Maviael, Lamec-Ada e Jabel versus Maviael, Lamec-Sela e Tubal-Caim e o nascimento de Set

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

 Livro: Teoria da História (Art. 30, 2.7.10., 213-222) www.tribodossantos.com.br

   Na Verificação Empírica, o autor aborda o “6° dia da criação“, mas pela perspectiva da realidade sócio-histórica. e a apresenta através de simbolismos. Desse modo, ele mostra o grande mercado macro-regional egípcio. O referido autor mostra que o processo de expansão do mercado (Lamec) desenvolvido simultaneamente em diversas cidades (Henoc), em uma mesma macro-regional,  chega ao limite, quando este mercado macro-regional se apresenta bipolarizado  sob dois aspectos conflituosos entre si. Os quais são representados simbolicamente, num sujeito bígamo: “Lame-Ada versus Lamec-sela“.  Mas, convém observar, de pronto, que a realidade histórica que serviu de objeto de pesquisa, tratou-se do Antigo Egito Pré-dinástico recente, também denominado Época pré-tinita. Sela representa as forças de trabalho do Sul (Vale ou Alto Egito), o qual se encontrava, segundo alguns estudiosos, sob a hegemonia dos reis de Hieracômpolis, em egípcio Nekhen, conhecido pelos textos como lugar de origem das Almas de Nekhen, que são os reis do sul sendo divinizados. Ada representa as forças de trabalho do Norte (Delta ou Baixo Egito), o qual se encontrava sob a hegemonia dos reis de Buto, os quais são chamados Almas de Pê (= Buto).[1]

   De um lado (Ada = Delta ou Norte), uma determinada cidade-estado (reis de Buto, os quais são chamados Almas de Pê (= Buto) lidera o agrupamento de diversas outras, todas sob a hegemonia das corporações mercantis (Jabel), as quais têm relação de divisão social do trabalho, com as guildas culturais ou artísticas sofisticadas (Jubal). Neste grupo de “nomos” (cidade-estados), o regime político absolutista de natureza ditatorial é predominante, e tende para uma forma democratizante. Esta forma ditatorial de absolutismo é representada no símbolo “Matusael”, ou melhor, ela corresponde a uma das duas formas absolutistas de regime de governo representado neste símbolo. Regime este que representa os interesses das cidade-estados, em oposição aos interesses do campo.

   Do outro lado (Sela = Vale ou Sul), outra determinada cidade-estado (reis de Hieracômpolis, em egípcio Nekhen, conhecido pelos textos como lugar de origem das Almas de Nekhen) lidera o grupo formado por diversas outras, todas sob a hegemonia das corporações de mineradores e de manufatureiros (Tubal-Caim), as quais dirigem e exploram seus respectivos trabalhadores (Noema). Neste grupo de cidades, o “regime político exercido pela oligarquia agrária absolutista” (a outra forma absolutista de regime de governo representada no símbolo “Matusael”) é predominante. Regime este que representa os interesses do campo, em oposição aos interesses da cidade.

    O estágio da divisão social do trabalho acima apontado apresenta alguns dos aspectos já observados por Marx e Engels:[2]

    “A segunda forma de propriedade é a propriedade antiga, a propriedade comunal e a propriedade do Estado, que vem da reunião de várias tribos numa aldeia, por acordo ou conquista, e na qual subsiste a escravidão. Ao lado da propriedade comunal, a propriedade privada, móvel e mais tarde imobiliária, já se desenvolve, mas como uma forma anormal (…) A divisão do trabalho é levada mais além. Encontramos, já, a oposição entre a cidade e o campo e, mais tarde, a oposição entre os Estados que representam os interesses das cidades e os que representam os interesses do campo, e encontramos, dentro das cidades, a oposição entre o comércio marítimo e a indústria. As relações de classe entre cidadãos e escravos atingem seu pleno desenvolvimento (os grifos em negrito são nossos)”.

   Durkheim notara, também, a grande importância da divisão social do trabalho, como fator estrutural permanente, que se complexa, e assim acompanha as transformações sócio-históricas. Desse modo, ele observou a “organização profissional” (divisão do trabalho) na formação e desenvolvimento inicial da cidade. Organização profissional (base do que ele rotula de “sociedade orgânica”) que supera a “organização segmentar” (base do que ele concebe por “sociedade mecânica”), na fase inicial de formação da cidade. Neste contexto, Durkheim ressalva a importância das corporações ou grêmios profissionais. Ele focalizou, ainda, o desenvolvimento da divisão “inter-regional” do trabalho, ou seja, a divisão entre diferentes sub-regiões de uma mesma macro-região. Neste caso, ele citou exemplos mais recentes (século XVI em diante). Vejamos o referido sociólogo:[3]

    “Por um lado, ao mesmo tempo em que a organização segmentar se extingue por si, a organização profissional substitui-a cada vez mais completamente em sua trama. No princípio, é verdade, ela só se estabelece nos limites dos segmentos mais simples, sem ir além. Cada cidade junto com seus arredores formam um grupo, no interior do qual o trabalho está dividido, mas que se esforça para se bastar a si próprio. ‘A cidade , diz Schomoller, torna-se sempre que possível o centro eclesiástico, político e militar das aldeias vizinhas. Ela aspira desenvolver toda indústria para abastecer o campo, assim ela procura concentrar em seu território o comercio e os transportes’. Ao mesmo tempo, no interior das cidades, os trabalhadores são agrupados segundo suas profissões, cada grêmio artesanal é como uma cidade que tem vida própria. Este foi o estado em que as cidades antigas permaneceram até uma época relativamente tardia e de onde provieram as sociedades cristãs. Mas estas logo superaram essa etapa. A divisão inter-regional do trabalho se desenvolve desde o século XVI (os grifos em negrito são nossos)”.

   Quando a divisão social do trabalho atinge, numa macro-região, seu pleno desenvolvimento. A macro-região se apresenta bipolarizada pelo grande mercado “Lamec”, nos termos anteriormente apontados. Nestas condições, o grande mercado macro-regional é a expressão complexa, como se apresenta, neste estágio, a divisão social do trabalho. Ele é, também, o sujeito autônomo que se encontra apto para realizar duas grandes operações.

    Em primeiro lugar, o grande mercado macro-regional bipolarizado é o sujeito que opera a unificação da respectiva macro-região. Com este objetivo, ele suscita um líder político e respectivo exército vigorosos, através dos quais concretiza a unificação dos dois pólos da bipolaridade. Ou seja, o grande mercado macro-regional bipolarizado emprega, como meio instrumental, essas lideranças político-militares, para romper as barreiras comerciais que ainda o atravancam, no interior da macro-região.

    Em segundo lugar e logo a seguir, o grande mercado macro-regional agora unificado é o sujeito, que dará um salto expansivo, para se estabelecer na “escala imperial”, isto é, um estágio mais abrangente e mais complexo que o estágio macro-regional. O autor da Teoria da História atribui a condição contida, literalmente, no significado do termo “Set”, para caracterizar a transformação de estado, que o próprio grande mercado opera, deixando a escala macro-regional, para se colocar ascendendo em outro lugar, ou seja, na escala imperial. O significado literal do termo “Set” é esclarecido pelo exegeta:[4]

   “Set está relacionado com o verbo sit (chit), que significa estabelecer, colocar em algum lugar (os grifos em negrito são nossos)”.

   Na condição de escala imperial, o grande mercado originário da macro-região passa a se estabelecer como base, onde se situará a sede central (político-militar, ideológica e econômica) dessa escala. A qual impõe sua hegemonia sobre outras macro-regiões e adjacências. Desse modo, o grande mercado prossegue rompendo barreiras comerciais, e se expandindo.

    Mas, as elites no poder nessa primeira escala imperial perderia, ao passar do tempo, o seu vigor, e a respectiva capacidade de servir de instrumental a ser operado pelo grande mercado, para este prosseguir com o seu processo de expansão. Na era pré-diluviana, seis sucessivas escalas imperiais (eixo sincrônico e diacrônico de expansão do Grande Mercado) desenvolveram-se no interior da configuração espacial e respectivo mercado macro-regional egípcio: I Dinastia (Set); II Dinastia (Enos); III Dinastia (Cainan); IV Dinastia (Malaleel); V Dinastia (Jared); VI Dinastia (Henoc).

   Na era pós-diluviana, cronologicamente, em tempo muito longo, sucessivas macro-regiões alcançam o estágio máximo de desenvolvimento e complexidade da divisão social do trabalho, ou seja, alcançam o estágio de grande mercado macro-regional bipolarizado (Lamec bígamo). E, a seguir ascendem à escala imperial, submetendo a anterior e expandindo ainda mais a área do grande mercado. Assim, o grande mercado prossegue, de escala imperial em escala imperial, seu processo expansivo. Esse processo desemboca e culmina no estágio global (segundo Lamec), e é cíclico e se manifesta de modo “assassino” (violento), ou seja, ele já se apresentou duas vezes na sócio-história da humanidade. A primeira vez, ele se desenvolveu no período histórico denominado pré-diluviano (= Pré-II Período Intermediário) e se encerrou com o fim deste período. A segundo vez, ele teve início com o novo Set (Novo Império egípcio), que foi sucedido pelas demais escalas imperiais: Império Assírio (Enos); Império Babilônico caldeu (Cainan); Império Persa (Malaleel); Império Macedônio (Jared); e Império Romano (Henoc). Assim, teve início o período pós-diluviano (= Pós-II Período Intermediário), que ainda está em curso, com o “grande mercado no estágio global contemporâneo” (que também podemos representar no terceiro Lamec). O qual já adentrou, desde as décadas 70-80 do século passado, na fase “Noé” de depressão e de fragmentação do grande mercado global Lamec.

    O autor da Teoria da História atribui o nome “Set” à primeira macro-região que se expandiu à escala imperial. Na realidade sócio-histórica pré-diluviana, o primeiro grande mercado macro-regional que ascendeu à escala imperial, encontrava-se e se desenvolveu no interior da configuração espacial correspondente ao Antigo Egito. Neste caso, devemos guardar as devidas proporções entre, de um lado, a área sobre a qual o grande mercado se expandiu no período pré-diluviano, e do outro, a área sobre a qual o grande mercado vem se expandindo, no período pós-diluviano, até chegar ao contemporâneo estágio global Lamec. Assim, temos de considerar, que no interior da configuração espacial do Antigo Egito e adjacências havia, guardando as devidas proporções, diversas “macro-regiões”, e que todas as seis sucessivas escalas imperiais do período pré-diluviano (Pré-II Período Intermediário) se desenvolveram no interior da configuração espacial correspondente ao mercado macro-regional do Antigo Egito e adjacências. Neste caso, “Set” (primeira escala imperial) correspondeu à Primeira Dinastia Egípcia. Na realidade histórica pós-diluviana (Pós-II Período Intermediário), o grande mercado macro-regional que se expandiu, colocando-se, ascendentemente, na escala imperial, foi a própria configuração espacial do Antigo Egito, mas considerada em sua totalidade, ou seja, concebida como uma única macro-região. Neste caso, “Set” correspondeu ao Novo Império Egípcio.

    As mesmas lideranças políticas vigorosas suscitadas e empregadas como instrumentos, por um determinado grande mercado macro-regional, para este se unificar, são empregadas, também, em geral, para procederem à expansão do seu estágio macro-regional, para a escala imperial. Desse jeito, o grande mercado veio rompendo barreiras comerciais entre diversas macro-regiões. Podemos apresentar alguns exemplos.

    No período pré-diluviano, Menés reuniu, em cerca do ano 3200 a.C., os reinos do norte e do sul do Egito numa só unidade política, isto é, criou um novo Estado. Por este mesmo fato, Menés tornou-se o fundador tradicional da Primeira Dinastia Egípcia, ou seja, a primeira escala imperial (Set) de expansão do grande mercado pré-diluviano.[5]

    No período pós-diluviano, o rei persa chamado Ciro o Grande reuniu, em cerca de 564 a.C., a macro-região ocupada pela Pérsia e pela Média, e logo a seguir expandiu seus domínios, criando o grande Império Persa,[6] ou seja, a quarta escala imperial (Malaleel) de expansão do grande mercado pós-diluviano.

    Ainda no período pós-diluviano, o grande mercado macro-regional grego bipolarizado caracterizava-se, por um lado, pelo regime de governo absolutista exercido, hegemonicamente, pela oligarquia agrária espartana, e de outro lado, pelo regime democrático exercido, hegemonicamente, pela burguesia ateniense. Mas, esse grande mercado fora destroçado em razão da guerra (431-404 a.C.) por hegemonia, entre espartanos e atenienses. Os espartanos saíram vencedores, mas logo a seguir foram derrotados por Epaminondas, de Tebas. Felipe da Macedônia iniciou o processo de unificação do grande mercado macro-regional grego. Mas, foi o seu filho, Alexandre Magno, quem concluiu esse processo, e quem logo a seguir conquistou o Império Persa. Desse modo, Alexandre criou o Império Helenístico,[7] isto é, a quinta escala imperial de expansão do grande mercado (Jared) pós-diluviano.

[1] Leveque, Pierre. As Primeiras civilizações. Volume I – Os impérios do bronze, Edições 70, LDA, Lisboa, 1987, p. 102-103, 108.

[2] Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã, Editorial Presença / Martins Fontes, São Paulo, 1965, p. 17.

[3] Durkheim, E. Durkheim – Sociologia, Coleção Grandes Cientistas Sociais, p. 94.

[4]Veja o esclarecimento fornecido por exegeta, na Bíblia “Ave Maria”, no rodapé da p. 52, referente ao Gn 4, 25.

[5] Cf. Burns, E. M., História da Civilização Ocidental, p. 45.

[6] Cf. Idem, p. 98.

[7] Cf. Idem, p. 165-167, 193.