O mercado regional constituído pela Fenícia, Canaã e Síria, mais o da bacia do rio Indo e o elamita no contexto do mercado global pré-diluviano

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Art 7 e 8 Merc Reg pré - Cópia           Livro: Teoria da História (Art. 8, 1.1.5;1.1.6;1.1.7. p. 57-63) www.tribodossantos.com.br

1.1.5. A Fenícia, Canaã e Síria no contexto do mercado global

     Uma ampla faixa de terra produtiva se estende para o noroeste do Golfo Pérsico, daí descendo pela costa do Mediterrâneo até ao Egito. Ela forma um semicírculo a contornar a parte norte do deserto da Arábia, a chamamos de Crescente Fértil ou Meia-Lua Fértil. Os povos mesopotâmicos habitavam a parte leste. Ao oeste estavam os fenícios, cananeus e sírios. Os fenícios se destacavam entre estes três povos, no tocante à vida econômica inserida no grande mercado global, mas os três constituíam um único e peculiar mercado macro-regional. Aymard e Auboyer apontam alguns fatores, que convergiram condicionando esses três povos, no sentido deles constituírem um mesmo e singular mercado macro-regional, e que de certa forma favoreceram os fenícios:[1]

    “A Proximidade do Mediterrâneo e a presença das cadeias do Líbano atribuem um caráter todo particular à região que prolonga os desertos da Arábia, na direção do ocidente, tendo Canaã ao sul e a Síria ao norte (…) atraindo os nômades que a atingiram em vagas sucessivas, recobrindo-a, por vezes, parcialmente (…) Além disso, trata-se de um ponto de convergência de rotas. Esta região é a passagem obrigatória entre o Egito e todo o resto do Oriente Próximo. Piratas e aventureiros podem surgir do mar, mas este, em compensação, conduz às mais diversas regiões. Pistas caravaneiras atingem o baixo Eufrates e a Mesopotâmia. Pequeno território sem fronteiras naturais, sem unidade, privado de um núcleo central, encruzilhada distendida em comprimento e fragmentada pelo relevo em faixas longitudinais, aberta a todas as dominações e a todas as influências, cobiçada por todos os grandes impérios e por pequenos agrupamentos humanos deserdados que vivem nos arredores e espera conseguir aí o seu quinhão”.

    A parcela da região chamada Meia-Lua Fértil ocupada pela Fenícia, Canaã e Síria constituía um único e singular mercado regional. Este, ao mesmo tempo servia como importante entroncamento das rotas comerciais entre os diversos outros mercados regionais existentes àquela época. Todos esses mercados regionais se articulavam entre si, no contexto do grande mercado global que vigorou aproximadamente de 2100 a 1788 a.C. Algumas observações feitas por Aymard e Auboyer ajudam a confirmar esta nossa tese, mostrando que nesse período a Fenícia já atuava como ponto de confluência com o mercado regional egípcio, e também com os mesopotâmico, egeu e hitita:[2]

   “Os fenícios são semitas estabelecidos na costa (…) O mais tardar a partir do fim do III milênio, estão eles em Ugarit (atualmente Ras-Shamra, com o porto de Minet el-Beida), em frente à extremidade oriental de Chipre (…) Durante todo o III milênio e maior parte do II, conhecemos principalmente suas relações como Egito, Relações cujo centro era constituído por Biblos (…) Mas os senhores da Mesopotâmia exerciam, por seu lado, influência sobre Ugarit (o grifo é nosso)”.

   No mesmo sentido, Aymard e Auboyer acrescentam:[3]

    “A procura de matéria prima e de escoadouro para os produtos dá grande incremento a seu comércio. Praticaram-no desde cedo, acrescentando, aliás, às suas própria necessidades, a função de comissário e retirando proveito da produção de outrem, produção de cuja redistribuição se encarregava: a partir do III milênio os comerciantes de Biblos estabeleceram relações desta ordem com o Egito e, no II milênio, Ugarit torna-se um verdadeiro entreposto do mundo egeu (o grifo é nosso). Em terra não praticam diretamente os transportes caravaneiros, mas situam-se no término de numerosas rotas e são suficientemente hábeis para manterem-se em bons termos com os sírio...”.

    Os fenícios não negligenciavam a atividade agrícola, mas se concentravam no comércio exterior, sobremodo pela via marítima, mas indiretamente também o caravaneiro, e com estes objetivos incrementavam a atividade produtiva (além de intermediarem a produção de outrem, em seu proveito). Aymard e Auboyer esclarecem esses aspectos da economia fenícia:[4]

    “A produção de cereais cobre boa parte das necessidades alimentares da população, e a criação de carneiros, parte das exigências em tecidos. O vinho e o azeite deixam margem exportável. Nas cidades é intensa a atividade artesanal…”.

    É oportuno observarmos que a presença e a importância de arameus, hebreus e filisteus na região em tela ocorreram bem posteriormente ao período que estamos tratando (2100 a 1788), que foi quando esteve em vigência o grande mercado global, no qual se encontrava inserido o mercado regional constituído por fenícios, sírios e cananeus.[5]

1.1.6. As cidades da bacia do rio Indo, no contexto do mercado global

    Uma importante civilização e respectivo mercado macro-regional haviam se desenvolvido na bacia do rio Indo, no atual Paquistão, constituído pelas cidades Mohenjo-daro ou Mohendjo Daro, Chanhu-daro, Harapa e Laore.[6] Segundo Schneider, esse mercado regional parece ter surgido como colônia originária do mercado regional mesopotâmico. A manufatura e o comércio eram suas principais atividades. É certo ter havido intenso intercâmbio comercial entre o mercado regional mesopotâmico e o da bacia do Indo, já por volta de 2600 a.C., desde o período de hegemonia suméria. Esse intercâmbio se estendeu até ao período de hegemonia dos antigos babilônios. Intercâmbio este confirmado pelos diversos objetos de origem mesopotâmica encontrados nas cidades da bacia do Indo, e vice-versa. A cidade Mohendjo Daro e, por fim, todo o mercado regional da bacia do Indo foi conquistado e desmantelado, cerca de 1750 ou 1500 a.C., presumivelmente, por pastores nômades arianos vindos em impetuosos avanços da Pérsia, e que mais tarde seriam o povo civilizado da Índia. Schneider observa, ainda, que a nação que habitou na bacia do Indo era altamente civilizada, e teve seu período de brilho há 4500 anos.[7] Aymard e Auboyer confirmam ter havido relações comerciais entre a Mesopotâmia e o vale do Indo, as quais remontam a mais alta antiguidade.[8]

    Outros historiadores datam em cerca de 1750 a.C. a destruição da civilização e respectivo mercado regional da bacia do Indo. Schneider acrescenta:[9]

   “A população de Mohendjo Daro, pelas ruínas existentes pode ser calculada em pelo menos 70 000 habitantes, vivia em parte da lavoura e pecuária, mas principalmente de trabalhos manuais e comércio. O artesanato era de nível elevado. Fabricavam-se utensílios domésticos, armas e adornos de cobre, bronze, prata e ouro, de vidro, pedras semipreciosas e marfim. Diversos objetos encontrados nos dois países provam que já por volta de 2600 a.C. havia intenso comércio com a Babilônia”.

   É possível ter havido intercâmbio, segundo Aymard e Auboyer, entre o mercado regional egípcio e o da bacia do Indo.[10]

1.1.7. O mercado regional elamita no contexto do mercado global.

    A Civilização Elamita e o respectivo mercado macro-regional se desenvolveram em região situada à leste do vale do Tigre-Eufrates, e margeando o Golfo Pérsico. Alguns especialistas preferem considerar a Elam como a mais antiga civilização.[11] Susa (hoje Schusch) era a capital do Elam, situada em quatro colinas no meio de uma baixada de exuberante fertilidade na orla meridional do planalto persa, cuja época aproximada de sua origem remota ao ano 4000 a.C.[12] Aymard e Auboyer afirmam a possibilidade do mercado regional egípcio ter estabelecido intercâmbio no Golfo Pérsico:[13]

    “Outra região de trocas era a Arábia (…) Por vezes uma expedição atravessava o deserto arábico partindo da região de Tebas e encontrava a frota na costa. Em seguida procurava-se, na Arábia, na região de ‘Put’, e talvez mesmo ainda mais longe, no Golfo Pérsico (o grifo é nosso) e nas bocas do Indo, os maravilhosos produtos do oriente longínquo…”.

   Se esse intercâmbio ocorrera, efetivamente, no Golfo Pérsico, isto se deu, certamente, com o mercado regional elamita.

    Mais ou menos em 2550, Sargão I, o chefe de uma nação semita que havia se estabelecido na região do vale Tigre-Eufrates conhecida por Acad, submeteu os sumerianos e logo a seguir os elamitas. No século XXI, os elamitas reapareceram na história, conquistando e anexando o novo império dos sumerianos que agora tinha à frente a cidade de Ur, pois, estes haviam se revoltado e submetido o governo semita inaugurado por Sargão I.[14] Essas guerras de conquista pressupõem, além da busca de espólio e de tributo, também a existência de brutal concorrência entre o mercado regional mesopotâmico e o elamita. Tratava-se de uma feroz disputa pelo controle de rotas comerciais e talvez mesmo pelo mercado regional da bacia do Indo. Enfim, pressupunha a concorrência entre o Elam e a Mesopotâmia por uma hegemonia única sobre os dois respectivos mercados regionais. Isto implica dizer que o Elam tinha no comércio senão a primeira, pelo menos a segunda fonte de riqueza, e cujo mercado regional deveria ter uma dimensão aproximada ao da mesopotâmia. Pois, o Elam era um país vizinho aos sumérios e certamente um dos grandes parceiros comerciais destes. Burns informa-nos que desde a época da hegemonia dos sumérios, estes tinham intenso comércio com as nações vizinhas:[15]

    “No comércio, estava a segunda fonte de riqueza nacional. Um ativo intercâmbio se estabelecera com todos os países vizinhos, girando em torno de troca de metais e de madeiras, procedentes do norte e do oeste, por produtos agrícolas e mercadorias manufaturadas das regiões inferiores do vale…”.

    O fato do mercado macro-regional dos elamitas haver obtido hegemonia sobre o mercado regional mesopotâmica, no século XXI, indica que deste modo e nesse período o mercado regional elamita esteve integrado ao grande mercado global, que vigorara de 2100 a 1788 a.C., mas somente naquele século. Pois, mais ou menos no ano 2000, a Mesopotâmia fora conquistada por um povo conhecido pelo nome de amorritas, que fundara o império dos antigos babilônios, cujo rei mais conhecido foi Hamurabi. Por conseguinte, de cerca do ano 2000 até 1750 a.C. o mercado regional mesopotâmico esteve integrado ao grande mercado global, mas sob a hegemonia do império dos antigos babilônios.

[1] Aymard, A. e Auboyer, F. História Geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, p. 32.

[2] Idem, p. 33-34.

[3] Idem, p. 36.

[4] Idem, p. 36.

[5] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 112-113. Cf. Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, P. 40.

[6] Aymard, A e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 1º Volume, p. 223.

[7] Schneider, W. De Babilônia a Brasília, p. 44-45.

[8] Cf. Aymard, A. e Auboyer, F. História Geral das Civilizações, 1º volume, p. 142.

[9] Schneider, W. De Babilônia a Brasília, p. 44.

[10] Cf. Aymard, A e Auboyer, F. História Geral das Civilizações, 1º Volume, p. 46.

[11] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental. P. 33.

[12] Cf. Schneider, W. De Babilônia a Brasília, p. 43-45.

[13] Aymard, A. e Auboyer, J. História Geral das Civilizações, Tomo I, 1º Volume, p. 46.

[14] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, 76.

[15] Idem, p. 80.