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A realidade social focalizada por uma perspectiva, que abarca tanto a sociologia como a teologia, nos propicia um entendimento mais próximo dessa realidade. Esse método se aplica, fecundamente, tanto no contexto sócio-histórico do Jesus Histórico como na atualidade.
Jesus transexual. O ponto fundamental do movimento social, da doutrina, enfim da revolução cultura de Jesus consiste no fato dele ter sido transexual. Esta sua condição foi a base que o levou a atuar, revolucionariamente, como um libertário do gênero (sexo), da família, da nação, etc. Não havia discriminação nele, pois, ele era transexual. São várias as evidências disso.
Na ceia descrita por João, este usa o codinome enigmático de “um discípulo a quem Jesus amava“, e firma, intencionalmente, que se encontrava reclinado, intimamente e diante dos demais discípulos, no colo de Jesus, e que reclinou-se no peito de Jesus, para lhe fazer uma pergunta. (cf. Jo 13, 23, 25). Eles não tinham por que se envergonharem, do amor carnal entre eles. Pois, isso é algo de divino.
Devassos. É nesse sentido que os teólogos e sacerdotes fariseus e saduceus acusava Jesus de conviver com devassos ou pecadores. Este foi um dos grandes motivos do ódio, que os religiosos nutriam contra Jesus. Eles achavam que se Jesus e João tinham relações amorosas entre si, então, deveriam fazê-las de modo escondido, e não devassado. Mas, eles não tinham porque se envergonharem. Pois, a doença discriminadora está na cabeça de quem é homofóbico.
Jesus convivia e tinha como grupo de referência, afeminados, prostitutas, lésbicas, devassos e “publicanos” (servidor público dublê de cobrador de impostos e de guarda, nas entradas da cidade). Jesus se reunia, frequentemente, com o seu “grupo de referência”, em reuniões agradáveis, fraternais, festivas, acompanhadas de farta comida e regadas a vinho.
Jesus, Maria Madalena (a prostituta e possivelmente também lésbica), o publicano Mateus e o “discípulo que Jesus amava” (João) eram membros naturais do grupo. Em razão disso, membros do bloco ideológico, sacerdotes e teólogos fariseus e saduceus criticavam e tentavam desqualificar os ensinamentos do Mestre, diante dos outros discípulos e do público presente:
“Como Jesus estivesse à mesa na casa “deste homem’ [o publicano Mateus, que acabara de se tornar seu discípulo], numerosos publicano e pecadores vieram e sentaram-se com ele e seus discípulos. Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos; ‘Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?” (Mt 9, 10-11);
“João [Batista] veio: ele não bebia e não comia, e disseram: ele está possesso de um demônio. O Filho do Homem vem, come e bebe, e dizem: É um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos devassos. Mas, a sabedoria foi justificada por seus filhos” Mt 11, 18-19).
Jesus e Maria Madalena também se amavam. Isto é descrito em livros, que os primeiros padres consideraram, tendenciosamente, apócrifos, quando selecionaram os livros que iriam constituir o cânone da Igreja. Pois, eles queriam dissimular o sentido originalmente libertário do doutrina e prática de Jesus. Mas, privilegiar a perspectiva do paulinismo, fortemente discriminadora e arraigada tanto na cultura patriarcal como no estoicismo (fanatismo, castidade e autoflagelação) e na ideologia do meio-termo de Aristóteles.
No Evangelho de Felipe consta, claramente: “O Senhor amava Maria mais que todos os outros discípulos, e a beijava na boca frequentemente… Míriam é sua irmã, sua mãe e sua companheira“[1] [NOTA:].
No Evangelho de Maria consta, também claramente:[2] “Pedro disse a Maria: ‘Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres…”
Existe evidências encontradas em outros autores, de que Jesus era transexual. O ex-jesuíta e agora reverendo assumidamente gay, Dr. Bob Shore-Goss foi entrevistado por um repórter judeu herético, sobre o tema: Jesus era gay? Ele já escreveu vários livros sobre o tema.[3] O Dr. Bob tem um doutorado em Religião Comparativa em Harvard, e cita o coso de Jesus bissexual com Maria e o “discípulo que Jesus amava”. O Dr. Bob considera que Jesus está, diz ele: “muito mais para um bissexual do que para um homossexual ou hétero”:[4]
O ex-padre Roberto Francisco Daniel, de 49 anos, diz, no livro “Jesus e a Sexualidade”, de sua autoria, que Jesus pode ter sido homossexual. Paulista formado em Teologia, Direito e História, ainda se apresenta como Padre Beto, embora tenha sido excomungado pela Igreja, em 2013, por se recusar a negar esta e outras reflexões publicadas na internet.[5]
O que é Grupo de referência? Essa noção é muito importante, para se entender o evento Jesus, o seu contexto de vida e o Evangelho. O grupo de referência de Jesus corresponde, hoje, ao segmento social que agrupa LGBT, prostitutas, ativistas feministas e os modernos “publicanos”, ao exemplo de policiais civis e militares, juízes, etc., que vêm lutando contra a “guerra do tóxico”, ou melhor, contra a criminalização e o genocídio dos mais pobres e de policiais.
Assim como, esse grupo de referência serve, hoje, como grupo de referência para muita gente, na época de Jesus ocorria a mesmo coisa. Ou seja, o grupo de referência de Jesus servia como referência para muita gente, que com ele se identificava. Certamente havia tanto na Judeia como em todo mundo daquela época, múltiplos grupos análogos. Em razão disto, o movimento revolucionário de natureza libertária desencadeado por Jesus, então, encontrou solo propício para se propagar, em todo Império Romano.
Grupo de referência consiste em “o indivíduo orientar sua visão de mundo e respectiva ação social, para o grupo social que ele adota os valores opiniões, convicções, estando inserido ou não nesse grupo.” Peter Berger esclarece bem a noção de “grupo de referência”, em seu livro “Perspectivas Sociológicas”.[6]
Localização social do pensamento“. Essa noção é outra ferramenta importantíssima, para entendermos Jesus e o NT. Em que consiste essa noção?. Vou dar um exemplo. Certa feita, Jesus ensinava no templo, quando foi questionado pelo príncipe dos sacerdotes e os anciãos do povo, que visavam desqualificar tanto a autoridade de Jesus para ensinar como os referidos ensinamentos. (cf. Mt 21, 23-31-a). Karl Mannheim nos ajuda a entender, o sentido que Jesus comparou, de um lado, o tipo de pensamento peculiar ao seu grupo de referência (publicanos, prostitutas e devassos), e do outro, o tipo de pensamento das autoridades religiosa judaicas e a aristocracia política e econômica (anciãos do povo).
Dessa comparação, Jesus concluiu: publicano, prostitutas, etc. estão mais próximos do “reino dos céus” (que é o campo do conhecimento objetivo), do que os ideólogos e seus aliados
“Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino de Deus. Pois João veio a vós, num caminho de justiça, e não crestes nele. Os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, vendo isso nem sequer tivestes remorso para crer nele” (Mt 21, 31-b-32).
O conflito fundamental. Note, o conflito entre o grupo de referência de Jesus, e, o grupo de ideólogos hegemônicos e seus aliados políticos e econômicos consiste no conflito fundamental, em toda época e civilização. Esse conflito permeia a sócio-história em tempo de muito longa duração. Porém, eventualmente ele emerge com todo ímpeto, conforme ocorrera na época de Jesus, e hoje também vem ocorrendo.
Mannheim concebe a noção de “localização ou condicionamento social do pensamento e do respectivo conhecimento produzido”, como a principal tese da Sociologia do Conhecimento: Cada tipo de pensamento e do respectivo conhecimento são formulados não por indivíduo isolado, mas pelo grupo social em que este esteja inserido e condicionado, e no contexto de grupos sociais agindo uns contra os outros.[7]
O retorno do Reprimido no grupo de referência contemporâneo, homólogo ao do Jesus Histórico. Em termos sociológicos, Jesus comparou dois importantes tipos antagônicos de pensamento e respectivas duas diferentes localizações sociais. O grupo de referência do Jesus Histórico encontra paralelo na atualidade, conforme já afirmamos, e não é só isso. É precisamente a partir dos grupos de referência contemporâneos, homólogos ao do Jesus Histórico, que deve ocorrer a 2ª volta do Cristo Jesus ou o retorno do Reprimido. Também focalizo esse fenômeno sócio-histórico, no meu livro em tela. Vou explicar. Freud apresentou a noção de retorno do reprimido, que foi melhor desenvolvida por Herbert Marcuse, no livro Eros e Civilização. Freud focalizou a história do retorno do reprimido tanto no campo do indivíduo estruturado como no campo sócio-histórico. O campo do indivíduo, ele chamou de ontogenético; o campo sócio-histórico ele chamou de filogenético.
O campo filogenético transcorre em tempo de muito longa duração. Por esse prisma, Marcuse notou que a incrementação contemporânea da violência, da crueldade, etc., são fortes indícios de resistência, que as forças reacionária vêm empregando, diante a iminência do retorno do Reprimido.[8]
Marcuse notou, na década de 60, por outro aspecto, a formação contemporânea de uma localização social, que pode ser um grupo de referência e respectivos movimentos sociais análogo ao do Jesus: “a nova boêmia, os beatniks e hipsters, os andarilhos da paz…” . Os quais devem se aprimorar, se desenvolver e se multiplicar, mais e mais, como resistência, aos poderes atuais, que são perversamente semelhantes aos dos judeus e dos romanos, a época de Jesus.[9] Resistência essa que junta a dimensão política com a erótica, conforme Marcuse diz:
“Em defesa da vida: a frase tem um significado explosivo na sociedade afluente. Envolve não só o protesto contra a guerra e a carnificina coloniais, a queima de cartões de recrutamento, a luta pelos direitos civis, mas também a recusa de usar roupas limpas, desfrutar os inventos da fluência, submeter-se à educação para a fluência…”
As pessoas que se encontram no grupo de referência contemporâneo, que é análogo ao do Jesus Histórico, notadamente aquelas dotadas de certo nível de conscientização social. Assim, têm grande a responsabilidade pelo destino da humanidade. Diante do alto grau de violência, miséria, etc., e do caos para o qual caminha a humanidade. Pois, na América Latina, estamos diante, também, do que podemos denominar “a volta dos malditos fariseus”
A volta dos malditos fariseus. Estamos diante do que podemos denominar “a volta dos malditos fariseus“. Qual o significado disto? É a ascensão, sobretudo na América Latina, do fundamentalismo próprio dos teólogos e sacerdotes fundamentalistas protestantes, evangélicos e outros desse gênero. É a volta e ascensão, também, das “novas sinagogas de Satanás“. Assim como os escribas e sacerdotes fariseus eram os fundamentalistas daquela época, e que mais discriminavam e combatiam, sistematicamente, Jesus. Hoje, onde os protestantes e evangélicos ascende, então, eles atuam de modo análogo aos fariseus contra Jesus. Em contrapartida, o Mestre concentrou sua luta contra esses fundamentalistas de outrora. Quando ele voltar, então, deverá proceder de modo semelhante, contra os novos fariseus.
O clero que volta como os novos malditos e diabólicos fariseus se subdivide, de modo geral, em dois ramos: o profanos e o sagrado. O clero sagrado é o original e do tipo protestante e evangélico, que segue a diabólica ética protestante, que Lutero Abadon inventou: “trabalho por vocação” (falsamente inspirada por Deus). Isto é, o tipo de racionalismo sistemático voltado para a maximização da produção e da acumulação de capital. O clero profano é o cientificista, que segue o maldito espírito do capitalismo, e que derivou do anterior e respectiva ética, e que vem desenvolvendo todas as ciências, técnicas e instrumentos voltadas para a alienação e submissão técnica do indivíduo e da coletividade. Voltadas, também, para a destruição em massa, tanto da humanidade como da natureza, que são as armas nucleares e coisas do gênero.
O discípulo que Jesus amava. No evangelho que leva o nome de João, em lugar nenhum consta o nome do autor, mas a análise literária supõe que seja de autoria de João, em razão de traços análogos encontrado no livro Apocalipse, em que João assume, literalmente, a autoria. Mas, no Evangelho, o autor empregou, reiterada e enigmaticamente, o codinome “o discípulo que Jesus amava“, com três objetivos.
Em primeiro lugar, ele objetivou colocar em destaque, o fato do autor enigmático e Jesus haverem se amado, inclusive sexualmente, conforme eles demonstraram, na Ceia descrita pelo autor enigmático (João).
Em segundo lugar, para fundamentar o enunciado enigmático, cuja significado consistiu em Jesus ter determinado ao autor enigmático (o discípulo que Jesus amava), a missão de “permanecer até a 2ª vinda de Jesus“, para retornar com o Mestre, a fim de lhe preparar o caminho. Ao exemplo de João Batista, o qual preparou o caminho do Jesus Histórico, isto é, na sua 1ª vinda. Mas, a missão que Jesus atribuiu ao João Evangelista, só seria esclarecida, posteriormente, no livro Apocalipse, em que João Evangelista assume, literalmente, tanto a autoria, e também a missão que Jesus lhe incumbira, para exercê-la na ocasião da 2ª vinda do Mestre. E assim, ele esclarece o enigma do discípulo que Jesus amava, ao qual o Mestre determinara: “quero que ele fique até que eu venha” (Jo 21, 22-23).
Em terceiro lugar, em cada um dos seis pontos pelos quais João traça o roteiro do enigma. Em cujo primeiro ponto, ele descreve e ressalta a cena em que se encontra no colo de Jesus (cf. João 13, 23). E, no sexto ponto, João descreve Jesus determinando, em relação ao próprio João: “quero que ele fique até que eu venha” (Jo 21, 22-23).
[1] Cf. Ev de Felipe, CII, 59, 9, 6-11.
[2] Evangelho de Maria (Míriam de Mágdala): p. 10, 1-7; p. 17, 9-20; p 18, 7-16.
[3] Cf. Dr. Bob Shore-Goss, cujas obras inclui Queering Christand e Jesus ACTED UP: A Gay and Lesbian Manifesto (“Purpurinando a Cristandade” e “Jesus AGIU: Um Manifesto Gay e Lésbico”, não publicados no Brasil). Dr. Bob Shore-Goss http://www.vice.com/pt_br/read/jesus-era-gay-lgbtt
[4] Cf. Dr. Bob Shore-Goss http://www.vice.com/pt_br/read/jesus-era-gay-lgbtt
[5] Cf. reportagem: http://oglobo.globo.com/rio/bairros/em-livro-padre-brasileiro-excomungado-diz-que-jesus-pode-ter-sido-homossexual-14559551
[6] NOTA: Berger, Peter. Perspectivas Sociológicas. Círculo do Livro S.A. São Paulo, com autorização da Editora Vozes, SP, 1976, 2ª edição, p. 126.
[7] Mannheim, Karl. Ideologia e Utopia. 4ª edição, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1982, p. 30-32: “A principal tese da Sociologia do Conhecimento é que existem modos de conhecimento que não podem ser compreendidos adequadamente enquanto se mantiverem obscuras suas origens sociais… Somente num sentido muito limitado o indivíduo cria por si mesmo um modo de falar e de pensar que lhe atribuímos. Ele fala a linguagem de seu grupo; pensa de modo que seu grupo pensa… Estas pessoas, reunidas em grupos, ou bem se empenham, de acordo com o caráter e a posição dos grupos a que pertencem, em transformar o mundo da natureza e da sociedade a sua volta, ou, então, tentam mantê-lo em uma dada situação…”
[8] Cf. Marcuse, H. Eros e Civilização, Zahar Editores, 1981, RJ, p.77-78.
[9] Cf. Marcuse, H. Eros e Civilização, Zahar Editores, 1981, RJ, p. 20-21.