Todo o teu corpo”: totalidade que engloba o sujeito e o objeto

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“Todo o teu corpo”: totalidade que engloba o sujeito e o objeto: Mt 6, 22-23 (Art. 19, 4.3.3.;4.3.4.;4.3.5.; p. 102-113) www.tribodossantos.com.br Livro O Templo– Resgate do sentido original da doutrina de Jesus: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

Nesta segunda sentença, o Filho do Homem tem como pressuposto as proposições acima indicadas. Assim, ele explica, mais detalhadamente, alguns aspectos das conexões entre, de um lado, o campo “céu” (subjetivo e motivador), e de outro, o campo “terra” (objetivo e motivado por àquele). Enfim, o Mestre focaliza o indivíduo como unidade ou totalidade que engloba o sujeito e o objeto. Sujeito este concebido como estruturado nos termos do conjunto complexo de conduta em apreço. Ele se refere a essa totalidade e sujeito estruturado, empregando a expressão “todo o teu corpo”: corpo subjetivo – corpo objetivo. Neste contexto, esta expressão corresponde à totalidade “céu-terra”. O Mestre apresenta esse método de interpretação da realidade subjetiva-objetiva, na forma de dois extremos, de um lado, “são”, “iluminado”, de outro, “mau”, “trevas”. Ou seja, ele apresenta um tipo ideal que serve como paradigma, para a interpretação da referida realidade, em que cada caso particular possa ser observado e avaliado. De novo, vejamos a segunda sentença:

O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas! (os grifos em negrito são nossos)” (Mt 6, 22-23).

Kosik emprega uma fórmula aproximada a esta empregada por Jesus, mas sem notar que o campo subjetivo e seus fatores mais as pulsões exercem peso determinante na seleção e iluminação dos “objetos singulares”:[1]

 

Cada coisa sobre a qual o homem concentra seu olhar, a sua atenção, a sua ação ou avaliação, emerge de um todo que o circunda, todo que o homem percebe como um pano de fundo indeterminado (…) Como o homem percebe os objetos isolados? Como únicos e absolutamente isolados? Ele o percebe sempre no horizonte de um determinado todo, na maioria das vezes não expresso e não percebido explicitamente. Cada objeto percebido, observado ou elaborado pelo homem é  parte de um todo, e precisamente este todo não percebido explicitamente é a luz que ilumina e revela o objeto singular, observado em sua singularidade e em seu significado”. (os grifos em negrito são nossos).

    

4.3.4. O “olho são…” (Mt 6, 22: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado”).

No trecho agora em tela, O Mestre diz que “o olho é a luz do corpo”. Nestes termos, ele focaliza a noção de “olho”, expressando, assim, o “aparelho sensitivo” pertinente ao “corpo”, ou seja, ao aspecto orgânico da conduta objetiva do indivíduo. E, atribui a esse aparelho, assimilar a noção de inteligibilidade.

O Mestre emprega, ainda, a noção de “luz” (fonte luminosa) como metáfora das noções de aparelho sensitivo e a inteligibilidade, nas quais expressara a noção de órgão da visão (olho). Enfim, a metáfora da luz (fonte luminosa) se aplica ao aspecto orgânico do campo objetivo da conduta do indivíduo, ou seja, ao corpo objetivo deste. Pois, tanto o órgão da visão como o conjunto dos sentidos que formam o aparelho sensitivo, e ainda o cérebro que recebe as informações dos sentidos, processa o pensamento e a inteligibilidade, são aspectos orgânicos do corpo do indivíduo.

A seguir, o Filho do Homem acrescenta: “Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas”. O conceito de “são” e o de “mau estado” tratam do campo subjetivo do conjunto complexo da conduta do indivíduo. Pois, os conceitos “são” e “mau estado” são enfeixados pelo critério de valores do Filho do Homem. Por este prisma, o estado “são” equivale a valores tidos como “bons”, isto é, positivamente valorizado, porque condicionado por sentimentos de ordem amorosa. E, “mau estado” equivale a valores tidos como em “estado doentio”, ou seja, negativamente valorizado, porque condicionado por sentimentos de ordem odiosa.

O conceito de “iluminação” (consciência atual) trata, por um aspecto, do campo objetivo do conjunto complexo da conduta do indivíduo. Pois, o conceito de iluminação é empregado como metáfora, do modo como opera o “olho” (aspecto orgânico do corpo, isto é, o aparelho sensitivo, respectivas sensações e informações captadas e transmitidas ao cérebro, tornando-as inteligíveis). Ou melhor, a metáfora da iluminação representa o modo como o “olho” opera, de jeito predefinido, isto é, ele enfoca, seletivamente, determinados aspectos da realidade (“objetos singulares”, coisas, fenômenos), e não outros. Posto que, esse campo objetivo e respectivo “olho” se encontram motivados pelo campo subjetivo da conduta do mesmo indivíduo. Campo subjetivo este que estará condicionado por valores “sãos” ou em “maus estados”, e respectivos sentimentos determinantes de ordem amorosa ou odiosa.

O Mestre reserva à palavra “iluminação”, empregada como metáfora do modo como o “olho” atua, mas enquanto este esteja condicionado por valores “sãos”, e respectivos determinantes sentimentos ordem amorosa.

Enfim, a ideia de “olho são” resume: pelos aspectos “olho” (aparelho sensitivo inerente ao corpo orgânico) e respectiva “iluminação” (a consciência atual voltada para o campo ou corpo objetivo, suas ações e o meio exterior), a manifestação destes fatores na noção de campo objetivo do conjunto complexo da conduta individual; e pelo aspecto “são” (“tesouro” ou valores positivos condicionados por sentimentos de ordem amorosa), a noção de campo subjetivo do mesmo conjunto.  Conjunto complexo este que o Mestre representa na expressão “todo o teu corpo”. O qual estará todo “iluminado” (todo consciente), posto que:

Por um lado, o campo subjetivo motivador se encontra, também, “iluminado” (consciência atual), no sentido de que todo o processo cognitivo mais a volição e a intencionalidade se encontram “sãos”, isto é, condicionado por valores bons ou positivos, e pelos respectivos sentimentos de ordem amorosa;

Por outro lado, também o aspecto orgânico (corpo) do campo objetivo (motivado pelo campo subjetivo), expresso na metonímia do “olho” e na metáfora da “Luz” estará, assim também, “iluminado” (consciência atual). Assim também, estarão “iluminadas” (consciência atual), as ações, omissões, atitudes objetivas, etc. instruídas e coordenadas pelo aparelho sensório-motor e respectiva inteligibilidade, e executadas pelos membros competentes.

Notem, entretanto, que a metáfora da “iluminação” relativa ao “todo o seu corpo” (indivíduo concebido como uma totalidade, isto é, o sujeito estruturado como um conjunto complexo de conduta nos termos já expostos), aplicada no caso acima citado, consiste em um caso particular. Ou seja, a metáfora da iluminação representa o modo como o “olho” (ou a “luz”) opera, de jeito predefinido, isto é, ele enfoca, seletivamente, determinados aspectos da realidade (coisas, fenômenos), e não outros. No caso acima citado, o modo como o “olho” opera, no campo objetivo, está condicionado pelo campo subjetivo, no qual predominam valores “sãos” e respectivos sentimentos (fator determinante básico) de ordem amorosa.

4.3.5. “Olho em mau estado”, “todo o teu corpo” e as “trevas interiores” (Mt 6, 23-a).

 

Neste trecho, o Mestre ensina que o “modo como o ‘olho’ opera”, no campo objetivo, e que ele houvera representado na metáfora da “iluminação”, ocorre de modo diferente. Ou seja, este modo diferente está condicionado também pelo campo subjetivo. O qual se encontra, por sua vez, condicionado, porém, agora, por valores em “mau estado” (negativos ou “doentios”), e respectivos sentimentos de ordem odiosa, os quais são, também, determinantes básicos. Por conseguinte, valores negativos e sentimentos de ordem odiosa condicionam o modo do “olho” (aparelho sensitivo e respectiva inteligibilidade) iluminar (atuar e focalizar), seletivamente, os correspondentes aspectos (objetos singulares) da realidade objetiva. Aspectos estes diferenciados do caso anterior. Vejamos o trecho: “Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas” (os grifos são nossos).

No enunciado acima apontado, o Mestre nomeia, portanto, de “trevas”, o modo de atuação do “olho” (aparelho sensitivo e respectiva inteligibilidade), no campo objetivo da conduta individual, estando esse modo de atuação condicionado, pelo campo subjetivo. Campo subjetivo este que se encontra em “mau estado”, isto é, condicionado por valores negativos e respectivos sentimentos de ordem odiosa. Ele nomeia de “trevas”, o referido modo de atuação, em distinção ao modo de atuação que anteriormente representara, metaforicamente, na noção de “iluminação” (consciência atual condicionado por sentimentos de ordem amorosa). A noção de “trevas” tem, aqui, portanto, o sentido de consciência atual do tipo tenebroso, obscuro, caótico.

Enfim, a ideia de “olho em mau estado” resume: pelos aspectos “olho” (aparelho sensitivo inerente ao corpo orgânico) e respectivas “trevas” (a consciência atual voltada para o campo ou corpo objetivo, suas ações e o meio exterior), a noção de campo objetivo do conjunto complexo da conduta individual; e pelo aspecto de “mau estado” (“tesouro” ou valores negativos ou doentios condicionados por sentimentos de ordem odiosa), a noção de campo subjetivo do mesmo conjunto.  Conjunto complexo este que o Mestre representa, também, na expressão “todo o teu corpo”. O qual estará todo “nas trevas”, ou seja, é o modo de consciência atual obscura resultante do caminho estrito, o qual produz uma “caótica representação do todo”, posto que:

Por um aspecto, o campo subjetivo motivador se encontra “em trevas”, no sentido de que todo o processo cognitivo (linhas lógicas de raciocínio, imaginação, etc.) a volição e a intencionalidade se encontram “em mau estado”, isto é, condicionados por valores maus ou negativos, e pelos respectivos sentimentos de ordem odiosa;

Por outro aspecto, a natureza orgânica (corpo) do campo objetivo expressa na metonímia do “olho” (aparelho sensitivo) e na metáfora da “Luz”, estará, também, no modo de atuaçãoem trevas” (consciência atual estrita e caótica). Porque o “olho” e a “luz” integram o campo objetivo, o qual é motivado pelo campo subjetivo, que neste caso se encontra condicionado por “sentimentos” (fator determinante básico) de ordem odiosa. Desse modo, estarão, também, “em trevas” (consciência atual obscura), as ações, omissões, atitudes objetivas, etc. instruídas e coordenadas pelo aparelho sensório-motor e respectiva inteligibilidade, e executadas pelos membros competentes.

Voltaremos, logo adiante, ao ponto acima indicado, mas antes vamos concluir alguns aspectos referentes ao “caminho”, “ferramenta” “détour” ou “método analítico” instrumentalizado e ensinado pelo Mestre. O modo como o Mestre expôs (Mt 5, 27-30, etc.) o “caminho” ou método analítico, que empregou para conhecer o indivíduo humano, pressupõe que ele tenha aplicado, devidamente, um método de investigação rigoroso:

1) Observação direta e estudo minucioso e pleno acerca da natureza humana (quanto a si e ao outro), concebendo-a como um todo ou sujeito estruturado. Investigação também minuciosa do material pertinente desenvolvido por seus precursores (Isaías, Jeremias, Ezequiel, etc.), isto é, os grandes profetas individuais que trataram do assunto em tela, e também de outras fontes (perspectiva sapiencial, sacerdotal, dos essênios, da filosofia grega, etc.);

2) Análise das diversas formas como o sujeito estruturado pode se apresentar (conjunto complexo de conduta hipócrita, dualista ou não-integrado; integrado de modo negativo; integrado de modo positivo ou “simples ou puro de coração”, etc.). Análise da perspectiva (categoria de conhecimento) e respectiva localização social daqueles que desenvolveram o material estudado e do próprio desenvolvimento do material;

3) Investigação da coerência intrínseca a cada forma de sujeito estruturado e a coerência comum à todas elas, e também acerca do próprio material estudado.

Concluímos que o Mestre teve como ponto de partida, o modo como o indivíduo se vê enquanto um todo, e o respectivo caminho estrito, que este percorre, compreendendo esse todo de forma sensível e imediata, na representação, na opinião e na experiência. Ou seja, o todo é imediatamente acessível ao indivíduo, mas consiste num todo caótico e obscuro. Para o indivíduo conhecer e entender esse todo, tornar-se auto-clarificado e explicá-lo, ele necessita adentrar e percorrer o verdadeiramente revolucionário détour, caminho ou sendeiro luminoso, porque radicalmente pacifista. O qual consiste em operações abstratas no processo do pensamento do campo subjetivo ou “céu interior” ao indivíduo. Subdividir o “todo o teu corpo” (sujeito estruturado como um conjunto complexo de conduta), identificando suas partes, a natureza de cada uma delas e as respectivas variações. Identificar as determinações e conexões entre elas, etc. Conforme já demonstramos, todos esses procedimentos estão, implicitamente, expostos na forma como o Mestre elaborou e apresentou as sentenças que focalizamos.

Enfim, ele partiu da “representação caótica do todo”, percorreu o caminho verdadeiro, e chegou na “rica totalidade da multiplicidade das determinações e das relações”, que corresponde com o conhecimento verdadeiro acerca da realidade.[2]

[1]. Kosik, K. Dialética do concreto, p. 25.

[2]. Cf. Kosik, K. Idem, p. 29-30.