(TEXTO) Jesus contra o valor de troca. P 1. “uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário”

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uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário”

   Jesus contra o valor de troca. A expressão simples da forma dinheiro do valor relativo a uma mercadoria, segundo a perspectiva simples ou micro-econômica.

Afirmamos anteriormente, que Anjo de Jesus conhecia e focalizou, ao seu modo, aquilo que Marx titulou de “forma dinheiro do valor”. Pois, essa forma já era conhecida na cultura judaica, desde a época de Aristóteles (384-322 a.C.). Posto que a cultura grega, inclusive os ensinamentos de Aristóteles, ao exemplo da “Crematistica” citada por Marx, desde essa época eram divulgados em toda parte do Império Helenístico, inclusive na Judeia. Vejamos Marx citando Aristóteles e sua noção de “Crematística”, em distinção a noção de “Economia”:   [NOTA: Crematística em Aristóteles. Veja Marx, Karl. O Capital, Tomo 1, Capítulo 1 – A Mercadoria, capítulo 4: “Como o dinheiro se transforma em capital“, tradução de Reginaldo Sant’Ana, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1968, p. 172.]

“A forma primitiva do comércio de mercadorias era a troca direta, mas com a sua extensão surgiu a necessidade do dinheiro. Com a intervenção do dinheiro, tinha a troca necessariamente de converter-se em comércio de mercadorias, e este em contradição com a sua tendência primitiva, constituído-se em crematística, em arte de fazer dinheiro. A crematística distingue-se  da economia, por ‘ser a circulação para ela a fonte da riqueza. E ela parece girar em torno do dinheiro, Por isso, não há limite  à riqueza que a crematística procura atingir. Toda arte que não é um meio para um fim, mas um fim em si mesma, não tem limites a seu afã, pois procura sempre aproximar-se mais dele, enquanto as artes que procuram meios para atingir um objetivo possuem limites, uma vez que o próprio objetivo lhes estabelece os limites. No primeiro caso está a crematística, que não tem limites à sua finalidade, e visa o enriquecimento absoluto. A economia, não a crematística, tem um limite… a primeira tem por objetivo algo diverso do dinheiro, a segunda a expansão do dinheiro… A confusão entre ambas as formas que se sobrepõem induz alguns a ver na conservação e expansão sem fim do dinheiro o objetivo final da economia’ 9Aristóteles, ‘De Rep.,’ ed. Bekker, lib. I, c. 8 e 9 passim)”.

A cultura grega e certamente a Crematística de Aristóteles eram conhecidas e cultivadas por muitos judeus, desde a época do Império Macedônio (cf. 2Mc 4, 9-16; 6, 1-8). E, na época de Jesus, sobretudo os saduceus estavam embebidos da cultura grega [Cf. Schlaepfer, C. F., Orofino, F. R. e Mazarolo, I. A Bíblia: introdução historiográfica e literária, Editora Vozes, Petrópolis, 2004, p. 122.].

Marx enuncia a “forma dinheiro do valor”, nos seguintes termos: [NOTA: Marx, Karl. O Capital, Tomo 1, Capítulo 1 – A Mercadoria, Seção 3, D – Forma Dinheiro do Valor, p. 79: http://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/vol1cap01.htm#c1s3D

A expressão simples e relativa do valor de uma mercadoria, por exemplo, o linho, através de uma mercadoria que já esteja exercendo a função de mercadoria-dinheiro, por exemplo, o ouro, é a forma preço do linho: 20 metros de linho = 2 onças de ouro ou, se, em linguagem monetária, 2 libras esterlinas for o nome de 2 onças de ouro, então, 20 metros de linho =  2 libras esterlinas”.

Afirmamos que o Jesus conhecia a noção “forma dinheiro do valor”. Esta afirmação pode ser constatada, no trecho que ele se refere à instituição social “Grande Mercado”, nomeando-a, simbolicamente, “Cavalo Preto”. E, para indicar que se referira a esse Grande Mercado (comércio), o Mestre atribuiu ao “cavaleiro” (os segmentos sociais que gerenciam tal instituição), o fato de estarem com “uma balança na mão”:

Quando abriu o terceiro selo, vi o terceiro animal clamar: ‘Vem!’ E vi aparecer um cavalo preto, e o seu cavaleiro tinha uma balança na mão”. (Ap 6, 5-6).

O Mestre pôs em relevo, também, a questão que viria a ser, em suma, no seu retorno, o principal objeto – o valor de troca – do conflito entre, de um lado, o próprio Jesus representado na figura do Cavaleiro montado num cavalo branco, e do outro lado, os três últimos cavalos e os respectivos cavaleiros (cf. Ap 6, 1-6).

O Anjo de Jesus relacionou o valor de troca, ao contexto do Grande Mercado, que representou na figura do “cavalo preto”. E, os segmentos sociais que dirigem o Grande Mercado, o Anjo de Jesus representou na figura do “cavaleiro”.  Valor de troca esse simbolizado na noção contida, basicamente, na figura de uma “balança”. Valor de troca ou “balança” basicamente contida na noção de “Grande Mercado“, que Jesus representou na figura do “cavalo preto”.

Jesus representou os “segmentos sociais constituídos de mercadores, que  gerenciam o Grande Mercado”, na figura do respectivo cavaleiro, que monta o “cavalo preto”, ou seja, que monta o Grande Mercado. Neste sentido, o Anjo de Jesus apresentou uma síntese enunciada e advinda do meio dos quatro querubins:

    uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário”.

A tal síntese consiste numa noção equivalente àquela (forma dinheiro do valor) enunciada por Marx. O Anjo de Jesus esclareceu, ainda, que a aplicação da relação de valor existente nessa expressão (uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário), “não se danifica”. Quer dizer, “não se distingue” em relação às demais mercadorias, que também podem ser medidas, cada qual, por um dia de trabalho humano, ou seja, por um denário, e o Anjo de Jesus deu como exemplo, o azeite e do vinho.

Pois, no texto ““uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário”, o Mestre esclarece, ainda, que “um denário” equivalia à mercadoria “trabalho humano”. Pois, “um denário” era, na época do Jesus Histórico, a moeda romana correspondente a “um dia de trabalho humano” (cf. Mt 20, 2) [NOTA: Cf. Bíblia Sagrada – Dicionário Bíblico, tradução de Padre Antônio Pereira de Figueiredo, Editora Barsa, RJ, 1971, p. 73, Denário.]. Ora, Jesus era trabalhador carpinteiro, e com certeza sabia que um dia do seu trabalho era remunerado pelo valor de “um denário”.

A noção de valor de troca que o Anjo de Jesus demonstrou conhecer, então, havia ultrapassado e aprimorado a noção de “forma do valor” enunciada por Aristóteles, conforme veremos, mais adiante, com Marx analisando essa forma enunciada por Aristóteles. O qual não chegou a entender, que o trabalho humano é que cria o valor contido na mercadoria. Voltemos ao trecho enunciado pelo Anjo de Jesus:

uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário, mas não danifiques o azeite e o vinho!” (Ap 6, 6).

A “forma limitada da noção de equivalência do valor” enunciada por Aristóteles foi notada e descrita por Marx [Marx, Karl. O Capital, Tomo 1, Capítulo 1 – A Mercadoria, 67]:

As duas últimas propriedade da forma de equivalente ficam ainda mais compreensíveis se voltarmos ao grande pesquisador que primeiro analisou a forma do valor…: Aristóteles. De início, exprime ele claramente que a forma dinheiro da mercadoria é apenas a figura ulterior desenvolvida da forma simples do valor, isto é, da expressão do valor de uma mercadoria em outra qualquer, dizendo: ‘5 camas = 1 casa’ não se distingue de ‘5 camas = tanto de dinheiro’. Reconheceu ele, ainda, que a relação de valor existente nessa expressão, determina que a casa seja qualitativamente igualada à cama e que sem essa equalização, não poderiam coisas de aparência tão diversa ser comparada como grandezas comensuráveis. ‘A troca’, diz ele, ‘não pode existir sem a igualdade, nem a igualdade, sem a comensurabilidade”.

   Neste ponto, Marx fez um aparte, para nos esclarece que Aristóteles limitou até aqui a sua análise acerca do valor de troca, desistindo de prosseguir na análise da forma do valor. Neste sentido, Marx acrescenta:

“Aristóteles Estanca nesse ponto, desistindo de prosseguir na análise da forma do valor”.

Agora, Marx prossegue citando Aristóteles, para explicar em que ponto da análise de Aristóteles, este se impediu de prosseguir e chegar  a conclusão, de que é o trabalho humano que cria valor:

“É porém, verdadeiramente impossível que coisas tão diversas sejam comensuráveis’, isto é, qualitativamente iguais. Essa equalização tem de ser algo estranho à verdadeira natureza das coisas, portanto, um simples ‘expediente para atender às necessidades práticas”.

Marx conclui a sua análise, e demonstra que Aristóteles não chegou a conhecer, que o trabalho humano  é que cria o valor da mercadoria. Nesta direção, Marx conclui:

“O próprio Aristóteles nos diz, assim, o que lhe impedia prosseguir na análise: a ausência do conceito de valor. Que é o igual,  a substância comum que a casa apresenta perante a cama na expressão do valor da cama? Tal coisa ‘não pode, na verdade, existir”, diz Aristóteles. Por que? A casa apresenta perante a cama uma coisa que a iguala à cama, desde que represente o que é realmente igual em ambas. O trabalho humano“.

Os grandes profetas individuais que precederam Jesus, já lutavam contra o valor de troca da mercadoria, e exaltavam o valor de uso. Isto é, eles exaltavam aquilo que Aristóteles chama de “Economia”, em detrimento do que este chama de “crematística”. Por exemplo, o Trito-Isaías que pode ter pregado em torno de 520,  isto é, em época imediatamente posterior ao retorno do Exílio a.C., portanto, antes de Aristóteles (384-322 a.C.). [NOTA: Bíblia de Jerusalém – Introdução a Isaías, p. 1239, ], distinguia a noção de valor de troca, da noção de valor de uso, e exaltava esta última noção: