As águas da Teoria da História – Primeira fase da formação da Estrutura do Sujeito Social e sua representação topográfica

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 Livro: Teoria da História (Art. 40, 3.7; 3.7.1, p. 265-274) www.tribodossantos.com.br

      O autor da Teoria da História subdividiu-a em duas grandes perspectivas sócio-históricas, que denominamos de Sistematização Teórica (cf. Gn 1, 1-2, 4-a) e Verificação Empírica (cf. Gn 2, 4-b-8, 18). Cada uma dessas duas perspectivas sócio-históricas focaliza cada um dos sete dias da criação. No 1° dia da criação “ST” (Sistematização Teórica), o autor aborda o ponto de partida da gênese da sociedade humana, como totalidade e um sujeito estruturado, que se desenvolvera, em tempo muito longo, durante duas fases A esse ponto de partida e sujeito estruturado, denominamos de Estrutura do Sujeito Social. No presente artigo, estamos focalizando a primeira fase da formação da Estrutura do Sujeito Social. A segunda fase da Estrutura do Sujeito Social está exposta no artigo seguinte. Expomos a descrição do 1° dia da criação “VE” (Verificação Empírica), em outro artigo

   O significado do signo “águas” é uma chave para a decifração de todos os enunciados esotéricos em que ele se apresenta inserido, sobremodo na Teoria da História em questão. Esse significado nos foi dado pelo Jesus Histórico, para entendermos todo o trecho (perícope) que os exegetas classificaram como sendo o capítulo dezessete do livro Apocalipse (Cf. Ap 18, 15):

    “E disse-me: as águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas”.

    O signo “águas” significa, portanto, “múltiplos e multiformes grupos sociais e respectivas trocas sociais e simbólicas” (que acompanham as trocas materiais). Esta noção concebe as relações sociais, “águas”, pelo aspecto das suas exclusivas inter-relações sociais, ou seja, fazendo abstração do trabalho material exercido por essas relações face à natureza exterior. A noção “águas” difere da noção representada no signo “abismo”, à medida em este signo representa as relações sociais concebidas pelo aspecto do trabalho material (predatório; transformador ou produtivo) por elas exercidas face à natureza exterior. A noção “relações sociais de produção” traduz satisfatoriamente o significado do signo “abismo”. O significado do signo “águas” será mais bem entendido, se o captarmos no contexto que ele foi abstraído, que é a formação social concebida como totalidade e sujeito social estruturado. Sujeito social em que a realidade sócio-histórica representada no signo águas consiste, por um aspecto, num campo de força que interage com determinados outros campos de força. Os campos de força que compõem a Estrutura do Sujeito Social são representados nos signos céus”, “terra”, “abismo”, “trevas”, “águas”, “Espírito de Deus” e “luz.

    Os signos “céus”, “terra”, “abismo-trevas”, “águas-Espírito de Deus” e “luz” foram criados pela perspectiva sistemática do elaborador da Teoria da História, o qual entende a sociedade como uma totalidade estruturada, ou melhor, como um sujeito social estruturado resultante da expansão e complexidade do Trabalho Natura-Social, o Criador. Assim, a Divindade é concebida como sendo estruturada. Os referidos signos são concebidos como os campos de força que interagem entre si, no interior da Estrutura do Sujeito Social.

    O elaborador da Teoria da História distingue, entretanto, duas diferentes e subsequentes fases do processo geral de formação dessa Estrutura do Sujeito Social. A primeira fase compreende o “princípio”, isto é, inicia com Deus criando os céus e a terra e se estende até ao Espírito de Deus ser apresentado como que pairando sobre as águas (Cf. Gn 1, 1-2):

   “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informa e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas ( o grifo em negrito é nosso)“.

   A segunda fase se inicia com a criação do subcampo de força Luz, e se encerra com a conclusão do processo geral da formação da Estrutura do Sujeito Social, isto é, a conclusão do “primeiro dia” (Cf. Gn 1, 3-5):

   “Deus disse: ‘Faça-se a luz!’ E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia“.

   Vamos focalizar as duas fases acima apontadas, mas no  presente artigo, estamos abordando apenas a primeira fase da Estrutura do Sujeito Social. A qual pode ser representada topograficamente, do modo abaixo indicado.

Primeira Estr Suj Social - Cópia

3.7.1. A primeira fase da formação da Estrutura do Sujeito Social, e sua representação topográfica

     No princípio do “primeiro dia da criação”, o Trabalho Natura-Social se expandiu dando gênese a dois amplos e básicos campos de força: o campo subjetivo representado, metaforicamente, no signo “céus”, no qual o trabalho intelectual e demais fatores subjetivos e intersubjetivos se manifestam; o campo objetivo metaforicamente representado no signo “terra”, no qual a ação prática e o trabalho material são exercidos.

    O signo “terra” representa o campo de força que consiste no trabalho sócio-material. Inicialmente, no período Paleolítico, essa modalidade de trabalho era apenas material ou prático. Pois, ele ainda não se apresentava como transformador da natureza, isto é, não era produtivo, mas apenas predatório, porque o período Neolítico ainda estava por vir. A inexistência do modo produtivo de trabalho foi representada na noção de que “a terra estava informe e vazia”, (Cf. Gn 1, 2-a).

     Dois subcampos de força se desenvolveram no campo de força “terra”: o subcampo “abismo” e o subcampo “águas”. “Sobre” o subcampo “abismo” (relações sociais de trabalho material, inicialmente só predatório, mas ao se iniciar a fase Neolítica, esse trabalho passou a ser também produtivo), desenvolve-se, no campo “céus”, o subcampo “trevas” (atividades intelectuais e respectivas categorias de conhecimentos de natureza ideológica, da estrita lógica de ordem binária, e uma consciência coletiva correspondente, que se identifica mais com o aspecto inerte da natureza, instinto de morte). Inicialmente, entre esses dois subcampos não havia uma correspondente divisão social de trabalho. Mas, paralela e articuladamente ao gradativo processo de complexidade social se desenvolveu a divisão e oposição entre os segmentos sociais que exercem, respectivamente, trabalho material e intelectual. Nesta forma de divisão social, os segmentos que exercem trabalho intelectual dominam e exploram àqueles outros segmentos.

    O termo “abismo” foi empregado para representar, simbolicamente, o subcampo que consiste nas relações sociais de trabalho material (inicialmente somente predatório, isto é, no período Paleolítico). Ele foi empregado a fim de ressaltar determinado aspecto inerente a esse tipo de relações sociais: os indivíduos ao cooperarem entre si comprometendo suas forças de trabalho material na natureza, assim eles desenvolvem e vão como que “caindo”, ou seja, vão se submetendo a uma entidade coletiva, as forças produtivas. As quais vão subjugando e alienando, cada vez mais, os seus criadores, até estes chegarem ao fundo desse “abismo”. Essa “queda” ou submissão dos indivíduos à entidade coletiva por eles criada, as forças produtivas, passou a ser intensificada com o início do período Neolítico, isto é, quando os indivíduos se introduziram no trabalho material produtivo ou transformador (agricultura), face à natureza exterior.

    Em razão do indivíduo haver “caído” no “abismo” acima apontado, o elaborador do livro em apreço, então, atribui a Deus (o Criador), dar, no sexto dia da criação, uma meta ao indivíduo humano. Ou seja, a missão de dominar determinados fenômenos sociais (instituições sociais autônomas), que foram geradas pelos indivíduos, mas que os dominam. Instituições estas criadas, em última instância, pelo próprio Criador, enquanto Trabalho Natura-Social. (Cf. Gn 1, 28):

    “Deus os abençoou: ‘Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra (os grifos em negrito são nossos).”

    Cabe aos indivíduos submeterem a “terra” e, assim, submetem os fenômenos sociais que nela se desenvolvem. Desse modo, submetendo-se a “terra” (signo este que representa o campo do trabalho material), estaríamos submetendo, por extensão, as instituições coletivas que nós, indivíduos, criamos, mas que agora nos submetem. Por exemplo, submeteríamos as “forças produtivas”, isto é, os “animais selvagens”, os quais submetem e exploram os indivíduos, seus criadores, e transcorre na história à revelia deles.

    Cabe aos indivíduos dominar, também, os “seres que vivem nas águas”, ou seja, todos os grupos ou instituições sociais que se desenvolvem no subcampo “águas” (múltiplos e multiformes grupos ou instituições sociais que compõem o universo das trocas significativas, que acompanham as trocas materiais). Dominar, sobremodo, os grandes “monstros marinhos”, isto é, os mercados regionais, os grandes mercados macro-regionais, o grande mercado global, as pequenas e grandes instituições financeiras (Imagem da Besta), etc., que também submetem os indivíduos, e perpassam a história, à revelia das vontades dos seus criadores.

    Cabe ao indivíduo submeter as “aves dos céus”, quer dizer, os tipos de indivíduos e respectivos grupos ou instituições por eles criadas. Cuja localização social e respectiva visão de mundo e concernentes valores são gerados no interstício do contexto social em que, de um lado, (campo terra) situa-se a massa dos segmentos sociais que exercem trabalho material (segmentos trabalhadores), a qual é subordinada, alienada e explorada, e do outro lado, (campo céus) estão os segmentos sociais médios e os elitizado e que exercem trabalho intelectual, subordinando, alienando e explorando àquela massa.

    Os “intelectuais ativos” são representados metaforicamente como os “astros” (estabelecidos e que clareiam ou escurecem os céus ou “firmamento”, isto é, o campo do conhecimento).[1] Os intelectuais ativos elitistas elegem seus valores e elaboram suas respectivas visões de mundo (conhecimento hegemônico), e os impõem ao conjunto dos diversos segmentos sociais da formação social em que estão inseridos, e submetem esses segmentos.

    As “aves dos céus” são frações dos segmentos sociais chamados de excedentes dos segmentos trabalhadores ou lumpemproletariado. Elas emergem no subcampo “águas”, mas são gerados no interstício da divisão social do trabalho material e intelectual. Este é o sentido do trecho (Cf. Gn 1, 20):
Deus disse: ‘Pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem as aves sobre a terra, debaixo dos céus (os grifos em negrito são nossos)”.
As aves dos céus são constituídas por indivíduos, cujas localizações sociais que ocupam, assim os favorecem entender razoavelmente bem toda trama social, que as elites operam, para alienar, submeter e explorar os segmentos pobres trabalhadores. Assim esses indivíduos e os respectivos grupos sociais (publicanos, prostitutas, bandidos, soldadesca, etc.) que eles compõem, tendem a não se iludirem com as ideologias falseadas (religiões, filosofias, ideologias políticas, e econômicas, “ciências”, etc.) que os ideólogos das elites elaboram e lhes impõem sedutoramente. Eles também não se sujeitam às humilhantes e miseráveis condições de vida que os segmentos sociais das elites impõem aos trabalhadores. Em razão disso, eles procuram um atalho violento e/ou político para ascenderem na escala sócio-econômica.

   Por um aspecto, as “aves dos céus” quando bem sucedidas em suas intenções acabam sendo cooptadas e assumindo os padrões de valor peculiares às elites no poder. Pois, elas atuam como “intelectuais passivos” ou “asas”. Assim, seu nível de elaboração valorativa e intelectual não alcança ao nível de elaboração falseada e sedutora própria dos intelectuais ativos, mas apenas assimilam-nos. Por outro lado, tais “aves” não alcançam ao nível lógico de elaboração e dos respectivos valores peculiares tanto ao subcampo Espírito de Deus como ao subcampo Luz, os quais serão abordados mais de perto logo adiante. Enfim, as “aves dos céus” dispõem de um entendimento melhor elaborado que os segmentos trabalhadores – que ocupam o campo terra -, mas aquém do campo céus. As “aves dos céus” consistem em marginais e seus bandos, bandos de “meninos de rua”, os políticos e seus partidos políticos, a soldadesca e seus exércitos e generais, revolucionários e seus grupos, etc.

    Ao indivíduo cabe dominar, por fim, “todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Ou seja, todas as modalidades de grupos ou instituições sociais, as de pequeno porte e sobremodo as grandes instituições sociais de natureza cultural. As quais se manifestam segundo a linha lógica estrita (binária) de pensamento e respectiva conduta. Instituições estas que se “arrastam”, isto é, têm como base as “relações sociais de produção” (subcampo “abismo” situado no campo “terra”), e que se desenvolvem de modo intimamente condicionado esta sua base. Mas, emergem no campo do conhecimento ou céus, como uma superestrutura peculiar e dentro do campo do conhecimento estrito ou “trevas”, a exemplo das grandes instituições ideológicas hierarquizadas: religiosas, filosóficas, cientificistas, artísticas, etc.

    “Sobre” o subcampo “águas” (um universo de interações exclusivamente sócio-culturais, mas que obviamente tem por substrato o campo “terra”, na condição “abismo”) desenvolve-se, como uma superestrutura, o subcampo ”Espírito de Deus”. Ou seja, atividades intelectos-sociais e respectivas categorias de pensamento peculiares à rica lógica complexa. A qual é possibilitada pelas intensas trocas simbólicas e materiais, próprias do subcampo “águas”. O Espírito de Deus consiste na consciência coletiva que se identifica com o Trabalho Natura-Social, o Criador.

    Para efeito de análise, o elaborador da Teoria da História concebe que o Trabalho Natura-Social se expandiu e se desdobrou basicamente em dois grandes e gerais campos de força: os “céus” ou trabalho intelectual, portanto subjetivo; e a “terra” ou trabalho material, por conseguinte, objetivo. Inicialmente (possivelmente até ao estágio Paleolítico Superior) não havia significativa diferenciação social entre esses dois campos (divisão social do trabalho material e intelectual), nem a “terra” era objeto de trabalho transformador (produtivo) exercido pelo homem. Assim, podemos dizer que a “terra” estava “informe”. A terra, neste sentido, portanto, também estava ausente ou “vaziada presença do homem produtor. Pois, o homem se introduziu no trabalho produtivo (agrícola) somente há doze mil anos atrás, iniciando o período Neolítico.

    Acima definimos os significados dos signos céus, terra, abismo, etc. Assim, agora podemos nos expressar utilizando esses signos, pressupondo conhecemos seus respectivos significados. Procederemos desse modo para efeito de economia.

    Vimos que nos dois campos de força, céus e terra, desenvolveram-se, respectivamente: os subcampos “trevas” (nos céus), tendo como base o “abismo” (na terra); “Espírito de Deus” (nos céus), tendo como base as “águas” (na terra). Esses subcampos se desenvolveram do seguinte modo. De um lado, o subcampo “Trevas” se desenvolveu no campo “céus”, emergindo como uma supra-estrutura que tem como base o subcampo “abismo” gerado no campo terra; de outro lado, o subcampo “Espírito de Deus” se desenvolveu no campo “céus”, emergindo como uma superestrutura que tem como base o subcampo “águas” gerado no campo “terra”.

   Os quatro subcampos de força indicados acima, interagem entre si, no interior da sociedade humana pensada como uma totalidade estruturada. Ou melhor, pensada como um sujeito coletivo estruturado. O qual tem como mais uma de suas características, o fato de se manifestar como um sistema total de campos de força. Sistema este basicamente subdividido entre dois grandes campos, os “céus” e a “terra”, em que os quatros subcampos de força (“trevas”, “abismo”, “espírito de Deus” e “águas”) interagem entre si do jeito que se segue.

    O subcampo trevas se desenvolveu no campo céus, “sobre” o subcampo abismo. Assim, o subcampo trevas atua em dois sentidos.
Por um lado, ele condiciona hegemonicamente sobre o subcampo abismo. Por outro lado, ele atua no sentido de interditar a possibilidade e a tendência de se realizar a união hipostática, entre o Espírito de Deus, e, sua base águas. Em outros termos, o subcampo trevas procura manter o subcampo Espírito de Deus apostasiado ou como que “pairando” sobre a base águas deste.

   Por outro lado, o subcampo Espírito de Deus e sua base águas atuam reciprocamente visando realizar a união hipostática entre eles. Obviamente, o subcampo trevas dispunha de força suficiente para manter o seu poder absoluto e o sistema total funcionando deste jeito, mas apenas por um determinado período de tempo, que deve ter sido muito longo, nos primórdios da história da humanidade. A descrição desse sistema total de forças interagindo entre si, no interior do Sujeito Social Estruturado, encontra-se registrada, de modo econômico, no livro gênese (Cf. Gn 1, 1-2):

    “No princípio, Deus criou os céus e a terra, a terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”.

    O enunciado acima pode ser representado, topograficamente, do modo já indicado.

 

[1] Cf. Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã, p. 45-46.