O MERCADO GLOBAL LAMEC PRÉ E PÓS-DILUVIANO, SUA FASE DE DEPRESSÃO NOÉ E A DIVISÃO TRIPARTITE DO MERCADO GLOBAL: SEM, CAM E JAFET

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

Livro: Teoria da História (Art. 47, 3.5.1; 3.5.2., p. 246-252) www.tribodossantos.com.br

   Algum tempo após o início da depressão Noé e antes do esfacelamento diluviano, o grande mercado global pré-diluviano ou Pré-II Período Intermediário já mostrava apenas alguns indícios de sua gradual e ulterior fragmentação em três grandes mercados macro-regionais. Indícios estes representados no nascimento dos três filhos de Noé (Cf, Gn 5, 32): o mercado macro-regional constituído pelo mesopotâmico e adjacências representado no signo “Sem”; o mercado macro-regional constituído pelo Egito e adjacências representado no signo “Cam”; o mercado macro-regional integrado pelas ilhas e costas do Mediterrâneo representado no signo “Jafet”.

3.5.2. O início da fragmentação tripartite do mercado global pré e pós-diluviano

   O contexto inicial do agravamento da recessão seguida de depressão e da fragmentação do grande mercado global pré-diluviano (= Pré-II Período Intermediário) é homólogo ao que hoje se desponta para nós. Vimos a formação e ascensão da fase da bipolarização (relações totêmicas) do sistema capitalista de produção global (os “dois chifres da besta que sobe da terra”). Ou seja, dois pólos extremos, opostos e complementares entre si: de um lado, os Estados Unidos, isto é, a hegemonia da burguesia operando como o seu capital privado, e de outro lado, a União Soviética, isto é, a hegemonia do corpo burocrático do Estado operando com o capitalismo de Estado. Esse quadro se homologava, escalonadamente, em cada nação, com maior ou menor hegemonia, de um ou de outro lado.[1]

    Após ao encerramento do quadro acima indicado, vimos a ascensão da hegemonia unilateral dos Estados Unidos. Hoje, os economistas, políticos e empresários espertos em economia-política internacional fazem prognósticos, diante do evento do início da queda da hegemonia unilateral norte americana. Queda esta decorrente da recessão econômica internacional observada, em meados de 2008, a qual partira dos Estados Unidos. Esses observadores espertos especulam acerca dos novos rumos da macroeconomia e da política internacional, e acerca das formas como a crise pode afetar cada unidade nacional e macro-regional. Eles avaliam, ainda, as formas possíveis dessas nações, macro-regiões e mesmo uma ação articulada globalmente reagirem diante da crise.
Na prática, os poderosos grupos de interesses multinacionais e locais vêm empreendendo medidas paliativas, visando salvaguardar seus respectivos interesses. Entre os diversos prognósticos elaborados e apresentados, acerca da fase ulterior à queda da hegemonia unilateral que os norte americanos vêm exercendo sobre o grande mercado global, podemos constatar aquele que focalizou a fragmentação desse grande mercado. Fragmentação esta que os observadores espertos rotularam, por um aspecto, de multipolar (três, quatro, cinco ou mais polos de mercados macro-regionais hegemônicos à nível mundial), e por outro aspecto, de multibilateral (múltiplos mercados macro-regionais, cada qual bipolarizado).[2] Essas preocupações rondam os pensamentos desses observadores. Elas são fortes indícios, da proximidade da concretização da fragmentação do grande mercado global pós-diluviano, que é prevista na Teoria da História.

    O autor da Teoria da História prevê, diante do grave e irreversível quadro da depressão Noé do grande mercado global, a fragmentação tripartite deste grande mercado. Pois, conforme ocorrera na fase pré-diluviana, o grande mercado global fragmentara-se em três grandes configurações espaciais: Sem, Cam e jafet. O referido autor explica a crise Noé como decorrente do esgotamento e consequente “repouso” ou “descanso” – eis o significado do símbolo “Noé” – das forças produtivas. Assim, “Noé” é o nome que ele atribui à fase de depressão grave e irreversível do grande mercado global.

    Na base do processo de expansão e complexidade do grande mercado, podemos observar dois aspectos relevantes. Por um aspecto, está o processo de incrementação da exploração dirigida pelas elites dominante, sobre o Trabalho Natura-Social, isto é, o Criador de todas as coisas. O qual pode ser pensado como sendo as forças do trabalho humano e as forças do trabalho exercido pela natureza. Incrementação da exploração essa que corresponde à intensificação da capacidade do exercício dessas forças. Por outro aspecto, está o processo de complexidade da divisão social do trabalho (cooperação), que contribui para a exploração e respectiva intensificação das potencialidades das forças de trabalho humano.

    As elites dominantes dirigem de modo exacerbado e descabido a incrementação da exploração e respectiva intensificação das potencialidades acima indicadas. Elas procedem desse modo, objetivando o aumento da produtividade, o respectivo consumo privilegiado, e os concernentes lucros auferidos com a mercantilização da respectiva produção. Além da coerção física, elas empregam, necessariamente, meios ideológicos. Ou seja, elas disseminam seus padrões de valor, através da mídia que detêm e controlam, para os demais estratos sociais, passando pelas classes médias até as camadas mais baixas e miseráveis. Desse modo, as elites dominantes induzem os indivíduos a atuarem no sentido de aderirem e se empenharem, com suas respectivas forças de trabalho, no processo insaciável tanto de sobretrabalho como de sobreconsumo. Em outros termos, as elites dominantes induzem os indivíduos a realizarem dispêndio supérfluo (conspícuo) de energias, e consumo também conspícuo de produtos. É óbvio que a realização do sobreconsumo pode não corresponder às expectativas esperadas, segundo o quanto de energia que o indivíduo tenha aplicado, diligentemente, no exercício do seu sobretrabalho. Ou pode se realizar de modo precário, e assim exigir, insaciavelmente, maior dispêndio de energia. Isto acontece, notadamente, entre os indivíduos membros dos seguimentos pobres trabalhadores, mas afeta, também, os indivíduos membros dos estratos médios.[3]

    Os indivíduos membros das elites dominantes ou “classes ociosas” (que ocupam o topo da estrutura social) estão com o espírito do capitalismo neles inculcado. Assim, eles atuam baseados em cálculos metódicos, acompanhados de agonizante ânsia, voltados para a realização de insaciáveis lucros, acumulação de riqueza e de poder. Os seus cálculos metódicos levam em consideração “a vida de ócio ostensivo, a qual deve ser corretamente conduzida”. Eles empregam, de modo sistemático e massificado, a mídia, para exaltar e disseminar seus padrões de valor, que são essencialmente consumistas, e que valorizam, também, o sobretrabalho como meio necessário para a realização do sobreconsumo. Neste sentido, eles forjaram o “sonho americano” do “consumo conspícuo”. Veblen observou e descreveu, claramente, o empenho exercido pela “classe ociosa”, no sentido de influenciar, coercitivamente, que seus padrões de valor fossem inculcados nos indivíduos membros das camadas médias e inferiores:[4]

   “A classe ociosa está no topo da estrutura social em matéria de consideração; e seu modo de vida, mais os seus padrões de valor, proporcionam à comunidade as normas de boa reputação. A observância desses padrões, em certa medida torna-se também incumbência de todas as classes inferiores da escala. Nas modernas comunidades civilizadas, as linhas de demarcação entre as classes sociais se tornaram vagas e transitórias, e onde quer que isso ocorra, a norma da boa reputação imposta pela classe superior estende a sua influência coercitiva, com ligeiros entraves, por toda a estrutura social, até atingir as camadas mais baixas. O resultado é os membros de cada camada aceitarem como ideal de decência o esquema de vida em voga na camada mais alta logo acima dela, ou dirigem as suas energias a fim de viverem segundo aquele ideal. Sob pena de perder seu bom nome e respeito próprio em caso de fracasso, devem eles pelo menos na aparência, conformar-se com o código aceito”.

   O sonho americano do consumo conspícuo foi difundido pela rede global de mercado e respectivas trocas simbólicas ou culturais. O sobretrabalho indispensável para a realização do “sonho americano” e o respectivo consumo conspícuo precipitaram tanto o esgotamento das forças de trabalho como a degradação (exploração) do meio ambiente. Esse esgotamento vem se refletindo nos indivíduos, suscitando neles o ceticismo com referência aos valores ainda eleitos e disseminados, sistemática e massificadamente, pelas elites, sobretudo através dos meios de comunicação. Estando as forças de trabalho humano e natural esgotadas, elas exigem repouso (Noé) para si próprias. Esse fenômeno sócio-ecológico ocorre, precisamente, quando o processo de expansão e complexidade do grande mercado atingem os seus limites. Limites estes alcançados nas décadas 70-80 do século passado, quando o grande mercado global chegou ao seu ápice.

    O sobretrabalho e respectivo consumo conspícuo consistem, por um aspecto, em exemplos de eventos sócio-históricos atinentes ao processo de expansão e complexidade do grande mercado. Assim, esses exemplos de eventos sócio-históricos se inserem na sócio-história concebida pela perspectiva da longuíssima duração. Por outro aspecto tal expansão e complexidade se manifestam no campo geográfico. Milton Santos houvera observado que o transcurso sócio-histórico deve levar em consideração tanto a escala de espaço como a escala de tempo. Ele afirmava ser uma ilusão supor que uma sociedade inteira funcionasse segundo uma única unidade de tempo. Senão, vejamos:[5]

    “Espaço atual e tempo atual se completam, mas também estão em contradição. De outra maneira não poderiam evoluir. Somente a partir da unidade do espaço e do tempo, das formas e do seu conteúdo, é que se podem interpretar as diversas modalidades de organização espacial. Para tanto, é necessário levar em conta dois dados que são deixados muito frequentemente de lado nos estudos geográficos. Muito se fala da escala do espaço e jamais na escala do tempo. Ora, a palavra, mesmo tratando-se do espaço tem um conteúdo temporal. Em segundo lugar, o tempo é tomado como algo de maciço, uno, apenas fisicamente divisível, o tempo do relógio. E quando se fala de tempo social é frequente a ilusão de pensar que uma sociedade inteira funciona segundo uma única medida de tempo”.

[1] Cf. Totemismo na sociedade complexa. O materialismo dialético e sua tipologia dualista (Art. 34, 8.1.;8.2., p. 199-205): http://tribodossantos.blogspot.com.br/2012/12/totemismo-na-sociedade-complexa.html

[2] Cf. Seminário internacional: Crise: rumos e verdades, www.crise.pr.gov.br

[3] Cf. Veblen, T. A teoria da classe ociosa, p. 86-89.

[4] Idem, p. 87.

[5] Santos, M. Espaço e Sociedade, p. 43.