Lamec e Ada, e seu filho Jabel – Lamec e Ada e seu filho Jubal

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

Livro: Teoria da História (Art. 27, 2.7.4.; 2.7.5., p. 196-206) www.tribodossantos.com.br

     O símbolo “Jabel” representa, naquele contexto anteriormente apontado, um desses dois significativos segmentos sociais.[1] Ou seja, representa o segmento social que exerce o trabalho comercial, mais especificamente as corporações ou guildas de mercadores. Corporações estas constituídas de mercadores propriamente ditos (proprietários de mercadorias), e dos demais indivíduos submetidos a esses mercadores, para a execução dos serviços comerciais. O autor emprega o simbolismo “pai”, para designar a condição Jabel, enquanto classe social, em relação aos indivíduos que esta classe social congrega. Em outros termos, em relação aos indivíduos profissionais do comércio, que integram a categoria  da corporação dos mercadores.

    O autor da Teoria da História opera com diversos métodos de codificação. Um destes consiste em nomear, um determinado fenômeno sócio-histórico que objetiva codificar, chamando-o não pelo nome (substantivo comum) que designa tal fenômeno. Mas, nomeia-o pelo nome de um atributo ou função relevante que lhe é pertinente, o qual o autor tem a intenção de ressalvar. Assim, o autor nos fornece uma pista para que possamos identificar a natureza da corporação profissional em tela. Desse modo, o fenômeno sócio-histórico cujo nome é corporação ou guilda profissional, não é assim nomeado. Mas, chama-o de conduzir, para indicar o seguinte: quando o processo de complexidade da divisão social do trabalho suscita esse tipo de fenômeno social (corporação profissional de mercadores) numa cidade-estado, tal fenômeno passa a conduzir ou “dirigir”, hegemonicamente, os rumos da formação social liderada por essa cidade-estado. Isto ocorre, simultaneamente, nas diversas cidades da mesma macro-região. Este processo se apresenta, obviamente, mais adiantado em umas do que em outras cidades. Assim, esse tipo de corporação conduz, também, a ascensão do grande mercado macro-regional. As corporações conduzem, ainda, a produção de mercadorias e estas para as trocas comerciais.

    Outro método de codificação operado pelo autor da Teoria da História é empregar a noção de genealogia como metáfora de sucessivas e encadeadas etapas de transformações sócio-históricas. Assim, no caso acima indicado, o termo que representa a noção de “conduzir”, atribuído ao fenômeno sócio-histórico em tela (corporações de mercadores), passa à condição de nome próprio, isto é, de pessoa. Pois, Conduzir é um código ou “codinome” que o autor atribui ao fenômeno sócio-histórico “corporações de mercadores”. Ou seja, este tipo de corporação corresponde a um determinado aspecto da divisão social do trabalho, e corresponde, também, a uma etapa do processo de transformações sócio-históricas ocorridas na cidade-estado.

2.7.5. Lamec e Ada, e seu filho Jubal

    O símbolo “Jubal” representa o outro dos dois significativos segmentos sociais, que são irmanados” entre si, isto é, que cooperam entre si, na divisão social do trabalho desenvolvida no interior da cidade, no domínio e exploração dos segmentos sociais dos trabalhadores, isto é, que exercem trabalho material. Ou seja, “Jubal” representa os grupos ou corporações sociais constituídos de indivíduos que exercem trabalho intelectual ou “artístico”, no sentido lato deste termo, isto é, os trabalhos intelectuais que vão do mais simples aos mais sofisticados. Por exemplo, os “profetas” que viviam em grupo, assim como Eliseu e seu grupo, e das guildas de sacerdotes, de escribas, de sábios, de filósofos, de cantores, de adivinhos, de instrumentistas, de dançarinos, e coisas do gênero. O autor emprega o simbolismo “pai”, para designar a condição Jubal, enquanto classe social, em relação aos indivíduos que esta classe social congrega. Em outros termos, em relação aos indivíduos profissionais da intelectualidade, que integram a categoria da corporação social constituída de indivíduos que exercem trabalho intelectual ou “artístico” .

    A Teoria da História nomeia e atribui ao trabalho intelectual ou cultural (Jubal), a noção de instrumento de arte (trombeta). Assim, ela visa ressaltar um aspecto marcante pertinente ao novo fenômeno sócio-histórico das corporações de intelectuais. Pois, estas corporações fazem uso da cultura ou “arte” como “instrumento” ou método ideológico voltado para a moldagem das condutas dos indivíduos e do controle social.

    A Teoria da História nomeia, a título de codificação, com o símbolo “Jubal”, o fenômeno sócio-histórico que consiste em corporações constituídas de intelectuais do tipo ideólogo. O sentido literal do termo “Jubal” é “trombeta”. Com este rótulo simbólico, o autor que ressaltar um significativo atributo, ou seja, uma relevante função peculiar ao citado fenômeno. A principal função exercida pela intelligentsia (a intelectualidade) é criar a visão de mundo e propagar seus valores, para a nação e respectiva formação social em que tal intelectualidade esteja inserida. Mannheim define a noção de intelligentsia nos seguintes termos:[2]

    “Em cada sociedade há grupos sociais cuja tarefa específica consiste em dotar aquela sociedade de uma interpretação do mundo. Chamamos tais grupos de intelligentsia. Tanto mais estática uma sociedade, tanto mais tende esse estrato a adquirir, nessa sociedade, um status bem definido ou a posição de uma casta. Assim os mágicos, os brâmanes e o clero medieval devem ser encarados como estratos intelectuais, cada um gozando em sua sociedade de um controle monopolístico sobre a formação da visão de mundo dessa sociedade, bem como sobre a reordenação, ou reconciliação. Das diferentes visões de mundo dos demais estratos, ingenuamente formados.”

    Do ponto de vista sincrônico, a intelligentsia desempenha, no plano intelectual propriamente dito, a função de elaborar e dar o sentido para o qual a coletividade seguirá. O grupo social constituído de políticos desempenha, no plano político, a função de decidir ou deliberar. Mas, ele o faz em favor da incrementação do sentido que o intelectual houvera inculcado, previamente, tanto nos indivíduos membros do grupo político como nos membros dos grupos econômicos (corporações mercantis e manufatureiras), e ainda no povo em geral. Enfim, os grupos sociais econômicos conduzem ou dirigem aquilo que os grupos de ideólogos projetaram (deram o sentido), e os grupos de políticos decidiram a favor da sua incrementação.

    O termo “trombeta” atribuído, simbolicamente, aos grupos de intelectuais, representa a principal função que estes grupos desempenham. E consiste nas doutrinas falseadas que a intelectualidade elabora e inculca no povo em geral. A intelectualidade hegemônica é constituída de intelectuais do tipo ideólogo-serpente. Mas, vamos encontrar o significado do símbolo “trombeta”, no emprego que Ezequiel faz acerca desse símbolo. Este grande profeta individual e intelectual tipo “árvore da vida” elabora e opera com o respectivo discurso tipo verdade. Para o referido profeta, o termo “trombeta” representa um oráculo ou palavra, que o profeta individual (filho do homem) recebe de Iahweh, com a incumbência de transmiti-lo ao povo. Oráculo ou palavra esta que consiste, por um aspecto, numa advertência (sinal ou alarme), e por outro aspecto, em preceitos doutrinários com fins reparadores (exemplo: proposta de conversão individual como único meio eficaz de “salvação” e de saída do estado de “morte”, isto é, de alienação). A “trombeta” (doutrina) é concebida, assim, como um sinal ou alarme dirigido ao povo. Para que este possa se precaver diante de uma tendência (acontecimento importante que no caso viria a ser catastrófico, isto é, a penúria do cativeiro em babilônia), que esteja em curso ou na iminência de se concretizar. Isto em decorrência de condições anteriores (o afastamento das elites dirigentes e do povo, em relação aos preceitos ditados por Iahweh), as quais produziriam tal tendência. Neste sentido, Ezequiel diz (Ez 33, 1-7):[3]

    “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: ‘Filho do homem, dirige-te a teus compatriotas e dize-lhes: Quando eu erguer a espada contra uma terra, e seus habitantes escolheram um dentre eles para se sentinela, supondo que esse homem, vendo vir a espada, faça soar a trombeta para dar alarme à população (o grifo é nosso), todo aquele que escutar o seu som sem lhe dar atenção, e então venha a espada fazer que ele pereça, esse homem é responsável por aquilo que lhe houver sucedido: ouviu o soar da trombeta, todavia não tomou precaução: é ele responsável pelo que lhe advier. Mas aquele que tomou em consideração o alarme, esse terá salva a sua vida. Supondo, ao contrário, que a sentinela veja vir a espada, não faça soar a trombeta, de sorte que o alarme não seja dado às gentes e que a espada venha tirar a vida de alguém, este, é certo, perecerá devido à sua iniquidade, mas eu pedirei conta do seu sangue à sentinela. Logo que escutares um oráculo meu, tu lhes transmitirás esse oráculo de minha parte (o grifo é nosso)”.

    Jesus emprega, também, o símbolo “trombeta”. E o faz no sentido próximo ao empregado por Ezequiel. O Mestre anuncia sua segunda vinda, a qual será sinalizada através de “anjos” (intelectuais do tipo “árvore da vida”), os quais ele enviará para esse fim. E também, para prepararem as pessoas, no sentido de capacitá-las a entender e serem receptivas à pessoa do Mestre e ao sentido original da sua doutrina. Neste sentido, vejamos (Mt 24, 27, 30-31):

    “Pois assim como o relâmpago parte do oriente e brilha até o poente, assim será a vinda do Filho do Homem e todas as tribos da terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e grande glória. Ele enviará os seus anjos que, ao som de grande trombeta, reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma extremidade até a outra extremidade do céu” (o grifo é nosso).

    Por outro aspecto, o termo “trombeta” pode representar, também, o tipo de discurso poderosamente sedutor e respectiva doutrina ideológica elaborados e propagados por intelectuais do tipo ideólogo-serpente. Ou seja, ele pode representar o tipo falseado de doutrina, isto é, ideologia. A ideologia seduz, entorpece e encadeia muitos indivíduos, e mantém-nos assim, de geração em geração.[4] Assim, ao invés de advertir os indivíduos acerca do perigo que estes possam estar passando e libertá-los desse perigo, as doutrinas (trombetas) elaboradas e propagadas por ideólogos sevem, antes, para entorpecer e alienar àqueles indivíduos. E, assim, “encadeá-los” nas respectivas consequências reais e nefastas, que tais doutrinas produzem na conduta subjetiva e na conduta objetiva do indivíduo, enfim, encadeá-los nas consequências que elas produzem no conjunto complexo da conduta individual. Neste sentido, podemos citar como exemplo de “trombeta” (doutrina ideológica), a noção de “trabalho por vocação e devoção a Deus” inventada por Lutero e aprimorada por Calvino ( Weber: A ética protestante e o espírito do capitalismo).[5] Outros exemplos de “trombetas ideológicas” são: a doutrina elaborada, registrada nas Epístolas e aplicada por Paulo de Tarso o Anticristo; os dogmas dos Padres da Igreja e os das outras religiões; as ideologias de natureza econômica-política como o neoliberalismo, o pseudocomunismo (marxismo: capitalismo de Estado), etc.

    O tipo ideológico de intelectual é hegemônico nas sociedades, desde quando este tipo conseguiu instaurar a divisão social do trabalho material e intelectual. Em razão disto, o autor da Teoria da História – cujo ponto de vista é o do grande profeta individual – atribui o símbolo “trombeta” (sentido literal do termo Jubal) às corporações constituídas de ideólogos. Mas, devemos considerar, neste caso, que a acepção do símbolo “trombeta” tem a conotação de “doutrina ideológica” (falseada). Peculiarmente elaborada e operada pelo tipo ideológico de intelectual. Desse modo, o tipo ideológico de “trombeta” (doutrina) não é, obviamente, um “oráculo” ou “palavra” de origem divina, ou seja, nem é de Iahweh que o ideólogo recebe a inspiração. Mas, são invenções elaboradas pelo próprio ideólogo, o qual visa operar com elas, para enganar, alienar e explorar suas vítimas. Essas invenções integram, entretanto, o processo dialético de produção do conhecimento e respectivas transformações sócio-históricas. Desse jeito, o sentido simbólico do termo trombeta (doutrina ideológica) empregado pelo autor da Teoria da História se insere, também, no ponto de vista diacrônico da história. Ou seja, a intelligentsia (intelectualidade) elabora e projeta “trombetas” (ideologias), que são “sinais” falseados, com vistas a provocar transformações reais existentes no devir sócio-histórico, ou melhor, com vistas a precipitar a sociedade em nefastos “abismos” ou malignos “espíritos de épocas”.

    As trocas de mercadorias consistem em interações significativas, isto é, são acompanhadas, necessariamente, de trocas simbólicas ou culturais. Quanto mais as trocas comerciais forem incrementadas, mais incrementadas serão, proporcionalmente, as trocas simbólicas, ou seja, culturais. Assim se caracteriza o tipo de cooperação que se estabelece entre as corporações que dirigem o comércio, e, os grupos que exercem trabalho intelectual ou “artístico” (sentido lato do termo). Com a hegemonia das corporações de mercadores nas cidades, estas corporações e os grupos de intelectuais do tipo ideólogo ocupam os estratos sociais superiores. Assim, ambos cooperam entre si, no domínio, alienação e exploração dos segmentos de trabalhadores e dos excedentes destes. Enquanto os comerciantes exploram o povo através do comércio, os ideólogos o alienam com suas ideologias. Assim, os ideólogos facilitam a exploração exercida pelos comerciantes e demais segmentos das elites (políticos, industriais, juristas, etc.), sobre o povo trabalhador. Comerciantes, intelectuais, políticos e industriais cooperam entre si e ocupam os extratos superiores da sociedade.

[1]. Cf. http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/04/o-mercado-macro-regional-bipolar-lamec.html (Art. 26, item 2.7.3.)

[2]. Mannheim, K. Ideologia e Utopia, p. 38. O autor da Teoria da história concebe que a divisão e oposição social do trabalho material e intelectual fora criada por iniciativa dos ideólogos-serpente, os quais se constituíram no primeiro estrato social dominante. A seguir, esse estrato social cooptou os indivíduos que exerciam atividades intelectos-sociais de direção política e “econômica” (direção da produção e a da circulação). Os quais passaram a integraram, assim também, os estratos sociais dominantes, conformando os quatro querubins: direção ideologia, direção política, direção da produção e direção da circulação, e os respectivos quatro grupos sociais (rodas) que os exercem. Querubins e rodas estas que se articulam entre si, na superestrutura social, em agrupamento operatório sobre sua base social constituída dos segmentos que exercem trabalho material e serviços práticos subalternos. Enfim, assim articulados entre si, os quatro querubins e respectivas “roda” dirigem, submetem e exploram os segmentos trabalhadores, e a sociedade em que eles estejam inseridos. Nesse contexto, concebemos a noção de intelligentsia proposta por Mannheim mais adequada que a noção de “intelectual orgânico” em Gramsci. Esta noção deve ser empregada com cautela. Pois, ela concebe, equivocadamente, o grupo que dirige a produção como “fundamental” e dotado de poder mais proeminente que o grupo de intelectuais ideólogos, e estes ela concebe como meros “comissários”, isto é, subalternos aqueles. Cf. Gramsci. A. Os intelectuais e a organização da cultura, p. 11: “Os intelectuais são os ‘comissários’ do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso ‘espontâneo’ dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce ‘historicamente’ do prestígio (e, portanto da confiança) que o grupo dominante obtém, por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparato de coerção estatal que assegura ‘legalmente’ a disciplina dos grupos que não ‘consentem’, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade, na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais fracassa o consenso espontâneo”. No contexto social dos quatro querubins e respectivas “rodas” (grupos sociais), a reprodução do status quo pode ser bem pensada nos termos da noção de habitus concebida por Pierre Bourdieu e reproduzida em Pierre Bourdieu – Sociologia, Coleção grandes cientistas sociais, p. 60-61: “Assim, o objetivismo metódico que constitui um momento necessário de toda pesquisa, a título de instrumento de ruptura com a experiência primeira e da construção das relações objetivas, exige sua própria superação. Para escapar ao realismo da estrutura, que hipostasia os sistemas de relações objetivas convertendo-os em realidades já constituídas fora da realidade do indivíduo e da história do grupo, é necessário e suficiente ir do opus operatum ao modus operandi, da regularidade estática ou da estrutura algébrica ao princípio de produção dessa ordem observada e construir a teoria da prática ou, mais exatamente, do modo de engendramento das práticas, condição da construção de uma ciência experimental da dialética da interioridade e da exterioridade, isto é, da interiorização da exterioridade e da exteriorização da interioridade. As estruturas constitutivas de um tipo particular de meio (as condições materiais de existência características de uma condição de classe), que podem ser apreendidas empiricamente sob a forma de regularidades associadas a um meio socialmente estruturado, produzem habitus, sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente”.

[3]. Dicionário Prático, adendo à Bíblia Sagrada traduzida pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo, p. 274: Trombeta, Clarim. Instrumento musical. Essa palavra nas nossas versões da Bíblia serve para traduzir qualquer uma das diversas palavras hebraicas das quais a mais comum é shofar, inicialmente simples chifre de carneiro, mas frequentemente feito de madeira, e a trombeta reta (chatsotserah), que era em geral, de metal. Ambas eram usadas na guerra para dar sinais, etc., mas a última quase que era só restringida ao uso nas cerimônias do Templo (1 Par 16, 6; 2 Par 29, 26-28, etc.). A primeira, em hebraico shofar, era assim chamada por causa do seu som ‘brilhante’ ou claro como o português clarim (2 Sam 6, 15; 1 Par 15, 28). O mais célebre uso de trombeta no Antigo Testamento, aparece na tomada de Jericó (Jos 6, 4-20). O som da trombeta deve anunciar a 2ª vinda de cristo e a ressurreição dos mortos (Mt 24, 31). Na visão de São João, soavam as trombetas antes de cada desastre ou acontecimento importante (Ap 8, 2, 6-8. 10, 12; 9, 1, 13; 10, 7).

[4]. É oportuno focalizamos a importância de alguns dos aspectos pertinentes à noção de trombeta no sentido de ideologia. Um desses aspectos corresponde, em outros termos, à noção de “definição da situação” ou “profecia que se cumpre por si mesma”, segundo terminologia empregada por Merton, R. K., em Sociologia – Teoria e Estrutura, p. 515, e atribuída a W. I. Thomas. Estas expressões dizem que “se os indivíduos definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências”.

   Foucault, M., em Microfísica do Poder, p. 7, adverte quanto à utilização da noção de “ideologia”: “A noção de ideologia me parece dificilmente utilizável por três razões. A primeira é que queira-se ou não, ela está sempre em oposição virtual a alguma coisa que seria a verdade. Ora, creio que o problema não é de se fazer a partilha entre o que num discurso revela de cientificidade e de verdade e o que revelaria de outra coisa; mas de ver historicamente como se produzem efeitos de verdade no interior de discursos que não são em si nem verdadeiros nem falsos. Segundo inconveniente: refere-se necessariamente a alguma coisa como o sujeito. Enfim, a ideologia está em oposição secundária com relação a alguma coisa que deve funcionar para ela como infra-estrutura ou determinação econômica, material, etc. Por estas três razões creio que é uma noção que não pode ser utilizada sem precauções”. A noção de ideologia pensada como uma “definição da situação”, elaborada, ainda que falsamente, por um ideólogo e num indivíduo de senso comum, produz efeitos de verdade, isto é, consequências reais no campo subjetivo da conduta individual, e assim este campo motiva o campo objetivo da conduta do mesmo indivíduo. Assim, a “ideologia” ou “definição da situação” funciona como que uma prisão ou cadeia, no interior da qual o indivíduo manifesta sua vida. Neste sentido, Marx em “Ideologia Alemã emprega, fartamente, a noção de “cadeia”, por exemplo (p. 28): “É evidente por si mesmo que ‘fantasmas’, ‘laços’, ‘essência  superior’, ‘conceito’ são apenas a expressão mental idealista, a representação aparente, do indivíduo isolado, a representação de cadeias e de limites muito empíricos, dentro dos quais se movem o modo de produção da vida e a correspondente forma de relações (o grifo é nosso)”. No mesmo sentido e livro, confira nas páginas 13, 14, 79, 82; confira, ainda, Marx, K., em “Marx – Sociologia”, Coleção grandes cientistas sociais, p. 25.

   No sentido próximo ao de “prisão”, vejam Berger, P., em Perspectivas Sociológicas, p. 156, 158. Ele chama de “cavernas quentes” (“quentes”, no sentido de alienantes e assim aconchegantes), os sistemas religiosos e rituais sociais, os quais fornecem-nos um “mundo aceito sem discussão”: “a sociedade nos oferece sistemas religiosos e rituais sociais, que nos livram de tal exame de consciência. O ‘mundo aceito sem discussão’, o mundo social que nos diz que tudo está bem, constitui a localização de nossa inautenticidade (…) A sociedade nos oferece cavernas quentes (o grifo é nosso), razoavelmente confortáveis, onde podemos nos aconchegar a outros homens, batendo os tambores que encobrem os uivos das hienas na escuridão. ‘Êxtase’ é o ato de sair da caverna, sozinho, e contemplar a noite”.

   Alguns dos grandes profetas individuais, Jesus e alguns dos apóstolos conheciam o efeito de “prisão” ou “cadeia” (“verdade” ou consequências reais) produzido pela ideologia no indivíduo em que esta esteja inculcada. Eles davam nomes variados ao que chamamos de ideologia ou definição da situação, mas ressaltando o aspecto de cadeia pertinente ao discurso ideológico: “cavernas dos rochedos” (Is 2, 10, 19, 21; 7, 19); “cárcere ou prisão das trevas” (Is 42, 7; 49, 9); “caminho escuro privado de luz” (Is 50, 10); “prisão” (Is 61, 1); “esconderijos” (Jr 4, 29-b); “caminho escorregadio nas trevas” (Jr 23, 12); “cavidade dos rochedos” (Jr 49, 16); “cadeia” (Ez 7, 23); “montanhas ou colina com as quais as pessoas se cobrem” (Os 10, 8-b); “trevas exteriores” (Mt 8, 12; 22, 13; 25, 30); “trevas” (Jo 1, 5; 3, 19; 8, 12; 12, 46); “sepulcro” (Jo 5, 28).

[5]Lutero desempenhou o papel sócio-histórico, que Jesus prognosticara e revelara ao João, o discípulo que o Mestre amava, e que este discípulo registrara no livro “Revelação” (Cf Ap 9, 1-11). Trata-se do “importante e singular papel sócio-histórico desempenhado por uma “estrela” (intelectual ativo) do tipo ideólogo. O qual “cai”, isto é, advém, do “céu”, ou seja, do campo do conhecimento (campo no qual se exerce trabalho intelectual). Papel sócio-histórico ao qual coube a função de elaborar e disseminar uma poderosa doutrina ideológica (trombeta). Doutrina esta que desempenha a função sócio-histórica de “chave”: instrumento ou método ideológico de intervenção na realidade sócio-histórica: trabalho por devoção, isto é, o cerne da ética protestante, o qual se tornou na cultura ou “espírito” do capitalismo. Ou seja, um sui generis tipo de racionalização baseada em cálculos sistemáticos, e voltada para a maximização insaciável da produção capitalista e respectivos lucros que esta pode gerar (Cf. Weber, M. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, p. 4-5, 39, 54-58). Por outro aspecto, esse tipo de racionalização consiste num instrumento ideológico ou “chave” que foi empregado como meio que possibilitaria “abrir” (tornar possível acessar, adentrar e empreender), a incrementação ou progressão da submissão dos indivíduos com relação ao “abismo”. Este símbolo representa a instituição social do processo de produção agrícola e notadamente industrial e respectiva relações sociais, enfim, representa a relações sociais de produção capitalista. O Mestre nomeou o papel sócio-histórico que viria a ser desempenhado por Lutero, com o termo “Abadom”, que em hebraico quer dizer “ruína, morte”, ou seja, anjo do abismo insondável, e em grego quer dizer “Apolion” (Cf. Dicionário Prático, adendo à Bíblia Sagrada traduzida pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo).