O Escolhido liberta o indivíduo: torna-o autoclarificado, autodiligente, e transformador

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Livro: Teoria da História  (Art. 39, 3.6.2., p. 259-265) www.tribodossantos.com.br

    Voltemos nossa atenção para o singular modelo de revolução horizontal, igualitária, fraternal e pacifista, do qual falávamos anteriormente, cujo aspecto cultural (doutrina) está alicerçado e centrado na libertação do indivíduo.[1] Libertação do estado de alienação, em que o indivíduo era mantido pelos ideólogos das ideologias ou cadeias religiosas, das ideologias ou cadeias políticas e econômicas. Libertação, ainda, das múltiplas e multiformes instituições sociais (familiar, religiosa, profissional, Estado, etc.), as quais são formatadas, através dessas cadeias ideológicas, pelas elites. A libertação do estado de alienação individual era concebida como único meio de transformação social, para uma formação social justa, fraterna e igualitária: transformar a sociedade através da transformação de unidades mínimas que a compõe. Pois, é imprescindível que o indivíduo desenvolva autoconhecimento, capacidade de autodiligência e consciência social crítica e transformadora, para empreender esse tipo de transformação social.

   A modalidade de revolução acima apontada teve seu embasamento doutrinário. Este fora desenvolvido por sucessivos profetas, ao longo de muitos séculos. Um fenômeno análogo a este ocorrera na fase Henoc da era pós-diluviana, e consistiu na sequência de grandes profetas individuais hebreus. Os quais foram precursores da categoria de pensamento profético, que o Jesus Histórico (o Profeta Maior) sistematizou e ensinou.

   Na fase Noé da era pré-diluviana, o legendário personagem cananeu chamado Melquisedec, certamente desempenhou o singular papel social do Profeta Maior e Escolhido pelo Criador. Ele sistematizara a categoria de pensamento produzida pelos profetas que lhe precederam. Esses profetas e o Escolhido emergiram no período Noé de regressão do grande mercado global pré-diluviano.

   O Escolhido desencadeara a revolução cultural e prática correspondente, de natureza horizontal, igualitária, fraternal e radicalmente pacifista. Essa revolução formava comunas que se propagavam por todas as nações integrantes dos mercados macro-regionais que compunham, em rede, o grande mercado global. O modelo igualitário e fraternal de revolução ia combatendo e vencendo o modelo de formação social hierarquizado ou piramidal e os estratos sociais dominantes. Estes resistiam visando à manutenção desse injusto tipo de formação social. Desse modo, a revolução cultural alicerçada no “indivíduo livre” (autoclarificado, autodiligente e dotado de consciência social crítica e transformadora), no igualitarismo, na fraternidade e no pacifismo radical possibilitou a precipitação do desenvolvimento de dois fenômenos sociais. Os quais iriam contribuir, ulteriormente, para o processo depressivo chegar à sua mais grave e derradeira crise, e arrasar, finalmente, o grande mercado global.

    Em primeiro lugar, contribuiu para o “rompimento” ou corte total de suprimento de “todas as fontes”, isto é, de todos os dispositivos e meios de produção que convergem contribuindo para o suprimento e a manutenção dos injustos laços sociais estabelecidos no “grande abismo”, ou seja, nas relações sociais de produção condicionadas e voltadas para a grande rede global de mercados (Cf. Gn 7,11-a).

    Em segundo lugar, o modelo horizontal de revolução possibilitou ainda “abrir” ou romper todas as “barreiras” ou “cadeias ideológicas”, isto é, todos os meios ideológicos de moldagem da conduta individual e, por extensão, também da conduta coletiva, e de controle e mobilização social. “Barreiras” estas concebidas como sendo “dos céus”, quer dizer: estratégias de ordem ideológica voltadas para a dominação e exploração dos indivíduos, nas áreas econômica, política e ideológica propriamente ditas (Cf. Gn 7, 11-b).

    Em contradição aos dois fenômenos sociais apontados acima, o vertiginoso aumento populacional global concentrado no interior e nos arredores das grandes e pequenas cidades, então, continuava avançando, de acordo com seu peculiar aumento vegetativo em proporção geométrica, e por imigração.

    Diante do quadro acima indicado, proliferara o tipo de indivíduo liberto do estado de alienação, autoconsciente, autodiligente e dotado de consciência social crítica e transformadora. O qual servira como base sobre a qual se edificavam comunidades populares revolucionárias abertas, cada vez mais expansivas. Caracterizadas por seus membros estabelecerem entre si e com o próximo em geral, laços de justiça social, fraternidade e igualitarismo. Modelo de estrutura comunitária este que alguns dos grandes profetas individuais e o próprio Jesus, representavam simbolicamente como “água viva”, em distinção às alienadas e “amargas águas” geradas no campo das relações sociais de produção (abismo). (Cf. Is 12, 3; Jr 2, 13; 15, 18; 17, 8; Jo 4, 11; Ap 22,1-3).
As reacionárias elites decadentes de todos os mercados integrantes da rede global combateram ideológica e fisicamente, esse tipo de indivíduo e respectivas comunidades igualitárias. Certamente fora um tipo de combate perversamente venenoso e sistemático. A exemplo do que ocorreu à época do Império Romano. Quando o conjunto das elites intelectuais (entre as quais se destacou Paulo de Tarso o Anticristo, e sua igreja pseudo cristã) combateu ideologicamente as genuínas “igrejas” (comunidades horizontais, fraternais e radicalmente pacifistas, cuja base central estava sediada em Jerusalém, mas que se propagava para todos os povos sob o Império). Igrejas igualitárias estas desencadeadas pelo Escolhido, Jesus, e alicerçada por seus fiéis e genuínos Apóstolos (Tiago Menor, Tiago Maior, João, Judas, Felipe, Tomé, Mateus, etc.), após os intelectuais (sacerdotes) haverem planejado, exigido e obtido a morte do Mestre. No contexto do Império Romano, as elites intelectuais, notadamente Paulo de Tarso o Anticristo e sua igreja pseudo cristã, de um lado, e as elites políticas e econômicas de Roma e das demais províncias, de outro, estabeleceram entre si um acordo tácito: enquanto Paulo o Anticristo e sua igreja combatiam ideologicamente a genuína igreja desencadeada por Jesus, isto é, as comunidades igualitárias, fraternas e radicalmente pacifistas; as elites políticas e econômicas combatiam-nas fisicamente, pelo perverso método do extermínio precedido de martírio.

    A fase de depressão Noé e o respectivo dilúvio afetaram todos os mercados regionais, em datas relativamente próximas entre si, variando segundo os respectivos tempos de duração e as dimensões de suas gravidades. Podemos citar como exemplos, além do sombrio caso dos mercado macro-regionais hitita, o da bacia do rio Indo, o Elamita e o constituído pela Fenícia, Síria e Canaã, também os casos do Egito, da Civilização Egéia e da Mesopotâmia.

    A manifestação do dilúvio no Antigo Egito pode ser notada através dos documentos que indicam terem ocorrido, por volta de 1788 a.C., desordem interna (revolução social das massas), enfraquecimento do poder central e uma contra-revolução dos nobres. Essa manifestação provocou o fim da XII Dinastia e assim se encerrou o Médio Império. A fase de depressão certamente começou bem antes dessa data. Mas, nesta data teve início o “dilúvio”, propriamente dito, que se estendeu por cerca de trinta e oito anos, ou seja, até 1750 a.C., quando os hicsos ou Reis Pastores conquistaram e ocuparam o Egito. A fase da depressão Noé se prolongou, entretanto, até cerca de 1580 a.C. Pois, nesta data os egípcios expulsaram os hicsos, iniciando a XVIII Dinastia e o período histórico egípcio nomeado Novo Império.[2]

    No mercado regional egeu, a fase de depressão Noé certamente começou bem antes de 1700 a.C. Pois, algumas características da manifestação própria do dilúvio tiveram início, aproximadamente, nesta data: sinais de revoluções sociais das massas, incêndios e demolição de palácios e das fábricas neles instaladas, etc. Estas características indicam que uma catástrofe dessa ordem se alastrara por todas as cidades do mundo egeu. O dilúvio propriamente dito perdurou cerca de cinquenta anos, e não muito depois desses anos, parece, o mercado regional egeu se recuperara.[3]

    A Mesopotâmia foi atingida pelo dilúvio aproximadamente em 1800 a.C., conforme demonstra o êxodo de tribos famintas da cidade de Ur, a exemplo daquelas chefiadas por Abraão e por Lot. A depressão Noé obviamente teve início bem antes dessa data. Pois, um processo cíclico de crises cada vez mais graves e próximas entre si precedeu ao dilúvio. Este foi o ápice desse processo ascendente. O dilúvio propriamente dito se consumou por volta de 1750 a.C., quando o mercado regional mesopotâmico gerenciado pelo império dos antigos babilônio foi destroçado por um povo bárbaro chamado cassita. O processo depressivo Noé prosseguiu ainda por mais cerca de seiscentos anos. Visto que o domínio exercido pelos cassitas marcou um período de retrocesso econômico e cultural em toda civilização mesopotâmica, que perdurou cerca de seiscentos anos, ou seja, estendeu-se até ao século X, quando os assírios iniciavam sua ascensão, conquistando o que ainda restava em poder dos cassitas.[4]

    O dilúvio se estendera ao mercado regional que se desenvolvera na bacia do rio Indo, onde a cidade de Mohendjo Daro era a mais desenvolvida, seguida de Harapa e outras. Por volta de 1750 a.C., esse mercado e suas respectivas cidades foram destruídos e suas populações possivelmente exterminadas, possivelmente pelos bárbaros arianos. Certamente, a fase de depressão Noé se iniciara bem antes dessa data. O dilúvio ali ocorreu de modo fatal, naquela data. Assim, a depressão Noé ali não se estendeu e muito menos houve o caso de recuperação, simplesmente porque esse mercado regional fora extinto, à medida que sua população tivera, possivelmente, uma parte exterminada e outra levada como escrava.[5]

    O grande mercado global já sob a égide Noé vinha cambaleando com suas cíclicas crise e inerente agravamento das contradições sociais. Crises cada vez mais graves e próximas umas das outras. Finalmente, ele entrou na mais grave, mais prolongada e derradeira crise, que na Teoria da História se apresenta representada no signo “dilúvio”. Este signo foi empregado no sentido de “inundação universal”, portanto temos que investigar o significado da alegoria das “águas”. Com o resultado desta investigação poderemos entender melhor o significado de algumas outras noções cifradas no trecho em que aparece o signo “dilúvio”. Por exemplo: o violento e abrupto rompimento das “barreiras provocado pela inundação ou “inchação” (Cf. Gn 7,17) das águas; e quais os fenômenos sociais (estruturas permanentes) “embarcaram” na “barca de Noé”, isto é, subsistiram sendo “salvos” na fase mais aguda (dilúvio) da depressão Noé.

[1] Cf. Art. 37, 3.6., p. 344-348: http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/revolucao-cultural-na-fase-noe-o-romper.html

[2] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 48.

[3] Cf. Idem, p. 135-136; Cf. Aymard, A. e Auboyer, J. História geral das Civilizações, Tomo I, 2º Volume, p. 14.

[4] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 76.

[5] Cf. Aymard, A. e Auboyer, J. História geral das Civilizações, Tomo P, 1º Volume, p. 226-227; Cf. Schneider, W. Idem, p. 43-45.