O limite da globalização e da alienação do indivíduo – O início da fase Noé de regressão

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Livro: Teoria da História (Art. 1: Intr. P. 10-14)  www.tribodossantos.com.br

   É oportuno tecermos alguns comentários a respeito de determinados aspectos do contexto em que elaboramos a obra Teoria da História[1] e também o texto teatral Tribo dos Santos[2]. Aliás, as hipóteses que nortearam nossas pesquisas e as constatações que chegamos, as quais estão expostas aqui, servem para embasar teoricamente o referido texto para teatro.

    De modo geral, os indivíduos vêm sendo assolados pela globalização, sobremodo àqueles que vivem nas camadas pobres dos países periféricos, a exemplo do Brasil. A globalização é liderada pelas elites dos países membros do centro dinâmico do sistema capitalista (Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Japão, etc.), que têm as elites dos países periféricos como suas aliadas. Na era da globalização, esse conjunto de elites vem produzindo nefastas consequências, com muita eficácia, sobretudo operando com a categoria de conhecimentos desenvolvidos, peculiarmente, no bojo da trajetória da formação, da ascensão e do atual pleno domínio empreendido pela burguesia: a ciência e a tecnologia. Nefastas consequências como: aceleração da alta concentração de poder e riquezas nas mãos de uma ínfima minoria de indivíduos gananciosos, e do aumento da enorme massa de pobres e miseráveis; haver levado ao extremo o estado de alienação e prostração dos indivíduos em geral; incremento dos mecanismos de produção e administração da violência, operados como meio de moldagem de conduta, mobilização e controle social; aceleração da degradação das condições de vida no planeta; etc.

    O processo de expansão do grande mercado, da respectiva forma capitalista de produção e do sistema financeiro multinacional chegou ao seu limite nas décadas 70-80. David Harvey observou, entre outros aspectos, que esse limite caracterizou-se pelo auge da crise do modelo de regime rígido de racionalização e acumulação do tipo fordista. E, pela passagem para um regime de acumulação capitalista inteiramente novo, associado a um sistema de regulamentação política e social bem distinta, que ele chamou de regime de acumulação flexível:

“A profunda recessão de 1973 (…) retirou o mundo capitalista (…) da estagnação da produção de bens e alta inflação de preços e pôs em movimento um conjunto de processos que solaparam o compromisso fordista. Em consequência, as décadas 70 e 80 foram um conturbado período de reestruturação econômica e de reajuste social e político… No espaço social criado por todas essa oscilações e incertezas, uma série de novas experiências nos domínios da organização industrial e da vida social começou a tomar forma. Essas experiências podem representar os primeiros ímpetos da passagem para um regime de acumulação inteiramente novo, associado a um sistema de regulamentação política e social bem distinta. A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado ‘setor de serviços’, bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas… Ela também envolve um novo movimento que chamarei de ‘compressão do espaço-tempo’ (…) no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via satélite e a queda dos custos de transporte possibilitam cada vez mais a difusão imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variado. Esses poderes aumentados de flexibilidade e mobilidade permitem que os empregadores exerçam pressões mais fortes de controle do trabalho sobre uma força de trabalho (…), força que viu o desemprego aumentar nos países avançados (…) para níveis sem precedentes no pós-guerra. O trabalho organizado foi solapado pela reconstrução de focos de acumulação flexível em regiões que careciam de tradições industrial anteriores e pela reimportação para os centros mais antigos das normas e práticas regressivas estabelecidas nessas novas áreas. a acumulação flexível parece implicar níveis relativamente altos de desemprego (…), rápida destruição e reconstrução de habilidades, ganhos modestos (quando há) de salários reais (…) e o retrocesso do poder sindical…”[3]

   Durante o período que compreende o início a crise do regime fordista de acumulação até hoje, o desenvolvimento de sofisticados conhecimentos vem sendo incrementado, nas áreas da ciência e da tecnologia. Estes conhecimentos são aplicados como meios recalcitrantes de resistência aos anseios por justiça social, e para a manutenção da injusta forma que a sociedade se apresenta[4]. Meios recalcitrantes esses voltados, principalmente, para a moldagem das condutas dos indivíduos, de modo extremamente alienado. Desse modo, objetiva-se o controle e a mobilização social. Entre esses meios, destacamos a ditadura midiática, sendo operada com grande eficácia e articulada ao conjunto dos dispositivos que Adorno e Horkheimer chamam de indústria cultural[5]. Esse conjunto de dispositivos é articulado a uma série de instituições totais ou coercitivas (órgãos militares, paramilitares, policiais, prisões, etc.). Formam-se, assim, os mecanismos de produção e administração da violência ou violência show, eficacíssimo meio de moldagem da conduta individual – segundo o tipo violento e corrupto – e de controle e mobilização social.

    Não é de pouca importância o motivo que tem levado o conjunto das forças reacionárias exacerbarem no sentido de sua auto-conservação. O grande mercado global ao atingir seu limite de expansão, nas décadas 70-80, reagiu engendrando o novo regime flexível de acumulação e o sistema financeiro desregulamentado, autônomo e unificado globalmente. Porém, o grande mercado global engendrou, por dentro de si mesmo, também, durante essas mesmas décadas, sua fase “Noéde depressão. A qual é caracterizada como um processo prolongado e irreversível, que se agrava progressivamente, e que culmina com uma grave, generalizada e prolongada convulsão social, e que finda com a completa extinção do grande mercado global. A fase Noé iniciou-se com aspectos recessivos dissimulados pela acumulação flexível, que criou um vasto movimento no emprego no “setor de serviços”, etc. Ela apresenta, hoje, o grande mercado global já entrando no período flagrantemente caracterizado pelo aspecto depressivo. Este contexto caminha para um acentuado agravamento das contradições sociais geradas pelo mercado, e uma decorrente convulsão social, igualmente grave e prolongada. Pois, o sistema capitalista é peculiarmente um modo insaciável de acumulação de poder e de riqueza. Assim, ele vem engendrando, necessária e irreversivelmente, a catástrofe que acima indicamos. Tipo de catástrofe esta que os pensadores do mundo antigo chamaram de “dilúvio”. Nas décadas 70-80, portanto, a era Pós-moderna teve início, e junto com ela ocorreu também o início do fim da era Pós-diluviana: um novo “dilúvio” (= II Período Intermediário) se aproxima e uma nova era desponta.

[1] http://tribodossantos.com.br/pdf/Teoria%20da%20Hist%C3%B3ria%20-%20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

[2] http://tribodossantos.com.br/pdf/Tribo%20dos%20Santos.pdf 

[3] Harvey, D. Condição pós-moderna – Uma Pesquisa sobre as Origens da Mudança Cultural, p. 140-141.

[4] Adorno T. W. / Horkheimer, M. Dialética do Esclarecimento, p. 14-15: “O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos (…) Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor que nunca provido por ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela destinados. A elevação do padrão de vida das classes inferiores, materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se na difusão hipócrita do espírito. Sua verdadeira aspiração é a reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizado em um bem cultural e distribuído para fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo”.

[5] Idem, p. 16, 114, 127: “O segmento sobre a ‘indústria cultural’ mostra a regressão do esclarecimento à ideologia, que encontra no cinema e no rádio sua expressão mais influente. O esclarecimento consiste aí, sobretudo, no cálculo da eficácia e na técnica de produção e difusão. Em conformidade com seu verdadeiro conteúdo, a ideologia se esgota em idolatria daquilo que existe e do poder pelo qual a técnica é controlada (…) Sob o poder do monopólio, toda cultura de massa é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem (…) Mas o que é novo é que os elementos irreconciliáveis da cultura, da arte e da distração se reduzem mediante sua subordinação ao fim de uma única fórmula: a totalidade da indústria cultural. Ela consiste em repetição”.