As trevas exteriores em “A parábola dos talentos”

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As trevas exteriores em “A parábola dos talentos” (Art. 21, 5.4., p. 122-128) www.tribodossantos.com.br

Livro O Templo – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus: http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

A parábola dos talentos é muito esclarecedora. Nela, o Mestre mostra algumas características importantes, pertinentes: tanto ao tipo de conduta do indivíduo que se encaixa no “regozijo de Deus” (e consequentemente na Luz Jesus enviado Pelo Pai); como também ao tipo de conduta do indivíduo que se encaixa nas “trevas exteriores”.

Na parábola em tela, o Mestre compara o “reino dos céus” ou “reino de Deus” (o que dá no mesmo), a um homem possuidor de servos e de muitos “talentos” (aptidões intelectuais, sobretudo, mas também as correspondentes aptidões físicas). O tal homem tendo de viaja, confiou os bens que possuía aos seus servos. O Mestre confronta duas situações. Por um lado ele enfoca o âmbito circunscrito indivíduo concebido como um conjunto complexo de conduta, mostrando três tipos ideais e diferenciados de indivíduos. Os quais receberam de Deus “talentos” também diferenciados: o primeiro foi favorecido com apenas um talento; o segundo com dois talentos; o terceiro com cinco talentos. Os dois primeiros operam com seus respectivos “talentos”, de modo assemelhado entre si, mas diferente em relação ao terceiro. Por outro lado, o Mestre atribui ao tal homem, avaliar os três servos deste, de acordo com conduta individual e segundo a capacidade de cada um deles; tendo como paradigma, de um lado, o “regozijo de Deus”, e do outro, as “trevas exteriores”.

“…Um homem que, tendo de viajar, reuniu seus servos e lhes confiou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu. (…) o que recebeu cinco talentos negociou com eles, fê-los produzir, e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois. Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor”. (Mt 25, 14-18).

O primeiro e o segundo servo procederam de modo semelhante entre si: foram corajosos, esforçados e fizeram jus à responsabilidade de cuidar, preservar e ampliar os “bens” que o senhor deles lhes confiou. Ou seja, aplicaram seus respectivos “talentos”, nas interações sociais e respectivas trocas simbólicas ou significativas, e dobraram o seu número, ou seja, desenvolveram mais aptidões e conhecimentos tipo verdade acerca da realidade, concernentes a si mesmo, ao outro e à sociedade em geral. Assim, eles prestaram contas ao senhor deles. Este avaliou, justificou e disse a cada um deles:

Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor” (o grifo é nosso). (Mt 25, 21, 23).

O terceiro recebeu um “talento”, mas procedeu de modo oposto aos dois primeiros: sem iniciativa e conservador (cf. Mt 25, 24); foi medroso e recalcou a prática dos seus “talentos” revolucionários (cf. Mt 25, 25); estava motivado por valores “em mau estado”, e sentimentos de ordem odiosa, e ainda se conduzia com preguiça mental e física (seguindo o caminho cômodo, mas estrito, que produz representações caóticas acerca da realidade) (cf. Mt 25, 26); indivíduo inútil, segundo as expectativas que o tal “homem” (Deus e o Filho do Homem) esperava dele (cf. Mt 25, 30). Desse modo, ele prestou contas ao seu senhor. Este avaliou, condenou e exclamou:

“Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco, e à minha volta, eu receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter. E a este servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes” (o grifo é nosso). (Mt 25, 26-b-30).

O paradigma apresentado na forma da baliza “regozijo de Deus” (e consequentemente na Luz Jesus enviado pelo Pai) – “trevas exteriores”, indica, implicitamente, que a conduta do indivíduo é avaliada enquanto um conjunto complexo ou “todo o seu corpo”: “Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessa deverão ser as trevas(exteriores)”.

O paradigma e baliza “trevas exteriores” consiste no conjunto formado pela interação significativa entre dois âmbitos. Um âmbito (trevas exteriores) é aquele atinente às perniciosas ideologias elaboradas e operadas pelos ideólogos hegemônicos das nações, e no caso particular em tela, as ideologias elaboradas pelos ideólogos judeus. O outro âmbito (trevas interiores) é aquele atinente às representações caóticas que os indivíduos em geral e inclusive os ideólogos produzem, como resultado do caminho estrito. Em relação a este paradigma, o terceiro indivíduo é concebido com dotado do “corpo todo em trevas”. Em decorrência disto, ele é reprovado e se encaixa, plenamente, na esfera das “trevas exteriores”.

O paradigma e baliza “regozijo de Deus” consiste na Luz Jesus enviado pelo Pai, isto é, o caminho, détour ou método analítico praticado e ensinado pelo Mestre. Em relação a este paradigma, os dois primeiros indivíduos são concebidos como dotados de “corpo todo iluminado”. Em razão disto, eles são justificados e se encaixam no regozijo de Deus (e consequentemente na Luz Jesus ou reino dos céus enviado pelo Pai).

Podemos entender melhor as noções acima sublinhadas, recorrendo, com algumas reservas, a determinadas noções desenvolvidas por Willian James e levadas adiante por Alfred Schutz. James focalizou as várias ordens da realidade, dentro das quais o indivíduo vive os muitos mundos ou subuniversos das experiências dos indivíduos humanos. E, acrescentou que, no total, e em longo prazo, os vários submundos da realidade estão subjugados à realidade principal das sensações. Para efeito de classificação, Schutz concebeu esses “muitos mundos” ou “subuniversos” como o reino do simbolismo, e o chamou de “províncias finitas de significados”, e acrescentou: “que ‘as realidades múltiplas’ das experiências não pragmáticas são inferiores às ‘realidades principais da vida cotidiana’, e, de certo modo, permanecem dependentes dela”. Ele deu alguns exemplos: a província do raciocínio científico; o reino da arte; o da poesia; o dos sonhos; fantasia e imaginação; ciência pura; o simbolismo religioso; e o metalingüístico dos sistemas estritamente lógicos, constituídos racionalmente, tal como a matemática.[1] Nesta direção, poderíamos dizer: “mundo ou província das trevas interiores”; “mundo ou província das trevas exteriores”; “mundo ou província da iluminação”; “mundo ou província da Luz ou do reino dos céus”, etc.

[1]. Schutz, A. Fenomenologia e relações sociais – Textos escolhidos de Alfred Schutz. Org. por Wagner, H. R., p. 42-43. Schutz focaliza o indivíduo, concebendo, entre outros aspectos, a noção de “zonas decrescentes de relevâncias”. Zonas estas ligadas aos interesses atuais do indivíduo, isto é, aos seus problemas a serem solucionados. Cada zona necessita, em relação aos respectivos interesses, de um grau diferente de precisão de conhecimento. Schutz observa que “esses vários domínios de relevância e precisão são interligados, com múltiplas interpenetrações, os territórios vizinhos são invadidos pelas ‘orlas’ uns dos outros, assim criando zonas imprecisas e sutis transições”. Schutz observa que “se tivéssemos de traçar um mapa, descrevendo figurativamente essa distribuição, ele não se pareceria com um mapa político, que mostra vários países com suas fronteiras bem delimitadas, mas, em vez disso, com um mapa topográfico, representando a forma de uma cadeia de montanhas de modo costumeiro…” Nota: este modelo foi empregado pelo auto do “Livro de Enoc” (Tradução de Puglies, M. e Lima, N. P., p. 44-85). Schutz aborda, também, no “mundo das relações sociais” a noção de “domínio social de relevâncias”: “A própria ordem de relevâncias que prevalece num determinado grupo social é um elemento da concepção relativamente natural do mundo tida pelo grupo interno como pressuposto e estilo de vida inquestionável (…) E um elemento do conhecimento gerado e aprovado socialmente e, frequentemente institucionalizado” Schutz. Idem, p. 112-113.