A ação simbólica do lava-pés na Ceia Pascal (Art. 2)

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    No artigo anterior, focalizamos a ação simbólica da partilha e a assimilação do pão e do vinho, na Ceia Pascal, que Mateus relatou. Assim, tratamos dos quatro primeiro pontos que aparecem nas ações simbólicas dirigidas pelo Jesus Histórico na referida ceia: 1. É Nova em relação à Antiga Aliança; 2. Pacto da Unidade; 3. Pacto de sangue ou de morte; 4. Pacto de “vida” .[1] No presente artigo, estamos tratando da ação simbólica do lava-pés, e respectivo pacto da diretriz sacerdotal do tiposervo”, que João focalizou na referida ceia, e que nós relacionamos como sendo o pacto de número cinco.

  1. Pacto da Unidade da diretriz pastoral de servo. Mateus focalizou, na Ceia Pascal, a ação simbólica do “pão” e “vinho”, e do “corpo” e “sangue de Jesus”. Desse modo, ele objetivou enfatizar a grande importância atribuída pelo Jesus Histórico, com relação aos pactos inseridos na referida ação simbólica: pacto da Nova Aliança; pacto da Unidade; pacto de Sangue; pacto de “vida”. Mas, coube ao João focalizar, certamente na mesma Ceia Pascal, outro aspecto igualmente relevante, pertinentes às ações simbólicas praticadas pelo Mestre. (Cf. Jo 13, 4-17). Nesta direção, João objetivou atribuir ao Jesus Histórico, à grande importância do significado contido na ação simbólica do lava-pés. Pois, o Mestre sabia que os sacerdotes não tardariam a provocar sua morte. Diante dessa situação dramática, o Mestre entendeu a urgência em celebrar e selar, com os seus discípulos, o pacto da diretriz pastoral de servo. Neste sentido, João relatou:

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até ao extremo os amou”. (Jo 13, 1).

Na ação simbólica focalizada, na Ceia Pascal, por João, Jesus lavara os pés dos seus discípulos, isto é, as lideranças que ele estava preparando, para assumirem a direção da revolução. Através dessa ação simbólica, o Jesus histórico celebrou e selou, com os seus discípulos, o pacto da Unidade entre, de um lado, a doutrina da “diretriz pastoral modelo “servo”, e do outro, a prática correspondente a essa doutrina. No sentido dessa unidade, o Mestre ressaltou: “Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob a condição de as praticardes”. Vejamos João focalizando essa ação simbólica:

Levantou-se (Jesus) da mesa, depôs as suas vestes, e, pegando duma toalha, cingiu-se com ela. Em seguida, deitou água em uma bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido (…) Depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e perguntou-lhes: ‘sabeis o que fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo, o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob a condição de as praticardes (os grifos em negrito são nossos)”. (Jo 13, 3-5, 12-17).

Na ação simbólica do lava-pés, Jesus representou o modelo servo da função do intelectual tipo “árvore da vida” (autoconsciente, autodiligente e dotado de consciência social crítica e transformadora), que ele interpretava (executava), e que preconizava para suas lideranças também praticarem, a fim delas atuarem em favor da libertação dos indivíduos de senso comum.[2] Os quais constituem a massa dos segmentos pobres trabalhadores. Pois, o modelo servo de intelectual tipo “vida” dispõe de mais informações e recursos intelectuais, e em muitos casos ele dispõe, também, de mais habilidade política, jurídica e econômica com relação ao indivíduo de senso comum. Em razão disto, este deve ser servido por àquele, com orientação intelectual, no que tange às diversas exigências da vida, voltadas, sobretudo para o desenvolvimento e a concretização do modelo igualitário, horizontal, descentralizado, fraternal e pacifista de formação social. Mas, cada intelectual tipo “vida” deve servir orientando, também, e em primeiro lugar, os demais discípulos e possíveis lideranças futuras, no sentido de que amem uns aos outros. Neste sentido, o Mestre disse, ainda durante a ceia:

Um novo mandamento vos dou, que ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (Jo, 13, 34-35).

O Jesus Histórico já vinha praticando e ensinando aos seus discípulos a doutrina do líder servo, conforme Mateus relatara a resposta dada pelo Mestre, no episódio relativo ao pedido dirigido a este, pela mãe dos filhos de Zebedeu (Tiago o Maior e João):

Ordene que estes meus dois filhos se sentem no teu reino, um à tua direita e outro à tua esquerda.’ Jesus disse: ‘Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber?’ – ‘Sim’, disseram-lhe. ‘De fato, bebereis meu cálice. Quanto, porém, ao sentar-vos à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim vo-lo conceder. Esses lugares cabem àqueles aos quais meu Pai os reservou.’ Os dez outros, que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos. Jesus, porém, os chamou e lhes disse: ‘Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de uma multidão (os grifos em negrito são nossos)”. (Mt 20, 21-b-28).

Diversas outras características pertinentes ao modelo “servo” de “diretriz pastoral” (funções que Jesus atribui ao intelectual tipo “árvore da vida”) foram exercidas e ensinadas pelo Mestre. Esse tipo de intelectual deve servir de “portal” ou “bom pastor”, o “Caminho”, a “luz do mundo”, enfim, ele deve servir de exemplo vivo, para o indivíduo de senso comum segui-lo. Assim, este indivíduo pode dispor, também, da possibilidade de desenvolver, em si, autoconhecimento, capacidade de autodiligência e consciência social crítica e transformadora, ou seja, adentrar no reino dos “céus” (campo do conhecimento amplo, segundo as lógicas complexas, desenvolvidas pela práxis verdadeiramente revolucionária). Assim também, os indivíduos de senso comum disporiam da possibilidade de se livrarem dos ideólogos (maus pastores: em Judá, sacerdotes fariseus e saduceus e seus escribas; no Brasil, ideólogos cientificistas, sacerdotes e teólogos católicos, protestantes, evangélicos, etc.), que os “roubam, matam e destroem”. Vejamos o Mestre tratando desse tema:

Eu sou a porta (o grifo é nosso): se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagem. O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor (o grifo é nosso); o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas…” (Jo 5, 9+);

Eu sou o caminho (o grifo é nosso), e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14, 6);[3]

Eu sou a luz do mundo (o grifo é nosso), quem me segue, não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12-b).

A função do modelo “Servo” de intelectual tipo “vida” é esclarecer e lutar por justiça social, em favor dos indivíduos de senso comum, submetidos e explorados pelos ideólogos e demais membros das elites. Mas, o seu modo de atuar deve ser, metaforicamente, como o sal que se dilui salgando a massa, em que ele seja introduzido e mexido, ao invés de se elevar sobre ela; ou como o fermento que é introduzido em três medidas de farinha, e leveda toda ela. O modelo “servo” de intelectual tipo “vida” deve manter-se e atuar no nível social da massa pobre trabalhadora e dos excedentes desta, visando esclarecê-la homogeneamente, ao invés de se servir delas, para se transformar em elite, como fazem os ideólogos-serpente (sacerdotes, teólogos, sábios, filósofos, cientificistas, etc.). Neste sentido, Jesus disse:

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. Vós sois o sal (o grifo é nosso) da terra. Se o sal perde o seu sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calçado pelos homens. Vós sois a luz do mundo (…) assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as suas boas obras, e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 10, 15);

Outra parábola lhes disse: o reino dos céus é semelhante ao fermento (o grifo é nosso), que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado” (Mt 13, 33).

Todo tipo de ideólogo elitista (sacerdotes, “escribas” (teólogos), mestres; magos, hierofantes, filósofos, místicos, etc.) já estabelecido nesta condição social, e também aqueles intelectuais que almejavam esta condição, então, sentiam-se ameaçados e resistiram ferozmente contra os líderes-servos. Os ideólogos já estabelecidos se sentiam ameaçados em perder esta condição e os respectivos desfrutes. Os ideólogos que estavam empenhados, firmemente, na ascensão social, entenderam que estavam ameaçadas as expectativas de usufruírem os desfrutes inerentes à posição de elite que almejavam. Paulo de Tarso o Anticristo (discípulo do mestre Gamaliel) consistiu num típico exemplo deste segundo caso. Os interesses consistiam: nos dízimos, dádivas, etc. que os sacerdotes subtraíam das suas vitimadas ovelhas; e o prestígio, terras, construção de templos, etc. que eles obtinham dos reis, em razão de se aliar a estes e ajudá-los a controlar o povo, mantendo este entorpecido e encadeado, nas ideologias falseadas que inculcava nos indivíduos da massa popular; a remuneração e dádivas que os mestres subtraíam dos seus discípulos, e o prestígio (status) que lhes propiciava prerrogativas, etc. Todas essas e outras tantas modalidades de interesses materiais próprios dos ideólogos só se realizavam à medida que eles, por um lado, assumiam a forma elitista ou anti-serva de “diretriz pastoral”, e por outro lado e por isso mesmo, produzia ou reproduziam o modelo hierarquizado de estrutura da comunidade ou instituição cultural.

Os ideólogos mais retrógrados entenderam que a segurança e preservação dos seus interesses materiais estavam ameaçados, diante da diretriz serva e não-hierarquizante de liderança intelectual. Pois essas diretrizes avançavam junto com as lideranças-servas, que expandiam as comunidades horizontais, descentralizadas e igualitárias dos discípulos do Escolhido, tanto em Jerusalém como para outras nações, e conseguia a adesão de muitos dos ideólogos mais progressistas. Pois, os ideólogos retrógrados já estabelecidos e respectiva classe social viam na propagação e crescimento da “igreja” horizontal e igualitária dos seguidores do Escolhido, a possibilidade de perderem seguidores, ou melhor, perderem os valores que subtraiam desses. Os noviços viam as possibilidades das suas expectativas de subtrair valores dos devotos não se realizarem. Tudo isso indicava a tendência dum descenso da classe dos ideólogos israelitas até então hegemônicos e aliados às elites da dominação romana. Na realidade, a partir de Jerusalém isso já vinha acontecendo, e também para onde o movimento igualitário ia avançando. Nesse sentido, podemos notar a presença e o conflito entre dois setores. De um lado, os genuínos Apóstolos-servos e alguns intelectuais (Estevão, “José de Arimatéia” (cf. 27, 57), etc.) favoráveis ao movimento horizontal e igualitário desencadeado pelo Mestre. Do lado oposto, ideólogos defensores da hierarquia social e contrários a primeira comuna horizontal genuinamente cristã, localizada em Jerusalém. Pois, Jerusalém atuava como base central ou “quartel general” desse movimento social revolucionário. Havia ideólogos contrários oriundos dos mais diversos e distantes lugares, e entre estes estava Paulo o Anticristo, oriundo de Tarso:

Divulgava-se sempre mais a palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número dos discípulos em Jerusalém. Também grande número de sacerdotes aderia à fé (o grifo é nosso). Estevão, cheio de graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo. Mas alguns da sinagoga, chamada dos libertinos, dos Cirenenses, dos Alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia  levantaram-se para disputar com ele. Não podiam, porém, resistir à sabedoria e ao Espírito que o inspirava (os grifos em negrito são nossos)”. (At 6, 7-10).

Os ideólogos retrógrados entenderam que a segurança dos seus interesses materiais e da respectiva classe social estava ameaçada. Pois, muitos entre eles passavam a valorizar e aderiam ao tipo servo de liderança a ser exercida pelo intelectual e ao modelo de formação social horizontal e igualitária. Isto levou os ideólogos retrógrados mais renitentes, a resistirem, atacarem e matarem líderes e membros do genuíno movimento igualitário desencadeado pelo Mestre. O assassinato do sacerdote Estevão foi um exemplo dessa resistência, liderada por Paulo originário de Tarso (cf. At 8, 1-a). Ainda assim, a assembleia igualitária e revolucionária avançava.

Pierre Bourdieu desenvolveu uma teoria que nos ajuda a entender o fenômeno social acima indicado. Fenômeno este caracterizado pela ação reacionária e violenta exercida por membros retrógrados da classe de ideólogos defensores da hierarquia, contra o avanço das lideranças (Apóstolos) que praticavam a diretriz “serva”. Os quais praticavam e avançavam com o igualitarismo horizontal e descentralizado, contra a hierarquização da sociedade. Bourdieu mostra a importância da situação de classe e como ela afeta a posição de classe:

    A posição de um indivíduo ou de um grupo na estrutura social não pode jamais ser completamente definida dum ponto de vista estritamente estático, isto é como posição relativa (‘superior’, ‘média’ ou ‘inferior’) dentro de uma estrutura dada em um momento dado do tempo: o ponto da trajetória, que apreende um corte sincrônico, oculta sempre a inclinação da trajetória social: por conseguinte, sob pena de deixar escapar tudo aquilo que define concretamente a experiência da posição como etapa duma ascensão ou dum descenso, como promoção ou regressão, é preciso caracterizar cada ponto pela diferencial da função que exprime a curva, isto é, por toda a curva. Segue-se que se pode distinguir as propriedades ligadas à posição definida sincronicamente e as propriedades ligadas ao devenir da posição: com efeito, duas posições aparentemente idênticas do ponto de vista da sincronia podem revelar-se profundamente diferentes se são referidas ao único contexto real, a saber, o devenir histórico da estrutura social no seu conjunto, e analogamente, da posição; e inversamente indivíduos (…) ou grupos (classes ascendentes e declinantes) podem possuir propriedades comuns na medida em que tenham em comum, senão a sua trajetória social, pelo menos a inclinação, ascendente ou descendente, de sua trajetória”.[4]

Pierre Bourdieu ensina que o problema fundamental para indivíduos e grupos é o da segurança.  Desse modo, se os limites de dada situação forem ultrapassados, e isto prejudicar tal segurança, então, essa ultrapassagem poderá produzir efeitos: indivíduos e/ou grupos empreenderão ações visando preservar a segurança dos seus interesses.[5] Assim, podemos entender o fato dos ideólogos oriundos de diferentes lugares (alguns da sinagoga, chamada dos libertinos, dos Cirenenses, dos Alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia) haverem entendido que a segurança dos seus interesses materiais estava ameaçada, frente ao avanço da comuna cristã empreendida pelos líderes-servos, e que essa questão de segurança é que motivou a contra-revolução empreendida pelos ideólogos retrógrados. Esta questão é importante, e deve ser considerada, preventivamente, pelos atuais líderes-servos que estão preparando a humanidade, para a nova emergência do Filho do Homem.

 

 

 

[1] . Cf. A diabólica EUCARISTIA contra A GLÓRIA DE DEUS, e o reverso disto – Ação simbólica na Ceia: a partilha do pão e do vinho: http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/08/a-diabolica-eucaristia-contra-gloria-de.html

[2]. O Mestre empregava a noção de “vida”, ao se referir ao indivíduo, como metáfora de “autoconsciência, autodiligência e consciência social crítica e transformadora. Em distinção e oposição à essa metáfora, ele empregava a noção de “morte” (“deixa que os mortos enterrem os mortos”). Cf. ART. 10 – O Templo: Jesus vê os indivíduos como alienados e submissos aos ideólogos, e chama-os de “mortos”.  http://tribodossantos.blogspot.com.br/2012/09/deixa-que-os-mortos-enterrem-seus-mortos.html

[3]. Cf. ART. 14: O caminho, détour ou método analítico na perspectiva de Jesus e  Kosik, K. http://tribodossantos.blogspot.com.br/2012/10/jesus-demonstra-aplicacao-do-caminho-ou.html

[4]. Bourdieu P. Condition de classe et position de classe, p. 205-206.

[5] Bourdieu, P. La société traditionnelle; attitude à l’égard du temp set conduite économique, p. 44.