O verdadeiro sendeiro luminoso

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O verdadeiro sendeiro luminoso. Confronto entre Schutz e Kosik (contribuição ao resgate do pensamento de Jesus). (Art. 22, 5.5., p. 128-137). Livro O TEMPLO – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

 

Alguns aspectos dos conhecimentos produzidos por determinados pensadores contemporâneos, a exemplo de Schutz e Kosik, podem nos ajudar, no sentido de resgatarmos, atualizarmos a terminologia e dilatarmos certos pontos pertinentes ao pensamento do Jesus Histórico. Pensamento este relativo às noções atinentes ao indivíduo, aos campos subjetivo e objetivo deste, suas motivações, conhecimentos, ações, etc.

Na direção apontada acima, então, vamos confrontar e tentar sistematizar, sucintamente, duas perspectivas individuais, voltadas para a produção do conhecimento cientificista, e respectivas categorias de conhecimento.[1]

Schutz e Kosik enriquecem de detalhes, a análise empreendida e exposta pelo Mestre, através dos dois diferentes “caminhos analíticos” por eles percorridos e propostos, e das respectivas noções abstraídas acerca da mesma realidade, que os dois pensadores contemporâneos enfocam. Isto é, o indivíduo focalizado pela sua conduta subjetiva articulada à conduta objetiva.

Nenhum dos dois referidos autores contemporâneos toca, contudo, no ponto fundamental apontado pelo Mestre: o fato do fator afetivo ou sentimental ser determinante básico, e assim condicionar, em primeiro lugar, os valores, e subsequentemente os demais fatores subjetivos, e desse modo condicionar o campo objetivo da conduta. Aqui, focalizamos apenas Schutz e Kosik, mas outros pensadores também podem ajudar a resgatar, atualizar a terminologia e a enriquecer, o tema ressaltado pelo Mestre.

Vamos confrontar, de um lado, Schutz, e do outro Kosik, a respeito do modelo de análise pertinente ao indivíduo e respectivas noções abstraídas através do “caminho” ou processo analítico que eles percorreram.

Schutz enriquece, em muitos casos, de detalhes importantes tanto em relação aos caminhos que o indivíduo percorre como aos conhecimentos que este indivíduo adquire acerca da realidade que vivencia: o “mundo da vida”;[2]atenção seletiva: relevância e tipificação”, etc.[3] As noções ricamente detalhadas, que Schutz abstraiu da realidade (subjetiva e objetiva), acerca do indivíduo, se enquadram, entretanto, plenamente, àqueles aspectos que a perspectiva materialista dialética de Kosik chamou de “práxis utilitária imediata e correspondente ao senso comum”.[4] Práxis com a qual Kosik não se ocupou, senão focalizando, de modo crítico e também detalhadamente, alguns outros aspectos atinentes a tal práxis fetichizada. Aspectos estes igualmente importantes, que ele concebe, resumidamente, por “mundo da pseudoconcreticidade”. O qual se aproxima do que o Mestre concebe por “trevas interiores” articulas às “trevas exteriores. Já vimos que o Mestre rotula de “morte” (alienação) o estado de“trevas” (interiores) atinentes à esfera individual. Kosik emprega, também, a metáfora da “morte” no lugar de “alienação”:[5]

 

   “Nesta transformação histórica o aspecto objetivo do homem se transforma em uma objetividade alienada, em uma objetividade morta, desumana (as ‘condições’ ou o fator econômico) e a subjetividade humana se transforma em existência subjetiva, miséria, vazio, em uma possibilidade meramente abstrata, do desejo (o grifo em negrito é nosso)”.

A noção de “mundo da pseudoconcreticidade” (kosik) se aproxima da noção de “(mundo) das trevas” (Jesus: cf. Jo 8, 12: “Jesus como luz do mundo” em distinção e oposição ao “mundo das trevas”); ambas se aproximam, por um aspecto, tanto da noção de um determinado “mundo” ou “subuniverso” (James) como da “província finita de significados” (Schutz). Em algumas oportunidades, o Mestre se refere a si como “luz do mundo”, em distinção e oposição ao “mundo das trevas”, no qual os ideólogos habitam junto aos demais “mortos”, que tais ideólogos “não deixam entrar no reino do céu”. Voltaremos, posteriormente, a este tema. Agora, retornemos a Kosik e sua noção de “mundo da pseudoconcreticidade”:[6]

 

“O complexo dos fenômenos que povoam o ambiente cotidiano e a atmosfera comum da vida cotidiana, que, com a sua regularidade, imediatismo e evidência, penetram na consciência dos indivíduos agentes, assumindo um aspecto independente e natural, constitui o mundo da pseudoconcreticidade. A ele pertencem: – O mundo dos fenômenos externos, que se desenvolvem à superfície dos fenômenos realmente essenciais; – O mundo do tráfico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada dos homens (a qual não coincide com a práxis crítica revolucionária da humanidade); – O mundo das representações comuns, que são projeções dos fenômenos externos na consciência dos homens, produto da práxis fetichizada, forma ideológica de seu movimento; – O mundo dos objetos fixados, que dão a impressão de ser condições naturais e não são imediatamente reconhecíveis como resultados da atividade social dos homens. O mundo da pseudoconcreticidade é um claro-escuro de verdade e engano. O seu elemento próprio é o duplo sentido. O fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo, o esconde (os grifos em negrito são nossos)”.

Vimos que Kosik focalizou o caminho, détour ou método analítico imbuído de violência física voltada para a tomada do poder (práxis crítica revolucionária da humanidade), supondo ser este caminho, por um aspecto, outro e “verdadeiro” (eficaz) caminho para o indivíduo conhecer a realidade: “a práxis crítica revolucionária da humanidade” (motivada por sentimentos de ordem odiosa e operada com violência física). Práxis ou caminho esse que alguns chamam de “Sendeiro luminoso”. Nisto, Kosik difere de Schutz, pois este não abordou tal viés. Por outro aspecto, Kosik supôs que o caminho, détour, método analítico ou práxis revolucionária imbuída de violência física atuaria no sentido de destruir o mundo da pseudoconcreticidade. Ele supôs, também, que esse détour seria o método revolucionário eficaz para a transformação da realidade, para uma forma mais justa e fraterna. Grande equívoco! Pois, a história mostra, indiscutivelmente, que a postura crítico-prática que emprega a violência, nada mais é que pseudorrevolucionária, ou “revolução traída”, conforme Marcuse prefere chamá-la.[7] Ela reproduz a hierarquização social, e consiste em alternância entre elites. Kosik desconhece os “mecanismos deprodução e administração da violência”, operados pelo conjunto das elites e lideranças emergentes e ambiciosas do PODER, como meio estratégico de moldagem das condutas individuais, controle, mobilização social e exploração econômica”. O “caminho” vivenciado e proposto pelo Mestre, estrategicamente resiste às tentações do PODER, como meio para viabilizar o desenvolvimento de formação social horizontal, descentralizada, igualitária, fraternal e radicalmente pacifista. E, propõe, também, o modelo servo de liderança.

Já vimos, também, em que consiste o método da violência, empregado como suposto meio de transformação social para uma forma justa e fraterna. Ele consiste, na verdade, numa das principais estratégias utilizadas, pelo conjunto das elites estabelecidas ou lideranças ambiciosas visando o poder, como meio de moldagem da conduta individual, controle e mobilização social, e exploração econômica. Esse método redunda na eterna alternância entre elites. O Mestre praticou e ensinou o verdadeiro Sendeiro Luminoso, isto é, o pacifismo ativo e radical e a ética da responsabilidade, não somente como meio de aprimoramento do indivíduo e da coletividade, mas também como estratégia de luta. Ou seja, estratégia empregada para neutralizar “os mecanismos de produção e administração da violência, os quais são operados pelo conjunto das elites e as lideranças emergentes com ambição de poder, com os objetivos acima indicados”. Abordaremos esses “mecanismos” em outro trabalho nosso.

Ademais, onde houve lideranças emergentes e ambiciosas que conseguiram conquistar o poder, a título de instalar a “ditadura do proletariado”, elas desbancaram a burguesia da posse dos meios e modo de produção capitalista. Porém, instalaram-se como corpos burocráticos de Estados autoritários, e passaram a deter os respectivos meios e modo de produção. Ou seja, instalaram o capitalismo de Estado, submetendo e explorando as classes trabalhadoras, de modo equivalente ao exercido pela burguesia, a exemplo da Rússia, China, etc. Durante o período da Guerra Fria, as relações direita versus esquerda se articularam totemicamente.

Schutz não soubera que o fator afetivo ou sentimental exerce peso determinante básico, sobre os valores, e que estes fatores assim articulados entre si, condicionam todos os demais fatores subjetivos: volição; propósitos; cognição, inclusive as linhas lógicas de raciocínio, etc. Assim, ele desconhecera esses aspectos básicos pertinentes à natureza do campo subjetivo do indivíduo e sua coerência interna. Campo este que motiva o campo objetivo da conduta do mesmo indivíduo.

Kosik também não soubera da importância determinante básica exercida pelo fator afetivo, na conduta do indivíduo, conforme acima apontamos. Assim, o caminho, sendeiro luminoso, détour ou método analítico proposto por ele, fica igualmente reduzido. E, malgrado Kosik, deixa de destruir a pseudoconcreticidade, e de produzir uma “rica totalidade da multiplicidade das determinações e das relações”. Enfim, o respectivo conhecimento da realidade fica reduzido. Pois, Kosik se limitou a considerar “a conduta do indivíduo como sendo motivada pela preocupação resultante do sistema das relações objetivas”.[8] Esta concepção a respeito da motivação do indivíduo não é muito diferente da concepção de Schutz a esse respeito. Pois, este diz: “É o nosso interesse à mão que motiva todo nosso pensar, projetar, agir e que, portanto, estabelece os problemas a serem solucionados pelo nosso pensamento e os objetivos a serem atingidos por nossas ações”.[9]

Procedemos o confronto acima, e abstraímos algumas conclusões. A perspectiva do Filho do Homem acerca do tema em tela enfeixa e corrige, no ponto básico (condição determinante básica exercida pelo fator afetivo na conduta do indivíduo) tanto a abordagem de Schutz como a de Kosik. Estes autores contribuem, entretanto, para o enriquecimento dos ensinamentos de Jesus, com exceção dessa correção básica e de outros equívocos destes pensadores. Desse modo, os estudos tanto de Schutz (“zonas de relevâncias”, “províncias finitas de significados”, etc.) como de Kosik (“práxis cotidiana utilitária”, “mundo da pseudoconcreticidade”, “método analítico segundo o ponto de vista do materialismo dialético”, etc.) enriquecem de detalhes determinados aspecto da realidade abordado pelo Jesus Histórico. Aspectos estes que o Mestre focaliza por diversos prismas: “mundo dos mortos”; “trevas” (interiores), “trevas exteriores”, “este mundo” (cf. Jo 8, 23).

[1]. Perspectivas estas que foram elaboradas, tipicamente, no contexto do “grande mercado global”, e respectivo “modo de produção capitalista”. No ápice do período que estes se apresentavam articulado, estruturalmente, de modo bipolarizado ou totêmico: de um lado. A hegemonia da burguesia e respectivo o capitalismo privado, sob a liderança dos Estados Unidos; do outro, o corpo burocrático do Estado e respectivo capitalismo de Estado, sob a liderança da União Soviética. Este quadro tenso ou conflituoso (guerra fria) se apresentava, de modo escalonado, nas diversas formações sociais locais, sobre as quais os dois líderes ou seus agentes exerciam pressão dilemática. O discurso totêmico cientificista não difere, estruturalmente, dos discursos elaborados pelos ideólogos de qualquer formação social, por mais simples ou exóticas que seja: a fratria da direita exalta determinados aspectos da realidade existente ou imaginária, enquanto nega, deprecia e/ou ignora o oposto do que exalta; a fratria da esquerda procede de modo análogo e oposto à da direita. Na base desses tipos totêmicos de discursos está o processo psíquico elementar do indivíduo que o elabora: ele afirma sua identidade, enquanto nega o do outro. Em razão disto, no desenvolvimento de qualquer “assembleia”, os discursos hegemônicos tendem a apresenta o caráter dicotômico, e ela tende a redundar, hegemonicamente, na sua bipolarização, acompanhada de outras fratrias menos expressivas.

[2] . Schutz, A. Fenomenologia e relações sociais – Textos escolhidos de Alfred Schutz, p. 73-76.

[3]. Idem, p. 111-120.

[4] . Kosik, K. Dialética do concreto, p. 10.

[5] . Idem, p. 113.

[6] . Idem, p. 11.

[7]. Cf. Marcuse, H. Eros e civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, p. 91-94.

[8]. Kosik, K. Idem, p. 62-63.

[9] . Schutz, A. Fenomenologia e relações sociais – Textos escolhidos de Alfred Schutz p. 110; cf. p. 125-130.