do que é oculto – reveladas por Jesus, o Vivente – e transcritas por Dídimo Judas Tomé” (Tomé, p. 15, item 1);
“Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai, o Vivente” (Tomé, p. 15, item 3, 10ª-11ª linhas).
Jesus considera o conjunto complexo de conduta do ideólogo (sacerdote, teólogo, filósofo, etc.), como no estado de “morto” (alienado), mas num caso particular. O ideólogo é hipócrita ou “dois” por excelência, por opção e de modo renitente. Assim, ele atua no sentido de enganar, de modo sutil e sedutor, e de submeter, ideologicamente, o indivíduo de senso comum, para explorá-lo economicamente. Veremos este caso mais de perto, logo adiante.
A noção de “morte” em “Ele disse: ‘Aquele que vier a ser o hermeneuta [intérprete] dessas palavras não provará a morte” (Tomé, P. 15, item 1), tem o sentido de “alienação” ou privado de tudo. As noções de entorpecimento ou embriaguez têm também este mesmo sentido (cf. p. 22, item 28. Pois, o Mestre considera o indivíduo em geral (senso comum), como vivendo no estado de alienação, e empregara, metaforicamente, as palavras “morte” e “embriaguez” neste sentido, em diversas passagens. Isto pode criar dificuldade na interpretação de algumas passagens.[4] Por exemplo, numa ocasião em que ele ia se deslocar de uma cidade para outra, e um dos seus discípulos lhe pedira, para esperá-lo, pois o pai falecera e queria enterrá-lo, então, Jesus respondeu-lhe: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos”. A noção de “ilusão” [ou “pobreza” (intelectual) em outras traduções] no trecho da p. 15, item 3, 13ª-14ª linhas, também tem o sentido de “alienação”, “morte” ou “cadáver”.
- A grande importância do campo “dentro de vós” (subjetivo) da conduta individual: ele é motivador do campo objetivo – Os fatores constituintes do campo “dentro de vós”
Na noção de conjunto complexo de conduta empregada por Jesus, o campo “interior” ou “dentro de vós”, ou melhor, subjetivo é muito importante. Posto que, ele motiva o campo “exterior”, ou seja, objetivo da conduta desse mesmo nosso indivíduo. O campo subjetivo é constituído de diversos fatores, entre os quais, o fator sentimental ou afetivo é determinante e condiciona os demais fatores subjetivos.[5] O fator sentimental é representado metaforicamente na noção de “coração”. Em razão deste fator ser determinante, por isto mesmo é importante que o indivíduo conheça a sua natureza, e saiba da sua condição de fator determinante, e como ele condiciona os demais fatores subjetivos.
O campo subjetivo da conduta individual é constituído pelos seguintes fatores: sentimentos ou afetividade; valores; cognição (inteligibilidade, memória, linha lógica de raciocínio, etc.); propósitos ou intencionalidade; vontade ou volição. Estes fatores articulam-se entre si do seguinte modo. O campo sentimental enquanto fator determinante básico condiciona, logo de início, selecionando e suscitando valores correspondentes. Os sentimentos se apresentam como que um leque. Numa extremidade estão os sentimentos de ordem amorosa (solidariedade, compaixão, etc.); na outra, os sentimentos de ordem odiosa (ira, egoísmo, vaidade, inveja, ciúme, etc.). Em dada situação, o indivíduo pode apresentar uma nuance afetivo-valorativa entre esses dois extremos. Assim articulados entre si, sentimentos e valores condicionam os demais fatores subjetivos, inclusive as linhas lógicas de raciocínio (fator cognitivo), pois não existe uma razão dotada de autonomia, como se fosse uma entidade metafísica pairando na inteligibilidade.[6]
Os diferentes fatores componentes do campo subjetivo da conduta individual estando articulados entre si, do modo acima indicado, então, esse campo motiva o campo objetivo da conduta desse mesmo indivíduo, isto é, suas ações sociais, omissões, etc.
Em razão do fator afetivo ser determinante, e assim condicionar os demais fatores subjetivos, Tomé atribui a Jesus se referir, geralmente, ao conjunto dos fatores do subjetivos individual ou campo “dentro de vós”, nomeando-o apenas de “coração”, por exemplo:
“Disse Jesus: Eu vos darei o que nenhum outro olho viu, o que nenhum ouvido ouviu, e que jamais penetrou no coração do homem” (Tomé, p. 19, item 17);
“Disse Jesus: permaneci no meio do mundo e me revelei a eles na ‘carne’ [conduta objetiva ou prática exemplar]. Encontrei-os todos ‘embriagados’ [alienados, entorpecidos ideologicamente]. Entre eles ninguém tinha ‘sede’ [de saber], e minha alma ficou consternada com os ‘filhos dos homens’ [indivíduos], porque seus ‘corações’ [campo subjetivo e motivador do conjunto complexo de conduta] estão ‘cegos’[desconhecidos pelos próprios indivíduos]. (Tomé, p. 22, item 28, linhas 1-7);
“Não se colhem uvas dos espinheiros. Nem se colhem figos dos cardos, estes não dão frutos. No íntimo de seu coração, o homem ‘bom’ [cheio de sentimentos de ordem amorosa] produz [ações objetivas de] bondade. No íntimo de seu coração, o homem perverso produz perversidade. O que se manifesta [objetivamente] é o que ‘transborda’ [é determinado] do coração”. (Tomé, p. 25, item 45);
“Disse Jesus: Havia um homem rico que tinha muito dinheiro. E disse: Emprestarei meu dinheiro para semear, colher, plantar e encher de frutos meus celeiros, de modo que eu não tenha falta de coisa alguma. Eis o que ele pensava no “coração” [abundante de sentimentos de ordem odiosa: ambição, egoísmo, etc. e valores correspondentes]. Nessa mesma noite, morreu. Quem tem ouvido, ouça!” (Tomé, p. 30, item 63).
“Disse Jesus: Felizes aqueles que foram perseguidos, inclusive em seus corações [“dentro de vós” ou campo subjetivo: sentimentos, valores, cognição, propósitos vontade, etc.] esses são os que conheceram de verdade o Pai. Felizes os que têm fome (de Justiça e de saber) porque serão saciados”. (Tomé, p. 32, item 69).
Logo na sentença nº 2, o Mestre recomenda ao indivíduo, que se esforce, incessantemente, tanto a interpretar cada sentença (notadamente aquelas pertinentes ao conjunto complexo da sua conduta individual) como em aplicá-las em si mesmos, nas interações sociais. Como resultado disto, por um lado, o indivíduo se sentirá perplexo e maravilhado, ao constatar que o reino do conhecimento dos “céus” consiste, por um aspecto, nessa práxis efetivamente revolucionária, enquanto radicalmente pacifista, entre o campo subjetivo, e o objetivo, no contexto social. E, por outro lado, o indivíduo “reinará sobre tudo”, seja enquanto sujeito de sua própria conduta (agora, auto clarificado, auto-diligente e dotado de consciência social critica e transformadora), seja enquanto sujeito que interage com outro (s), a partir das suas interações sociais imediatas, e mesmo indiretas e afastadas. Vejamos:
“Disse Jesus: Aquele que procura, continue sempre em busca até que tenha encontrado; e quando tiver encontrado, sentir-se-á perturbado; ficará maravilhado, e reinará sobre tudo”. (Tomé, p.15, item nº 2).
Na mesma direção acima, mas indicando, precisamente, o campo “por dentro de vós” (subjetivo) como o ponto de partida, para a procura, assim o indivíduo encontrará aberto para si o “reino do céu”. Ou melhor, estará manifestando a práxis revolucionária “reino do céu” (campo do conhecimento verdade). Em outros termos, este é o procedimento que possibilita ao indivíduo, tornar-se Vivente: autoconsciente, auto-diligente e dotado de consciência social crítica e transformadora:
“Disse Jesus: Quem procura, encontrará – e a quem bate de dentro, abrir-se-lhe-á”. (Tomé, p. 37, item 94).
[1] O Evangelho de Tomé. Traduzido por Jean-YvesLeloup, tradução brasileira por Guilherme João de Freitas Teixeira, 6ª edição, Editora Vozes, Petrópolis, 2001, p. 15, item 3, 8ª linha).
[2] Cf. Árvore da vida versus árvore da ciência do bem e do mal, na moldagem da erva: http://tribodossantos.com.br/2015/03/arvore-da-vida-versus-arvore-da-ciencia-do-bem-e-do-mal-na-moldagem-da-erva/ ; http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/03/arvore-da-vida-versus-arvore-da-ciencia_16.html
[3] Cf.: Deixa que os “mortos” enterrem seus mortos: http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2012/09/deixa-que-os-mortos-enterrem-seus-mortos.html; Noção de “morte” (alienação) chave para o NT: http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2012/10/nocao-de-morte-alienacao-chave-para-o-nt.html
[4] Cf. Idem.
[5] Cf. Primeira sentença (a sobrevivência do corpo subjetivo): é prioridade cuidar do corpo subjetivo, e conseqüentemente do corpo objetivo: http://tribodossantos.blogspot.com.br/2012/10/a-prioridade-e-cuidar-do-corpo-subjetivo.html
[6] Cf. O Caminho ou “método analítico” ensinado por Jesus – O “corpo todo” (indivíduo como totalidade) e suas partes: corpo subjetivo – corpo objetivo (Mt 5, 27-30): http://tribodossantos.com.br/2015/11/o-caminho-ou-metodo-analitico-ensinado-por-jesus/ ; http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2012/10/o-caminho-ou-metodo-analitico-ensinado.html