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Introdução
O livro que se convencionou chamar de Evangelho de Tomé, desde há quase dois mil anos estava sumido. Qual o motivo disto? Vamos explica, mais adiante. Um exemplar desse livro foi descoberto em 1945, nos arredores da cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, e foi catalogado como o mais importante dos textos, da assim chamada Biblioteca de Nag Hammadi.[1] Estudiosos têm proposto como datação desse livro, datas tão cedo como 40 ou tão tarde como 140, dependendo de se o Evangelho de Tomé é identificado com o núcleo original de ditos, com o texto publicado do autor, com os textos gregos ou coptos ou com paralelos em outras literaturas.[2]
Trata-se de 114 logias ou “palavras originais” atribuídas ao Mestre, e escritas na língua copta saídica, bastante próxima dos antigos hieróglifos egípcios. Alguns autores consideram-no como o “proto-evangelho”, isto é, o único que nos transmite as “palavras autênticas” de Jesus.[3] NOTA O Evangelho de Tomé. Idem, Traduzido por Jean-Yves Leloup, tradução brasileira por Guilherme João de Freitas Teixeira, 6ª edição, Editora Vozes, Petrópolis, 2001, p. 7-12
Diferente dos demais evangelistas, Tomé não explora a forma narrativa. Ele apenas cita, à maneira dos koans japoneses, isto é, de forma não estruturada, e em pequenas frases, os ditos ou diálogos breves de Jesus a seus discípulos, sem incluí-los em qualquer narrativa, nem apresentá-los em contexto filosófico ou retórico.[4]
A existência do Evangelho de Tomé só nos era conhecida, através de informações e pequenos textos transmitidos por escritores eclesiásticos como Santo Irineu (140-202) Santo Hipólito de Roma (século III), são Cirilo de Jerusalém (316-386). Os quais criticavam e rotulavam, falsamente, o Evangelho de Tomé como próprio do misticismo gnóstico. Desse modo falseado, tais escritores combateram a doutrina de natureza psicológica altamente revolucionária, que Jesus praticava e ensinava, e que Tomé transmitira. Naqueles termos falseados, as informações e pequenos textos do Evangelho de Tomé apareciam nos escritos dos referidos escritores eclesiásticos. Estes consistiram, entre outros, nos primeiros patriarcas da Igreja pseudo-cristã, e herdeiros diretos da igreja hierarquizada e dotada de clero profissional, que foi criada por Paulo de Tarso o Anticristo (período de vida: “pelo início de nossa era até entre 64 e 68”; vida pública: “cerca do ano 33 até entre 64 e 68”).[5]
Paulo o Anticristo foi o primeiro a combater adulterando o sentido original dos conhecimentos de ordem psicológica, que o Jesus Histórico ensinara aos seus genuínos discípulos, e que Tomé transmitira. Com esta finalidade, o Anticristo divulgava a ideologia de Platão “corpo versus alma”, e a atribuía, falsamente, a Jesus. Os patriarcas da Igreja seguiram essa prática diabólica.
- O Indivíduo como sujeito estruturado na forma de conjunto complexo de conduta, sob dois aspectos articulados entre si.
Tomé, dito Dídimo (“gêmeo” em grego) expôs os ditos de Jesus, como se ele estivesse à parte do grupo dos doze principais discípulos, e sem apresentar qualquer redundância. Desse modo, ele buscou se concentrar e captar o essencial dos ensinamentos do Mestre, e o expôs logo na introdução do seu livro. Ou seja, expôs aqueles ensinamentos de natureza psicológica, que concebem o indivíduo, como um sujeito estruturado, sob dois aspectos, que se apresentam articulados entre si. Em primeiro lugar, na forma de um conjunto complexo de conduta, em que o campo subjetivo motiva o campo objetivo da conduta do mesmo indivíduo.[6] E, o Reino dos céus ou da produção do conhecimento consiste numa práxis entre esses dois campos.[7] Em segundo lugar, Tomé mostra o indivíduo estruturado à imagem e semelhança do Deus Criado. Ou seja, o Deus Criador é concebido como um sujeito social e totalidade estruturada. Por este prisma, Tomé mostra o Deus Criador enquanto a Estrutura do Sujeito social, que se homologa no indivíduo. O qual assim se apresenta enquanto Estrutura do Sujeito Individual. Vamos abordar essas duas formas estruturais do indivíduo, oportunamente ao explicarmos os ditos concernentes.
- O campo subjetivo (motivador) da conduta individual ou campo “dentro de vós”
Tomé atribui a Jesus, o fato de ensinar uma doutrina, que inclui uma gama importante e revolucionária de ensinamentos de ordem psicológica. Em primeiro lugar, Jesus ensinou que o conjunto complexo de conduta individual deve ser tanto conhecido como operado e dominado pelo próprio indivíduo. Conhecido e dominado a partir do campo “interior” do indivíduo, ou melhor, campo “subjetivo” (“dentro de vós”: sentimentos, valores, cognição, propósitos, volição), em razão deste campo ser motivador do “campo objetivo” (ações sociais, omissões, etc.) da conduta do mesmo indivíduo. Desse modo, o indivíduo pode passar a ser sujeito de sua própria conduta, e transformar ou converter o modo de se conduzir. Por exemplo, ele pode escolher em conter sentimentos de ordem odiosa, e escolher, ainda, em estimular intensos sentimentos de amor a Deus e ao próximo, conforme a máxima proposta por Jesus (Cf. Mt 22, 36-40).[8]
No sentido indicado acima, Tomé registrou o dito de Jesus, o qual concebe que: “O Reino está dentro de vós e…” (cf. p. 15, item 3, linha nº 8). Sabedor disto, então, o indivíduo pode se transformar, e também transformar sua interação com o próximo, enfim, pode transformar a sociedade. Ao contrário, o indivíduo que não se conhece como sujeito estruturado, e não opera, consciente e diligentemente, seus fatores subjetivos (sentimentos, valores, etc., que são motivadores do campo objetivo da própria conduta), então, encontra-se privado de tudo ou “morto” (alienado). O indivíduo alienado está privado da capacidade de autoconsciência, de autodiligência e de consciência social crítica e transformadora, e sujeito a ser enganado, submetido ideologicamente e explorado por outro indivíduo. Nesta mesma direção, vejamos:
“Aquele que conhece tudo, mas não se conhece, está privado de tudo”. (p.31, item 67).
Na realidade, Jesus tinha o projeto de transformar a sociedade, através e a partir da transformação de suas unidades mínimas componentes, os indivíduos ou pessoas, cada indivíduo ou pessoa. Tomé compreendeu isto.
Note que a perspectiva psicológica do Jesus Histórico, que foi descrita por Tomé, nada tem com a perspectiva metafísica de natureza dualista corpo versus “alma” (ou espírito), que Paulo o Anticristo pegara emprestado da filosofia grega (Platão), e a introduzira, maquiavelicamente, na sua doutrina pseudo-cristã.[9] Com isto, o Anticristo visara, precisamente, deturpar e assim combater a revolucionária perspectiva psicológica proposta e praticada pelo Mestre. Ler O Evangelho de Tomé, através da perspectiva diabólica de Paulo o Anticristo, pode apresentar diversas dificuldades, e mesmo induzir o leitor a entender, equivocadamente, como misticismo gnóstico, aquilo que consiste na revolucionária psicologia ensinada por Jesus, e que os grandes profeta individuais já conheciam e também ensinavam.[10]
Na leitura do livro de Tomé, a esfera da conduta individual que Jesus focaliza como “interior” ou “dentro de vós”, no sentido de esfera subjetiva, pode ser entendida, equivocadamente, como “alma”. Ou seja, uma dimensão metafísica ou espiritual. Pode levar a esse equívoco absurdo, a miopia do leitor obtuso e impregnado de toda porcaria filosófica grega (ideologia corpo versus alma), que Paulo o Anticristo introduziu, maquiavelicamente na sua doutrina pseudo-cristã, junto com outras asneiras inventadas pelo próprio Anticristo. Enfim, picaretas metafísicos e esotéricos contemporâneos vêm se aproveitando das trevas, com as quais os teólogos da Igreja – seguidos pelos teólogos ortodoxos, protestante e evangélicos – encobriram a genuína psicologia revolucionária, que o Filho do Homem ensinara há dois mil anos. Tais picaretas contemporâneos elaboram mil e uma racionalizações, para enganar e assim “explicar”, aos seus vitimados leitores, o sentido da noção de “interior” (do indivíduo), no Evangelho de Tomé (o texto em tela: p.31, item 67). Cujo objetivo consiste em submeter, ideologicamente, o indivíduo, para transformá-lo em ovelha-robô, e assim subtrair-lhe valores.
[1] O Evangelho de Tomé. Traduzido por Jean-YvesLeloup, tradução brasileira por Guilherme João de Freitas Teixeira, 6ª edição, Editora Vozes, Petrópolis, 2001, p. 7-12.
[2] Cf. Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Evangelho_de_Tom%C3%A9 (Valantasis, Richard. The Gospel of Thomas (em inglês). London; New York: Routledge, 1997, p. 12.
[3] O Evangelho de Tomé. Traduzido por Jean-YvesLeloup, tradução brasileira por Guilherme João de Freitas Teixeira, 6ª edição, Editora Vozes, Petrópolis, 2001, p. 7-12
[4] Idem, p. 7-12.
[5] Cf. Bíblia de Jerusalém. Datas: p. 1954.
[6] Cf. O intelectual simbolizado na árvore frutífera: o sujeito como totalidade estruturada: http://tribodossantos.com.br/2015/03/o-intelectual-simbolizado-na-arvore-frutifera-o-sujeito-como-totalidade-estruturada-2/
[7] Cf. Jesus e Kosik na aplicação do caminho ou método analítico: http://www.tribodossantos.blogspot.com.br/#!http://tribodossantos.blogspot.com/2012/10/jesus-demonstra-aplicacao-do-caminho-ou.html; O “caminho” ou “método analítico” ensinado por Jesus: http://tribodossantos.com.br/2015/11/o-caminho-ou-metodo-analitico-ensinado-por-jesus/
[8] O Jesus Histórico explicitou, exaltantemente, a máxima “amar de todo o teu coração a Deus e ao próximo”, em diametral oposição à ideologia ou “excelência moral” do meio-termo forjada por Aristóteles. Ideologia e filósofo estes que eram exaltados e praticados, então, pelos membros da odiosa e egoísta esfera culta judaica. Cf. Aristóteles. Ética a Nicômacos. Trad. de Mário da Gama Kury, 3ª edição, Editora Universidade de Brasília, 1985, p. 40-43 (itens 5-6).
[9] Cf. A profecia que se cumpre por si mesma – A ideologia corpo versus alma de Paulo o Anticristo até hoje: http://tribodossantos.com.br/2015/11/a-profecia-que-se-cumpre-por-si-mesma-a-ideologia-corpo-versus-alma-de-paulo-o-anticristo-ate-hoje/
[10] Cf. JEREMIAS: críticas sociais; ética da responsabilidade; indivíduo como um conjunto complexo de conduta: http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/08/jeremias-criticas-sociais-etica-da.html