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Livro Maldição do Templo do Sacerdote – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus (Art. 3, 1.2., p. 26-30) www.tribodossantos.com.br
A história posterior ao período dos quarenta anos no deserto consiste, por um aspecto, na continuação da disputa anteriormente apontada, notadamente no que tange à luta entre dois segmentos (sacerdotes pseudo mosaicos versus genuínos profetas individuais), pelo “corpo” (legado) de Moisés.[1]
De um lado, havia diferentes grupos de “escribas” (teólogos) e sacerdotes pseudo mosaicos (javistas, eloistas, etc.) que disputavam entre si, com o objetivo de se aproveitar, de modo hipócrita e com interesses escusos, o “corpo” de Moisés, isto é, o legado de Moisés. Todos estes aliados as liderança políticas e econômicas.
Do outro lado, os genuínos profetas de Deus resistiam, heroicamente, no sentido de preservar e aplicar, de modo honesto e fiel, o legado de Moisés. Deste lado, a história dos hebreus mostra, ainda no tempo de Acab, rei de Israel (873-854 a.C.) a atuação de resistência do profeta Elias (cf. 1Rs 18-21).[2] Até Elias, os genuínos profetas de Iahweh teriam resistido ao longo de cerca de 377 anos. E, a seguir, também todos os grandes profetas individuais resistiram, conforme vamos mostrar mais adiante. O Filho de Deus concebe que o profeta Elias houvera reencarnado como João Batista, e atribui grande estima a este profeta:
“Em verdades vos digo, entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João batista (…) Porque os profetas e a Lei tiveram a palavra até João. E se queres compreender, é ele o Elias que devia voltar. Quem tem ouvidos, ouça” (Mt 11, 11-a, 13-14) .
O Mestre quis mostrar, no evento da transfiguração, a alguns dos seus discípulos, tanto a existência da vida meta subjetiva como a grande importância histórica do papel social que ele estava vivenciando. Neste evento, ele convocou a presença de duas personagens conceituadas como de grande importância histórica entre os judeus: Moisés e Elias. Muitos profetas genuínos e anônimos atuaram, certamente, no sentido de preservar o legado de Moisés, e foram assassinados, conforme o profeta Elias afirma:
“Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida: ‘Que fazes aqui Elias?’ Ele respondeu: ‘Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa aliança, derrubaram vossos altares e passaram os vossos profetas ao fio de espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida (os grifos em negrito são nossos)” (1Rs 19, 9-b-10; cf. 18, 4, 13; 19, 14).
Além disto, o próprio Filho de Deus confirma esse longo conflito histórico. Note que ele se refere a todos os profetas genuínos, assim ele se refere, inclusive, a Moisés. Pois, os hebreus tinham Moisés em conta como o maior e pai dos profetas, além de defensor da justiça e legislador: “Não se levantou mais em Israel profeta comparável a Moisés, com quem o Senhor conversava face a face”. (Dt 34, 10). Vamos a Jesus:
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificai sepulcros aos profetas, adornai os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos manchado nossas mãos no sangue dos profetas… ‘Testemunhais assim contra vós mesmos que sois de fato os filhos dos assassinos dos profetas. Acabais, pois, de encher a medida de vossos pais! Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis do castigo do inferno? Vede, eu vos envio profetas, sábios, doutores. Matareis e crucificareis um e açoitareis outros nas vossas sinagogas. Persegui-lo-eis de cidade em cidade, para que caia sobre vós todos o sangue inocente derramado sobre a terra. Desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo, todos esses crimes pesam sobre esta raça. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! (…): Porque eu vos digo: Já não me vereis de hoje em diante, até que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor (os grifos em negrito são nossos)”. (Mt 23, 29-37-a, 39).
O quadro anteriormente desenhado mostra, portanto, que havia muitos sacerdotes, que viam no Tabernáculo, na fé do povo no Deus Iahweh, no “corpo de Moisés” (o legodo e o carisma que Moisés desfrutava junto ao povo), e no próprio povo a oportunidade de atingirem seus objetivos escusos. Assim, ainda antes da conquista da Palestina, determinados sacerdotes oriundos ou não da tribo de Levi assassinaram, provavelmente, Moisés, e tomaram a direção do Tabernáculo. E, preservaram ou entregaram a liderança política a Josué. A linda e gloriosa narração acerca da morte de Moisés, descrita no livro Deuteronômio ou Livro da Lei (cf. Dt 31-34), fora forjada durante a “Reforma Deuteronômica”. A qual fora empreendida sob a direção do sumo sacerdote Helcias, o escriba Safã e a profetisa Holda, mancomunados com o rei Josias (638-609 a.C.), e iniciada com a ajuda deste rei.[3] Eles forjaram tanto o referido livro como o seu achado, que teria ocorrido durante escavação no interior do templo-edifício de Jerusalém. (cf. 2R 22, 8-20; 23, 1+; 2Cr 34). O profeta Jeremias denunciou o falseamento do sentido da Lei e/ou a falsificação do próprio documento:
“O meu povo, porém, não conhece a lei do Senhor. Como podeis dizer: ‘somos sábios, e temos conosco a lei do Senhor?’ Na verdade foi a mentira que fez desta lei o estilete enganador dos escribas. Os sábios consternados e confundidos ficarão cobertos de vergonha, por haverem repelido a palavra do Senhor; qual seria então a sabedoria deles? Eis porque darei a outros as suas mulheres e seus campos a novos donos, já que, do menor ao maior deles, todos se entregam os lucros desonestos. Desde o profeta até o sacerdote, praticam todos a mentira. Tratam sem cuidado da ferida da filha do meu povo, e dizem: ‘Vai tudo bem! Vai tudo bem! Quando vai tudo mal (os grifos em negrito são nossos)” (Jr 8, 7-b-10).
O exegeta do referido trecho esclarece:[4]
“A mentira: Jeremias considera que os escribas falsearam o sentido da lei, ou os acusa de ter falsificado o próprio documento, pois, trata-se do livro da lei (o Deuteronômio) descoberto no tempo de Josias (Ver II Reis 22, 8ss; II Cr 34, 1ss; 35, 1ss)”.
Por fim, a podridão sacerdotal inventou diversas leis e cultos, que exaltavam o templo-edifício, e atribuíra, falsamente, tais invenções a Moisés. Desse modo, os sacerdotes objetivavam tirar partido do forte carisma que a lembrança de Moisés desfrutava junto ao povo hebreu. Neste sentido, o grande profeta individual da estirpe de Jeremias denunciou:
“Eis o aqui o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: ‘Amontoai holocaustos sobre sacrifícios, e deles comei a carne; porquanto não falei a vossos pais e nada lhes prescrevi a respeito de holocaustos e sacrifícios, no dia em que os fiz sair do Egito. Foi esta a única ordem que lhes dei: Escutai minha voz: serei vosso Deus e vós sereis o meu povo; seguis sempre a senda que vos indicar, a fim de que sejais felizes – Eles, porém, não escutaram, nem prestaram ouvidos, seguindo os maus conselhos de seus corações empedernidos; voltara-me as costas em lugar de me apresentarem seus rostos. Desde o dia em que vossos pais deixaram o Egito até agora, enviei-vos todos os meus servos, os profetas. Todos os dias sem cessar os mandei. Eles, porém, não os escutaram, nem lhes deram atenção; endureceram a cerviz e procederam pior que os pais (os grifos em negrito são nossos)”. (Jr 7, 21-26).
[1]. Art. 2. Maldição do templo-edifício originada na usurpação do tabernáculo por levitas e sacerdotes (Art. 2, 1.1., p. 22-25)
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/05/maldicao-do-templo-edificio-originada.html
[2]. Cf. Bíblia Sagrada – Dicionário prático de cultura católica, bíblica e geral (Adendo), p. 87. Indica o período de 837-854 para o reinado de Acab, e também para a vida pública de Elias.
[3]. Fohrer, Georg. História da Religião de Israel, p. 362-365: Fohrer focaliza a Reforma Deuteronômica.
[4]. Cf. Bíblia Sagrada (Ave Maria), rodapé da p. nº 1046, item referente ao “Cap. 8 – 8”, referente a Jr, 8, 8.