(TEXTO) Jesus contra o valor de troca. P. 2: Trito-Isaías e David Harvey e a Nova Jerusalém

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Jesus contra o valor de troca. Parte 2: Trito-Isaías e David Harvey e a Nova Jerusalém

Sociedade utópica – Nova Jerusalém: a importância do valor de uso (habitação, etc.) apontada pelo profeta Trito-Isaías e por David Harvey

Na palestra anterior (Jesus contra o valor de troca), falei que os grandes profetas individuais, que precederam Jesus, já lutavam contra o valor de troca da mercadoria, e exaltavam o valor de uso. Ou melhor, eles exaltaram e prognosticaram um tipo ideal de formação social, em que o valor de troca seria eliminado e substituído pelo valor de uso. Ou seja, o tipo de sociedade em que seria hegemônico, aquilo que Aristóteles chamava de “Economia”, isto é, a circulação normal de mercadorias.

Pois, os grandes profetas individuais eram contrários ao que Aristóteles chamava de “crematística”: o afã insaciável pela acumulação, através da troca de mercadoria, do dinheiro, e pelo enriquecimento.

Dei como exemplo, o grande profeta individual anônimo, que foi rotulado de Trito-Isaías. O qual ensinou e pregou em torno de 520 a.C., isto é, em época imediatamente posterior aos judeus retornarem do Exílio Babilônico. [NOTA: Bíblia de Jerusalém – Introdução a Isaías, p. 1239, ]. O Trito-Isaías ensinou e pregou, portanto, antes de Aristóteles (384-322 a.C.). Os escritos do Trito-Isaías  demonstram que ele distinguia, claramente, a noção de valor de troca, da noção de valor de uso, e exaltava esta última noção.

Uma ligeira recapitulação da palestra anterior. Com Marx, vimos que Aristóteles, diz Marx, “foi primeiro [que] analisou a forma do valor… De início, exprime ele claramente que a forma dinheiro da mercadoria é apenas a figura ulterior desenvolvida da forma simples do valor, isto é, da expressão do valor de uma mercadoria em outra qualquer, dizendo: ‘5 camas = 1 casa’ não se distingue de ‘5 camas = tanto de dinheiro’. Reconheceu ele, ainda, que a relação de valor existente nessa expressão, determina que a casa seja qualitativamente igualada à cama e que sem essa equalização, não poderiam coisas de aparência tão diversa ser comparada como grandezas comensuráveis. ‘A troca’, diz ele, ‘não pode existir sem a igualdade, nem a igualdade, sem a comensurabilidade”.

Marx demonstrou, por fim, que Aristóteles não chegou a conhecer o trabalho humano, como o criador do valor da mercadoria, nem que esse trabalho se encontra materializado na mercadoria.

Na palestra anterior, demonstrei, claramente, que Jesus conhecia a “forma dinheiro do valor”, e mais o trabalho humano como o criador do valor da mercadoria. Pois, Jesus se referiu, conforme vigorava na Judeia, em sua época, a “um denário“, como o dinheiro romano equivalente em valor de um dia da mercadoria trabalho, como também a uma medida de trigo, e ainda como a três medidas de cevada, e que essa equalização não se danifica, também, com relação ao azeite, ao vinho e as demais mercadorias.” Nessa direção, Jesus disse:

   “uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário”, mas não danifiques o azeite e o vinho!(Ap 6, 6).

Ora, Ao ler e interpretar, objetivamente, o sentido original desse e de outros textos de Jesus, então, entendemos que essa forma de interpretação, já era feita ao menos por pessoas mais bem informadas da época de Jesus. Ao exemplo dos saduceus (notórios admiradores da cultura grega) e mesmo dos fariseus, e certamente de muitos dos discípulos de Jesus mais bem informados. Inclusive e sobretudo àquelas pessoas que conheciam as noções de “crematística” e de “economia” de  Aristóteles, e também a sua noção de “forma dinheiro do valor”.

Não seria necessário esperar Marx nascer, para conhecer as noções desenvolvidas por ele, acerca da “mercadoria”, para se entender o sentido original da doutrina de Jesus, enunciada nos termos citados: uma medida de trigo por um denário…”

Mesmo os primeiros porcos da Patrística que eram embebidos do neoplatonismo, com certeza conheciam o sentido original da doutrina de Jesus, e certamente conheciam também a filosofia de Aristóteles. Os primeiros porcos da Patrística empregavam a ideologia da “fé paulina”, da noção idealista de “razão”, do dualismo “corpo versus alma”, ambos de Platão, e mais inúmeras asneiras.

Na realidade, esses primeiros porcos utilizavam inúmeras imundícies tanto filosóficas gregas como místicas, precisamente para dissimular, com essa nuvem negra, tanto o sentido original da doutrina de Jesus como o entendimento das pessoas a respeito da realidade social.

Quando abstraímos o sentido original da doutrina de Jesus, pertinente ao texto em tela e também a outros tantos textos, assim estamos fazendo e enunciando uma nova teologia. Uma teologia objetiva e revolucionária. Nesse sentido, venho apresentando em algumas palestras, um curso acerca do novo método de interpretação da realidade histórico, que desenvolvi. O qual é de natureza interdisciplinar, e abarca, por um lado, métodos de interpretação ou ferramentas das disciplinas incluídas na área das Ciências Humanas (Sociologia, História, Ciência Política, etc.), e por outro lado, lado, essa nova e revolucionária teologia. Vamos voltar ao Trito-Isaías.

Através do Trito-Isaías, Iahweh, o Deus do amor, do direito e da justiça, o mesmo Deus que Jesus chama de Pai, então, prometeu aos segmentos sociais de trabalhadores pobres, o advento da concretização do tipo ideal de formação social: justa, igualitária, fraternal e radicalmente pacifista. O referido grande profeta individual representou esse tipo ideal, na figura da “Jerusalém”, e Jesus o ratificou e nomeou esse modelo justo de formação social de “Nova Jerusalém”.

Na “Nova Jerusalém”não haverá corrupção como hoje ocorre no Brasil, mas haverá justiça social, e os indivíduos membros dos segmentos sociais de trabalhadores que hoje vivem na penúria, passarão a se beneficiar dos produtos das suas mãos. Isto é, o modelo de formação social, em que tanto o trabalho como a produção feitas pelos segmentos trabalhadores, não será condicionada nos termos de valor de troca. Mas como valor de uso, notadamente quanto à moradia, mas também em relação à produção agrícola, etc.

Os segmentos trabalhadores não mais serão enganados, entorpecidos, oprimidos e explorados pelos ideólogos hegemônicos e demais segmentos das elites dominantes. Elites estas que submetem e se apropriam, hoje, tanto das forças de trabalho como dos produtos confeccionados pelos trabalhadores pobres. Nesse sentido, proclamou Iahweh, através do Trito-Isaías:

Pois eu vou criar novos céus, e uma nova terra; o passado já não será lembrado, já não volverá ao espírito, mas será experimentada a alegria e a felicidade eterna daquilo que vou criar. Pois vou criar uma Jerusalém destinada à alegria, e seu povo ao júbilo; Jerusalém me alegrará, e meu povo me rejubilará; doravante não se ouvirá aí o ruído de soluços nem de gritos (…) Serão construídas casas onde habitarão, serão plantadas vinhas cujos frutos comerão. Não mais se construirá para que outro se instale, não mais se plantará para que outro se alimente. Os filhos de meu povo durarão tanto quanto as árvores, e meus eleitos gozarão do trabalho de suas mãos. Não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos voltados a uma morte repentina, porque serão a raça abençoada pelo Senhor, eles e seus descendentes. Antes mesmo que me chamem, eu lhes responderei, estarão ainda falando e já serão atendidos”. (Is 65, 17-19, 21-24).

A promessa acima citada foi ratificada pelo Filho do Homem, jesus, através de revelação feita por este ao discípulo que ele amava:

“Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia. Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo. Ao mesmo tempo ouvi do trono uma grande voz que dizia: ‘Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos, e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”. (Ap 21, 1-4).

Jesus mostrou mais alguns aspectos pertinentes ao futuro modelo de formação social. Ele amaldiçoou o templo, o culto e os ideólogos e ensinou: somente no “fim da história” do processo de aprimoramento da geração que vem passando por tribulação na terra, é que o Criador livrará a humanidade da maldição do templo e dos sacerdotes. E, o tipo ideal de sociedade justa, libertária, fraterna e igualitária pleiteada pelos grandes profetas individuais, e representada na figura da “nova Jerusalém”, irá, então, se concretizar.

Jesus representou na figura de um cubo perfeito, em distinção e oposição ao modelo hierarquizado representado na forma piramidal. O Mestre destacou importante revelação ao discípulo que ele amava: no “fim da história”, no modelo de formação social justa, fraterna e igualitária representada na figura do cubo perfeito, não haverá nenhum templo-edifício, nem culto, e tão pouco se verá sacerdotes do tipo serpente. O modelo servo de conduta e de diretriz pastoral desempenhado pelo Filho do Homem, isto é, o Servo e Cordeiro de Deus será hegemônico, e constituirá, ao lado do próprio Deus Criador, o Templo nesse modelo ideal de formação social.[1] Nesse sentido, o João esclarece:

Não vi nela, porém, templo algum, porque o Senhor Deus Dominador é o seu templo, assim como o Cordeiro” (Ap 21, 22).

O renomado geógrafo David Harvey desenvolve estudos, analisando a caótica sociedade capitalista contemporânea, e faz projeções que apontam para a mesma direção do Trito-Isaías e de Jesus. Primeiramente, ele fez a genealogia da bolha imobiliária de 2008, depois ele sugere a substituição da noção de valor de troca, pela do valor de uso, na habitação, na saúde, no ensino, enfim, na sociedade em geral. Nesse sentido, Diz Harvey:[2]

Mas depois há a questão de como você consegue essa casa. Antigamente, as casas eram construídas pelas próprias pessoas, e não havia absolutamente nenhum valor de troca. Depois, a partir do século XVIII, você tem a construção de casas especulativa – os terraços georgianos que eram construídos e vendidos posteriormente. Assim, as casas se tornaram valores de troca para os consumidores na forma de poupança. Se eu comprar uma casa e pagar a hipoteca sobre ela, eu posso acabar como proprietário da casa. Então, eu tenho um bem. Por isso, eu passo a ficar muito preocupado com a natureza do bem. Isso gera políticas interessantes – ‘não no meu quintal’, ‘eu não quero que pessoas que não se parecem comigo se mudem para o meu lado’. Então, você começa a ter a segregação nos mercados da habitação, porque as pessoas querem proteger o valor das suas poupanças.

Assim, cerca de 30 anos atrás, as pessoas começaram a usar a habitação como uma forma de ganho especulativo. Você podia comprar uma casa e ‘virá-la’ – você compra uma casa por 200 mil livras e depois de um ano você recebe 250 mil libras por ela. Você ganhou 50 mil libras. Então, porque não fazê-lo? O valor de troca assume o comando. E assim você tem esse boom especulativo. No ano 2000, depois do colapso dos mercados acionários globais, o capital excedente começou a fluir para a habitação. É um tipo interessante de mercado. Se eu comprar uma casa, então os preços da habitação sobem, e você diz: “Os preços da habitação estão subindo, eu deveria comprar uma casa”. E, então, aparecem outras pessoas. Você tem uma bolha imobiliária. As pessoas são atraídas, e ela explode. Então, de repente, muitas pessoas descobrem que não podem mais ter o valor de uso do imóvel, porque o sistema de valor de troca o destruiu.

Isso levanta a questão: é uma boa ideia permitir que o valor de uso na habitação, que é crucial para as pessoas, seja definido por um sistema de valor de troca louco? Esse não é apenas um problema com a habitação, mas também com coisas como a educação e a saúde. Em muitos deles, nós ativamos a dinâmica do valor de troca na teoria de que ele vai fornecer o valor de uso, mas, frequentemente, o que ele faz é estragar os valores de uso, e as pessoas acabam não recebendo bons cuidados de saúde, educação ou habitação. É por isso que eu acho muito importante olhar para a distinção entre o valor de uso e o valor de troca”.

Os agentes de Iahweh empenhados na concretização da promessa acima indicada, na verdade são todos aqueles que se levantam, na atualidade, nas ruas das cidades do Brasil, em marcha contra a corrupção e a violência física e cultural operadas pelas elites no poder. São, também, todos que lutam, em qualquer canto do mundo globalizado, por justiça social e por uma formação social mais justa e fraterna. Haverá, certamente, um processo de transformação e de convulsões sociais, para que a geração humana possa progredir, no sentido da concretização do modelo de formação social justo, fraterno e igualitário. Pois, os ideólogos funcionais e hegemônicos e os demais segmentos das elites são retrógrados renitentes, e é necessário que sejam superados.

[1] . Jesus amaldiçoa templo, culto e sacerdote, que cessarão no “fim da história”. (Art. 8, 2.2.2., p. 45-40)

http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/05/jesus-amaldicoa-templo-culto-e.html

[2] . Cf. http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523134-a-importancia-da-imaginacao-pos-capitalista-entrevista-com-david-harvey ;

http://davidharveyemportugues.blogspot.com.br/