Paulo o Anticristo versus os verdadeiros Apóstolos do Cristo (Art. 3º): O CONTEXTO DOS EMBATES

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1: 1. Jesus liberta os indivíduos das cadeias ideológicas criadas pelos sacerdotes hegemônicos; 2. O conflito entre o modelo piramidal e o modelo “quadrado” (horizontal) de formação social; 3. O conflito entre a diretriz pastoral serva (horizontal) e a hegemônica (hierarquia).

O Jesus Histórico empreendeu ferrenha luta contra os sacerdotes hegemônicos, isto é, elitistas (fariseus, saduceus, e respectivos teólogos, ou seja, os escribas ou doutores da lei). Com essa luta, o Mestre objetivava libertar os indivíduos das prisões ideológicas (estado de alienação causado pelas entorpecentes doutrinas religiosas) e exploração econômica, em que esses indivíduos eram mantidos pelos referidos ideólogos hegemônicos. Neste sentido, ele tomou diversas medidas. Entre estas, o Mestre projetou e empreendeu uma revolução cultural, a qual apresenta dois aspectos principais.
Por um aspecto, a tal revolução cultural estava centrada na conversão e aprimoramento da conduta individual. Ainda neste sentido, ele elaborou e ofereceu ao indivíduo, a “espada”: um método instrumental de luta, ou seja, diversos conhecimentos revolucionários de ordem psicológica.
Por outro aspecto, o Filho do Homem desencadeou um movimento social revolucionário, voltado para a concretização de um modelo utópico de formação social, isto é, uma sociedade ideal: igualitária; horizontal; fraternal; radicalmente pacifista; edificada no indivíduo de conduta autoconsciente, autodiligente e dotado de consciência social crítica e transformadora.   Este modelo de sociedade ideal fora projetada por alguns dos grandes profetas individuais (Is 54+; 60-62+; Ez 40-48+), que precederam Jesus.

O Filho do Homem sabia, entretanto, que a humanidade não estava, ainda, preparada para receber e vivenciar, de modo pleno e duradouro, o modelo de formação social acima citado. Mas, ela precisava conhecer e experimentá-lo. Ele sabia que a humanidade teria que passar por mais um longo um ciclo sócio-histórico de tribulações, para que pudesse vivenciar, de modo um pouco mais generalizado e duradouro (cf. Ap 20, 4-5), o referido modelo ideal de formação social: “a tribo dos santos, a cidade amada” (cf. Ap 20, 9). O Mestre tinha conhecimento, também, que somente no final do grande ciclo sócio-histórico de tribulações é que a humanidade teria condições de vivenciar o modelo ideal de formação social em tela, de modo mais estável e duradouro: “a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus” (Ap 21, 10-b). Este modelo de formação social igualitária foi simbolizado numa figura geométrica: um quadrado eqüilátero (cf. Ap 21, 16), em distinção e oposição ao modelo de formação social e de instituição religiosa hierarquizada, os quais são simbolizados na figura de uma pirâmide.

O Mestre preparou seus genuínos Apóstolos, para que estes pudessem incrementar a concretização inicial e em esboço, do modelo de formação social “quadrado” (horizontal e igualitário: a Jerusalém celeste). Ele recomendou e serviu como exemplo vivo do modo de procedimento ou a “diretriz pastoral”, que as suas lideranças (seus verdadeiros Apóstolos) deveriam ter entre si e destes com relação à massa de indivíduos. Muitos dos quais eram de senso comum e pobres. As lideranças fiéis ao Mestre deveriam “servir” (cf. Jo 13, 4-17; MT 20, 25-28), “fermentar” ou “salgar” (cf. Mt 5, 10-13) essas “massas”, em oposição aos “fermentos” dos sacerdotes elitistas (cf. Mt 16, 5). Enfim, os genuínos Apóstolos do Filho do Homem deveriam não se elitizarem, mas manterem os mesmos níveis sócio-econômicos dos indivíduos mais carentes, ajudando-os a desenvolver o modelo revolucionário de conduta individual: autoconhecimento, autodiligente e dotado de consciência social crítica e transformadora. Eles deveriam, também, desmascarar e combater, pacificamente, todo tipo de ideólogo elitista e respectivos modelos de instituições religiosas hierarquizadas e de formações sociais de estilo piramidal. E, ao mesmo tempo, eles deveriam atuar em prol da concretização do modelo justo e igualitário de formação social. Nesta direção, o Mestre proclamou:

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!

Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus!

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus!

Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós!                                              

Vós sois o sal da terra… A luz do mundo”. (Mt 5, 6-14)
2: A eliminação física (morte) como a primeira estratégia de luta operada pelos sacerdotes contra os genuínos seguidores do Filho de Deus.

Os sacerdotes Hegemônicos reagiram contra o movimento revolucionário desencadeado pelo Jesus Histórico, e empregaram, inicialmente, a eliminação física (assassínio) como estratégia de combate. Eles tramaram e obtiveram a morte do Filho de Deus. Mesmo após os sacerdotes obterem a morte de Jesus, o referido movimento revolucionário prosseguiu avançando. Pois, os sacerdotes continuaram empregando a estratégia de eliminação física, também contra os fiéis sucessores do Mestre (At 6, 7; 7, 56-58; 8, 1-3). E, ainda assim, os verdadeiros apóstolos do Mestre prosseguiram empenhados, fielmente, em Jerusalém, na concretização e propagação do modelo igualitário e horizontal ou “quadrado” de formação social:

E Naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos. Perseveraram eles na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações (…) Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um”. (At 2, 41-b-42, 44-45);

A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuíam: mas tudo entre eles era comum (…) Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Repartiam-se então a cada um deles conforme as suas necessidades”. (At 4, 32, 34-35)

O esboço deste modelo ficou conhecido como a “igreja de Jerusalém” (cf. At 8, 1-b), e os genuínos Apóstolos e líderes-servos eram chamados de “santos de Jerusalém”: Tiago o Menor e seu irmão, Judas Tadeu, (ambos eram parentes de Jesus); João Evangelista e seu irmão Tiago o Maior (mais velho); Mateus; André e seu irmão, Pedro; Tomé; Felipe, Bartolomeu, etc.

Os genuínos Apóstolos implementaram a comuna horizontal de Jerusalém e utilizaram-na como base ou “quartel general”, para o avanço do movimento revolucionário tanto em Jerusalém como para as demais regiões do Império Romano, e mesmo para além das fronteiras deste império. Neste sentido, alguns dos Apóstolos se deslocavam, voluntariamente ou esquivando-se de perseguições, de Jerusalém para outras regiões.

O Mestre preparara suas lideranças visando libertar indivíduos das prisões ideológicas (doutrinas religiosas falseadas mas poderosamente sedutoras) elaboradas e operadas não apenas por ideólogos hegemônicos israelitas (sacerdotes e escribas). Mas também, libertá-los das ideologias e dos respectivos ideólogos elitistas de todo e qualquer gênero: filósofos, magos, necromantes, hierofantes, astrólogos, gnósticos, etc. (cf. Mt 28, 19-20, Jo, 17-18).

Os ideólogos elitistas judeus oriundos de diversas regiões do Império Romano reagiram contra o avanço do movimento revolucionário em prol do igualitarismo horizontal, que os Apóstolos do Filho do Homem lideravam. Muitos dos referidos ideólogos se deslocaram para Jerusalém, com o objetivo de combater os genuínos Apóstolos, para neutralizar a base ou “quartel general” do movimento revolucionário. Pois, muitos dos próprios ideólogos judeus vinham se convertendo ao igualitarismo horizontal. Além disto, o combate que Jesus iniciara contra o templo-edifício, fora retomado por Estevão:

E crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedeciam à fé. E Estevão , cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. E levantaram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, e dos que eram da Cicília e da Ásia (o grifo é nosso), e disputavam com Estevão. E não podiam resistir à sabedoria, e ao espírito com que falava (…) Amotinaram assim o povo, os anciões e os escribas e, investindo contra ele, agarraram-no e o levaram paro o Grande Conselho. Apresentaram falsas testemunhas que diziam: Esse homem não cessa de proferir palavras contra o lugar santo e contra a Lei. Nós o ouvimos dizer que Jesus de Nazaré há de destruir este lugar…” (At 6, 7-10, 12-14)

Os judeus prosseguiram com a estratégia de eliminação física (assassínio), como meio de combater as lideranças do movimento libertador de indivíduos presos nas cadeias ideológicas (doutrinas religiosas). As lideranças do “Sinédrio” incumbiram sacerdotes noviços, para a missão de prender e/ou organizar a execução, por apedrejamento, de líderes e de fiéis seguidores do movimento, em prol do igualitarismo desencadeado pelo Jesus Histórico.[1] Paulo de Tarso o Anticristo era um noviço, isto é, fora iniciado desde cedo como fiel discípulo do mestre Gamaliel.

Quanto a mim, sou varão judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e nesta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zelador de Deus…” (At 22, 3).

O mestre Gamaliel se deslocava de Jerusalém até a cidade natal de Paulo, ou seja, a cidade grega de Tarso, na Cilícia, para ensinar o seu discípulo fervoroso, e possivelmente para outros negócios.[2] Paulo de Tarso o Anticristo abraçara, ardentemente, a missão de prender e matar líderes e seguidores fiéis ao Filho de Deus (cf. At 8, 3; 9, 1-2; 22, 4). Neste sentido, ele chefiou a execução do discípulo de Jesus chamado Estevão, porque este era um dos líderes da revolução pela implementação do modelo igualitário e horizontal de formação social, e criticava, a exemplo do Mestre Jesus, o templo-edifício concebido como casa de Deus (cf. At 7, 54-60; 8, 1; 22,4). Esta crítica era passível de punição por morte, segundo a tradição instituída pelas elites sacerdotais, conforme o exegeta observa:[3]

proferir blasfêmias contra o Templo era, para os judeus, um crime de morte”.

Malgrado a estratégia de combate por assassinato empregado pelos sacerdotes, o movimento de libertação do indivíduo avançava. E, ainda, vinha obtendo a conversão e adesão de muitos sacerdotes judeus (cf. At 6, 7). As lideranças do Sinédrio ficaram estarrecidas e desorientadas, com o avanço desse movimento a despeito das execuções.

Gamaliel era mestre sagaz, doutor da lei e respeitado membro entre as lideranças do Sinédrio (cf. At 5, 33-40). Paulo de Tarso o Anticristo era ideólogo elitista (cf. At 26, 24), fariseu convicto e filho de fariseu abastado da cidade de Tarso, que dispunha de recursos para mantê-lo, nesta cidade grega, como discípulo do notável mestre Gamaliel (cf. At 22, 3). Este mestre destacado e sagaz percebera, que a estratégia de combate por execução dos fiéis seguidores do Filho de Deus não continha o avanço do movimento revolucionário. Movimento este caracterizado pela luta em dois sentidos. Em primeiro lugar, luta pela libertação dos indivíduos, os quais eram mantidos presos, nas cadeias ideológicas elaboradas e operadas por sacerdotes e seus “teólogos” (escriba). Em segundo lugar, luta pela institucionalização do modelo igualitário e horizontal ou “quadrado” de formação social, em substituição ao injusto e violento modelo piramidal, então vigente.
3: 1. A nova estratégia proposta por Gamaliel, que chamamos de MÉTODO “PACÍFICO”, empregado pelos sacerdotes para combater os fiéis seguidores do Filho de Deus; 2. Paulo de Tarso o Anticristo e seu verdadeiro mestre, Gamaliel, teólogo e doutor da lei.

Gamaliel percebeu que ao contrário de conter o avanço supracitado, o extermínio dos fiéis seguidores do Filho der Deus contribuía para esse avanço. Pois esses fiéis seguidores consideravam uma Glória, morrer, a exemplo do Filho do Homem, em razão de lutar, numa práxis revolucionária, contra os sacerdotes elitistas. Morrer por ajudar na libertação de outros indivíduos. E, ajudar, também, na demolição do modelo piramidal de formação social, à medida que se empenhavam na concretização do modelo de formação social igualitário, horizontal, fraternal e radicalmente pacifista. O qual era edificado no indivíduo autoconsciente, autodiligente e dotado de consciência social crítica e transformadora. Morrer por um ideal tão nobre não era somente uma Grande Glória para o fiel seguidor do Filho do Homem. Mas também, o meio mais nobre do indivíduo Glorificar a Deus. Enfim, essa noção de glória era concebida como o holocausto ou sacrifício perpétuo. Somente aquele indivíduo cuja conduta objetiva testificava estar dotado de intenso amor ao Espírito Santo de Deus, ao Filho do Homem e ao próximo, teria capacidade de levar, na sua conduta objetiva, a luta adiante, mesmo sabendo que estaria sujeito ao extremo da Glorificação. Desse modo, a Glorificação não consistia, simplesmente, no ato do sacrifício, da morte, mas na prova da excelência de uma conduta lutadora prévia e na coroação deste procedimento prévio, cuja morte era apenas um desfecho possível e involuntário, mas que efetivamente poderia ocorrer, lamentavelmente. Pois, a sina assassina dos sacerdotes, estava sempre presente.

Paulo o Anticristo adulterou e inverteu, através de uma poderosa e sutil sofística, os sentidos originais dos principais pontos da genuína doutrina de Jesus. Desse modo, ele expôs tais pontos em suas epístolas satânicas. A noção de Gloria acima apontada foi um dos principais pontos da doutrina de Jesus, que Paulo o Anticristo se adiantou e se esforçou em adulterar.
Paulo era um pródigo sofista, assim ele negou a eficácia de uma conduta práxis revolucionária, autoconsciente, autodiligente e voltada, criticamente, para a transformação social, isto é, por uma sociedade mais justa, horizontal e fraterna. Paulo o Sofista inventou a estória de que todos estavam privados da gloria, e que o motivo da gloria estava eliminado porque todos pecaram. E, que ela fora substituída por uma atitude subjetiva e imaginária: a diabólica fé paulina. Ou seja, a fé na lembrança da figura imaginária e carismática do Jesus crucificado, e não na árdua “obra”, isto é, na conduta objetiva de luta empreendida por este durante anos, na tentativa de criar uma sociedade mais justa e fraterna, e pela libertação dos indivíduos. Por esse tipo de fé (paulina) estaria justificado, gratuitamente, todo indivíduo alienado e que não lutasse para se libertar do domínio ideológico exercido por sacerdotes, nem ajudasse na libertação de outros indivíduos, e tão pouco lutasse por uma sociedade mais justa e fraterna. Neste sentido, Paulo escreveu:

Com efeito, todos pecaram e todos estão privados da glória, e são justificados gratuitamente por sua graça: tal é a obra da redenção realizada por Jesus Cristo (…) Onde está, portanto, o motivo de se gloriar? Foi eliminado. Por que lei? Pela das obras? Não, mas pela lei da fé. Porque julgamos que o homem e justificado pela fé…” (Rm 3, 23, 27-28)

  1. Tiago, João e Judas Tadeu combatem e desmascaram, através das suas Cartas, Paulo de Tarso o Anticristo.

Os verdadeiros Apóstolos e líderes da comuna de Jerusalém tomaram conhecimento das adulterações malignas, que Paulo o Anticristo inventava e divulgava entre os fiéis seguidores e simpatizantes da genuína doutrina de Jesus. Doutrina esta que o Jesus Histórico ensinara aos Apóstolos e estes a divulgavam, sem adulterá-la. Eles ficaram indignados, e sentiram-se na obrigação de alertarem seus seguidores a respeito das ações malignas desenvolvidas pelo Anticristo e pelos ideólogos elitistas que o seguiam.

O Apóstolo Judas Tadeu pôs em destaque, de um lado, a defesa do modelo comunal, fraternal e radicalmente pacifista de formação social, como meio de salvação para o indivíduo, e de outro lado, defendeu as noções de Glória e de Graça em Jesus, as quais o Anticristo falseara e desprezara.

Tiago enfatizou a defesa da “justificação pela obra ou prática” como fator imprescindível à “fé” (motivação subjetiva) no exercício da práxis revolucionária e transformadora. Nesta defesa, Tiago mostrou como argumento exemplar a passagem do Antigo Testamento (G 22, 1-14), que Abraão fora justificado por Deus (Gn 15, 6), em razão de atitudes como esta: ter posto, efetivamente, na prática, e não somente na “fé” (intenção: atitude subjetiva) o seu filho Isaac sobre o altar, e de ter iniciado, efetivamente, o processo de holocausto.  É esclarecedor notar que Tiago recorreu à mesma personagem do Antigo Testamento, Abraão, que Paulo o Anticristo utilizou (cf. Rm 4, 1s). Este, utilizou-a para justificar a noção falseada da postura alienada da “justificação pela fé. Tiago empregou-a, como contra-argumento, para justificar a práxis revolucionária, ou seja, a “justificação pela obra como fator básico e imprescindível, que complementa a fé revolucionária”. Não foi por mera coincidência que tanto Paulo o Anticristo como o genuíno Apóstolo Tiago se referiram a Abraão, no referido embate de ideias opostas entre si. Estas referências demonstram, efetivamente, que eles estavam travando, entre si, o embate em questão.

   João concluiu: Paulo de Tarso não era um mero embusteiro, mas o próprio Anticristo.

O Apóstolo Judas Tadeu sentiu-se indignado com o falseamento relativo à noção de Glória, conforme acima citado, que Paulo o Anticristo inventara e propagava entre os que simpatizavam do movimento revolucionário desencadeado por Jesus, mas que após a morte deste, os genuínos Apóstolos estavam dando continuidade. Neste sentido, Judas Tadeu se dirigiu aos fiéis, precavendo-os da maliciosa “infiltração furtiva”, que Paulo o Anticristo empregava, estrategicamente, num “louco desvario”, com método de penetração entre os fiéis e os simpatizantes do movimento horizontal e igualitário. Infiltração furtiva esta cuja finalidade era enganar e aliciar ovelhas para a criação de uma instituição religiosa hierarquizada, que o Anticristo estava criando. Neste sentido, Judas Tadeu se dirigiu aos seus fiéis, em alusão a Paulo o Anticristo, nos seguintes termos:

Caríssimos, estando eu muito preocupado em vos escrevera respeito a respeito de nossa comum (pertencente a todos: comunidade igualitária ou comunista horizontal; esta observação e o grifo são nossos) salvação, senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos e pelejar pela fé, confiada de uma vez para sempre aos santos. Pois certos homens ímpios se introduziram furtivamente entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este julgamento; eles transformaram em dissolução a graça de nosso Deus, e negam Jesus Cristo, nosso único Mestre e Senhor (…) Assim também estes homens, em seu louco desvario, contaminam igualmente a carne (conduta prática), desprezam a soberania e maldizem as glórias (o grifo é nosso)”. (Jd 3-4, 8)

A palavra “comum” sublinhada no trecho de Judas Tadeu acima citado (Jd 3-4, 8) tem o sentido de comunidade igualitária ou comunista horizontal (como meio de “salvação” proposta pelo Filho de Deus). Judas exortava os membros e simpatizante das comunas horizontais, fraternais e radicalmente pacifistas, para terem fé e se manterem firmes nesse modelo de comunidade. Ele exorta-os a pelejarem pela fé, mas nos verdadeiros santos Apóstolos. Pois, eles estavam sendo assediados, diante das incursões por infiltrações furtivas praticadas por Paulo e seus asseclas. Notem. A palavra “comum” foi empregada nesse mesmo conteste histórico e no mesmo sentido de comunidade igualitária e horizontal, em At 2, 44; 4, 32.

Tiago contestou a noção de “justificação pela féinventada por Paulo o Anticristo, nos seguintes termos:[4]

De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ‘ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos’, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas alguém dirá: ‘tu tens fé e eu tenho obras’. Mostra a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios creem e tremem. Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obra é estéril. Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo seu filho Isaac sobre o altar? Vês como a fé cooperava com as suas obras, e era completada por elas. Assim se cumpriu a Escritura que diz: Abraão (…) Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?”. (Tg 2, 14-24)

Diante do fracasso da estratégia de execução como meio de combater aos fiéis seguidores do Filho de Deus, Gamaliel, mestre de Paulo de Tarso, elaborou uma nova e sagaz estratégia ideológica de combate. Chamo essa estratégia de “método pacífico de combate aos fiéis seguidores do Filho de Deus”. Ela consistira em suspender as execuções, acreditando que o movimento iria se esmorecer e os seguidores se dispersariam, com o passar do tempo, em razão dos sacerdotes já terem obtido, através de Pilatos, a morte do líder, isto é, do Jesus Histórico. Caso a possibilidade de esmorecimento e dispersão não ocorresse, Gamaliel contava, certamente, com a repressão romana sanguinária, como meio de eliminação dos fiéis seguidores do Filho de Deus. Pois, os dois exemplos de líderes de revoltas (Teuda e Judas, o Galileu) citados por Gamaliel, foram aniquilados pela repressão armada das tropas romanas.[5] A proposta de Gamaliel foi aceita pelo Grande Conselho (cf. At 5, 34-39).

É oportuno notar, que pouco antes dos sacerdotes obterem a morte de Jesus, eles estavam temerosos com a penetração e aceitação do movimento cultural revolucionário desencadeado por Jesus, sobre significativa parcela da população. Isto ocorria em contraposição e queda do poder hegemônico dos sacerdotes sobre a nação:

Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho e diziam: que faremos? Porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação”. (Jo 11, 47-48)

Ora, o poder do Sinédrio, isto é, o poder que os sacerdotes e escribas detinham, com o consentimento dos romanos, estava assentado na capacidade de moldagem de conduta, controle e mobilização social realizados através de poderoso discurso sedutor, embora falseado. Enfim, estava assentado no poder ideológico de natureza religiosa, ou seja, no poder hegemônico. Assim, os sacerdotes sabiam que se perdessem o poder de hegemonia, os Romanos iriam substituí-los no controle da nação. Ao exemplo de como ocorrera na época de Herodes o Grande, entre 37 a 4 a.C.[6] O qual governou os judeus com mão de ferro, com o consentimento de Roma.

Paulo Tarso era fiel discípulo de Gamaliel, e seguiu a orientação deste seu mestre, aprimorando-a. Ele foi o primeiro e o mais bem sucedido e destacado, na missão de combater, “pacificamente”, os genuínos discípulos do Filho de Deus. Paulo era mentiroso por natureza, e precisava se apoiar, para levar adiante sua estratégia de combate, em determinados pontos forjados de modo sofisticamente maligno. Cujo objetivo maior e final era tiranizar as massas de indivíduos, para transformá-los em ovelhas-robôs do rebanho que pretendia criar. E, a partir deste, restabelecer o modelo hierarquizado de instituição religiosa, a exemplo da decadente religião dos fariseus e a dos saduceus, e do Sinédrio. Por fim, ele visava , assim, fortalecer o modelo piramidal de formação social, em detrimento do modelo horizontal e igualitário ou “quadrado”.

Nietzsche, assim como João (cf. I Jo 2, 18-26; 4, 1-3) sacou, claramente, as estratégias ideológicas operadas por Paulo, e o fato deste consistir no próprio Anticristo. Nesta direção, Nietzsche afirma:[7]

Paulo personifica o tipo oposto do ‘mensageiro da boa nova

Nietzsche sacou diversas estratégias ideológicas operadas por Paulo de Tarso o Anticristo. Por exemplo, sacou que o Anticristo se aproveitou do forte carisma que a lembrança do Jesus Histórico desfrutava, junto ao público em geral. Pois, neste sentido, o “tipo oposto ao mensageiro da boa nova” exaltou, numa perspectiva metafísica, isto é, falseada a morte de Jesus, na cruz. Exaltação esta cujo objetivo fora deslocar a excelência da conduta objetiva, ou melhor, uma práxis crítica e revolucionária de luta Gloriosa empreendida pelo Jesus Histórico, contra os sacerdotes e os aliados destes, isto é, as elites políticas e econômicas (elites estas, opressoras e gananciosas tanto como as sacerdotais).[8] Ou seja, Paulo de Tarso o Anticristo “o tipo oposto do ‘mensageiro da boa nova” visou, por um aspecto, depreciar a característica mais marcantes do Jesus Histórico, que consistiu em lutar no sentido de libertar os indivíduos do estado de alienação, submissão ideológica e exploração econômica em que estes eram mantidos pelos sacerdotes hegemônicos e seus aliados.
Por outro aspecto, o Anticristo ou “tipo oposto ao mensageiro da boa nova” assumiu, diabolicamente, e exaltou a perspectiva e respectiva postura própria dos metafísicos, que valoriza, aqui na vida real existente, a conduta práxis utilitária e fragmentária: a conduta individual alienada própria do senso comum (erva), desprovida de autoconhecimento, de capacidade de autodiligência e de consciência crítica, que poderia ser voltada para atuar no sentido de transformar o modelo piramidal estabelecido, então, para o revolucionário modelo igualitário e horizontal ou “quadrado”. Ou seja , Paulo o Anticristo valorizou o seu conceito de fé, a fé paulina. Ele exaltou, em outros termos, a aquilo que ele chama de “justificação pela fé”, ou seja, a conduta práxis utilitária e fragmentária acima citada, que não se esforça por se converter e assumir a conduta práxis crítica revolucionária supracitada. Mas, ainda assim, espera, de modo passivo, alienado, ilusório e gratuitamente, tanto aqui na terra e sobretudo na vida no além, uma vida melhor. Vejamos Nietzsche focalizando Paulo o Anticristo, isto é, o “oposto do mensageiro da boa nova”:[9]

Com a mentira da ‘ressurreição de Jesus’, Paulo deslocou o centro de gravidade de toda essa existência para depois da existência. Na realidade ele não tinha necessidade alguma da vida do Redentor, precisou apenas da morte na cruz e de algo mais… Considerar sincero um Paulus que tem como pátria a sede principal do iluminismo estóico e que usa uma alucinação para demonstrar que o Redentor ainda vive, ou acreditar que tenha sofrido essa alucinação, seria uma verdadeira patetice de psicólogo: No que ele próprio não acreditava, acreditavam os idiotas que se submeteram à sua doutrina. O que ele queria era o poder; Paulo só precisava das idéias, das doutrinas, dos símbolos para tiranizar as massas, transformá-las em rebanho”.
5: Paulo o Anticristo aprimorou a estratégia “pacífica” de combate aos fiéis seguidores do Filho de Deus: os estratagemas de combate elaborados e aplicados pelo Anticristo.

Dizíamos que Paulo o Anticristo precisava se apoiar, em determinados pontos. Isto é, ele precisava empregar determinados estratagemas, para desenvolver a sua versão aprimorada do modelo “pacífico” de combate, que o seu verdadeiro mestre propusera, contra o avanço do movimento revolucionário desencadeado pelo Filho de Deus:

  1. Paulo o Anticristo precisava forjar sua conversão à doutrina de Jesus ensinada pelos genuínos Apóstolos, e divulgar a falsa notícia de que o próprio Jesus teria o incumbido de pregar a doutrina deste junto aos gentios. Mas, na realidade, era a interpretação falseada da referida doutrina, que o Anticristo tinha a intenção de pregar aos gentios;
  2. Do modo acima indicado, o Anticristo objetivava, também: passar, falsamente, por apóstolo de Jesus, para desfrutar do prestígio e da autoridade que o povo conferia a estes; preparar sua infiltração entre ou genuínos apóstolos do Filho do Homem; esta infiltração e convívio efêmero serviriam, ainda assim, para fortalecerem a falsa condição de apóstolo ambicionada pelo Anticristo, e para este conhecer a genuína doutrina do Filho do Homem, a fim de poder adulterar e invertê-la nos seus pontos capitais

Num golpe de mestre da sofística e da estratégia ideológica de luta, o discípulo de Gamaliel forjou haver contatado, no caminho para Damasco, com o Jesus que já tinha sido morto por instigação dos seus superiores hierárquicos (a alta direção do Sinédrio). Paulo inventou a estória mirabolante de Jesus ter lhe incumbido, nesse contato, da missão de levar a doutrina de Jesus, para os “gentios” (todos os não judeus) (cf. At 9, 1-18).

Claro, Paulo de Tarso o Anticristo nunca fora, verdadeiramente, nem apóstolo nem discípulo do Mestre Jesus, mas sim do mestre Gamaliel. Paulo de Tarso empreendeu, com grande sucesso, a missão sugerida por seu verdadeiro mestre. Assim, ele mostrou que não se tratou de um mero embusteiro, mas o próprio Anticristo, o próprio “príncipe deste mundo”. Pouco antes de o Mestre ser assassinato por instigação dos sacerdotes hegemônicos, ele falara do referido príncipe dos anticristos, às suas lideranças mais íntimas. Prevenindo-as que o Anticristo haveria de vir, e que já se aproximava o início da vida pública que este iria protagonizar:

Ouvistes que eu vos disse: Vou e volto a vós. Se me amardes, certamente haveis de alegrar-vos, que vou para junto do Pai, porque o Pai é maior do que eu. E disse-vos agora estas coisas, antes que aconteça, para que creiais, quando acontecerem. Já não falarei muito convosco; porque vem o príncipe deste mundo (o grifo é nosso); mas ele não tem nada em mim. O mundo, porém, deve saber que eu amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui”. (Jo 14, 28-31)

Depois dos sacerdotes haverem conseguido a morte de Jesus, João prevenira, reiteradamente, também, aos demais fiéis discípulos de Jesus, quanto à presença do “príncipe deste mundo”. Pois, João percebera que Paulo o Anticristo exaltava a figura de Jesus, apenas com o objetivo de apoiar a amálgama doutrinária que o próprio Anticristo inventara, no forte carisma que a lembrança do Jesus histórico desfrutava no seio do povo em geral.  João prevenira os seus fiéis seguidores, quanto ao trabalho sistemático de poderosa sedução sofística sutil operada por “espíritos” (ideólogos) elitistas, a exemplo de Paulo o Anticristo ou “príncipe deste mundo” e o seu grupo de intelectuais elitistas. Pois, estes percorriam as comunidades cristãs criadas por genuínos Apóstolos de Jesus, com o objetivo de seduzi-los a aderirem à doutrina forjada pelo próprio Anticristo, através da qual este pretendia transformar o modelo igualitário de comunidade, para o modelo hierarquizado.   João prevenia-os, ainda, quanto ao fato do Anticristo e muitos dos seguidores deste (Barnabé (cf. At 11, 22); Marcos (cf. At 12, 25; 13, 5, etc.) haverem circulado e saído, efetivamente, dentre os próprios genuínos Apóstolos. O genuíno Apóstolo João esclarecia que isto não os credenciavam, entretanto, como verdadeiros apóstolos do Cristo. Pois eles haviam se infiltrado, estratégica e precisamente, para passar, falsamente, por apóstolo. Cuja finalidade era enganar e seduzir fiéis seguidores e também aos simpatizantes do movimento e da doutrina de Jesus.
João recomendou aos seus fiéis seguidores, que confiassem nos ensinamentos que o Santo lhes houvera ensinado, antes do Paulo o Anticristo e os seguidores deste haverem iniciado o trabalho de poderosa sedução sofística. Nesta direção, vai a crítica feita, alusivamente, por João contra Paulo o Príncipe deste Mundo. Pois, por uma questão de ética, os genuínos Apóstolos de Jesus evitavam nomear seus opositores. Nisto, eles diferiam do modo como procedia, grosseiramente, Paulo o Anticristo. O contesto histórico mostra, claramente, que o embate era travado pelos dois grupos em tela, conforme constatamos e continuaremos expondo no decurso dos artigos:

Filhinhos, esta é a última hora. Vós ouvistes dizer que o Anticristo vem. Eis que já há muitos anticristos, por isto conhecemos que é a última hora. Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam, certamente, conosco. Mas isto se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos. Vós, porém, tendes a unção do Santo e sabeis todas as coisas. Não vos escrevi como se ignorásseis a verdade, mas porque a conheceis, e porque nenhuma mentira vem da verdade. Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai. Todo aquele que proclama o Filho, tem também o Pai. Era isso que eu tinha a escrever a respeito dos que vos seduzem. Quanto a vós, a unção que dele recebeste permanece em vós. E não tendes necessidade de que alguém vos ensine, mas como a sua unção vos ensina todas as coisas, assim, é ela verdadeira e não mentira. Permanecei nele, conforme ela vos ensinou”. (I Jo 2, 18-27);

Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, parque muitos falsos profetas se levantaram no mundo. Nisto se reconhece o espírito de Deus: todo espírito que proclama Jesus Cristo que se encarnou, é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus, não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo”. (I João 4, 1-3);

Muitos sedutores têm saído pelo mundo afora, os quais não proclamam Jesus Cristo que se encarnou. Quem assim proclama é o sedutor e o Anticristo. Acautelai-vos para que não percais o fruto de nosso trabalho, mas antes possais receber plena recompensa. Todo aquele que caminha sem rumo e não permanece na doutrina de Cristo, não tem Deus. Quem permanece na doutrina, este possui o Pai e o Filho. Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda toma parte em suas obras más”. (II Jo 7-11)

Na realidade, Paulo o Anticristo atuou no sentido de conter, no sentido dos gentios, o avanço do genuíno movimento revolucionário do igualitarismo horizontal desencadeado pelo Jesus Histórico. Mas, ele visava conter, também, esse avanço no sentido dos judeus que viviam no exterior, a exemplo do próprio Paulo, que era oriundo de Tarso, na Grécia.

  1. Os documentos que mostram o conflito entre, de um lado, o modelo hierarquizado de comunidade criada por Paulo o Anticristo, e do outro, a comuna de Jerusalém, liderada pelos genuínos Apóstolos.

No contexto que acima expliquei, ocorreu o embate entre, de um lado, Paulo o Anticristo e suas lideranças constituídas por ideólogos elitistas, e de outro lado, os verdadeiros Apóstolos do Cristo: Tiago Menor, João, Judas Tadeu, etc. Esse embate pode ser observado, claramente, sobretudo em determinados documentos. Do lado de Paulo o Anticristo, o aludido conflito pode ser notado nas epistolas I e II aos Coríntios; e do lado dos verdadeiros Apóstolos do Filho do Homem, ele se apresenta na carta ou epístola de Tiago, nas epístolas I e II de João e na epístola de Judas Tadeu. Alguns aspectos do embate em questão se apresentam, também, em outros documentos:

  1. As epístolas (I e II) escritas por Silvano (ideólogo submetido ao controle de Paulo o Anticristo), mas atribuída a Pedro. Nestas cartas, Pedro demonstra, textualmente, ter aderido, enaltecido e se submetido ao Paulo o Anticristo.
  2. No capítulo vinte e um do evangelho de João, o redator deste apêndice procedeu uma “profecia pós-fato”, e a atribuiu a Jesus. Desse modo, ele mostra e critica, de modo sutil e delicado, o fato de Pedro haver “estendido as mãos” (sido sustentado), e se deixar levar para “o lado” (Paulo o Anticristo e os asseclas deste, a exemplo de Silvano ou Silas, o qual redigiu a carta atribuída ao Pedro), “daqueles que ele não gostaria de ir” (cf. Jo 21, 18). O redator deste capítulo mostra, que essa conduta incoerente de Pedro decorreria, entretanto, de duas situações.

     Em primeiro lugar, Pedro tendia a não acatar e mesmo negar a diretriz pastoral de servo, proposta pelo Jesus Histórico. Ele tendia, também, em se esquivar de “apascentar” as ovelhas pobres, que poderiam aceitar e entender a doutrina de Jesus. Em outros termos, Pedro se esquivava de “pescar” seguidores no “lado direito”, isto é, em favor da formação do modelo igualitário e horizontal ou “quadrado” de formação social, conforme Jesus recomendava. Mas, tendia a “pescar” do lado “esquerdo”, isto é, do lado da institucionalização de uma entidade religiosa hierarquizada.

Em segundo lugar, Pedro estaria envelhecido, não tinha como se sustentar, e era uma pessoa relativamente simplória, ou melhor, desprovida de sagacidade e de grandes recursos intelectuais. Isto favorecera ser ele assediado e induzido a aderir e juntar-se ao grupo do Anticristo. O qual soubera tirar proveito em favor em proveito próprio, servindo-se da popularidade e do prestígio que a figura de Pedro desfrutava, ainda, junto ao povo. Pois, na carta que Silvano atribuíra a Pedro, este exaltara, textualmente, Paulo o Anticristo. Ora, Pedro sequer redigira a carta que Silvano diz ser de autoria de Pedro. Pois, este não dispunha de recursos intelectuais para fazê-lo e/ou estava muito envelhecido e carente de ser assistido na redação, e de ser sustentado por outrem. Paulo o Anticristo e seus asseclas dispunham, com certeza, de fartos recursos financeiros para este e outros fins, que propiciassem a institucionalização do modelo piramidal ou hierarquizado de religião. Aliás, os verdadeiros Apóstolos criticaram Paulo o Anticristo e os asseclas deste, pelo fato destes passarem, falsamente, por apóstolos do Cristo, e percorrerem as cidades, subtraindo valores dos fiéis que enganavam (cf. I Cr 9, 1-6). E, muitos fiéis questionavam a condição de apóstolo do Cristo, que Paulo o Anticristo arvorava ser (cf. I Cr 1, 10-12).

Por outro aspecto, Pedro tinha a intenção de criar sua própria igreja hierarquizada junto aos gentios (cf. At 10, 44; 15, 7-11), para usufruir das prerrogativas de sacerdote elitista. Quando ele era, ainda, jovem, era pródigo em “cingir” (“vestir” no sentido de encobrir ou dissimular) essa intenção.  Mas, não tinha a intenção de criá-la ao lado de Paulo o Anticristo. Pois, na fase inicial que este houvera se infiltrado entre os verdadeiros Apóstolos do Cristo, ele e Paulo disputavam entre si a simpatia dos gentios. Numa dessas ocasiões, o Anticristo censurou Pedro, diante de todos os presentes (cf. Gl 2, 11-14). O grupo liderado por Paulo o Anticristo seria o lado para o qual Pedro não gostaria de ir, mas fora a contragosto, quando envelhecera. E, Paulo o Anticristocingiu-lhe”, através de Silvano, a referida intenção. O grupo liderado pelo Anticristo e a intenção de criar uma instituição religiosa pseudocrístão hierarquizada, consistiram no lado que o redator do capítulo vinte e um do Evangelho de João se refere:

em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. (Jo 21, 18).

É provável ter sido Pedro aquele um dos discípulos do Jesus Histórico, que Marcos apontou em seu Evangelho (Mc 12, 41-44; 13, 1-2). Um dos discípulos que ao invés de tecer comentário concernente a atitude exaltada por Jesus, a respeito da pobre e abnegada viúva. A qual houvera depositado, no cofre da esmola do Templo de Jerusalém, pouco valor em dinheiro, mas muito em comparação aos valores depositados pelos que os tinham em abundância. Ao invés disto, o discípulo não nomeado por Marcos, chamou a atenção de Jesus e exaltou o Templo-edifício e suas pedras. O discípulo anônimo exaltou, de modo óbvio embora indireto, os vultosos valores que iam parar, por fim, nos bolsos dos sacerdotes. Pois, tal discípulo anônimo pretendia se transformar num destes, induzindo Jesus a criar um clero profissional e construir templo-edifício. O Mestre ficou indignado, e respondeu-lhe num desabafo demolidor: “vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida”.

Enfim, Pedro participou, ao menos inicialmente, da implantação da comuna horizontal de Jerusalém, mas em fins da sua vida, ele houvera mudado de lado, ou seja, passara para o lado do Anticristo e da respectiva instituição religiosa piramidal ou hierarquizada criada por este.

  1. Lucas é o autor do livro “Atos dos Apóstolos”, que consiste numa apologia ao Paulo o Anticristo. O referido autor era médico e intelectual submetido à liderança do Anticristo (cf. Col 4, 14; 2 Tim 4, 11; Flm 24). Nesse livro, Lucas procura exaltar o Anticristo, à medida que deprecia, diminui ou omite, de modo malignamente sutil, as principais lideranças que mantiveram, enquanto puderam, a comuna igualitária de Jerusalém, isto é, a base ou “quartel general” do movimento revolucionário desencadeado pelo Jesus Histórico. Desse modo, o livro em tela se insere no contesto do conflito entre, de um lado, o grupo de ideólogos liderados pelo Anticristo, e do outro, os genuínos Apóstolos de Jesus. Nesse contexto, o Lucas focaliza, maquiavelicamente, o movimento revolucionário comunista horizontal e as respectivas lideranças, isto é, os genuínos Apóstolos, não para exaltá-los, mas para denunciá-los às autoridades políticas e econômicas do Império Romano. Em relação as quais, Paulo o Anticristo, líder e mestre de Lucas, procurava amizade, submissão e aliança. Isto, com argumentos falseados, mentirosos e em diametral oposição à proposta feita por Jesus, no sentido de lutar por justiça social, conforme mostramos logo no início (segunda página) deste artigo: as bem-aventuranças. Vejamos as propostas desavergonhada de amizade, submissão e aliança que Paulo o Anticristo propõe ao Teófilo de Lucas:

Cada qual seja submisso às autoridades constituídas. Porque não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem atraem sobre si a condenação. Em verdade as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal. Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência. É também por essa razão que pagais os impostos, pois os magistrados são ministros de Deus, quando exercem pontualmente este ofício. Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito”. (Rm 13, 1-7);

Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranqüila, com toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem, que se entregou como resgate por todos. Tal é o fato, atestado em seu tempo; e deste fato – diga a verdade e não minto – fui constituído pregador, apóstolo e doutor dos gentios, na fé e na verdade”. (I Tm 2, 1-8).

Nos próximos capítulos, vamos expor um estudo sistemático, que mostra a constatação das críticas e ofensas odiosas desfechadas por Paulo de Tarso o Anticristo contra aqueles que este chama, desdenhosamente, de “eminentes Apóstolos”. Sempre que for oportuno, continuaremos pondo em destaque, alguns dos trechos das Cartas de Tiago o Menor, de Judas e de João. Trechos estes que se referem de modo implícito e ético ao Paulo o Anticristo, e que este os responde, de modo irado e debochado, em determinados trechos de suas epístolas satânicas (I e II Cr). Finalmente, vamos focalizar, de modo mais detalhado, o capítulo número vinte e um (adendo), elaborado pelo último redator do Evangelho de João.
BIBLIOGRAFIA

Carlos Frederico Schlaepter, Francisco Rodrigues Orofino, Isidoro Mazzarolo.A Bíblia: introdução histórica e literária. Editora Vozes, Petrópolis, 2004.

Friedrich W. Nietzsche. O Anticristo – Maldição do Cristianismo. Editor Int. D.E.L. International Publishers Lmt., Roma, 1996.

Karol Kosík. Dialética do Concreto. Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1969.

Johan Konnings. A bíblia nas suas origens e hoje. Editora Vozes, Petrópolis, 2003.

Bíblia Sagrada, tradução dos originais mediante a versão dos monges de Maredsous (Bélgica). Editora Ave Maria, 89ª edição, São Paulo, 1993.

Bíblia Sagrada, traduzida pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo. Adendo: Dicionário Prático de cultura católica, bíblica e geral. Editora Barsa, Rio de Janeiro, 1996.

 

[1]. Bíblia Sagrada, traduzida pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo. Veja em adendo: “Dicionário Prático de cultura católica, bíblica e geral”, p. 255. O Sinédrio consistia no Grande Conselho nacional dos judeus e nos seus conselhos locais espalhados pelas cidades da Palestina. Ele era composto por três grupos em números iguais de sacerdotes, escribas e anciãos, e estava dotado de autoridade para julgar casos eclesiásticos ou civis, que deveria ser, em regra geral, presidido pelo próprio sumo sacerdote, cujos decretos eram reconhecidos pelos romanos. No entanto, a pena de morte estava reservada, no tempo de Jesus, à autoridade romana (cf. Jo 18, 31).

[2] . Nietzsche, F. W. O Anticristo – Maldição do Cristianismo, p. 42. Nietzsche considerando Paulo o Anticristo um insincero iluminista estóico.

[3] . Bíblia Ave Maria, item nº 61, referente a Mt 26, 61)

[4] . Lutero era sacerdote, ou melhor, monge agostiniano, mas foi, também, o mentor e criador das religiões protestantes ainda hoje existentes, e devoto ardoroso de Paulo o Anticristo. Ele adorava o Anticristo no que tange, sobretudo, ao conceito de “Justificação pela fé” inventada por Paulo o Sofista. Neste sentido, o exegeta católico se refere à Carta de Tiago, e esclarece: “Lutero chamava-a Epístola de palha e indigna de um Apóstolo, uma vez que esta epístola condena claramente a doutrina favorita de Lutero de que a fé só, sem as obras é suficiente para a salvação (Cf. Tg 2, 14-26)”. (cf. Bíblia Sagrada, tradução do padre Figueiredo, A. P., em adendo no Dicionário Prático de cultura católica, bíblica e geral, Tiago, p. 1). O exegeta católico elaborou, falseadamente, um ardiloso malabarismo ideológico para criticar a interpretação (doutrina) protestante relativa ao conceito de “justificação pela fé”, e exaltar a interpretação doutrinária católica referente a esse mesmo conceito. Mas, enfim, o aludido exegeta segue, doutrinariamente, o mesmo conceito de justificação inventado pelo Anticristo (cf. Bíblia Ave Maria, Índice doutrinal, p. 1583). O aludido exegeta elaborou outro malabarismo doutrinal (cf. idem, p. 1583), para negar a realidade do conflito existente entre Paulo o Anticristo e o verdadeiro Apóstolo do Cristo, em referência ao conceito de “justificação”.

[5]. Cf. Schlaepter, C. F., Orofino, F. R. e Mazzarolo, I. A Bíblia: introdução histórica e literária, p. 113, 115).

[6] . Cf. Konings, J. A bíblia nas suas origens e hoje, p. 114-115; Schlaepter, C. F., Orofino, F. R. e Mazzarolo, I, A Bíblia: introdução histórica e literária,  p. 135.

[7] .  Nietzsche, W. F. O Anticristo – Maldição do Cristianismo, p. 64, item 42]

[8] . Kosík, K. Dialética do Concreto, p. 10-11, 15-18. Kosík focaliza, lucidamente, a distinção e oposição entre as noções e respectivas condutas individuais da práxis crítica revolucionária, e, da alienante práxis utilitária e fragmentária própria do senso comum.

[9]. Nietzsche, W. F. O Anticristo – Maldição do Cristianismo, p. 64-65, item 42.