REVOLUÇÃO CULTURAL NA FASE NOÉ, O ROMPER DAS BARREIRAS, A BARCA DA SALVAÇÃO DE NOÉ E DOS SEUS

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Livro: Teoria da História  (Art. 37, 3.6., p. 252-255) www.tribodossantos.com.br

   Antes do “esfacelamento diluviano” desenvolvera-se, ainda, uma singular revolução cultural acompanhada da prática correspondente.[1] Revolução esta voltada para libertar os indivíduos do extremo estado de alienação, em que eram mantidos, sobretudo pelos sacerdotes e respectivas ideologias ou cadeias religiosas por estes operadas. Mas, mantidos alienados, também, através das cadeias ideologias de ordem política e econômica, operadas pelas respectivas elites.

   Os ideólogos das diversas nações de cada um dos mercados macro-regionais (egípcio, mesopotâmico, etc.), que integravam o grande mercado global pré-diluviano formatavam, através das suas respectivas cadeias ideológicas, as múltiplas e multiformes instituições sociais (familiar, religiosa, profissional, Estado, etc.), as quais são formatadas, através dessas cadeias ideológicas, pelas elites. Assim, eles mantinham submetidos e alienados, nas cadeias ideológicas, os indivíduos membros das respectivas instituições coletivas. Os indivíduos eram, também, impiedosamente explorados e submetidos fisicamente pelas forças de repressão dirigidas pelo conjunto das elites dirigentes, que para isto operavam com os mecanismos de produção e administração da violência tanto política como social. Mecanismos estes empregados, ainda, como meios de moldagem da conduta individual e coletiva, e como controle e mobilização social.

   A libertação do estado de alienação individual era concebida como único meio de transformação social, para uma formação social justa, fraterna e igualitária: transformar a sociedade através da transformação de unidades mínimas que a compõe. Pois, é imprescindível que o indivíduo desenvolva autoconhecimento, capacidade de autodiligência e consciência social crítica e transformadora, para empreender esse tipo de transformação social.

    Movimentos populares se propagaram, certamente, por todos os mercados macro-regionais, ou seja, por toda a terra da grande rede que constituía o mercado global. Essas revoluções buscavam, inicialmente, a transformação pacífica da sociedade para uma forma mais justa, fraterna e igualitária. É provável que tais revoluções apresentassem o modelo análogo à revolução comunista, horizontal, de natureza fraternal e radicalmente pacifista, que Jesus desencadeara, na era pós-diluviana, a partir de Jerusalém.

    Além de revoluções igualitárias, horizontais, pacifistas e fraternais, proliferaram–se, certamente, diversos movimentos sociais revoltosos, de natureza violenta que visavam o poder e/ou mesmo a tomada de espólio para a mera sobrevivência, e/ou vandalismo. Enquanto puderam, as elites dirigentes e classes médias reagiram e reprimiram os movimentos populares, combinando, de um lado, o emprego dos meios físicos mais perversos, e de outro, a astúcia da “cobra” (intelligentsia), que operavam com ideologias religiosas, para alienar e submeter a população.

    Ocorreram, simultaneamente, prolongadas convulsões sociais gravíssimas e sem precedentes, até hoje, na história da humanidade. Convulsões estas que o elaborador da Teoria da História representou, resumidamente, no signo “dilúvio”. Essas convulsões sociais proliferaram por toda rede do grande mercado global em franca depressão. Elas instalaram o caos geral, e desagregaram todas as formações sociais organizadas hierarquicamente, e as respectivas instituições sociais (religiões, estados, etc.) voltadas para a autoconservação dessas formações sociais estratificadas.

    O Trabalho Natura-Social ou Criador consiste no fator determinante básico e subjacente a todo processo estrutural, genético e cíclico da sócio-história. Enfim, ele é concebido como o Criador de todas as coisas. Nestas condições e havendo chegado ao limite do estado de esgotamento de suas forças produtivas, ele repousa necessariamente, mas não cessa totalmente. Desse modo, ele próprio atuava em dois sentidos. Por um lado, ele preparava o “dilúvio”. Por outro lado, ele “salvaria” (preservaria), em potencial e no bojo do próprio processo da depressão Noé, as diversas estruturas sociais permanentes (instituições coletivas voltadas para a sua autoconservação e os modelos hierarquizados de formação social). Estas seriam preservadas apesar e como que sobre as violentas “ondas” e “enxurradas” em que se moveriam as revoltas massas sociais. As elites dirigentes procuravam “represar” (manter) as contradições sociais (que haviam chegado aos seus limites), operando exacerbadamente com todos os meios de controle social: mecanismos de produção e administração da violência, como meio de moldagem da conduta individual e coletiva, e assim voltados para o controle e mobilização social; o controle sobre a mídia; as instituições religiosas voltadas para a manutenção dos indivíduos num exacerbado estado de alienação e prostração, etc. Este quadro propiciava prever que as revoltas massas sociais romperiam, de modo abrupto, todos os tipos de “barreiras” (meios de controle e mobilização social).

    O quadro acima traçado esclarece, em parte, o sentido em que o narrador do livro Gênese atribui a Deus (o Criador) haver previsto que o dilúvio ocorreria, e a seguir havê-lo criado. E, atribui ao Criador preservar a depressão Noé, e no bojo desta depressão preservar, também, o início da fragmentação do grande mercado global, em três grandes mercados macro-regionais (os três “filhos” de Noé: Sem, Cam e Jafet). Os quais iriam se tornar gradativa e relativamente mais desarticulados entre si, à medida que a depressão se agravava e prolongava. Esclarece, ainda, os sentidos das metáforas da “barca”, da “salvação” de Noé e dos seus acompanhantes.

    As estruturas permanentes acima apontadas se salvariam do dilúvio, e se reproduziriam, gradativamente, à medida que os movimentos sociais por justiça social e mesmo os vândalos foram sendo massacrados e contidos. Alguns chefes de grupos poderosos aspiravam ao poder supremo em suas respectivas cidades. Muitos destes foram, certamente, cooptados aos resquícios existentes das elites anteriormente estabelecidas, ou se estabeleceram absolutamente no poder. Tribos nômades se aproveitavam do enfraquecimento das grandes potências que compunham o grande mercado global. E, em alguns casos (os hicsos no Egito; os cassitas no antigo império babilônico, etc.), tribos nômades invadiram os territórios dessas ex-grandes potências, subjugaram as elites ali estabelecidas e ocuparam permanentemente o território. Assim, as lideranças dessas tribos procederam de modo semelhante às elites depostas: estabeleceram-se como elites dominantes, perversas e exploradoras dos pobres trabalhadores. Enfim, ao término do dilúvio e sendo concluída a fase pré-diluviana ou Pré-II Período Intermediário, novas elites dirigentes perversas, egoístas, injustas e conservadoras se estabeleceriam em todas as configurações espaciais, em que o grande mercado global antes houvera se estabelecido. Desse modo, as elites emergentes dariam reinício à fase pós-diluviana ou Pos-II Período Intermediário, com a exploração descabida e injusta das forças produtivas, ou seja, os segmentos sociais que exercem trabalho material e serviços subalternos. Isto prosseguiria até à irrupção de uma nova catástrofe social e ecológica: esta que hoje se aproxima.

[1] . Acerca do “esfacelamento diluviano”, cf. (ART. 36, 3.5.; 3.5.1.; 3.5.2., p. 244-147): http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/noe-irreversivel-crise-do-mercado.html