O terceiro dia da criação ST: agricultura e sedentarização (Período Neolítico) – E a gênese da divisão e oposição do trabalho material e intelectual

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 Livro: Teoria da História (Art. 43, 3.9., p. 283-292) www.tribodossantos.com.br

O elaborador da Teoria da História subdividiu-a em duas grandes perspectivas sócio-históricas: Sistematização Teórica e Verificação Empírica. Ele aborda cada um dos mesmos sete dias da criação, primeiramente pela perspectiva da Sistematização Teórica (cf. Gn 1-2, 1-4-a), e subsequentemente pela perspectiva da Verificação Empírica (teorias de médio alcance cf. Gn 2, 4-b-8, 18). Ele selecionou a instituição da divisão social do trabalho como  “estrutura social dominante” e “unidade de mudança(Gerth e Mills). O referido elaborador concebe que no terceiro dia da criação”ST” (Sistematização teórica), Deus (Trabalho Natura-Social: fator determinante básico) “disse” (determinou impelindo) algo às “águas”. Mas, ele atribuiu ao Criador haver se dirigido às “águas”, estando estas em determinada situação, isto é, “Deus disse: ‘Que as águas que estão debaixo dos céus…” (Cf. Gn 1, 9-a). [1] O Mestre ensinou e nós sabemos, que o símbolo chave “águas” representa múltiplos e multiformes grupos sociais, os quais interagem significativamente entre si, através da linguagem , isto é, através do campo “céus” ou “firmamento: “As águas que viste…, são povos e multidões, nações e línguas” (Ap 17, 15). Vamos ao texto em questão:

   “Deus disse: ”Que as águas que estão debaixo dos céus se ajuntem num mesmo lugar, e apareça o elemento árido.’ E assim se fez. Deus chamou o elemento árido TERRA, e ao ajuntamento da água MAR. E Deus viu que isto era bom” (Gn 1, 9-10).

   No “3° dia da criação ST”, o autor focaliza uma formação social simples (“o jardim” no Éden focalizado na Sistematização Teórica (cf. Gn 2, 8), em que a linguagem já se desenvolvera desde o 2° dia da criação. Neste caso (“as águas que estão debaixo dos céus“), tratam-se das “águas” de senso comum (ervas). Ou seja, múltiplos e multiformes grupos sociais de indivíduos de senso comum (erva) interagindo significativamente entre si, através da linguagem de nível correspondente (trocas simbólicas simples). “Águas” que são controladas e submetidas pelo feiticeiro, que em em alguns casos já esta mancomunado com o líder político tribal, ou seja, pelas “águas de cima dos céus”. Estas Águas (de cima dos céus) não correspondia, inicialmente, a um estrato social superior, mas a estratificação social se desenvolveu gradativamente.

    O signo “céus” ou firmamento representa a linguagem, ou melhor, as interações significativas e respectivos veículos de interação ou condutores simbólicos. É oportuno esclarecermos os significados dessas noções, que aqui empregamos e que são de Soroquin. Este autor define a noção “interação significativa:

   “O modelo mais geral de fenômeno sócio-cultural é a interação significativa de dois ou mais indivíduos humanos. Por ‘interação’ entende-se todo evento pelo qual se manifesta em grau perceptível a influência de uma parte sobre as ações exteriores ou os estados mentais da outra. Onde falta esta influência tangível (unilateral ou mútua) não nos encontramos diante de um fenômeno sócio-cultural. Um milhão de seres humanos completamente isolados entre si não dão um fenômeno social, ou uma sociedade, por isso que não existe uma influência de uns sobre outros.  Por ‘significado’ entende-se ‘tudo aquilo que se apresenta a uma mente qualquer como sinal de outra coisa. A acepção genérica de significado é aquela em que A significa ou possui sentido de B, no caso em que A atue como representante de B, quando ocupe seu lugar ou quando o evoque na consciência’. Interação significativa é qualquer interação na qual a influência de uma parte sobre a outra possui um valor ou significado que se superpõe à propriedades puramente físicas ou biológicas das ações correspondentes“. (Sorokin, Pitirim A. Sociedade Cultura e personalidade – Sua estrutura e dinâmica – Sistema de sociologia geral, I Volume, Ed. Globo, Porto Alegre, 1968: p.59).

   Nas p.80-81, Sorokin relaciona os condutores simbólicos fundamentais no mundo da interação significativa, e considera a linguagem oral e a música como os mais importantes veículos de interação ou condutores simbólicos do tipo sonoro, enquanto meios de interação significativa. Ele focaliza também a linguagem escrita. E, diversos ruídos como do tipo sonoro. Mas, ele enumera diversos outros tipos de condutores: Luminosos e cromáticos (anúncios luminosos e em cores, etc.); Pantomínicos (gestos e movimentos expressivos); Objetos materiais condutores (anel de noivado, uma relíquia de família, bandeira nacional, uma nota de dólar, etc.); Térmicos; Químicos; mecânicos; elétrico e radiofônicos; etc.

   O signo “céus” tem, grosso modo, dois significados particulares articulados entre si.

   Por um aspecto, o signo “céus” representa o campo da interação significativa de senso comum (erva), e respectivo veículo de interação (linguagem) de nível simples, próprios da massa social mais simples.

   Por outro aspecto, o signo “céus” representa o campo da interação significativa em que o feiticeiro opera com um nível de linguagem elaborado, sofisticadamente, no sentido de discurso ideológico, caracterizado por ser poderosamente sedutor e falseado.

   A interação do signo “céus” nos dois sentidos definidos acima, assim implica, de um lado, que o ideólogo-feiticeiro (árvore da ciência do bem e do mal) e as lideranças políticas tribais sejam concebidos como “as águas”, que se situam como quepor cima dos céus”. As quais enganam e dominam seus interlocutores de senso comum (ervas). E, de outro lado, os interlocutores de senso comum são como que “as águasque se situam como quedebaixo dos céus”, ou seja, num campo de interação significativa em que se é seduzido, enganado e dominado pelo discurso ou linguagem dos ideólogos.

   O Trabalho Natura-Social impeliu, ainda, as “águas”, para que elas “se ajuntem num mesmo lugar” (Cf. Gn 1, 9-b). Nestes termos, o elaborador da referida teoria quer dizer: A – O Trabalho Natura-Social impeliu essas ”águas” a se “ajuntarem”, ou seja, impeliu-as a um nível maior de estreitamento, de complexidade e de estabilidade das relações sociais de cooperação; B – Nível maior de estreitamento, etc. transcorrendo, necessariamente, “em um mesmo lugar”, ou seja, enquanto as “águas” vão se tornando sedentárias.

   O elaborador da Teoria da História acrescentou mais uma atribuição a Deus (Trabalho Natura-Social). Atribuição esta transcorrida ainda no mesmo contexto em que Deus impeliu as “águas” desenvolverem em si o estreitamento da cooperação, necessariamente relacionado ao processo de sedentarização. Enfim, nesse contexto, o Trabalho Natura-Social impeliu às “águas”, no sentido delas fazerem que “apareça o elemento árido. E assim se fez” (Cf. Gn 1, 9-c). Ou seja, o autor atribuiu ao Trabalho Natura-Social, então, determinar às “águas” “inaugurarem” (aparecer) o trabalho produtivo agrícola (elemento árido). Por extensão, as “águas” inauguraram as relações sociais de cooperação, mais estreitas, complexas e estáveis, enquanto se tornavam sedentárias. Isto ocorrera à medida que elas inauguravam o trabalho produtivo agrícola, e assim inauguraram, também, o período que chamamos de Neolítico.

    A partir do contexto acima indicado, o elaborador da Teoria da História delimita e distingue dois aspectos pertinentes à noção de relações sociais de um mesmo agrupamento.

   Por um aspecto, temos as “interações sociais de produção“, ou simplesmente “relações sociais intimamente ligadas e condicionadas pelo trabalho produtivo ou transformador da natureza”. Relações sociais de produção inicialmente apenas agrícola, que o elaborador da Teoria da História simbolizou, inicialmente, como “elemento árido”, e depois chamou de “TERRA”. Assim, os signos “terra” e “abismo” (da “terra”) denotam mais apropriadamente a noção de “relações sociais intimamente ligadas e diretamente condicionadas pelo trabalho material produtivo”, ainda somente agrícola.

   Por outro aspecto, temos as interações exclusivamente sócio-culturais e de outras ordens (trocas materiais e simbólicas, sexuais, inter-subjetivas, afetivas, etc.) ou simplesmente relações sociais, mas não ligadas nem condicionadas, diretamente, ao trabalho material predatório ou produtivo. Relações exclusivamente sócio-culturais estas que o referido elaborador inicialmente chamou de ”águas”, e cujo “ajuntamento” (estreitamento, complexidade e maior estabilidade das relações sociais de cooperação) nomeou de “MAR”. Neste sentido, vejamos (Gn 1, 10):

    “Deus chamou ao elemento árido TERRA, e ao ajuntamento das águas MAR...”.

    O Trabalho Natura-Social (fator determinante básico) impeliu o grupo social a um salto cultural, que consistiu em desenvolver o revolucionário conhecimento técnico, e respectiva prática do trabalho produtivo agrícola, e que correspondeu a um salto de complexidade social. Isto, a ser implementado a partir dos segmentos sócio-culturais de senso comum, ou seja, os que se posicionavam “abaixo” daqueles tipos de indivíduos que exerciam papéis sociais (ideólogo feiticeiro; chefe político) de dirigentes de coletividade. diferenciação social esta que em muitos casos ainda não correspondia a diferentes estratos sociais, mas que em muitos outros já havia se desenvolvido uma forma elementar de estratificação social. Nesta, um pequeno grupo de feiticeiros havia se constituído em estrato social superior, operando com a linguagem sofisticada, isto é, o discurso ideológico poderosamente sedutor e falseado. Nesse estrato social superior havia também chefes políticos cooptados e associados àqueles ideólogos, e os auxiliares imediatos dessas duas categorias de diretores de comunidade.

    O papel social desempenhado pelo ideólogo do grupo, executando seu discurso ideológico falseado e poderosamente persuasivo, visando agrupar em torno de si um estrato superior, foi representado metaforicamente na figura da “serpente”, registrada no livro Gênese (Cf. Gn 3, 1-15). A serpente pode matar uma pessoa, não propriamente pelo dano causado em razão da mordida, mas pelo veneno que introduz na pessoa, através da mordida. Metaforicamente, o ideólogo pode “matar” (alienar e submeter) una pessoa, sem utilizar propriamente sua força física, mas através do discurso ideológico poderosamente persuasivo e falseado, que nela introduz.

    As mulheres introduziram a humanidade no trabalho transformador, isto é, produtivo agrícola, e assim se desenvolveu o processo de sedentarização. Desse modo, elas deram início ao período Neolítico, e propiciaram ao surgimento e incrementação do processo de divisão social do trabalho material e intelectual, cujo agente operador dessa divisão foi o ideólogo feiticeiro.

   Enquanto o chefe político do grupo conduzia os homens para caçar e pescar, as mulheres permaneciam nos arredores do acampamento, cuidando das crianças. E, coletavam alimentos nos quintais próximos ao acampamento. Assim, elas aos poucos aprenderam a plantar e cuidar, enfim, cultivar determinados vegetais propícios à alimentação, para depois colher. Desse modo, as mulheres se constituíram no primeiro segmento trabalhador produtivo. Notem que o elaborador da Teoria da Historio designa, geralmente, esse segmento com o termo “mulher”.

   Os seguimentos trabalhadores ou a “mulher” consistiram nas “águas que estavam debaixo dos céus ou firmamento e se ajuntaram num mesmo lugar, e que estavam separadas daquelas “águas” que estavam por cima. Pois, as características peculiares à conduta objetiva do ideólogo é a aversão ao trabalho material, seja predatório ou produtivo, e usar a linguagem no sentido do discurso ideológico sedutor e falseado, para obter alimento das mãos daqueles que trabalharam para tê-los.

   Determinadas mulheres foram as primeiras a serem seduzidas e cooptadas pelo feiticeiro ou “serpente”, para “comerem” ou assimilarem o “fruto” ou a conduta objetiva própria desse tipo de ideólogo. Assim, teve início o processo de divisão social do trabalho material e intelectual. Este, exercido por determinadas mulheres, que assumiram o modo de conduta análogo ao do feiticeiro. Assim, tais mulheres formaram o primeiro estrato social superior, alto, controlador, dominador e privilegiado. Isto, no início do período Neolítico. Desse modo, iniciou-se o Período Matriarcal.

   O feiticeiro foi bem sucedido na ação de sedução e cooptação exercida sobre as mulheres. Neste sentido, ele foi favorecido: pela frequente ausência dos homens no acampamento (porque o deixavam para pescar e caçar); pela frequente permanência e contato entre o feiticeiro e as mulheres no acampamento; pela revolucionária descoberta da agricultura realizada por estas e pelo processo inicial de sedentarização propiciado por essa descoberta.

    O signo “águas” representa a noção de um subcampo exclusivamente sócio-cultural constituído de múltiplos e multiformes grupos ou instituições sociais articuladas entre si, através de trocas simbólicas. Com esta acepção, cada grupo ou instituição social pode ser pensado como um sistema de interações sociais, internamente dotados de trocas sócio-culturais. Nestas trocas, a linguagem – ainda somente oral – é o fundamental veículo (sonoro) das interações significativas, que basicamente expressam valores e normas.[2] A linguagem é o mesmo principal transmissor, através do qual as trocas simbólicas e significativas se efetuam não só no interior de cada grupo social, mas também entre múltiplos grupos ou instituições sociais. O signo “águas” assim concebido corresponde, com algumas ressalvas, segundo a definição de Sorokin, como um universo exclusivamente sócio-cultural:[3]

   A ressalva acima aludida consiste em que Sorokin concebe o essencial da estrutura grupal de toda a população humana, ou seja, da totalidade das interações humanas como sendo exclusivamente sócio-cultural. Esse estudioso das interações sociais, embora classifique tais interações por diferentes aspectos,[4] não o faz conforme o elaborador da Teoria da História.

   Para efeito de análise, o tal elaborador aplica o critério de classificação da estrutura do universo social, que a priori subdivide este universo distinguindo-o em dois campos.

   Por um aspecto, o campo das exclusivas interações sócio-culturais, simbolizado no signo “águas”, ou seja, o campo relativamente “distanciado” e pouco condicionado pelo trabalho das forças produtivas exercido sobre a natureza exterior.

   Por outro aspecto, o campo das relações sociais de trabalho material (predatório, produtivo), simbolizado no signo “abismo”, ou seja, as interações também de natureza sócio culturais, porém ligadas e condicionadas direta e intimamente ao trabalho material (inicialmente apenas predatório, e a partir do período Neolítico, também produtivo) face a natureza exterior. Por exemplo: no subcampo “abismo” (da terra), temos diversas categorias de grupos (escravos, servos, trabalhadores assalariados, jornaleiros, etc.) que exercem trabalho material; no subcampo “águas”, temos diversos grupos sociais (desempregados, prostitutas, soldadesca, bandidos, etc.) excedentes das classes trabalhadoras. Este critério a priori de classificação da estrutura do universo social concebe, portanto, os subcampos “águas” e “abismo” como sendo distintos entre si, e ambos inseridos no campo “terra” da Estrutura do Sujeito Social, isto é, na sociedade pensada como uma totalidade estruturada.

    Vimos acima o modo como o elaborador da Teoria da História a priori classificou a noção contida no signo “águas”; somente a posteriori é que essa noção pode ser classificada segundo outros critérios, de natureza empírica. Por esta perspectiva é que podemos identificar e classificar alguns dos principais grupos que integram o universo sócio-cultural representado no signo “águas”, segundo características relevantes e que os distinguem entre si. Assim, o Mestre identificou, distinguiu, selecionou e classificou, entre os múltiplos e multiformes grupos que integram o universo sócio-cultural “águas”, alguns dos mais importantes: povos; multidões; e nações; e línguas (Cf. Ap 17, 15): “E disse-me: ‘As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas”.

 

[1] “As águas que estão debaixo do firmamento”: Cf. Art. 42, 3.8.,p.271-276:

http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/o-segundo-dia-da-criacao-o-nascimento.html

[2 Cf. Sorokin, P. A. Sociologia, Cultura e Personalidade,  P. 80.

[3] Sorokin, P. A. Idem, p. 105-106.

[4] Cf. Idem, p. 105, 247-279.