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Livro Teoria da História (Art 14, 2.2.;2.2.1, p. 96-100) www.tribodossantos.com.br
Precisamos nos delongar um pouco, para esclarecermos os artifícios empregados pelo elaborador da Teoria da historia, nos trechos em que ele trata da divisão social do trabalho material e intelectual. Posto que, os simbolismos que ele emprega, com meios de codificação hermética, são bem complexos, e exigem explicações adequadas.
Numa formação social simples, o papel social peculiar ao ideólogo corresponde ao feiticeiro, xamã, pajé, chefe-sacerdote e coisas do gênero. Na Teoria da Historia trazida por Moisés, na parte chamada Verificação Empírica, o papel social de ideólogo é representado, metaforicamente, sob dois aspectos. Por um aspecto, ele é representado na figura da serpente (Cf. Gn 3, 1-a). Por outro aspecto, ele é representado na figura de uma árvore frutífera (Cf. Gn 3, 1-b), mais precisamente, na figura da “árvore da ciência do bem e do mal“. Assim, O autor da Teoria da Historia atribui ao astuto ideólogo-feiticeiro, dois procedimentos. Por um lado, atribui-lhe falar na condição figurada na serpente. E, por outro lado, e com esse mesmo modo “serpente” do ideólogo-serpente falar, o autor atribui ao referido tipo de ideólogo, também induzir, através do discurso falseado, mas poderosamente sedutor, a mulher. Enfim, o autor atribui ao ideólogo-serpente, a ação de induzir a mulher, no sentido dela “comer” (assimilar, imitar) o “fruto” (conduta objetiva hipócrita), que é próprio desse mesmo tipo de ideólogo:
“A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor tinha formado. Ela disse à mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?’ A mulher respondeu-lhe; ‘Podemos comer dos frutos das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore (da ciência do bem e do mal) que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não o morrais’. – Oh, não! – tornou a serpente – Vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal (os grifos em negrito são nossos)“. (Gn 3, 1-5)
Ora, o Trabalho Natura-Social havia recomendado à “mulher” (segmentos sociais que exercem trabalhos material) , não “comer” (assimilar) o tipo hipócrita de conduta próprio do ideólogo- serpente, para não “morrer“ (não cair no estado de alienação, sob o domínio ideológico exercido pelo ideólogo-feiticeiro).
“O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para o cultivar e guardar. Deu-lhe este preceito: ‘Podes comer de todos os frutos das árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente (os grifos em negrito são nossos)” (Gn 2, 15-17).
Vejamos, primeiramente, em quais termos o ideólogo-feiticeiro é representado, metaforicamente, na cobra dotada de poderoso discurso sedutor, falseado e sutil.
2.2.1. O ideólogo-feiticeiro representado como serpente.
No sentido literal, os antigos concebiam a serpente como o animal mais traiçoeiro de todos, e por isto mesmo o mais perigoso e maléfico dos animais. Pois, a serpente pode matar um homem, não propriamente em decorrência da mordedura em si (a qual pode ser insignificante se comparada à mordida dos assustadores animais selvagens de grande porte). Mas, ela pode matar, sim, em razão do poderoso e mortal veneno que algumas delas possuem. Veneno este que a cobra projeta de sua boca e introduz, através do local da mordida, na vitima.
No sentido metafórico, a serpente representa o papel social do ideólogo-feiticeiro. O veneno poderoso e mortal da serpente representa o discurso poderosamente sedutor, falseado e sutil proferido pelo ideólogo-feiticeiro. Discurso este que o ideólogo “introduz” (inculca) no indivíduo de senso comum. E, através deste discurso, o ideólogo pode enganar, submeter ideologicamente, explorar e “matar” (alienar) sua vitima, ou seja, esse nosso indivíduo. Sua vitima pode ser, por exemplo, numa formação social simples e comunal, as mulheres agricultoras e os homens que se dedicam às atividades predatórias. Assim, o elaborador da Teoria da historia concebe o papel social de intelectual, como sendo o mais traiçoeiro e maléfico tanto para o indivíduo como para a coletividade. É nesse sentido, que Jesus se referia aos intelectuais, pois ele conhecia profundamente a Teoria da Historia, e operava com ela em suas observações, e a aplicava nas intervenções “crítico-práticas” que empreendeu no seu contesto sócio-histórico. Assim, Jesus se referia aos intelectuais hegemônicos (ideólogos fariseus, saduceus e escribas), chamando-os de “serpentes, raça de víboras”, sobre os quais concentrou suas críticas, e buscava desmascará-los (Mt 23, 29-33):
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas (o grifo é nosso), que edificais os túmulos dos profetas e enfeitais os sepulcros dos justos e dizeis: ‘se estivéssemos vivos nos dias de nossos pais não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas’. Com isso testificais, contra voz que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Completai, pois, a medida dos vossos pais! Serpente! Raça de víboras (o grifo é nosso)! Como haveis de escapar o julgamento da geena?”.
Ainda no mesmo sentido do Jesus Histórico, João Batista criticava os saduceus e fariseus (ideólogos), representando-os como um grupo (raça) de víboras. Note que no trecho em que João Batista é citado, este se refere aos ideólogos dos dois modos que o elaborador da Teoria da História se refere, no livro Gêneses (Gn 3,1), aos ideólogos-feiticeiros, isto é, como “serpente” e como “árvore frutífera” (Mt 3.,7,10):
“Como visse muitos fariseus e saduceus que vinham ao batismo, disse-lhes: ‘Raça de víboras (o grife é nosso), quem vos ensinou a fugir da ira que está por vir (…)’ O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto (o grifo é nosso) será cortada e lançada ao fogo”.
Vejamos as características mais marcantes próprias da conduta do indivíduo que exerce o papel social de intelectual do tipo ideólogo. Essa sui generis conduta apresenta dois aspectos fundamentais. Por um lado, ele apresenta exacerbada aversão de exercer trabalho material, seja produtivo, seja predatório. E, por outro lado ele concentra todos seus esforços e recursos intelectuais, para eximir-se de exercer esse tipo de trabalho, à medida que busca dispor de tempo, para “abrir a inteligência” (elaborar discurso e encenação falseados, e estratégias ideológicas voltadas para a dominação). E, assim enganar, induzir, e submeter ideologicamente as pessoas de censo comum, que exercem trabalhos materiais e serviços práticos, e delas subtrair seu sustento. Enfim, modo de “conduta objetiva” ou “fruto” (da árvore = ideólogo-serpente) que determinadas mulheres perceberam ser “bom para comer” (bom para se imitado), “de agradável aspecto” (cômodo) “e mui apropriado para abrir a inteligência’ (apropriado para desenvolver conhecimento de ordem binária).
Numa formação social simples, os homens se distanciam do acampamento, para exercerem as atividades predatórias (caça, pesca, coleta, etc.), enquanto as mulheres permanecem nos arredores próximos ao acampamento, cuidando dos afazeres que lhe são peculiares: cuidar da plantação no quintal próximo à oca; cuidar das crianças; preparar alimentos e utensílios, etc. Esse contexto propicia a proximidade mais frequente entre, de um lado, os feiticeiros (sobretudo os anciões que se conduzem, em geral, como feiticeiros), e do outro lado, as mulheres, que exerciam o trabalho agrícola e eram dotadas do senso comum. E, propiciou, também, aos ideólogos-feiticeiros seduzirem, através dos seus discursos poderosamente sedutores, primeiramente, algumas dessas mulheres agricultoras.
Determinadas mulheres estavam encantadas com o estilo de vida do ideólogo-serpente, e se deixaram seduzir e serem cooptadas por eles. E, assimilaram o “fruto” (modo de conduta objetiva) próprio do ideólogo. Desse modo, cada uma delas desenvolvera o conjunto complexo de conduta hipócrita, análogo ao do ideólogo-serpente (árvore da ciência do bem e do mal). O qual se julga, em toda época e lugar, como um deus, e atua como o mega opositor (Satanás) de Deus (Trabalho Natura-Social).
Tais mulheres desenvolveram, também, “cinturas ligando folhas de figueira” (discurso falseado e poderosamente sedutor) análogas àquela empregada pelo ideólogo. Pois, ao assimilarem o “fruto” (conduta objetiva) peculiar ao ideólogo, logo “os lhos” (entendimento) de cada uma delas “se abriram”. Assim, a mulher percebera que estava como que “nua”. Isto é, com seus “rins” (consciências, intenções, etc.) à mostra. Cada uma delas percebera, também, a necessidade de dissimular o seu modo egoísta e hipócrita de conduta, nas relações com os indivíduos de senso comum (ervas), que permaneceriam exercendo trabalho material, enfim, nas relações com Deus (Trabalho Natura-Social).
O modo de conduta egoísta e hipócrita emprega o discurso falseado e poderosamente sedutor, também calcado, basicamente, na estratégia ideológicas, que consiste em induzir múltiplas e multiformes divisões e oposições entre indivíduos e entre grupos sociais. Discurso esse empregado como meio de moldagem de conduta individual e coletiva, dominação e controle social. Discurso voltado, enfim, para submeter, ideologicamente, e explorar as demais mulheres que permaneceram exercendo o trabalho produtivo agrícola, e também os homens, que permaneceram exercendo trabalho predatório.
Do modo acima desenhado, o ideólogo-serpente e as tais determinada mulheres desenvolveram a divisão social do trabalho material e intelectual, na mesmo medida que se elitizavam e se constituíam em um estrato social superior e dominante. Assim, o Período Matriarcal teve início. A seguir, determinados homens assimilaram das mulheres elitizada, o modelo de “fruto”, que o ideólogo-serpente induziram-nas assimilar. Desse modo, tais homens desenvolveram o Período Patriarcal, submetendo as mulheres e demais homens, que permaneceram exercendo trabalho predatório. Vejamos o texto em apreço:
“A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente. Então os seus olhos abriram-se; tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si…” (Gn 3, 6-7).
O Trabalho Natura-Social enquanto fator determinante básico e subjacente a todo processo de transformações sócio-históricas determinou, para perdurar por muito longo tempo, consequências relativas aos respectivos modos de conduta da cobra, da mulher e do homem:
1. A “cobra” (ideólogos serpentes) induziu a “mulher” (segmentos que exercem trabalho material), a ajudá-la a desenvolver a divisão e oposição do trabalho material e intelectual). Em consequência disto:
A) Todo ideólogo-serpente e respectivas instituições sociais culturais hierarquizadas representadas nos “répteis que se arrastam sobre a terra (cf. Gn 1, 24-25)” seriam os mais malditos entre todas os “animais” e “feras” (instituições sociais hierarquizadas tipo processo de produção, etc., que se desenvolveriam “nos campos”, isto é, tendo por base as relações sociais de produção:
“Porque fizestes isto, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos” Gn 3, 14-a).
B) Conforme a figura do “réptil” como metáfora das relações entre este (cobra = superetrutura social), e, a terra (relações sociais de produção). Assim todo ideólogo e respectivas instituições sociais culturais hierarquizadas “andarás de rastro” (se desenvolveriam e permaneceriam) “sobre o seu ventre” (com seus apetites exacerbados voltados para) “e comerás” (subordinar ideologicamente e explorar) “o pó da terra” (os produtos da terra) “todos os dias da tua vida”:
“Andarás de rastro sobre o teu ventre e comerás o pó (da terra) todos os dias da tua vida” (Gn 3, 14-b).
C) estará estabelecido e a transcorrer em tempo muito longo, o conflito sócio-histórico básico na humanidade, entre, de um lado, os ideólogos serpentes e suas instituições sociais hierarquizadas, e do outro, “a mulher e sua descendência” (os sucessivos segmentos trabalhadores históricos):
“Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela” (Gn 3, 15-a)
No curso cíclico em tempo muito longo, a “mulher” (segmentos trabalhadores), através do “Sol” (o Escolhido, a exemplo de Jesus), que emergirá no seio desses segmentos, “te ferirás a cabeça (cf. Ap 12, 1-5)” (combaterá e vencerá as lideranças constituídas de ideólogos-serpentes e respectivas instituições sociais). A seguir, a “cobra” (os ideólogos serpentes e suas instituições sociais hierarquizada), através da “Lua” (a exemplo de Paulo de Tarso o Anticristo) “tu lhe ferirás o calcanhar” (reagirá de modo traiçoeiro e sabotará o avanço do movimento revolucionário desencadeado pelo Escolhido):
“Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanar ” (Gn3, 15-b).
2. A “mulher” (determinada mulheres) se deixou seduzir pela “cobra”, e cooperou com esta, para o desenvolvimento tanto da referida divisão social como da primeira forma de estratificação social (Período Matriarcal). Em consequência disto, o Trabalho Natura-Social determinou:
A) O Trabalho Natura-Social iria multiplicar os sofrimentos da “mulher” (segmentos trabalhadores), sempre que esta gerasse nova transformação sócio-histórica, e gerará com muito sofrimento o novo fenômeno sócio-histórico:
“Disse também à mulher: ‘Multiplicarei os sofrimentos do teu parto; darás à luz com dores“. (Gn 3, 16-a).
B) Os ideólogos e demais segmentos dominantes inculcam valores nos indivíduos, que integram os segmentos trabalhadores. Desse modo, tais valores impelirão estes segmentos, no sentido de se subordinarem aos homens que dominam no sistema patriarcal, e tais segmentos trabalhadores estarão sob o domínio patriarcal:
“Teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio” (Gn 3, 16-b).
3. o “homem” (determinados homens) imitou a conduta da “mulher”, e estabeleceu o Período Patriarcal. Em consequência disto, o Trabalho Natura-Social determinou:
A) “Maldita seja a terra” (maldita sejam as relações sociais de produção) “por tua causa” (por causa dos homens que exercem dominação, no sistema patriarcal: “maldita seja a terra por sua causa” (Gn 3, 17-c). No “7° dia da criação”, o Criador desenvolveria, depois de Lamec, a depressão Noé: “Este nos trará, em nossas fadigas e no duro labor de nossas mãos, um alívio tirado da terra mesma que o Senhor amaldiçoou.” (Gn 5, 29).
B) O homem que permanecer exercendo trabalho produtivo, sob o domínio dos estratos superiores patriarcais: “tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias da tua vida” (Gn 3, 17-d).
C) A “terra” (trabalho produtivo) produzirá “espinhos” (sofrimentos) e “abrolhos” (péssima produção) aos segmentos trabalhadores, sob o domínio patriarcal: “Ela te produzirá espinhos e abrolhos” (Gn 3, 18-a).
D) Os indivíduos que permanecerem exercendo trabalho produtivo, então, “comerão” (assimilarão) apenas o nível intelectual peculiar à “planta” (papel social) da “terra” (gerada a partir do desenvolvimento do “trabalho produtivo), tipo “erva” (senso comum): “e tu comerás a erva da terra” (Gn 3, 18-b).
E) Os segmentos que permanecerem exercendo, sob o regime patriarcal, trabalho material produtivo, então, sobreviverão com “pão” (poucos recursos), mas “com o suor do teu rosto” (mas com muito trabalho), enquanto viver: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que fostes tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar“. (Gn 3, 19)