O Caminho ou “método analítico” ensinado por Jesus

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O Caminho ou “método analítico” ensinado por Jesus – O “corpo todo” (indivíduo como totalidade) e suas partes – o caminho ou método analítico: corpo subjetivo – corpo objetivo (Mt 5, 27-30). (Art. 15, 4.2.;4.2.1., p. 8o-88)

Livro O Templo – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

Vejamos, primeiramente, em Mt 5, 27-30, o Mestre ensinando a aplicação do caminho ou método analítico, na abordagem do indivíduo concebido como totalidade ou “o corpo todo”. Ou seja, a identificação das partes constitutivas desse todo, e os modos como elas se relacionam: campo ou corpo subjetivo motivando o campo ou corpo objetivo. E, a identificação dos diversos fatores contidos nessas duas partes, e os tipos de conexões possíveis entre esses fatores. A amostra ou exemplo utilizado pelo Mestre é a questão do adultério:

   “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração. Se teu olho direito é para si causa de queda, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo todo seja lançado na geena. E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é preferível perder-se um só dos teus membros a que o teu corpo inteiro seja atirado na geena” ( os grifos em negrito são nossos). (Mt 5, 27-30).

No trecho acima, a noção de “coração” é empregada como metáfora do fator afetivo ou sentimental, pertinente ao campo “interior” no sentido de “subjetivo”, da conduta individual. Campo subjetivo este que pode ser nomeado de “corpo” subjetivo do indivíduo. A noção de “cobiça” consiste em uma modalidade de sentimento de ordem odiosa. Neste caso, o fator afetivo “cobiça” é considerado, conforme sua intensidade relativa, determinante, e condiciona, em primeiro lugar, os valores do indivíduo.

Os sentimentos se apresentam como que um leque, ou seja, eles podem se apresentar de diversas formas e diferentes gradações, que vão de um polo ao seu extremo oposto. O Filho do Deus do amor, isto é, o Filho do Homem considera, tanto para o indivíduo como para as interações sociais, os sentimentos de ordem amorosa como positivos, bons ou saudáveis; e os de ordem odiosa como negativos, maus ou doentios. Os sentimentos condicionam os valores, homologando sua característica de polaridade nos valores, conforme Morente ensina :[1]

 

Ahora compreenden ustedes, los que haian seguido cnmigo el curso de psilogía, la íntima relación que existe entre los valores y los sentimientos; y por qué los psicólogos hace treinta o cuarenta años, cuando empezó a estructurarse la teoría de los valores, propendierom a decir que los valores no tenían ninguma entidad propria, no eram cosas sino impresiones subjetivas. Y es porque confundieron los valores con los sentimientos. Y por qué confundieron los valores con los sentimientos? Porque entre los fenómenos psíquicos, los sentimientos son los únicos que tienen, como los valores, esta característica de la polaridad. Una que es positiva y una otra negativa. Pero hay dos tipos de polaridad: la polaridad de los sentimientos, la polaridad psicológica, y la poloridad de los valores o axiológica”.

    O Mestre conhecia a íntima relação e respectiva polaridade entre o fator sentimental e o fator valorativo:

    “Não ajunteis para vós “tesouros” [valores] na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furam e roubam. Ajuntai para vós “tesouros” [valores] no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furam nem roubam. Porque, onde está o teu tesouro [valor], lá também está teu coração [sentimentos]” (o grifo em negrito é nosso). (Mt 6, 19-20).

No trecho em tela, a noção de “tesouros” é utilizada como metáfora da noção de “valores”, enquanto “importância positiva ou negativa e em maior ou menor grau, de determinada ‘coisa’ (fenômeno) estabelecida ou arbitrada de antemão”, segundo o critério de valor de cada indivíduo.[2] Assim articulados entre si, sentimento (coração) e valor (tesouro) motivam os demais fatores subjetivos: cognição, vontade, intencionalidade, etc. O conjunto desses fatores subjetivos articulados, assim, entre si, no interior do campo ou corpo subjetivo, motiva, por sua vez, o campo objetivo (ação, omissão, procedimento) da conduta do mesmo indivíduo. Desse jeito, o campo subjetivo estando sob a predominância atual do sentimento de “cobiça”, que é de ordem odiosa, então, este  sentimento odioso predispõe o campo objetivo do indivíduo, a concretizar a ação instruída e indicada pelo referido sentimento odioso, mesmo antes de consumá-la ou concretizá-la.

A Ciência moderna admite que os sentimentos (que o Mestre representa na noção de “coração”) condicionam os valores (que o Mestre representa na noção de “tesouro”). Neste sentido, Piaget diz:[3]

   “De acordo com Claparède, os sentimentos atribuem objetivo à conduta, ao passo que a inteligência restringe-se a fornecer os meios (a ‘técnica’) (…) Na medida em que o sentimento dirige a conduta ao atribuir valor a seus fins, devemos nos limitar a dizer que ele fornece as energias necessárias para a ação, ao passo que o conhecimento lhe impõe uma estrutura. Daí a solução proposta pelo chamada psicologia da forma: a conduta implica um ‘campo total’, abrangendo o sujeito com os objetos, e a dinâmica desse campo constitui os sentimentos (Lewin), enquanto sua estruturação é assegurada pelas percepções, motricidade e inteligência. Adotaremos fórmula análoga (…) Por conseguinte, diremos apenas que cada conduta implica um aspecto energético ou afetivo, e um aspecto estrutural ou cognitivo, o que engloba de fato os diversos pontos de vista precedentes”.

Os grandes profetas individuais já conheciam a noção que concebe o indivíduo como um conjunto complexo de conduta, nos termos indicados pelo Mestre. Por exemplo, eles conheciam e criticavam o tipo de dualismo caracterizado pelo conjunto complexo da conduta hipócrita, e o aspecto determinante do fator afetivo (neste caso, predominantemente odioso) do campo subjetivo do indivíduo, na motivação da conduta objetiva deste. (cf. Am 5, 14-15; Os 2, 16-17; 10, 2-4; 13, 5-6; Jr 4, 3-4; Ez 18, 30-32; 36, 26-27; Zc 7. 9-12). O Mestre cita Isaías, ao ensinar acerca do peso determinante dos sentimentos (coração), no processo cognitivo do indivíduo, e na conduta objetiva deste. Ele cita: Isaías (cf. Is 6, 9+), em Mateus (cf. M 13, 14-15); Isaías (cf. Is 29, 13), em Mateus (cf. Mt 15, 7-9); e Isaías (cf. Is 6, 10), em João (cf. Jo 12, 40).

O Mestre nos ensinou, ainda, que o “coração” (fator sentimental, determinante básico no campo subjetivo) condiciona, além dos “tesouros” (valores), também o fator cognitivo (pensamentos, linhas lógicas de raciocínio, etc.), a volição e propósitos. E, que esse campo subjetivo motiva o campo objetivo, o qual Jesus mostra como exemplo: homicídios, adultérios, etc.:

   “Não compreendes que tudo o que entra pela boca vai ao ventre e depois é lançado num lugar secreto? ‘Ao contrário, aquilo que sai da boca, provém do coração, e é isso o que mancha o homem. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias (o grifo em negrito é nosso)”. (Mt 15, 17-20)

O Mestre travara embates de ideias contra os sacerdotes, criticando o tipo “hipócrita” ou “dualista” de conduta individual, próprio dos sacerdotes. Nesta direção, ele ensinara que o sentido como se manifesta a conduta do campo objetivo (ação, procedimento, prática ou “fruto”), é indicado pela natureza dos tipos de sentimentos (amorosos ou odiosos), que abundam no fator “coração” (afetivo). Desse modo, o campo afetivo representado, metaforicamente, na noção de “coração”, assim condiciona o fator cognitivo, e no campo objetivo condiciona as respectivas palavras proferidas. Por exemplo, as palavras mentirosas proferidas pelos “sacerdotes” (representados na figura das “árvores”), que Jesus considera como “raça de víboras”. Isto é, grupo constituído de satanases ou diabos: os mega opositores de Deus e de Jesus. “Sacerdotes” (árvores) esses que se encontravam cheios de sentimentos maus, quer dizer, odiosos, e diziam que Jesus expulsava demônios favorecido por Beelzebú, príncipe dos demônios.

Jesus ensinava que o indivíduo dotado de abundantes sentimentos bons, isto é, amorosos, assim manifesta boas coisas em seus respectivos “valores atuais”, os quais são representados, metaforicamente, na noção de “tesouros”. Ou seja, manifesta “tesouros” (valores) igualmente positivos ou bons (fraternais). Ao contrário, indivíduos dotados de abundantes sentimentos maus, isto é, odiosos, assim manifesta “tesouros” (valores) igualmente negativos ou maus (egotistas). Conclusão, o Mestre ensina que os “sentimentos” (coração) consistem em fator determinante, e assim condicionam os valores (tesouros). Vejamos o trecho:

   “Ou dizeis que a árvore é boa e seu fruto bom, ou dizeis que é má e seu fruto, mau; porque é pelo fruto que se conhece a árvore. Raça de víboras, maus como sois, como podereis dizer coisas boas? Porque a boca fala do que lhe transborda o coração. ‘O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O homem nau, porém, tira coisas má de seu mau tesouro”. (Mt 12, 33-35).

4.2.1. O corpo subjetivo motiva o corpo orgânico a partir dos sentidos representados no “olho”.

A partir do campo subjetivo, o sentimento atual de cobiça age, permeando valores, cognição, volição e propósitos, no “aparelho sensitivo” (que recebe a sensação: visão, audição olfato, gosto e tato). Aparelho sensitivo que é representado na noção de “olho”, condicionando e instruindo o sentido da conduta objetiva do indivíduo. Desse jeito, o indivíduo tem sua atenção voltada, imaginativamente ou para a coisa ou fenômeno mesmo, isto é, os membros e respectivo objeto da ação. Predispondo-se, desenvolvendo ou concretizando a conduta (ação, omissão, etc.) previamente indicada pelo sentimento de cobiça.

O Filho do Homem considera, segundo seu critério de valor aplicado no seu contexto social, a ação do adultério como falta de respeito, de consideração e de amor para com o próximo. E, prejudicial ao bom convívio social, e ainda transgressão à 7ª das dez recomendações (Leis) feitas por Iahweh, através de Moisés, aos hebreus (cf. Ex 20, 14). Para evitar o adultério, ele recomenda duas soluções, ao indivíduo que estiver precondicionado, desenvolvendo ou concretizando a ação de adultério.

Em primeiro lugar, o Mestre ensina como o indivíduo convém proceder, operando a partir do campo subjetivo da conduta desse mesmo indivíduo, sobre os seus fatores subjetivos. Neste caso, ele recomenda ao indivíduo saber identificar os fatores determinantes básicos (os sentimentos), e conter, primeiramente, o sentimento de cobiça, e estimular sentimentos de ordem amorosa, etc.

Em segundo lugar, o Filho do Homem ensinou como proceder a partir do campo objetivo da conduta desse mesmo indivíduo. Neste outro caso, ele recomenda ao indivíduo eliminar, conforme seu estágio, a predisposição percebida, o desenvolvimento ou mesmo a concretização da ação social hábil do adultério.

[1] . Morente, M. G. Lecciones Preliminares de Filosofia, p. 380: “Ahora compreenden ustedes, los que haian seguido cnmigo el curso de psilogía, la íntima relación que existe entre los valores y los sentimientos; y por qué los psicólogos hace treinta o cuarenta años, cuando empezó a estructurarse la teoría de los valores, propendierom a decir que los valores no tenían ninguma entidad propria, no eram cosas sino impresiones subjetivas. Y es porque confundieron los valores con los sentimientos. Y por qué confundieron los valores con los sentimientos? Porque entre los fenómenos psíquicos, los sentimientos son los únicos que tienen, como los valores, esta característica de la polaridad. Una que es positiva y una otra negativa. Pero hay dos tipos de polaridad: la polaridad de los sentimientos, la polaridad psicológica, y la poloridad de los valores o axiológica”.

[2]. Ferreira A. B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa: “valor”.

[3] . Piaget, J. Psicologia da Inteligência, p. 15. Morente aponta para o sentido próximo ao de Piaget (cf. Morente, M. G. Leciones Preliminares de Filosofia, p. 372, 379-378). Weber também concebe que “o sentido da ação é subjetivamente indicado”; embora não perceba que além dos valores tanto os fins como as racionalizações do fator cognitivo são igualmente condicionadas, previamente, pelo fator afetivo. Cf. Weber, Max. Economia y Sociedad – I Teoria de La Organização social, p. 22-24.