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Livro: Teoria da História (Art.7, 1.1.2;1.1.3;1.1.4. p. 49-57) www.tribodossantos.com.br
Em nosso estudo acerca da Teoria da História, mostramos a formação de uma grande rede global de mercados macro-regionais, na era pré-diluviana (= Pré-II Período Intermediário).[1] Rede esta que chamamos de Mercado Global pré-diluviano. Vamos focalizar cada um desses mercados macro-regionais. Neste artigo, Abordaremos os mercados macro-regionais mesopotâmico, egeu e o hitita.
Uma das mais antigas civilizações do mundo foi, provavelmente, a que começou no vale do rio Tigre e do Eufrates, cerca de 3500 ou 3000 a.C. Os pioneiros da Civilização Mesopotâmica foram os sumérios, que nessa época se estabeleceram na parte mais baixa do vale do Tigre-Eufrates. Segundo Burns:[2]
“A agricultura era o principal interesse econômico (…) No comércio estava a segunda fonte de riqueza nacional. Um ativo intercâmbio se estabelecera com todos os países vizinhos (o grifo é nosso), girando em torno da troca de metais e de madeira, procedentes do norte e do oeste, por produtos agrícolas e mercadorias manufaturadas das regiões inferiores do vale. Quase todas as técnicas usuais de negócio tinham grande desenvolvimento; usavam-se habitualmente faturas, recibos, notas promissórias e cartas de crédito. O costume requeria que as transações fossem confirmadas em contrato escritas, assinadas por testemunhas. Os mercadores empregavam vendedores que viajavam até regiões distantes e vendiam mercadorias em comissão. Em todas as transações maiores serviam como dinheiro barras ou lingotes de ouro e de prata, sendo a unidade padrão um siclo de prata”.
Esse ativo intercâmbio e todas essas técnicas foram assimilados pelos antigos babilônios, cujo império vigorou, posteriormente, durante grande parte do período em que se estabeleceu o grande mercado global (2100 a 1788 a.C.).[3]
Wolf Schneider observa que os sumérios estabeleceram relações com outro grande mercado macro-regional. Aquele que se situava na bacia do rio Indo, cuja principal cidade fora Mohendjo Daro ou Mhenjo-daro, e que é provável ter este mercado macro-regional surgido como colônia decorrente do processo de expansão do grande mercado macro-regional mesopotâmico:[4] “No período da hegemonia dos antigos babilônios, a relação comercial entre a Mesopotâmia e as cidades da bacia do Indo prosseguiu“. Diversos objetos encontrados nos dois países provam que já por volta de 2600 a.C. havia intenso comércio entre esses dois grandes mercados.
Aymard e Auboyer confirmam ter havido antiquíssimo intercâmbio entre a Mesopotâmia e longínquas nações:[5]
“A Mesopotâmia consegue, assim, tirar proveito de sua situação geográfica, muito menos isolada que a do Egito. Suas relações com regiões tão longínquas como o Vale do Indo, o Cáucaso, ou o ocidente da Ásia Menor remontam à mais remota alta antiguidade e às mais distanciadas épocas da Pré-história. De maneira quase regular, com interrupções devidas aos grandes movimentos de povos mais ainda do que às expedições militares, mantêm-se quase constantemente, facilitando ao mesmo tempo as trocas de produtos, os contatos entre civilizações e a lenta infiltração de elementos étnicos estrangeiros”.
A história política e o respectivo mercado macro-regional mesopotâmico foram assinalados por interrupções bruscas.[6] Os sumérios detiveram sua primeira fase de hegemonia na Mesopotâmia, aproximadamente entre 3500 a 2550 a.C. Nesta última data, eles foram conquistados por Sargão I, chefe de uma nação semítica oriunda da região do vale conhecida por Acad, que expandiu seu grande império e respectivo mercado macro-regional, englobando o dos elamitas e os de todos os outros povos do norte da Síria até o Mediterrâneo. O império criado por Sargão foi destruído por um feroz povo bárbaro chamado guti. Os sumérios da cidade de Ur restabeleceram sua hegemonia sobre todo o território de Sumer e Acad, submetendo o governo dos guti, mas em seguida foram anexados pelos elamitas, no século XXI.
Portanto, entre os anos 2100 e 2000 a.C., quando o grande mercado global teve gênese, a hegemonia sobre o grande mercado macro-regional mesopotâmico e o elamita se encontrava sob a direção política (central) dos elamitas. Burns observa, porém, que logo a seguir, cerca do ano 2000, um povo semita conhecido pelo nome de amorritas, vindo das orlas do deserto da Arábia, estabelecera-se em Babilônia e tomaram dos elamitas o controle sobre o mercado macro-regional mesopotâmico, estendendo seu domínio no norte até a Assíria.[7] Burns acrescenta que o povo conhecido como amorritas “implementou um desenvolvimento mais amplo que o existente na cultura anterior”.[8] O império dos amorritas é aquele que se convencionou chamar de “antigos babilônios”, em distinção aos neobabilonios ou caldeus, este ocupou o vale muito mais tarde. Hamurabi foi o mais famoso rei dos amorritas. Em 1750 a.C., o império dos antigos babilônios e respectivo mercado macro-regional foram destroçados, por um povo bárbaro chamado cassitas, e entrou em declínio.
Entre os anos 2000 e 1750 a.C., o grande mercado macro-regional mesopotâmico esteve sob a hegemonia dos antigos babilônios, que intercambiavam com todos os países das regiões vizinhas (Fenícia, Palestina, Síria, Elamita, Mohenjo-daro, etc.), conforme anteriormente já faziam os sumérios. Assim, grande parte do período em que o mercado macro-regional mesopotâmico integrou o grande mercado global, àquele mercado estava sob a hegemonia dos antigos babilônios.
1.1.3. O mercado regional egeu no contexto do mercado global
A Civilização Egéia fora uma das mais antigas na história das civilizações. Já por volta do ano 3000 os naturais haviam realizado a transição do período neolítico para a idade dos metais e, provavelmente, para a escrita. A primeira etapa de expansão do grande mercado macro-regional desenvolvido nessa civilização, então, foi completada sob a direção das cidades de Cnosso e Festo.[9] Segundo Burns, “para alguns historiadores, a civilização egéia não passa de um mero prolongamento da civilização egípcia”.[10] Aymard e Auboyer ressalvam o grande desenvolvimento econômico ocorrido na civilização egéia, por volta do ano 2000:[11] “Quanto a Creta propriamente dita, apenas começou a destacar-se na primeira metade do III milênio, com sensível atraso em relação ao Egito e a Mesopotâmia, muito mais favorecidos pela natureza. Bruscamente, por volta de 2000, verificou-se o seu rápido desenvolvimento, a construção de palácios, principalmente Cnossos, Foístos e Mália” (o grifo é nosso).
A Civilização Egéia correspondeu ao grande mercado macro-regional, que se desenvolveu nas ilhas do Mar Egeu, a partir da ilha de Creta, e que se estendeu as demais ilhas do mundo Egeu. Neste conjunto de ilhas, seus habitantes exerciam produção industrial em larga escala e grande comércio marítimo, que se expandira e se estendera do litoral da Ásia Menor à Grécia Continental, onde construíram estabelecimentos comerciais.[12] Neste sentido, vejamos Burns:[13]
“O rei era o principal capitalista e empresário do país. As fábricas ligadas ao seu palácio produziam, em larga escala, cerâmica de ótima qualidade, tecidos e artigos de metal. Alguns desses produtos destinavam-se a suprir as necessidades da corte, mas grande número deles eram vendidos tanto no interior como no exterior. Embora não fosse proibida a empresa privada, os possuidores de estabelecimentos menores sofriam naturalmente certa desvantagem em competir com o rei. Não obstante, floresceram numerosas fábricas pertencentes a particulares, sobretudo em cidades que não a capital. Gúrnia, por exemplo, possuía fundições para a manufatura de bronze; Terásia, refinarias de óleo de azeitona e Festo, fábricas de cerâmica. Deve-se compreender que esses estabelecimentos, tanto os reais como os particulares, eram fábricas quase em todos os sentidos modernos da palavra. Apesar de não usarem maquinaria acionada a força motriz, empenhavam-se na produção em larga escala e havia divisão de trabalho, controle centralizado e supervisão dos trabalhadores”.
Aymard e Auboyer comentam que a grande dimensão e complexidade da produção em larga escala feita no mundo egeu, e seu intercâmbio com cidades de diversos outros mercados macro-regionais, “…requeria um comércio bastante intenso”.[14] Eles observam que esse intenso intercâmbio foi constatado:[15] “… como podemos imaginar que Creta, cujas relações com o mundo mesopotâmico estão bem documentadas (…) Objetos produzidos pelas suas mãos foram encontrados no Egito, em Chipre e na costa fenícia (Biblos e Ugarit-Ras Shamra), nas costas da Ásia Menor e na Grécia, e em grande abundância nas Cíclades, onde Melos, particularmente, foi, segundo parece, uma verdadeira sucursal econômica de Creta”. Esses dois autores consideram que um intercâmbio comercial de tal magnitude e complexidade exige um adiantado direito comercial, assim como vimos tanto no mercado regional egípcio como no mesopotâmico. Eles lamentam, entretanto, não haver sido encontrado nenhum documento egeu que trate do direito comercial:[16]
“Nada, infelizmente, nos informa a respeito do direito comercial. Mas, como podemos imaginar que Creta, cujas relações com o mundo mesopotâmico estão bem documentadas, não praticasse o empréstimo sob suas diferentes formas, a troca, a associação, etc.? O desenvolvimento de seu comércio é inconcebível sem a existência de um mecanismo jurídico que teve de ser adaptado às condições particulares dos negócios realizados por via marítima”.
É relevante notar que os cretenses abriram, para contatos e trocas múltiplas, uma rota transversal do Mediterrâneo oriental, em proveito do Egeu e suas ilhas. Esta rota cruzou interligando a antiga rota, que acompanha o litoral mediterrâneo desde o Egito e que se estendia pela Ásia Menor. Isto favoreceu grandemente o incremento do intercâmbio entre diversos mercados regionais: o do próprio mundo egeu; o egípcio; o que englobava a Fenícia, a Palestina e a Síria; o hitita; e mesmo o mesopotâmico. Assim, favoreceu ao desenvolvimento do grande mercado global. Neste aspecto, Aymard e Auboyer esclarecem, referindo-se às rotas marítimas criadas pelo mercado egeu:[17]
“... abriu, para contatos e trocas múltiplas, uma rota até então inédita, a que atravessa o Mediterrâneo oriental no sentido leste-oeste e que, na altura de Chipre, cruza a rota norte-sul ao longo das costas asiáticas, sendo esta última conhecida há muito, como no-lo provam as relações entre o Egito e Biblos. Outrora as relações entre a Europa e a Ásia estabeleciam-se, principalmente, pelos estreitos. A elas, bem como às relações com as regiões do Mar Negro, devera sua prosperidade, por volta de 2300 a.C., uma das nove cidades superpostas na colina Hissarlik, a que recebeu a denominação de Tróia II. Mas, na época em que os cretenses dominavam o mar, tal rota era utilizada, sobretudo, pelos bandos indo-europeus que iam fixar-se na Ásia Menor. Creta substituiu-a, então, por uma rota muito mais curta, pois seus desembarcadouros orientais se encontravam bem mais próximos dos grandes focos da civilização do Oriente Próximo”.
1.1.4. O mercado regional hitita no contexto do mercado global
A Civilização Hitita correspondeu ao grande império e respectivo mercado macro-regional, que se desenvolveu cobrindo grande parte da Ásia Menor e se estendia até as vizinhanças do Alto Eufrates, cuja capital e centro comercial era a cidade conhecida como Hatusas ou Cidade Hitita. Em certa época esse império incluiu também a Síria e mesmo porções da Fenícia e da Palestina. O grande império hitita e respectivo mercado macro-regional alcançaram o zênite de seu poder nos anos compreendidos entre 2000 a 1200 a.C.[18]
Além de um conhecimento extensivo da agricultura e uma economia altamente desenvolvida, aprimoraram grandemente a metalurgia, com vistas, sobretudo, ao comércio exterior. Esta foi uma das suas principais atividades econômicas. Descobriram a mineração e o uso do ferro, tornando possível esse metal para o resto do mundo civilizado. O império e respectivo mercado regional hitita expandiu-se, parece, através da simples penetração comercial, mas também através da guerra de conquista.[19]
O mercado regional hitita exerceu notável importância e valor histórico, que consistiu primariamente no seu papel de intermediário comercial entre o Oriente e o Ocidente. Enfim, o mercado regional hitita houvera representado importante função em favor do grande mercado global. Neste sentido, Burns esclarece:[20] “Foram eles um dos grandes elos de ligação entre as civilizações do Egito, do Tigre-Eufrates e da região do Mar Egeu (o grifo é nosso)”.
Os hititas exerceram o papel de elo de ligação (trocas comerciais e culturais) entre o vale do Tigre-Eufrates e as partes mais ocidentais do Oriente Próximo. Foi principalmente desse modo, que certos elementos culturais originários da Mesopotâmia foram transmitidos a povos como os cananeus e os hicsos. E, talvez, transmitidos também aos povos das ilhas do Mar Egeu. Pois, considerando-se que os troianos mantinham estreitas relações comerciais com os cretenses, é razoável supor ter havido um certo intercâmbio cultural entre hititas e os povos dos principais centros industriais e comerciais da civilização egéia.[21]
O sistema legal dos hititas foi uma das suas realizações mais notáveis. Ele era em grande parte original, embora mostre haver sofrido alguma influência da legislação dos antigos babilônios. E, reflete uma sociedade relativamente urbana e requintada, mas submetida a um minucioso controle governamental. Pois, conforme esclarece Burns:[22]
“Nas próprias leis se estabeleciam os preços de grande número de mercadorias – não só artigos de luxo e produtos industriais, mas também de alimentação e vestuário. Os salários e os pagamentos de serviços eram do mesmo modo minuciosamente prescritos, sendo o pagamento das mulheres em menos da metade do pagamento do homem”.
[1] http://tribodossantos.com.br/pdf/Teoria%20da%20Hist%C3%B3ria%20-%20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf
[2] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 80.
[3] http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/01/formacao-do-grande-mercado-global-e.html
[4] Schneider, W. De Babilônia a Brasília – A cidade como destino do homem, de Ur a utopia, p. 44.
[5] Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 1º volume, p. 142.
[6] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 76.
[7] Idem, p. 76-77.
[8] Idem, p. 85.
[9] Idem, p. 135. Cf., também, Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, p 13-15.
[10] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 141.
[11] Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, p.14.
[12] Burns, E, M. História da Civilização Ocidental, p. 135.
[13] Idem, p. 137.
[14] Aymard, A e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, p. 19.
[15] Idem, p. 19.
[16] Idem, p. 19.
[17] Idem, p. 20.
[18] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 130.
[19] Idem, p. 131.
[20] Idem, p. 129.
[21] Idem, p. 134. É oportuno observar (Cf. Burns, idem, p. 48) que os hicsos ou reis pastores ficaram conhecidos historicamente, por haverem ocupado o Egito, a partir de 1750, ou seja, logo no início da grave e prolongada depressão econômica que abateu o mercado regional egípcio e simultaneamente o grande mercado global, a partir de 1788, e que se estendeu até 1580, quando os hicsos foram expulsos do Egito.
[22] Idem, p. 132-133.