Grandes profetas individuais conheciam a ideologia e seu efeito de produzir realidade

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Grandes profetas individuais conheciam a ideologia e seu efeito de produzir realidade (Art. 35, 9.1.;9.2.;9.3., p. 209-215). www.tribodossantos.com.br

Livro: TEMPLO – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-%20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf
Os grandes profetas individuais hebreus conheciam bem, entre outros, alguns dos principais aspectos atinentes às “trevas ideológicas exteriores”. Eles sabiam que os sacerdotes, escribas, falsos profeta, sábios, etc. consistiam nos agentes que as elaboravam, e com elas operavam. Cuja finalidade era submeter ideologicamente e explorar economicamente as pessoas de senso comum, os seguimentos trabalhadores e seu excedente, transformando os indivíduos em ovelhas-robôs . O efeito de realidade que a “ideologia” pode produzir na conduta subjetiva e objetiva do indivíduo, foi focalizado pelos grandes profetas individuais, por diversos aspectos. Vimos que o indivíduo se comporta ou reage diante de uma situação, não necessariamente do modo como ela é realmente, mas do modo como ele a representa, ou é induzido a representar. Este fenômeno pode ser definido de diversas formas e ocorrer em diversos contextos. Vimos que Merton cita a definição de Thomas:

   “Se os indivíduos definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências”.

   Merton mostra, também, a “profecia que se cumpre por si mesma”.

   Foucault observa que o poder produz e administra, sistematicamente, em todas as nações do mundo, ideologia com status de verdade, a qual produz efeitos de realidade. Esses autores, o referido fenômeno e os contextos em ele pode se apresentar, servem para resgatar, atualizar a terminologia e ampliar a noção de “trevas interiores”, “trevas exteriores” e a relação entre estas duas noções de trevas. As quais aparecem em Mateus e João, conforme já demonstramos. Eles servem para resgatar, atualizar a terminologia, etc., também, dos trechos em que tais noções de “trevas” aparecem nos grandes profetas individuais. Os quais empregam, em algumas passagens, outros termos ou expressões (caminhar no escuro; privado de luz; caminho escorregadio nas trevas, etc.), mas com sentidos assemelhados àqueles empregados por Mateus e João. Marx e Peter Berger abordam, também, o tema ideologia, e podem contribuir no mesmo sentido que Merton, Thomas e Foucault.

9.2. A “cadeia” (ideologia) em Marx.

   Marx chamava, reiteradamente, de “cadeia”, a “ideologia” (“ideias eternas”, “categorias da razão pura” e coisas do gênero) e o concernente efeito de realidade que ela produz na conduta do indivíduo, que aqui concebemos como um conjunto complexo:[1]

   “Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção, porque a substituiu pela servidão da convicção. Acabou com a fé na autoridade, porque restaurou a autoridade da fé. Converteu sacerdotes em leigos, porque tinha convertido leigos em sacerdotes. Libertou o homem da religiosidade externa, porque instituiu a religiosidade no interior do homem. Emancipou o corpo das cadeias porque carregou de cadeias o coração (o grifo em negrito é nosso)”;

   “A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desengana o homem para que este pense, aja e organize sua realidade como um homem desenganado que recobrou a razão a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo. (os grifos em negrito são nossos)”;[2]

   “Nos Jovens Hegelianos, as representações, idéias, conceitos, numa palavra, os produtos das consciências aos quais eles mesmo deram autonomia são considerados como cadeias reais dos homens, ao mesmo tempo que são proclamados como liames reais da sociedade humana pelos Velhos Hegelianos. Torna-se evidente que os Jovens hegelianos devem lutar unicamente contra essa ilusão da consciência. Como, na sua imaginação, as relações entre os homens, todos os seus atos e gestos, suas cadeias e seus limites são produtos de sua consciência, os Jovens hegelianos, coerentes com eles mesmos,propõem aos homens este postulado moral; trocar sua consciência atual pela consciência humana, crítica ou egoísta, e abolir dessa forma seus limites (os grifos em negrito são nossos)”;[3]

   “É evidente por si mesmo que ‘fantasma’, ‘laços’, ‘essência superior’, ‘conceito’ são apenas a expressão mental idealista, a representação aparente, do indivíduo isolado, a representação de cadeias e de limites muito empíricos, dentro dos quais se movem o modo de produção da vida e a correspondente forma de relações (o grifo em negrito é nosso)”;[4]

   “Nos sucedâneos de comunidade que tivemos até agora, no Estado, etc., a liberdade individual só existia para os indivíduos que haviam se desenvolvido nas condições da classe dominante, e somente na medida em que pertenciam a esta classe. A comunidade aparente, na qual os indivíduos se haviam reunido até então, teve sempre uma existência independente em relação a eles, e ao mesmo tempo, como expressava a união de uma classe frente a outra, representava não somente uma comunidade ilusória para a classe dominada, mas também uma nova cadeia (o grifo em negrito é nosso)”;[5]

   “Sem dúvida, os servos em fuga consideravam seu estado de servidão como uma contingência de sua personalidade, e nisso agiam simplesmente como toda classe que se liberta de uma cadeia, e o fizeram não tanto como classe, mas isoladamente. Além disso, não saiam do domínio das organizações das ordens, mas formavam apenas uma nova ordem e conservavam seu modo de trabalho precedente na situação nova (o grifo em negrito é nosso)”.[6]

.3. Cadeias, trevas, etc. (ideologias), e luz (verdade) em grandes profetas individuais.

   O profeta Isaías se refere às ideologias em geral (religiosa, sapiencial. política, econômica, etc.), empregando, metaforicamente, as noções de cárcere, prisão e prisioneiro, de modo semelhante a Marx (cadeia). Ele emprega, também, a metáfora das trevas, no sentido que o Filho do Homem emprega, em Mateus; e também no sentido mais próximo (perspectiva macro sociológica) em que essa metáfora aparece em João. O referido profeta emprega, também alegoricamente, a dicotomia trevas-luz, de modo semelhante a João. Jeremias emprega o simbolismo do “caminho escorregadio em trevas”, no sentido de ideologias elaboradas e operada por falsos profetas e sacerdotes, e que produzem efeitos de realidade na conduta do indivíduo ovelha-robô. Ezequiel emprega, também e a título de glosa, o termo “cadeia” (ideologia):
“Eis meu servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda minha afeição, faça repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião (…) Para abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem em trevas (os grifos em negrito são nossos)”. (Is 42, 1,7);

   “Eis o que diz o Senhor: no tempo da graça eu te atenderei, no dia da salvação eu te socorrerei. (Eu te formei e designei para fazer a aliança com os povos), para restaurar o país e distribuir as heranças devastadas, para dizer aos prisioneiros: ‘Sai!’ E àqueles que mergulham nas trevas: ‘Vinde à luz! (os grifos em negrito são nossos)”. (Is 49, 8-9-a);

    “Que aqueles dentre vós que temem o Senhor ouçam a voz de seu Servo! Que aqueles que caminham no escuro, privado de luz, confiem no nome do Senhor e contem com o seu Deus! Mas vós que ateais um incêndio, que preparais projéteis inflamáveis, ide ao fogo de vosso incêndio, e dos projéteis que fizestes arder! É minha mão que vos imporá este tratamento: sereis prostrados nos tormentos (os grifos em negrito são nossos) (Is 50, 10-11)

   “O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, aos prisioneiros a liberdade (os grifos em negrito são nossos)”. (Is 61,1);

    “São profanos o próprio profeta e o sacerdote. Até no meu templo encontro sua perversidade – oráculo do Senhor. Por isto o seu caminho será como um caminho escorregadio nas trevas, e lá se entrechocarão e hão de cair. Pois precipitarei a desgraça sobre eles no ano em que os castigar – Oráculo do Senhor (os grifos em negrito são nossos)” (Jr 23, 11-12)

   “Punham seu orgulho na beleza das suas joias, fabricavam os seus ídolos abomináveis; por isso farei deles objeto de repugnância. Abandoná-los-ei à pilhagem, às mãos de estranhos e, devido à profanação, farei deles o espólio dos ímpios da terra. Desviarei os meus olhos e será profanado o meu tesouro; bárbaros penetrarão aí para o profanar. Prepara-te uma cadeia; pois aterra está repleta de crimes, e a cidade cheia de violência (o grifo em negrito é nosso)”. (Ez 7, 20-23).

[1]. Marx – Sociologia. Organizador: Ianni, O.; coordenador: Fernandes F., nº 10, Coleção “Grandes Cientistas Sociais”, p.25.

[2] . Marx, K. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

[3] . Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã, p. 13-14).

[4] . Idem, p. 28.

[5] . Idem, p. 79.

[6]. Idem, p. 82.