Tribo dos Santos – O nascimento de Noé e a parousia na genealogia de Adão. Drama sócio-histórico transcorrido em tempo muito longo

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Tribo dos Santos – O nascimento de Noé e a parousia na genealogia de Adão. Drama sócio-histórico transcorrido em tempo muito longo[1] www.tribodossantos.com.br

         Na forma de drama, não é novidade apresentarmos a história dos sucessores de Adão, registrada no livro Gênese, os quais protagonizam muitas das principais personagens. Pois, o autor do livro “Henoc”, escrito no III século a.C, já houvera dramatizado a referida história. A novidade do presente texto é apresentar o drama por que vem passando a humanidade, descrito no livro Gênese, segundo a história dos sucessores de Adão, na forma de texto para peça teatral.

          Focalizamos alguns dos principais aspectos do drama que o referido autor também focalizou, mas excluímos muitos outros. E, centralizamos nosso foco em outros tantos aspectos por ele não abordados, sobretudo, correlacionamos cada sucessor de Adão com a respectiva realidade sócio-histórica que ele representa.

          Tanto o autor do livro de “Henoc” como no presente texto, a teoria da genealogia de Adão é aplicada como método de interpretação do desenrolar da realidade histórica pós-diluviana em tempo muito longo. Enquanto que a referida teoria registrada no livro gênese foi elaborada por antigos pensadores pré-diluvianos, que a abstraíram deste seu contexto histórico.

          O presente texto subdivide-se em quatro partes, mais o epílogo.

          PRIMEIRA PARTE – Sucessiva auto-apresentação de cada um dos oito primeiros sucessores de Adão. Alguns entram em cena dançando com os respectivos grupos se dança. Cada sucessor de Adão corresponde a uma das oito subsequentes etapas do processo de expansão do Grande Mercado pós-diluviana (= Pós-II Período Intermediário egípcio). Seis destas são sucessivas escala imperial: Set (Novo Império Egípcio); Enos (Império Assírio); Cainan (Império Babilônico Caldeu); Malaleel (Império Persa); Jared (Império Helenístico); Henoc (Império Romano). Cada um dos oito sucessores de Adão é personificado por um tipo que lhe é característico. Set é o Novo Império Egípcio, e se apresenta personificado na figura de um faraó… Henoc é o Império Romano, e se apresenta personificado na figura de um imperador romano, e assim por diante. Quando Henoc vai concluindo sua auto-apresentação, entra em cena, espetacularmente, o Escolhido de Deus. Este chega dançando rock animadamente e acompanhado de seus seguidores (dançarinos). O Escolhido trava caloroso debate contra Henoc e outro personagem chamado Fariseu, visando libertar os indivíduos, que vinham sendo oprimidos sob as seis sucessivas escalas imperiais. Por fim, todos saem de cena e prossegue a auto-apresentação, com o sétimo sucessor de Adão, Matusalém (a poderosa Igreja e o respectivo regime feudal). Este correspondeu à etapa de transição, não mais baseada na cidade-estado, mas sim numa vasta área de campo, cuja função foi operar a transposição da expansão do grande mercado, que vinha transcorrendo em escalas imperiais, para fazê-lo ascender à subsequente escala global. Assim, segue-se a auto-apresentação do oitavo sucessor de Adão, Lamec (o Besta Mercado Global).

          SEGUNDA PARTE – É focalizada a “gangue dos quatro gigantes de nossa era”, ou seja, grandes, poderosas e ricas entidades coletivas, que embora criadas pelos homens, tornaram-se autônomas e opressoras dos indivíduos. O primeiro chama-se Matusalém, a Igreja, que teve origem na época feudal; o segundo é Lamec, o Besta Mercado Global. Os dois outros gigantes se desenvolveram no bojo deste. São eles: o Fero Capitalismo Industrial e a Imagem ou equivalência em valor do Besta mercado global, isto é, o Sistema Financeiro Autônomo Único Global. Os quatro gigantes dialogam entre si, vangloriando-se por submeterem os indivíduos e devastarem a natureza, sem encontrarem grandes resistências. Pois, eles mantêm esses indivíduos alienados, submissos e adorando seus próprios algozes. Os quatro comemoram festivamente essas vitórias, ao som de alegre música clássica.

          TERCEIRA PARTE – Entra em cena a jovem e graciosa Noé, filha de Lamec e a nona sucessora de Adão. Ela entra repentinamente e dançando funk, e toda de preto como os Black Blocs. Assim, interrompe a comemoração dos quatro gigantes. Noé sustenta intenso embate ideológico contra os quatro. E, afirma ter nascido nas décadas 70-80, ou seja, na mesma época em que surgiu o regime flexível de acumulação capitalista, e também a Imagem do Besta (Sistema Financeiro Autônomo Único Global), Enfim, ela diz ter nascido no contexto em que teve início a era Pós-Moderna. A jovem afirma, ainda, que o seu nascimento corresponde ao limite de expansão do grande mercado, e que ela acompanhará seu pai, Lamec, até ao fim deste, no subsequente, longo, grave e irreversível processo de depressão. O qual é acompanhado de profunda e generalizada convulsão social e desastres ecológicos. Ela anuncia que o seu nascimento é seguro indício histórico da proximidade da segunda vinda do Escolhido. O qual auxiliará todo indivíduo que se esforçar, no sentido de se libertar do estado de submissão, alienação e exploração, em que é mantido pelos quatro gigantes. Por fim, ela anuncia que o Escolhido e seus fiéis seguidores dominarão os quatro gigantes, e inaugurarão uma nova forma de estrutura social, justa, fraterna e radicalmente pacifista: a Tribo dos Santos. A jovem sai de cena, e os gigantes dão continuidade à comemoração que faziam.

          QUARTA PARTE – Ocorre a apresentação da segunda vinda do Escolhido e a preparação para o Armagedom. Ele e seus seguidores entram em cena dançando rock animadamente, sob sucessivos flashes de luz. Desse modo eles interrompem a comemoração dos quatro gigantes. O Escolhido trava intenso embate ideológico contra os quatro. Ambos os lados buscam conquistar a opinião do público. Encerra-se o embate e fecham-se as cortinas.

          EPÍLOGO – Noé entra em cena segurando um livro, e lê o trecho do Apocalipse que descreve a vitória do Escolhido, o Cordeiro de Deus, sobre os quatro gigantes. O Escolhido retorna à cena e convida o público a ajudá-lo combater os quatro monstros. Noé proclama: “eu convido todos para prepararmos as Bodas do Cordeiro! A inauguração da Tribo dos Santos!” Ouve-se música alegre e todo o elenco retorna ao palco, cantando e dançando. O Escolhido abraça a jovem Noé, e as cortinas vão sendo fechadas.

   PRIMEIRA PARTE – Os primeiros oito sucessores de Adão e as correspondentes oito etapas do processo geral de expansão e complexidade do grande mercado.

 

  1. Auto-apresentação dos cinco primeiros sucessores de Adão (Set, Enos, Cainan, Malaleel e Jared). Os quais correspondem, simultaneamente, aos cinco primeiros sucessivos grandes impérios pós-diluvianos (= Pós-II Período Intermediário), e às respectivas cinco etapas de expansão e complexidade do grande mercado dessa era.

1ª CENA / 1º sucessor de Adão – Set, ou seja, o Novo Império Egípcio personificado na figura de um faraó, entra em cena, dançando junto a duas dançarinas. Estas se retiram ao cessar a música e respectiva dança. Set se dirige ao público, com ar de faraó. Este também sairá de cena, ao concluir a sua fala.

SET – Chamo-me Set, o primeiro na genealogia de Adão, da era pós-diluviana. Sou o Novo Império Egípcio. A primeira grande escala imperial pós-diluviana de expansão do grande mercado. Servi-lhe rompendo barreiras comerciais, para garantir a circulação de mercadorias. Assim, submeti e englobei fenícios, cananeus, sírios, hititas e assírios. Meus domínios estendiam-se do Eufrates às longínquas cataratas do Nilo!

2ª CENA / 2º sucessor de Adão – Enos, o Império Assírio personificado na figura típica de um imperador assírio. Ele entra dançando junto a duas dançarinas, enquanto Set conclui sua fala e vai deixando o palco. A seguir, a música e respectiva dança cessam. As dançarinas que acompanham Enos, retiram-se, então, Enos se dirige ao público. Enos sairá de cena assim que encerrar a sua fala.

ENOS – Meu nome é Enos, o segundo sucessor de Adão. Sou o Império Assírio, a segunda grande escala imperial de expansão do grande mercado. Enquanto eu imperava, só a cidade Nínive brilhava. Destruí todas cidades que se insubordinaram! Dirigi o grande mercado a ferro e fogo, englobando uma área maior do que a do meu pai, Set. Subjuguei e englobei o próprio Egito!

3ª CENA / 3º sucessor de Adão – Cainan, o Império Babilônico Caldeu personificado na figura típica de um imperador babilônico. Ele entra dançando junto a duas dançarinas, enquanto Enos conclui a sua fala e sai de cena. A seguir, a música e respectiva dança cessam. As dançarinas que acompanham Cainan, então, saem do palco. Cainan apresenta-se ao público. Ele sairá de cena, assim que concluir o que tem a dizer.

CAINAN – Eu me chamo Cainan, filho de Enos e neto de Set. Eu reuniu, na grande cidade Babilônia, as elites de todos os povos que conquistei. Descobri os segredos da astrologia e dos signos, e os ensinei a todos os povos. Através de mim, o grande mercado expandiu-se e dirigiu uma área maior ainda do que a do meu pai, Enos!

4ª CENA / 4º sucessor de Adão – Malaleel, o grande Império Persa personificado na figura típica de um imperador persa. Ele entra dançando com duas dançarinas, enquanto Cainan encerra a sua fala e vai saindo de cena. A seguir, a música e respectiva dança cessam, e as dançarinas que acompanham Malaleel, então, retiram-se. Malaleel fala ao público. ele deixará o palco, ao encerrar sua fala.

MALALEEL – Sou Malaleel, o quarto na genealogia de Adão. Sou o grande Império Persa, e a quarta escala de expansão do grande mercado. Ao ao qual servi: rompendo barreiras comerciais; abrindo estradas; aprimorando a administração das províncias. Expandi meu Império, a uma dimensão maior ainda que a de Cainan. Eu reuni o maior tesouro do Mundo Antigo!

5ª CENA / 5º sucessor de Adão – Jared, o grande Império Helenístico personificado no imperador Alexandre o Grande. Ele adentra ao palco, dançando junto com duas dançarinas, enquanto Malaleel conclui o que dizia e sai de cena. A seguir, a música e respectiva dança cessam, as dançarinas que acompanham Jared, então, deixam o palco. Jared se dirige ao público. Ele deixará o palco, assim que terminar sua fala.

JARED – Meu nome é Jared, filho de Malaleel, e neto de Cainan. Na era pós-diluviana. O quinto sucessor de Adão fora eu, o grande Império Macedônio, a quinta escala imperial de expansão do grande mercado. Servi este mercado, suplantando as dimensões de todas as escalas imperiais precedentes, e cheguei às portas da Índia. Implantei a admirada cultura grega, na Civilização Ocidental. Ouçam-me bem!: Quando o meu filho Henoc aqui se apresentar, vocês conhecerão o Escolhido, porque este andou com Deus, na época que o meu filho imperou.

  1. Henoc, o sexto sucessor de Adão – A primeira vinda do Escolhido, e o embate entre este, Henoc e os sacerdotes.

 

6ª CENA / 6º sucessor de Adão – Henoc, o Império Romano personificado na figura típica de um César. Ele entra no palco, marchando e acompanhado de dois soldados romanos, a sua retaguarda, enquanto Jared vai retirando-se após haver concluído sua fala. Então, Henoc se dirige ao público, mas sua fala será interrompida pelo Escolhido, que entrará abruptamente em cena, dançando animadamente e acompanhado por dois fiéis seguidores (dançarinos). Henoc e seus soldados permanecerão, entretanto, em cena.

HENOC – Henoc é o meu nome. Sou o Império Romano, a sexta escala imperial, na genealogia de Adão. Nunca, uma única cidade dominara uma área de grande mercado, de tamanha magnitude. Roma foi o limite! Os povos que se revoltavam contra mim, eu os devorava com os meus dentes de ferro, depois triturava e pisava o que restava. Eu, Henoc, o Império Romano, andei com Deus, ou seja, fui contemporâneo de Emanuel-Jesus, o Escolhido que nasceu sob os meus domínios, na Palestina! Mas, ele feriu-me com a espada que saía de sua boca, isto é, sua doutrina, e levou-me à perdição…

7ª CENA – O Escolhido entra no palco de modo magnífico e impetuoso, sob sucessivos flashes de luz, dançando animadamente e acompanhado por dois fiéis seguidores seus (dançarinos). Assim, ele interrompe bruscamente a fala de Henoc, mas este e seus soldados permanecem no palco, dando espaço para as movimentações da dança.

8ª CENA – O Escolhido e seus seguidores cessam de dançar. Estes permanecem em cena acompanhando o Escolhido, o qual se dirige a Henoc iniciando calorosa discussão. Esta transcorre acompanhada de intensa movimentação entre as duas partes, de um lado, o Escolhido e seus dois fiéis seguidores, de outro, Henoc. Os dois soldados permanecem imóveis, à retaguarda do imperador.

ESCOLHIDO – Você, Henoc, orgulhou-se de garantir o regular funcionamento do grande mercado, através de sua soberba Paz Romana…

HENOC – Sim, eu dominava e impunha às elites corruptas das minhas províncias, que me auxiliassem na manutenção (sorriso sarcástico) da boa paz e ordem social. Assim, a circulação comercial fluía tranquilamente, por todo o Império.

ESCOLHIDO (Em tom de indignação) – Boa paz e ordem social? ! Isto, na realidade, era o tranquilo funcionamento do grande mercado e o enriquecimento das elites romanas e provinciais, às custas da miséria da massa dos trabalhadores. Vocês mantinham isso lhes impondo pesados tributos, opressão, violência, alienação…

HENOC – Todo progresso de uma civilização tem um custo!

ESCOLHIDO – Progresso qual nada! O quadro atual é análogo ao daquela época. Quando o grande mercado global Lamec, teu neto, chegou ao limite de sua expansão. Os pesados impostos cobrados, hoje, pelas elites periféricas, mais os exorbitantes juros das dívidas externas equivalem aos pesados tributos cobrados, outrora, pela aliança entre as elites romanas e provinciais. Tudo isso também recai, hoje, sobre os pobres trabalhadores dos países periféricos, e são igualmente mantidos, com cruel opressão e genocídio, que também chamam de “pacificação” .

HENOC (Com ar de irritado) – O meu modo de imperar só a mim compete! Pouco me importa os pobres trabalhadores! Além do mais, os dias de hoje não são do meu interesse, pois não vivo a vida do meu neto, Lamec.

ESCOLHIDO – Mas, a mim importa! Porque eu perpasso a história! Voltarei ao mundo, buscando justiça social e libertar os indivíduos. Virei logo depois, que o seu neto, Lamec, houver gerado a filha Noé.

HENOC (Enraivecido, lamentou gesticulando) – Você enalteceu o indivíduo humilde, justo, radicalmente pacífico e que ama ao seu próximo, e propôs aos ricos venderem as riquezas deles e distribuir aos pobres! Foi assim que você enfraqueceu os sentimento, os valores, o ânimo e o vigor guerreiro, que motivavam a minha civilização. Com suas bem-aventuranças, você inverteu as coisas que nós, as elites, valorizávamos!

ESCOLHIDO – Isto mesmo! Só é possível transformar a sociedade, para uma forma mais justa e fraterna, a partir da conversão e aprimoramento da unidade mínima componente do todo social: o indivíduo! Foi sobre esta “pedra” que edifiquei a minha igreja, igualitária, em Jerusalém! O indivíduo autoclarificado, autoconsciente, autodiligente e dotado de consciência crítica e transformadora era o templo da minha igreja, não o templo-edifício, este é um covil de sacerdotes ladrões. Ademais, era preciso inverter o processo de concentração e acumulação de riquezas, nas mãos de poucos.

HENOC (Transpirando ódio) – Você levou-me à perdição. Deixou-me abatido, e os povos bárbaros assolaram-me por todos os lados… Todos se regozijaram da queda do Império Romano! Mas, foram os sacerdotes do seu próprio povo os autores intelectuais da sua crucificação. Eu apenas lavei as minhas mãos.

ESCOLHIDO – Eu sei de tudo isso. Eu ofereci a todos a minha Paz, mas os sacerdotes e as ovelhas que os seguiam rejeitaram. Porém, muitos acolheram-na, sobretudo entre publicanos, entre devassos e entre prostitutas, enfim, entre os trabalhadores pobres e os escravizados.

9ª CENA – Entra em cena um sacerdote fariseu, este vai participar das discussões que transcorriam entre o Escolhido e Henoc. No curso dessas discussões ocorrerá uma “pausa”, em que cada um dos três discutidores cantará parte de uma mesma música. Ao encerrar o canto, o Fariseu recolhe-se aos bastidores, e a discussão prossegue, agora, apenas entre o Escolhido e Henoc. O Escolhido é o último a falar na discussão, e ao concluir essa fala fecham-se as cortinas e todos recolhem-se às coxias.

HENOC (Com um sarcástico sorriso) – Olha quem chegou! O Fariseu!

FARISEU (Com ar de indignação) – Eu percebi o sentido sarcástico com que você se referiu a minha pessoa. Tenha mais respeito com o poder sacerdotal!

ESCOLHIDO (Dirigindo-se ao Fariseu) – O nosso povo terá mais uma chance de reconhecer em mim, o Escolhido, aquele bendito que vem em nome do Senhor! Anunciado por todos os verdadeiros profetas israelitas! Será que ele aproveitará a próxima chance? Por que ele perdera a primeira chance?

FARISEU (Dirigindo-se ao Escolhido) – É que nós do Grande Conselho decidimos que devias morrer, para acabar com a perniciosa influência que exercias sobre o povo, desmascarando a hipocrisia dos sacerdotes, libertando deles os indivíduos, pregando justiça social, enfim, neutralizando o controle que tínhamos sobre a nação. Os romanos estavam percebendo que perdêramos o controle sobre grande parcela da população, e planejavam tirar de nós o poder sobre o povo.

HENOC (Dirigindo-se ao Fariseu) – Claro que eu ia tirar-lhes esse poder e seus desfrutes! Pois, a aliança que eu tinha com vocês só me era útil enquanto mantivésseis o povo sob o seu sedutor domínio. Aliás, para vocês de nada serviu crucificar o Escolhido, pois os seguidores deste continuaram avançaram com o movimento comunal, após a morte do líder. Por fim, tivemos que dispersar toda a nação.

FARISEU (Dirigindo-se a Henoc) – Nós insuflamos o povo contra um inimigo comum, Roma, como uma desesperada estratégia de enrijecimento dos laços do controle social que vínhamos perdendo sobre a nação. Isto foi a nossa desgraça. Você tirou-nos a posição de elite, o poder sobre o povo e até o território. Ainda hoje o meu povo sofre as dramáticas consequências da estratégia que outrora decidimos aplicar.

(O Escolhido, o Fariseu e Henoc cantam uma música. A letra fala da decisão de matar o Escolhido, discutida entre o representante do Império, Pilatos, e os sacerdotes insuflando suas “ovelhas”. Ela, também, questiona se um quadro análogo ocorrerá na próxima vinda do Escolhido. Este toma a palavra ao cessar a música)

ESCOLHIDO (Dirigindo-se a Henoc) – Você perseguiu e martirizou os meus verdadeiros seguidores! Aqueles da igreja comunista, horizontal, fraterna e radicalmente pacifista, que o Espírito Santo do meu Pai e o meu fundamos na Galiléia e que se concentrara em Jerusalém.

HENOC – Claro que persegui! Porque o amor ao próximo, o pacifismo, o comunismo horizontal e a desconcentração de riquezas não condiziam com a hierarquia social própria do Império. Mas, eu e a igreja hierarquizada de Paulo de Tarso, o qual me propôs sua subserviência e aliança, demo-nos muito bem!

ESCOLHIDO (Com ar de indignação) – Na verdade, havia um acordo tácito entre vocês dois!: combateram os meus verdadeiros Apóstolos, os da comuna de Jerusalém. Você e as elites provincianas combatiam fisicamente, martirizando meus fieis seguidores, para onde quer que eles avançavam com o igualitarismo horizontal e pacifista. Paulo vendo que martirizá-los não os demoviam de avançar com o movimento, então, passou a combatê-los com a sutil sofistica que utilizou, para adulterar o sentido original dos ensinamentos que transmiti aos Apóstolos. Paulo criou uma igreja hierarquizada e aliada às elites, mas falsamente cristã.

HENOC – Sim, eu e a igreja de Paulo combatemos juntos e neutralizamos a revolução que desencadeastes! Por fim, selei a aliança inicialmente proposta por Paulo, através do meu representante, o imperador Constantino I. Em Nicéia, celebramos , no ano 325, essa aliança com as gananciosas elites sacerdotais, sucessoras da igreja hierarquizada criada por Paulo. Mas, era tarde demais, e isto não impediu a minha queda!

ESCOLHIDO – Realmente, vocês neutralizaram a revolução que outrora desencadeei. Mas, o ideal de uma sociedade igualitária, horizontal, fraternal e radicalmente pacifista, a Nova Jerusalém, não acabou! Eu voltarei para a concretizar! Porque vou libertar os indivíduos das cadeias das trevas ideológicas, em que são mantidos entorpecidos e alienados. Está escrito que a minha volta ocorreria após o teu neto Besta Mercado Global Lamec, e quando ele gerasse a filha Noé. Assim como foram os dias na época da Noé pré-diluviana, serão os dias da Noé Pós-diluviana.

(Após o encerramento da fala do Escolhido, fecham-se as cortinas brevemente e todos se recolhem aos bastidores)

  1. Matusalém, o sétimo sucessor de Adão, e correspondente sétima etapa de expansão do grande mercado, caracterizada por se trata de uma etapa de transposição da sexta e mais expansiva escala imperial (Henoc), para a escala global (Lamec) – Lamec, oitavo sucessor de Adão, e respectiva oitava e última escala (global) de natureza expansiva do grande mercado – Lamec apresenta os dois primeiros grande sócios seus: a) Lutero (a ética protestante e o espírito do capitalismo); b) Rei Luiz XIV (representando o Mercantilismo e a Monarquia Absoluta).

 

10ª CENA / 7º sucessor de Adão – As cortinas são reabertas. Matusalém, a Igreja feudal da Idade Medieval, entra em cena personificada na típica figura de um monge católico. Ele veste um hábito vermelho e carrega uma grande espada. Matusalém apresenta-se ao público. Ao término desta apresentação ele retorna aos bastidores.

MATUSALÉM (Dirigindo-se ao público) – Sou Matusalém, O grande poder sacerdotal da Igreja, no regime feudal da Idade Media. Nasci na Europa Ocidental, sobre os escombros do Império Romano, meu pai, Henoc. A base dele era a cidade–Estado, mas a minha era uma vasta área do campo. Neutralizei a genuína doutrina ensinada pelo Escolhido, substituindo pelos meus dogmas e a doutrina de  Paulo o Anticristo! Curei a ferida do grande mercado que o Império Romano articulava, recrudescendo-o por dentro de mim mesmo, e transpondo-o à escala global, cujo poder aumentaria, enquanto o meu decairia. Por isso sou concebido como sétima etapa de transposição do grande mercado. Pus-lhe o nome Lamec, e venho velando pelo seu sucesso.

(Matusalém recolhe-se aos bastidores, após concluir sua apresentação)

11ª CENA / 8º sucessor de Adão – Lamec, o grande Besta Mercado Global personificado num homem vestindo uma túnica preta, e carregando uma pequena balança na mão. Ele entra em cena, dançando junto a um casal de bailarinos. Lamec logo cessa de dançar, mas os bailarinos permanecem dançando, enquanto aquele os assiste, segurando a balança. A seguir, cessa a dança e respectiva música, e os bailarinos regressam aos bastidores, enquanto Lamec começa a dirigir-se ao público. Lamec conclui sua fala, anunciando a chegada de um grande sócio seu, Lutero. Lamec permanece em cena.

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Eis aqui, Lamec, o grande Besta Mercado Global! Sou o oitavo sucessor de Adão. Comigo, o processo de expansão do grande mercado chegou ao seu limite! Ao nascer, fiquei conhecido por Revolução Comercial; quando garoto, apelidaram-me de Mercantilismo. Os monarcas absolutistas serviram-me nesta fase. Enquanto eles enriqueciam seus respectivos Estados, expandi-me aos quatro cantos do mundo! Estendi minha autonomia e hoje domino todos os povos do mundo! Quero que conheçam um grande parceiro que tenho desde minha mocidade. Ele é quem fez a Reforma Protestante, marco inaugural da Idade Moderna.

12ª CENA – Lutero, grande parceiro de Lamec, e inventor da ética protestante, o espírito do capitalismo entra em cena trajando um tradicional negro hábito de monge agostiniano. Ele apresenta-se ao público. A seguir, um diálogo entre Lamec e Lutero se estabelece. Ao concluir esse diálogo, Lutero recolhe-se às coxias, enquanto Lamec anuncia a chegada de outro grande sócio seu, o Rei-Sol Luiz XIV.

LUTERO (Dirigindo-se ao público) – Eu sou o Lutero, nasci na Alemanha e era monge agostiniano. Notei que o povo estava indignado com a podridão da Igreja! As inescrupulosas autoridades eclesiásticas usurpavam dízimos dos fiéis e avidamente vendiam indulgências… Havia, também, uma poderosa maré de ressentimentos nacionais contra a tirania eclesiástica italiana. Tive, então, a genial ideia de criar minha própria religião e abocanhar parte do rico mercado de dízimos e dádivas. Inventei a ideologia do trabalho por vocação e devoção a Deus. Ela foi um sucesso! Era o ano de 1517, lembro-me bem, quando comecei a divulgá-la. Todos os pastores que seguira fielmente minha ideia têm ficado podres de ricos, como a Igreja.

LAMEC (Dirigindo-se a Lutero) – Antes de você, muitos outros embusteiros tentaram abocanhar parte do mercado de dízimos e demais rendas usufruído monopolizadamente pelo clero católico. Nenhum deles, entretanto, obtivera tanto e tão prolongado sucesso quanto a tua religião. Conta pra nós em que consiste esse seu “trabalho por vocação e devoção a Deus”.

LUTERO – É muito simples! Eu recomendo ao fiel concentrar todo seu esforço no trabalho produtivo, eliminando o máximo possível qualquer tipo de interferência: distração, lazer, prazer sexual, preguiça… E, racionalizar todos os procedimentos pertinentes segundo cálculos precisos. Os lucros assim obtidos devem ser reaplicados incessantemente nesse negócio ou em outro mais lucrativo. Esses procedimentos devem ser incessantes e insaciavelmente repetidos. Tudo isso deve ser feito como uma vocação divina, em devoção a Deus, porque este só salva e santifica o indivíduo que assim proceder.

LAMEC – Isto é o que se convencionou chamar de ética protestante?

LUTERO – Sim, e ela propagou-se para o mundo profano, sob o rótulo espírito do capitalismo! Foi assim que eu inseri a racionalização capitalista no processo de produção industrial, revolucionando-o. Ela estendeu-se para todas as demais esferas da vida.

LAMEC – Por que o seu maior inimigo chama você de Falso Profeta?

LUTERO – P
orque eu ao invés de propor ao rico vender sua riqueza e distribuir aos pobres, como o Escolhido houvera proposto; ensinei a todos, sobremodo aos ricos, o método mais eficaz e insaciável de acumular e concentrar riqueza (Sorrindo sarcasticamente) e aumentar a miséria dos trabalhadores.

LAMEC –Bravo! Você venceu, e assim ajudou-me muitíssimo!

LUTERO (Sorrindo sarcasticamente) – Venci efetivamente a servidão pela devoção, porque a substitui pela servidão da convicção! Emancipei o corpo das cadeias por que carreguei de cadeias o coração!

(Lutero retira-se de cena, enquanto entra o Rei-Sol Luiz XIV)

13ª CENA – Rei-Sol Luiz XIV – Lamec anuncia a chegada de outro grande parceiro que teve durante sua mocidade, o Rei-Sol Luiz XIV. Este adentra ao palco, enquanto Lutera retira-se. O rei Luiz XIV personifica, simultaneamente, por um aspecto, a Monarquia Absoluta, e por outro, o Mercantilismo. Luiz XIV dirige-se ao público, e logo após concluir sua fala, caminha para os bastidores, simulando passos de balé e acenando para o público. Lamec permanece sozinho no palco. Ele se desfaz da balança que segurava na mão e toma a palavra.

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Agora, quero que vocês conheçam outro grande parceiro que tive na minha mocidade, o Rei-Sol Luiz XIV.

REI-SOL LUIZ XIV (Virando e indicando uma das faces para o público, e com voz afetada) – Uma das minhas faces representa a Monarquia Absoluta, (Virando a outra face) e a outra o Mercantilismo. Desse modo, ambas favoreceram o fortalecimento da burocracia estatal, mas também, a expansão do mercado global, a indústria e aos Bancos. Eu favoreci, ainda, as artes, sobremodo o balé, que vocês tanto apreciam!

(Luiz XIV conclui sua fala e sai de cena)

14ª CENA – Lamec se dirige ao público, anunciando a cena que sucederá. Enquanto ele vai terminando de falar, os sete primeiros sucessores de Adão retornam ao palco, dançando. Lamec integra-se ao grupo, e os oito dançam articuladamente entre si. Ao cessar a dança, Lamec se desloca e toma posição na parte dianteira de uma das laterais do palco, de frente para o público, e todos os demais se alinham um ao lado do outro, por ordem de sucessão. Lamec, então, afasta-se um pouco do grupo, e apresenta: 1º – o grupo, enquanto uma unidade, a instituição social grande Besta Mercado, que veio se expandindo através das oito escalas (de Set até Lamec) no curso sócio-histórico; 2º – cada um dos seus sete precursores e, por fim, a si mesmo. Lamec conclui sua fala, e exceto ele e Matusalém, todos os demais saem de cena.  

LAMEC – Vocês, hoje, conhecem o meu apogeu, e me chamam de Aldeia Global ou de Globalização. Muitos me adoram e me servem, outros fazem manifestações públicas contra mim. No Apocalipse, eu sou chamado, depreciativamente, de Besta ou Fera, aquela que sobe do mar! Agora, vocês vão conhecer a Besta de sete cabeças. Sou um enigma: sou a besta que era e deixou de ser, mas renasci e sou a oitava cabeça, e permeei as sete que me precederam!

(Os sete primeiros sucessores de Adão retornam dançando, e Lamec ajunta-se ao grupo. Cessa a dança e todos alinham-se, lado a lado, frente ao público. Lamec destaca-se e apresenta o grupo enquanto unidade, e cada membro deste)

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Somos os oito primeiros sucessores de Adão. Nós, juntos, formamos uma única entidade, que vem permeando e expandindo-se pela história pós-diluviana: o processo de expansão da grande Besta Mercado de sete cabeças. (Lamec aponta indicando cada um dos seus sete predecessores) Ele teve início com Set, o Novo Império Egípcio. Sucederam mais cinco expansivas escalas imperiais: Enos, o Império Assírio; Cainan, o Império Babilônico Caldeu; Malaleel, o Império Persa; Jared, o Império Helenístico; e Henoc, o Império Romano. A sétima escala, Matusalém, a Igreja Feudal fez a função de transposição do grande mercado que transcorria em escalas imperiais, para chegar, finalmente, a mim, Lamec, oitava e grande escala global!

(Exceto Lamec e Matusalém, todos os demais se retiram)

 SEGUNDA PARTE – A gangue dos quatro gigantes: 1. Matusalém, a Igreja Feudal; 2. Lamec, a Besta Mercado Global; 3. O Fero Capitalismo Industrial; 4. A Imagem da Besta, isto é, o Sistema monetário e financeiro desregulamentado, isto é, autônomo, e unificado globalmente.

15ª CENA – Matusalém, a Igreja Feudal, transmite seu grande poder sobre os povos a Lamec, o Besta Mercado global. Esse poder é simbolizado num pequeno bastão, que Matusalém traz consigo, e passa, solenemente, para as mãos de Lamec. Segue-se um diálogo entre eles (discursos de transmissão e de recebimento de poder).

MATUSALÉM – Eu e Constantino I celebramos, em 325, a aliança outrora proposta pela igreja hierarquizada do meu predecessor, Paulo de Tarso. Monopolizei a cultura através dos meus dogmas e da doutrina paulina. Cerca de mil anos depois, o meu poder começou a cair, enquanto eu gerava o recrudescimento do comércio, das antigas cidades, desenvolvia os burgos, a manufatura, as classes médias e, entre estas, a burguesia ascendente… Finalmente, gerei o meu filho, Lamec, o poderoso Besta Mercado Global!

(Matusalém ergue um bastão, símbolo do seu grande poder, caminha solenemente em direção ao seu filho e transmite-lhe o poder e o símbolo deste)

MATUSALÉM – Lamec, meu filho, os meus dias de apogeu acabaram! Estou em decadência, mas cumpri a minha missão: curei a ferida do grande mercado que era articulado pelo meu pai, Henoc, e elevei esse mercado à escala global. Agora, toda terra adorara você, e a mim por ter lhe gerado e transmitido grande poder sobre os povos!

LAMEC – (Recebendo o bastão) – Obrigado, meu pai, eu sei o quanto lhe devo! Seguirei os seus desígnios. Eu dominarei todos os povos, e estes irão adorar-me, como se adora a um deus!

MATUSALÉM – Permanecerei te vigiando! Continuarei entorpecendo os povos, com os meus dogmas, dualismos e a doutrina paulina, como meio de favorecer a manutenção do seu poder.

16ª CENA – Lamec dança euforicamente, radiante de alegria, por ter recebido poder sobre todos os povos. Ele se dirige ao público, mas é aparteado por Matusalém. Assim, prossegue o diálogo entre eles. Finalmente, Matusalém encerra o diálogo, ao concluir sua fala, e retorna às coxias.

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Emergi do mar das trocas entre os povos! Revolucionei o comércio! Levei minhas mercadorias para todos os cantos da terra. As elites e os respectivos dez países imperialistas à época do Mercantilismo e da Monarquia Absoluta foram os primeiros integrantes dos meus dez “chifres”, ou seja, os dez membros do centro dinâmico do sistema capitalista. Elas tiveram o mesmo pensamento: transmitir a mim toda força e poder que dispunham!

MATUSALÉM (Dirigindo-se a Lamec) – Quanta arrogância, meu filho! Veja! O meu poder e o do meu pai duraram séculos, mas decaíram. O mesmo certamente acontecerá contigo!

LAMEC (Dirigindo-se ao público e sem dar atenção à advertência feita pelo seu pai) – Compeli meus chifres a dominarem e explorarem seus próprios trabalhadores, e os das nações europeias mais fracas. A meu serviço, eles invadiram todas as regiões fora da Europa, a fim de dominarem e explorarem os povos e exaurirem as riquezas naturais que encontrassem. Destruí e criei nações! Exterminei os povos indígenas das Américas, submeti e escravizei os povos africanos. Criei os povos que hoje habitam as Américas! Quem pode negar isso? !

MATUSALÉM (Dirigindo-se a Lamec) – Não esqueça que enquanto você exterminava e criava nações, eu sempre estive ao seu lado, dizendo amém e levando meus dogmas e a fé paulina, para combater e catequizar as culturas nativas. Até hoje o ecumenismo Católico-protestante permanece entorpecendo os povos, para viabilizar a sua gloriosa missão!

LAMEC – Nunca esquecerei disso, meu pai! Os teus méritos, porém, não contradizem os meus. Veja! Hoje, eu e o Fero Capitalismo Industrial, meu maior parceiro, inchamos as grandes cidades de gente, as abarrotamos de veículos e fábricas altamente poluentes, e vimos desmatando as poucas florestas que ainda restam. Minhas mercadorias são cada vez mais complexas: órgãos humanos, transgênicos, tecnologia… Tudo, até os homens, suas força de trabalho e inclusive suas consciências são minhas mercadorias, pois sou eu que moldo seus gostos!

MATUSALÉM – Os homens nem desconfiam que nós, os quatro gigantes, temos como meta alienar ao extremo os indivíduos, e por fim, exterminar a vida no planeta!

(Matusalém sai de cena)

17ª CENA – O Fero Capitalismo Industrial entra em cena, após ser anunciado por Lamec, enquanto Matusalém retira-se. Ele é personificado por um homem vestindo longa túnica amarelo-esverdeada e tem dois chifres no alto da cabeça. Lamec o recebe com um forte abraço. O Fero dirige-se ao público, e sucede um diálogo entre ele e Lamec. O dialogo se encerra quando Lamec, o Besta Mercado Global, pede ao Fero capitalismo Industrial, para este criar uma entidade que seja a imagem daquele, isto é, a equivalência em valor de troca referente ao Besta Mercado Global. O Fero Capitalismo Industrial promete criar a imagem do Besta Mercado Global.

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Vem ai o meu maior parceiro, o Fero Capitalismo Industrial! Ele tem poder da dimensão do meu e é completamente ligado e dependente de mim, porque se fundamenta na exploração da minha mais valiosa mercadoria, o trabalho assalariado: a galinha dos ovos de ouro de toda riqueza contemporânea acumulada! Assim, ele presenteou-me com variadas, complexas e inúmeras mercadorias. Os habitantes da terra não resistiram ao fascínios e fetichismo das mercadoria, e passaram a me adorar como deus, sobretudo nos corredores do novo templo, o shopping center. No Apocalipse, ele é chamado de Fera ou Besta, mas aquela que sobe da terra.

FERO CAPITALISMO IMDUSTRIAL (Dirigindo-se ao público) – Quando eu era garoto, fiquei conhecido como Revolução Industrial… (Apontando para Lamec) Mas, estava predestinado a ter poder da dimensão do dele! Isto, somente na presença dele, pois só existo à medida que exploro sua mais valiosa mercadoria. Tudo o que produzo é voltado para ele. Apenas assim realizo meus extraordinários lucros.

LAMEC – (Dirigindo-se ao Fero) – Mas, não é só isso que o faz gerar tantos e insaciáveis lucros. Vamos! Conta pra nós o seu segredo!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Com voz rouca e macabra) – O espírito do capitalismo é quem me guia e mais ninguém, neste nosso mundo profano. Ele veio do mundo sagrado, sob o rótulo “ética protestante”, inventada por Lutero-Abadom: o trabalho por vocação e devoção a Deus. Eis o segredo dos meus incomensuráveis e insaciáveis lucros. Vocês querem saber mais das coisas sagradas que me envolvem? … (hesitação) Creio que não…

LAMEC (Dirigindo-se ao Fero Capitalismo Industrial) – Vamos! Fale! Vamos colocar as cartas na mesa. Não vês que o templo do tabernáculo já se abriu no céu. Temos pouco tempo… Quem sabe consigamos mudar o rumo da história, e vencermos a batalha do Armagedom? ! Muita gente me adora e me segue! …

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se ao público) – Eu sou o processo de produção capitalista global, mas alguns me chamam, simplesmente, Fero Capitalismo Industrial, porque veem em mim a entidade descrita no Apocalipse, nomeada Fera, mas aquela que sobe da terra. Nesse livro, essa entidade e mais outros três gigantes são tidos como malignos, e seriam combatidos e dominados pelo Escolhidos e seus fiéis seguidores, os exércitos do céu… Besteira! Não é nada disso. Vocês podem me chamar de Fero C. I. ou somente Fero.

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Vejam bem! Besteira é tudo que o Escolhido pregou e profetizou, mas não o nosso destino manifesto: alienar e subjugar os indivíduos! (Apontando para o Fero) Ele, eu e os outros dois gigantes somos instituições sociais criadas pelos homens, mas nos tornamos autônomas e muito fortes, e venceremos o Escolhido, quando ele voltar!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se ao público) – É… Também não me importo! A oposição não consegue levar minha pessoa ao descrédito junto à opinião pública. Porque todos acreditam no meu discurso, o discurso científico! (Com ar de deboche) Que vem prometendo uma vida melhor para o povo. Eu incrementei a poderosa cultura científica e técnica. Hoje, a ciência é tão digna de fé quanto foram os dogmas e a doutrina paulina da Igreja, o grande Dragão Vermelho. Aliás, muitos ainda têm fé na sofística paulina. E, quem não tem fé na ciência?

LAMEC – Todo mundo! E, mesmo se alguém provar ao povo que as promessas do discurso científico e oficial são enganosas, e que nossa meta é alienar o indivíduo ao extremo e destruir a vida na terra; O populacho não acreditaria… Porque tem fé no discurso científico!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Além disso, nós os quatro gigantes controlamos a mídia e moldamos a opinião pública conforme nossos interesses! …

LAMEC (Apontando para a cabeça do Fero e a seguir abanando as narinas com uma das mãos, em sinal de suposta presença de mau cheiro) – Por que esses dois chifres? Parece o diabo! Ou é tua esposa que enfeita tua cabeça?

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Os corpos burocráticos dos Estados sempre acompanharam os respectivos líderes políticos, mas desde o Mercantilismo e a Monarquia Absoluta eles se tornaram muito poderosos. E, ajudaram ao fortalecimento da burguesia mercantil, financeira e manufatureira.  o poder que eu e minhas indústrias temos, desde então, geraram fabulosos capitais, e passou a ser disputado… (Apontando para o chifre que tem do lado direito da sua cabeça) Pelo meu chifre à direita, que representa a burguesia, ou seja, o capital privado, (Apontando para o chifre esquerdo) e pelo meu chifre à esquerda, que representa a burocracia governamental, ou seja, o capital estatal. Captou, Lamec? O simbolismo dos meus dois chifres?

LAMEC – Sim, entendi! A disputa entre os dois grupos representados pelos seus dois chifres ocorre pela detenção dos meios e modo de produção que lhe é peculiar, isto é, capitalista, capaz de gerar fabulosos lucros.

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Veja como exemplo disso a novela privatizar-desprivatizar. O exemplo mais marcante, entretanto, ocorreu quando eu estava no meu apogeu. Então, os dois chifres chegaram ao extremo e dividiram o mundo em dois grandes blocos: à direita, a hegemonia do capital privado; à esquerda, era o puro capitalismo de Estado que detinha hegemonia. Em muitos casos, os dois chifres apresentam-se mancomunados: observe o caso do “mensalão” e outros do gênero. Em todos esses casos o trabalhador é impiedosamente explorado.

LAMEC – Vejo que você tem grande poder cultural e econômico, na minha presença, e faz com que todos os habitantes da terra me adoram como deus! Você pode seduzir todos os que compram e vendem, e fazê-los criar uma entidade social equivalente a mim, que seja a minha imagem em valor de troca?

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Claro que posso!

LAMEC – Olhe! Assim como eu, ela deve ter a dimensão global, ser poderosíssima, ter altamente integrado todos os centros financeiros num sistema único, e ter autonomia e espírito próprios. De modo que, os que me adoram, também, adorassem minha imagem.

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Saiba que o monstruoso capital que ela acumulará e o respectivo poder que desfrutará, vão levá-la a deter hegemonia sobre nós dois, e inclusive sobre os governos! Mas, enfim, nós todos juntos acumularemos, flexivelmente, tamanho poder e capital nunca vistos na face da terra!

18ª CENA – A Imagem da Besta Mercado Global, aqui resumidamente nomeada “Imagem da Besta”, consiste no Sistema Monetário e Financeiro Autônomo, Único e Global. Ela é personificada por um tipo de mulher, linda, sedutora e pedante, sensualmente vestida e trazendo uma bolsa com algumas cédulas nesta afixadas, e pendurada pela alça cruzada no peito. A Imagem da Besta entra em cena dançando, acompanhada de duas dançarinas (trajando uniformes semelhantes aos usados por jovens agenciadores financeiros que ficam nas calçadas frente a Bancos e lojas). Lamec e o Fero recuam para um dos lados do palco, onde permanecem embasbacados com a sedutora mulher. Todas cessam de dançar. A Imagem da Besta se aproxima de Lamec e do Fero Capitalismo Industrial, e os três se entretêm trocando beijos e abraços, enquanto as duas dançarinas descem do palco e se dirigem ao público, simultaneamente, oferecendo serviços financeiros. A sedutora mulher chama as duas dançarinas, e estas retornam aos bastidores. Então, o Fero se dirige ao público desculpando-se por não tê-la apresentado.

UMA DANÇARINA (Distribuindo prospectos e se dirigindo a um assistente da primeira fila, da lateral direita do auditório) – Quer empréstimo? Os juros são baixos! (Ao assistente seguinte) Quer financiamento? A usura é baixa! …

OUTRA DANÇARINA (Com papel e caneta nas mãos, dirigindo-se a um assistente da primeira fila, da lateral esquerda do auditório) – Quer cartão de crédito? Os juros são baixos! Quer talão de cheque? A usura é baixa!

IMAGEM DA BESTA (Percebendo as dançarinas incomodarem o público) – Meninas! Deixem de incomodar nosso querido público e venham para cá! (As duas dançarinas se deslocam para os bastidores) Quem ainda não se inscreveu para receber cartão de crédito… Ou não recebeu prospecto com endereço para pegar empréstimo, não se preocupe. Elas estarão sempre telefonando para suas casas, e oferecendo essas coisas.

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se ao público) – Perdoe-me por não tê-la apresentado. É que ela chegou de modo tão intempestivo e sensual…

19ª CENA – A Imagem da Besta caminha sensualmente até próximo ao público, aponta o dedo em riste para uns dois homens quaisquer da primeira fila, e se apresenta ao público de modo sensual. Segue-se um diálogo entre ela, Lamec e o Fero.

IMAGEM DA BESTA (Com voz sensual e posicionando-se com o lado direito do seu corpo virado para o público, empina e balança a bunda, e corre a mão direita da altura do seio direito até ao quadril) – Vocês! Não me reconhecem? Eu sou aquela que vocês gostam de meter a mão! (Endireitando-se e com voz séria) Para pegar empréstimo, pegar financiamento, investir tudo!… Podem chamar-me como o meu maior inimigo me chama: Imagem da Besta!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se a Imagem da Besta) – Por que ele chama você com esse nome?

IMAGEM DA BESTA – Porque eu sou a imagem, na sentido de equivalência, da exata dimensão do valor de troca da Besta Mercado Global de mercadorias. Sou a personificação de todos os centros financeiros do mundo, sistematizados numa única entidade altamente integrada, coordenada pelas telecomunicações e livre de qualquer regulamentação externa. Sou autônoma, riquíssima, poderosíssima e dotada de alta mobilidade geográfica relativa a qualquer órgão financeiro. Enfim, sou um único mercado mundial, de dinheiro e de crédito.

LAMEC (Dirigindo-se ao público) – Realmente, ela é minha imagem em valor de troca. Simplificando… Todo estudante sabe que o dinheiro é, de modo geral, o equivalente ao valor de troca da mercadoria. No caso macroeconômico, o sistema financeiro autônomo, único e global é a exata equivalência ou imagem do meu valor de troca. No Apocalipse, eu sou representado como a entidade social, Besta, a que sobe do mar; e ela é representada como uma entidade social que é a minha imagem.

20ª CENA – Lamec e a Imagem da Besta aproximam-se do público, então, ouve-se o som de música. Eles se posicionam um de frente para o outro, ambos distantes entre si cerca de dois metros, e ambos com seus corpos de lado para o público. Assim, cada um deles põe as duas mãos nos respectivos quadris. Lamec levanta o braço à meia altura e desmunheca dizendo ser a Besta mercado global. A seguir, a imagem da Besta imita-o e diz ser a imagem dele em valor de troca. Por fim, ambos empinam suas respectivas bundas, então, o Fero corre e toma posição entre os dois, e estes se endireitam. A seguir, os três se voltam sorrindo para o público e exaltam-se, dizendo, em uníssono, serem os três pilares do novo regime, flexível, de concentração e acumulação de capital. A seguir tem continuidade o diálogo entre os três.

LAMEC (Levantando o braço voltado para o público, e desmunhecando) – Sou o grande Besta Mercado Global!

IMAGEM DA BESTA (Imitando o gesto feito por Lamec) – Sou a sua imagem em valor!

(Ambos empinando e requebrando suas bundas, enquanto o Fero corre e se posiciona entre os dois, e estes se endireitam. Os três se voltam sorrindo para o público)

LAMEC, A IMAGEM DA BESTA E O FERO (Em vozes uníssonas) – Somos os três grandes pilares do novo regime de acumulação!…(Pausa) Flexível de capital!

21ª CENA – Prosseguimento do diálogo entre Lamec, A Imagem da Besta e o Fero Capitalismo Industrial.

LAMEC (Dirigindo-se ao Fero C. I.) – Você criou uma mulher linda, sensual, sedutora…

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Eu apenas induzi os habitantes da terra que compram e que vendem, criá-la. Porque nas décadas 70-80 o trabalho social que há muito tempo venho explorando, começou a dar sinais de esgotamento de suas energias e da respectiva capacidade de demanda. Assim, ele estava proporcionando poucas áreas produtivas para investimento, enquanto estávamos sendo afogados pelo excesso de fundos, que exerciam pressão inflacionária. Se reinvestíssemos esse excesso de capital na produção, iríamos explodir a economia mundial, com uma inimaginável superprodução de mercadorias!

LAMEC – Realmente… Já em 1973 a tentativa de frear a inflação expôs muita capacidade excedente nas economias ocidentais, Disparando antes de tudo uma crise mundial nos meus mercados imobiliários, sintoma de uma crise estrutural do mundo capitalista. Aliás, esse tipo sintomático de crise estrutural vem se repetindo a partir da segunda metade de 2007.

IMAGEM DA BESTA – Tens razão! Naquela época eu estava abarrotada de dinheiro, (Fazendo gestos e expressões faciais de desagrado) Mas, rigidamente regulamentada e com os meus centros financeiros desarticulados… Estava ficando difícil de acumular mais e muito dinheiro. Era um Horror! (Rebolando dos quadris aos seios, e empinando a cabeça com uma expressão facial de satisfação sexual) Hoje, eu estou toda flexível, sou autônoma e as coisas são muito mais fáceis e neoliberais!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Essas dificuldades se agravaram ao longo das décadas 70-80, e fizeram-me induzir que uma parte cada vez maior do capital acumulado fosse migrando da esfera da produção para a esfera puramente financeira.

IMAGEM DA BESTA (Toda sorridente) – Fez muito bem!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Incrementei o desenvolvimento científico e tecnológico e os meios objetivos necessários para sistematizar e tornar mais ágil a comunicação entre todos os centros financeiros do mundo. Assim, transformei-os numa única entidade social, altamente integrada, autônoma, livre de qualquer regulamentação externa, e capaz de acumular soma exorbitante de dinheiro! E, ainda, flexionei os processos de trabalho, os produtos e padrões de consumo. Desorganizei e fiz recuar o poder sindical dos trabalhadores!

IMAGEM DA BESTA (acariciando o rosto do Fero C. I., com uma das mãos; segurando e agitando sua bolsa, com a outra mão) – O brigado! Eu agradeço do Fundo… (Pausa) Monetário Internacional!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Apalpando uma das nádegas da Imagem da Besta) – Obrigado… Nada… Pode ir arriando… (Pausa) Os juros! Eles estão insuportáveis e atrapalham o meu crescimento!

LAMEC (Colocando um dos seus braços sobre os ombros da Imagem da Besta e o outro sobre os do Fero C. I.) – Vejam! Nas décadas 70-80, inauguramos uma nova era, a da acumulação flexível! A era Pós-Moderna! Assim, aumentamos mais ainda o domínio que exercemos sobre os indivíduos, e a devastação da natureza! Enquanto os ilusionistas distraem o povo, com fantasias de extraterrestres ou de computadores dotados de inteligência artificial dominando o planeta, nós os gigantes dominamos de fato toda a humanidade.

IMAGEM DA BESTA – O meu nascimento e o da acumulação flexível marcaram aquelas décadas. Hoje, destaco-me em poder e em dinheiro. Quem ainda não sabe que os empreendimentos comerciais, industriais, imobiliários, governamentais… Estão sob o meu domínio? Eu é que os financio! O lucro maior e mais garantido é o meu, sobretudo no Brasil, onde os juros estão entre os mais altos do mundo, e o seu pagamento é tido como um dever sagrado para com um deus!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se a Imagem da Besta) – Em cada esquina há uma agência financeira! Funcionários públicos e pensionistas, todos lhe pagam juros. Você cresceu muito, depois que eu a criei! Como foi isso?

IMAGEM DA BESTA – eu comecei atacando com a ideologia neoliberal e com empréstimos fraudulentos a governos corruptos. Veja as impagáveis dívidas interna e externa do Brasil. Avancei com as privatizações das empresas públicas nacionais, sobretudo nos países periféricos. Hoje, o mundo fala a minha linguagem e tem o meu espírito. Tornei possível a mercantilização tanto nos mais remotos recantos da terra como nas mais resistentes esferas da vida. Todos me adoram, do mesmo modo que adoram Lamec. Este é adorado como um deus; eu sou adorada como a divina imagem desse deus!

22ª CENA – Confraternização entre Lamec, a Imagem da Besta e o Fero C. I. Eles comemoram a vitória em submeterem e levarem os indivíduos ao mais extremo estado de alienação, e conseguirem agredir a natureza a ponto de colocar em perigo a vida no planeta. O Fero C. I. desloca-se à parte recuada do palco, pega uma garrafa de vinho e três copos. Ele distribui os copos entre os três e simula servi a bebida. Ouve-se o som de música clássica alegre e eles movimentam-se alegremente. O brinde ia ter início, quando Matusalém entra repentinamente no palco, trazendo na mão um copo vazio. E, tendo por objetivo participar da confraternização. O volume da música é reduzido, quando Matusalém fala a Lamec, lembrando que muito contribuiu, e que ainda vem contribuindo, para a vitória que estava sendo comemorada, e não podia deixar de participar do evento.

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Vamos comemorar e brindar nossa vitória sobre os indivíduos e a natureza, porque estes não mais esboçam nenhuma reação! (Ouve-se música clássica alegre e eles se movimentam alegremente)

MATUSALÉM (Entrando repentinamente, com um copo vazio na mão, e dirigindo-se a Lamec, enquanto é reduzido o volume do som da música) – Nunca esqueças de mim, porque desde quando o engendrei e transmiti o meu poder a você, permaneci velando pelo seu sucesso! Quando você invadia as terras de outros povos, exterminando, escravizando e devastando, eu sempre ia junto, dizendo amém e catequizando as vítimas, para facilitar sua empresa… Ainda hoje eu favoreço você e os seus parceiros, entorpecendo os povos, através dos meus dogmas e da sofística paulina que neles introduzo!

 

TERCEIRA PARTE – O 9º sucessor de Adão: O Nascimento de Noé: o início do longo processo de “descanso” ou “consolação” do Trabalho Sócio-Natural, o Criador, e o respectivo longo, grave e irreversível processo de recessão da Besta Mercado Global – Noé versus a gangue dos quatro gigantes.

23ª CENA – O clima festivo recomeça, o volume da música aumenta e Matusalém se integra alegremente ao grupo, e eles brindam. Enquanto isso, uma graciosa e meiga jovem, Noé, e um rapaz adentram sorrateiramente ao palco. A música clássica é repentinamente substituída por funk, e os dois jovens começam a dançar no centro do palco, fazendo cessar o brinde e apartando os quatro gigantes para uma das laterais do palco. O Fero C. I. recolhe os copos, vai até a parte mais recuada do palco e guarda-os, e também a garrafa que segurava. Ele retorna para junto do seu grupo, olhando ao seu redor, sinalizando surpresa, indignação e desdém, face à presença dos jovens funkeiros. E, dirige-se simultaneamente aos dois jovens e ao público, em voz alta.

FERO CAPITALISMA INDUSTRIAL – Que porra é essa? Quem são esses porras-loucas? !

24ª CENA – Os dois jovens funkeiros não dão atenção para o desabafo feito pelo Fero C. I., a música continua tocando e eles dançando animadamente. Os quatro gigantes permanecem junto a uma das laterais do palco, fazendo gestos de surpresa, indignação e desdém. A Imagem da Besta, então, toma a iniciativa de se dirigir grosseiramente aos jovens, e interromper a dança e a música. A jovem Noé retruca de modo sereno às ásperas palavras da Imagem da Besta, enquanto o rapaz se retira para os bastidores. Segue-se uma discussão entre Noé e os quatro gigantes. Por fim, a jovem Noé retorna aos bastidores, mas os quatro gigantes permanecem em cena.

IMAGEM DA BESTA (Dirigindo-se grosseiramente aos dois funkeiros) – Quem são vocês? (Cessa o som da música funk) O que fazem aqui em nosso meio? Não vêem que estamos numa reunião de alto nível? (O rapaz recolhe-se aos bastidores).

A JOVEM NOÉ (Com voz branda e um amável sorriso) – Eu vim para ficar!

IMAGEM DA BESTA (Com ar esnobe) – Isto aqui não é pra gente de sua laia… Não te conheço como Nada!

A JOVEM NOÉ – Realmente! … Você e muita gente não me conhecem, nem sabem que já estou no mundo… Pelo menos você, que se gaba de haver inaugurado a era Pós-Moderna, deveria me conhecer! Pois, saiba que quando você estava sendo criada, durante as décadas 70-80, (Apontando para Lamec) o grande Besta Mercado Global gerou-me!

(Lamec encena gestos e expressões faciais de espanto. A jovem Noé se dirige a ele, acariciando-lhe uma das faces do rosto)

A JOVEM NOÉ (Dirigindo-se a Lamec) – Você não me reconhece? Sou sua filha, Noé. Eu vim para lhe acompanhar até ao resto de sua vida.

LAMEC (Olhando sorridente para seus parceiros e abraçando sua filha, a jovem Noé) – Vejam! Temos mais uma parceira a nos ajudar a enriquecer cada vez mais!

(As palavras de Lamec causam repulsa em Noé, que se afasta dele, mas ela logo se reaproxima, brandamente)

A JOVEM NOÉ – Paizinho, não seguirei os seus passos, pois sou a ruptura de tudo o que você representa! Chamo-me, também, Consolação e Repouso! Trago estas coisas comigo, para o tão explorado Trabalho Social e também para o Trabalho da Mãe Natureza. Você e seus sócios vêm explorando, desumana e inconsequentemente, os pobres trabalhadores e a natureza, até levá-los à exaustão! Vocês vêm incrementando a alienação dos indivíduos e a violência com requintes de crueldade, sobre os desempregados e os pobres trabalhadores, sobretudo os jovens, nas periferias das cidades e nos campos. Venho para tirar o indivíduo do extremo estado de alienação. Quero justiça social e respeito à natureza!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se a Lamec e apontando para a Imagem da Besta) – Olhe!…Lamec! Veja esta chique mulher, que eu induzi aos que compram e vendem criarem! Ela é ávida por dinheiro como nós. (A Imagem da Besta alinha os cabelos e a roupa, gabando-se do elogio) Você, Lamec, gerou uma filha desnaturada. Ela está contra nós!

A JOVEM NOÉ (Dirigindo-se aos quatro gigantes) – Desde os anos 70-80 venho acompanhando a humanidade: para vocês quatro, venho com uma longa, grave e irreversível Depressão; Para os trabalhadores pobres e a natureza, estou preparando uma longa fase de “descanso”! (Voltando-se para o público) O significado do meu nome é “consolar”, porque minha missão é consolar os que estão oprimidos e exaustos, levando-lhes “repouso”, eis o segundo significado do meu nome!

MATUSALÉM (Com ar de arrogância) – Eu conheço as Escrituras. com você, Noé, o que vem é o dilúvio!

A JOVEM NOÉ (Dirigindo-se a Matusalém) – Você nem sabe o que essa palavra significa…Certamente o dilúvio virá! Mas, isto só ocorrerá em consequência da alienação, miséria e violências que você e seus comparsas instalaram entre os homens! (Virando-se para o público) Está escrito: “… eu vim trazer, em nossas fadigas e no duro labor de nossas mãos, um alívio tirado da terra mesma que o Senhor amaldiçoou!” Este Senhor, o Criador, é o Trabalho Sócio-Natural. É ele mesmo quem, comigo, repousa. (Voltando-se para Matusalém) Já estamos no “sétimo dia da criação”! O significado disto, os seus teólogos nem desconfiam.

MATUSALÉM – Somente eu e os meus teólogos somos os intérpretes autorizados das Escrituras!

A JOVEM NOÉ – Vocês nada sabem sobre o Escolhido e o Criador. O que sabem é enganar e subtrair dinheiro de suas ovelhas! As Escrituras previam que Henoc, avô de Lamec e meu bisavô, andariam com Deus. Isto se concretizou. Pois, na época de Henoc, o Império Romano, Deus esteve conosco, o Emanuel. Jesus foi o Escolhido, entre os judeus, na Palestina. As mesmas Escrituras previam que eu, Noé, filha de Lamec, encontraria graça aos olhos se Deus, porque sou justa, e que também andaria com Deus… Isto é certo: é a segunda vinda de Emanuel, o Escolhido de Deus.

MATUSALÉM (Com um sarcástico e sonoro sorriso, aproximando-se do público e interrompendo a fala de Noé) – Sim! Eu também venho pregando a volta do Cristo, o Ungido de Deus!

A JOVEM NOÉ (Sem levar em consideração o que Matusalém dissera) – Onde e quando? É uma questão! Ele nascerá, certamente, entre trabalhadores pobres, a exemplo do carpinteiro Jesus, em uma nação subdesenvolvida, como era a nação judaica, cujas elites dirigentes do Sinédrio, eram corruptas e aliadas à potência imperialista da época, para juntas dominarem e explorarem os trabalhadores dessa nação. A nação brasileira e outras da América Latina, da África… Apresentam contextos semelhantes àquele em que emergira Jesus, o Escolhido entre os judeus.

MATUSALÉM – Não interessa o local do nascimento do Ungido, o importante é que depois de nascido, ele irá para o Vaticano, assumir a liderança da santa Igreja.

A JOVEM NOÉ (sorrindo discretamente e meneando a cabeça em sinal de desaprovação do novo comentário ridículo feito por Matusalém) – O Escolhido emerge na história, para libertar os indivíduos, quando estes chegam ao extremo estado de alienação, subordinação e exploração… Extremo esse hoje já alcançado! (Apontando para a Imagem da Besta) E, marcado com a criação da abominável e desoladora Imagem da Besta, o Sistema monetário e financeiro autônomo, e unificado globalmente! Ela é, hoje, adorada como uma divindade.

IMAGEM DA BESTA – Espera aí! Gente abominável e desoladora é o tipo de idealista, como esse Escolhido que vocês amam… Sim! Ele é abominado por nós quatro e por todos os que nos adoram, porque ele propôs e praticou a luta, mesmo com o sacrifício da própria vida, pela paz, fraternidade, libertação do indivíduo, igualdade social! … Sim! Ele é desolador porque propôs que devastemos toda riqueza que acumulamos, vendendo-a e distribuindo aos pobres, e que o miserável ponha fim à ilusão de que ser feliz é ser rico!

A JOVEM NOÉ (Dirigindo-se ao público) – Henoc e a igreja hierarquizada de Paulo o Anticristo, se empenharam em cessar o holocausto perpétuo. Matusalém prosseguiu nessa tarefa… Agora, o Besta Mercado Global trouxe em suas asas a Abominação da Desolação! (Apontando para Lamec e a Imagem da Besta) Eles são adorados como deuses pelos habitantes da terra, ocupando indevidamente o santo lugar do verdadeiro Deus, o Trabalho Sócio- Natural, o Criador!

LAMEC (Dirigindo-se a Noé e apontando para a Imagem da Besta) – Eu e ela somos os verdadeiros deuses, não o Criador! … Por isso é que somos adorados pelos habitantes da terra!

A JOVEM NOÉ (Dirigindo-se a Lamec e aos comparsas deste) – Blasfêmia! Isso não durará muito… Estamos chegando ao tempo do fim! Vocês e todos os seus adoradores serão subjugados e julgados pelo Criador e o Escolhido… O sacrifício perpétuo já recomeçou! É assim que o Pai Celeste atua para libertar de vocês os indivíduos, e atenuar a catástrofe para a qual vocês estão conduzindo a humanidade e a natureza!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se a Noé) – Esse “tempo do fim” nunca chegará para nós quatro, nem para os que nos adoram!

A JOVEM NOÉ – Saiba que o “tempo do fim” começou desde quando nasci! (Apontando para a Imagem da Besta) E que a parousia ocorrerá não muito depois que a Abominação da Desolação houvesse sido criada e ocupado o lugar santo. Então, o Escolhido emergirá em Sião, com seus exércitos celestes, e iniciará a insurreição! (Apontando incisivamente para os quatro gigantes) Vem Senhor Escolhido!

(A jovem Noé invoca o Escolhido, e se recolhe aos bastidores)

25ª CENA – Os quatro gigantes sentem-se aliviados pelo fato de Noé haver saído de cena, e tecem comentários desairosos a respeito dela. O Fero C. I. propõe recomeçar a comemoração, caminha até à parte mais recuada do palco, pega de volta a garrafa de vinho e os quatro copos, distribui estes aos outros três gigantes e simula servi-lhes ovinho. A música clássica alegre volta a ser tocada, e os quatro gigantes brindam e dançam alegremente.

LAMEC (Dirigindo-se aos outros gigantes) – Essa menina é uma porra-louca e só diz bobagens! São alucinações de menina de rua…

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Caminhando até ao fundo do palco, vai e pega de volta a garrafa de vinho e os quatro copos. Dirige-se aos outros três gigantes, distribui os copos e simula enchê-los) – Continuemos a celebração da nossa vitória sobre os indivíduos e a natureza. Eles não esboçam nenhuma reação, que possamos considerar uma ameaça aos nossos propósitos. Noé foi só um pesadelo!

MATUSALÉM (Com o seu copo sendo cheio) – Enquanto ela falava, eu tinha a sensação de estar num pesadelo… Ainda bem que ela se foi… E que música horrível!

IMAGEM DA BESTA – Vocês não gostaram da presença dela, mas eu é que os fiz parar de dançar.

QUARTA PARTE – A segunda vinda do Escolhido e a preparação para o Armagedom – O Intenso embate ideológico entre o Escolhido e a gangue dos quatro gigantes, disputando a opinião do público – O grande banquete oferecido pelo Criador às “aves do céu”.

26ª CENA – A música clássica é repentinamente substituída por rook, e a comemoração é interrompida. Então, o Escolhido e seus dois seguidores (dançarinos) entram no palco, dançando animadamente, sob repetidos flashes de luz. Enquanto isso, os quatro monstros vão para uma das laterais do palco, onde contracenam, fazendo gestos de descontentamento e de receio. Matusalém, espantado, reconhece a nova personagem como sendo o Escolhido, e exclama: “o Filho do Homem!” Este e seus seguidores continuam dançando.

MATUSALÉM (Com ar de espanto) – O Filho do Homem! Este é o Escolhido de Deus!

27ª CENA – O Escolhido para de dançar, cessa a música e os dois “dançarinos” (fiéis seguidores do Escolhido) permanecem junto ao seu líder. Este inicia caloroso debate acompanhado de intensa movimentação, contra Lamec, o Fero C. I. e a Imagem da Besta. Os dois grupos em debate disputam entre si a opinião do público, mas sem evocar a participação deste no debate.

ESCOLHIDO (Dirigindo-se a Lamec) – Adverti o teu avô, Henoc, que eu voltaria, após você gerar a filha Noé. A jovem justa que encontrou graça aos olhos do meu Pai! Prometi aos meus Apóstolos que voltaria, para dominar você e seus cúmplices, libertar os indivíduos e fazer justiça a todos. Prometi fundar a Tribo dos Santos, onde reinará a justiça, a paz… Eis aqui, eu, que vou cumprir o que prometi!

LAMEC (Com passos ameaçadores em direção ao Escolhido e seguido por seus cúmplices, mas contido pelo Escolhido e os seguidores deste, que não recuam) – Se você é o Escolhido, então saiba que vivemos novos tempos (Apontando para os outros três gigantes) Somos tão ricos e poderosos, que venceremos você e sua gente, porque o populacho adora a mim e a minha imagem, como deuses. Ele gosta do jeito que nós o moldamos!

ESCOLHIDO – Em parte, você tem razão, porque a terra está cheia de ídolos… Os indivíduos adoram os produtos de suas mãos! (Indicando os quatro gigantes) Vocês e suas mercadorias! (Voltando-se para o público) Isto é blasfêmia! Não se deixem prender nas cadeias ideológicas, cientificistas, religiosas, filosóficas, econômicas, políticas… O Dia do Senhor e do seu juízo está próximo. Então, a soberba dos mortais será abatida e a paz e a justiça triunfarão!

LAMEC (Dirigindo-se ao público e apontando para o Escolhido) – Não liguem para ele! Ele é como Noé, vive em delírio… Vocês me adoram! Qual de vocês resiste ao fascínio das minhas mercadorias, nas vitrines dos meus templos, os shopping center, na TV, nos cartazes… ? Quem não é minha mercadoria? Quem não vende seu trabalho, material ou intelectual, para sobreviver? Até os gostos que identificam cada um de vocês, são moldados pelas propagandas das minhas mercadorias, através da mídia, que é controlada por nós! Esqueçam o Cordeiro de Deus!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se ao público) – Eu pus em todos, pequenos e grandes, ricos e pobres o sinal mercadoria! (Levantando a mão direita e agitando-a) Nos que exercem trabalho material! (indicando sua testa) E, nos que exercem trabalho intelectual! Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal “mercadoria” ou o nome Besta Mercado Global ou o número do seu nome…

ESCOLHIDO (Dirigindo-se ao público, e apontando para a Lamec e a Imagem da Besta) – Eles não são deuses, são meros produtos das nossas mãos… Devemos respeitar e adorar o Trabalho da Natureza, que criou o mundo e nós nele. E, o Trabalho Social, que é extensão do Trabalho da Natureza! O Trabalho Sócio-Natural é o Criador, que nos criou e nos mantém. (De novo indicando Lamec e a Imagem de Besta) Eles vêm devastando a natureza, apropriando-se do produto das mãos dos trabalhadores e impondo-lhes alienação e miséria. Assim, criaram as contradições sociais, que hoje chegaram na iminência do dia da catástrofe que nos espera! O dia do Senhor!

IMAGEM DA BESTA (Bradando aos quatro ventos) – Esse dia nunca virá! (Dirigindo-se ao escolhido) Eu já sei o que você pretende com esse seu “Dia do Senhor”! Noé fez alusão a ele… Você e esse seu Senhor arvoram-se defensores dos trabalhadores pobres, e estão tramando o não pagamento das dívidas externa e interna dos países miseráveis, aproveitando-se de uma eventual crise econômica que possa ocorrer!

ESCOLHIDO – O que me importa, agora, é incrementar o amor ao próximo e ao Criador, como único meio que possibilita a libertação dos indivíduos, combater as injustiças sociais, minimizar a dimensão da catástrofe que se aproxima e neutralizar vocês quatro. Essas dívidas são apenas uma das muitas injustiças que pesam sobre os trabalhadores. O Dia da Insurreição do Senhor e o seu juízo não tardam!

IMAGEM DA BESTA – Não me importa se são governos corruptos que vêm pegando empréstimos comigo, e que o trabalhador é quem paga a conta. Eu quero o meu dinheiro! (Sorrindo sarcasticamente) Eu prefiro que esses governos permaneçam pagando só os juros, e pegando mais dinheiro comigo para isso…

ESCOLHIDO – Juro? ! O nome disso é usura ou onzena. É uma coisa maligna!

IMAGEM DA BESTA (Olhando para o alto, como se indagasse aos céus) – Maligna? ! (Dirigindo-se ao Escolhido e apontando para o público) Pergunta a eles se juros ou usura… É coisa ruim… Eles me adoram como deusa, precisamente porque eu empresto ou financio os sonhos deles, em troca se juro! (Dirigindo-se ao público) Qual de vocês não me adora e ainda não se serviu de mim? Vocês precisam de empréstimo ou financiamento, eu os cedo, para diversos fins: criar uma empresa; comprar um imóvel na Barra; um carro novo; um passeio; um tênis importado; ou ir a Casa Bahia tirar um computador, um celular com câmera digital…

ESCOLHIDO (Dirigindo-se a Imagem da Besta) – Se os governos das nações devedoras, a exemplo do Brasil, fossem sérios e honestos, fariam auditoria das dívidas externa e interna. Então, certamente veriam que essas dívidas já foram pagas além do valor justo.

IMAGEM DA BESTA (Dirigindo-se ao Escolhido) – O quê! (Virando-se para o público e fazendo um círculo imaginário com a ponta do dedo indicador à frente do seu rosto, e no centro imaginário desse círculo faz um gesto obsceno, com o dedo médio estendido, rígido e apontado para o alto) Aqui pra vocês! … Vão pagar o que me devem, de um modo ou de outro, por bem ou por mal!

ESCOLHIDO (Dirigindo-se ao público) – Prestem atenção! (Indicando os quatro monstros) Eles moldam cada indivíduo, tornando-o numa mera peça (Sinalizando aspas) “morta”, isto é, alienada ou coisificada, integrante do sistema capitalista. Mas, vejam!… Cada um de vocês tem a possibilidade de resistir a isso… Desenvolver capacidade de autoclarificaçao, de autodiligência e de consciência social crítica e transformadora, e passar a ser sujeito de suas próprias ações!

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Dirigindo-se ao Escolhido e com um sorriso traiçoeiro no canto dos lábios) – Como você pretende ajudá-los a resistir? Você foi o Escolhido, para induzir os indivíduos a uma revolução violenta e sangrenta, pela tomada do poder?

ESCOLHIDO – Não! Nessa falsa estratégia de luta eu não caio! Ela faz parte dos mecanismos de produção e administração da violência, operados por suas elites como meio de moldagem da conduta individual, e de controle e mobilização social. Ela produziu muitas revoluções traídas… A alternância entre as elites! E os trabalhadores continuaram sendo subjugados e explorados, pelas novas elites no poder. Quanta gente vem morrendo em vão! … Sobretudo, jovens!

28ª CENA – O debate entre os dois grupos permanece. Na cena a seguir, o foco do debate concentra-se, entretanto, entre o Escolhido e Matusalém.

MATUSALÉM (Dirigindo-se ao Escolhido) – Junte-se a nós e faremos de você o sumo santo pontífice da religião mais rica e poderosa do planeta! E, resolveremos o problema da miséria dos trabalhadores, distribuindo bolsas-alimentação para eles em todo o mundo!

ESCOLHIDO – (Dirigindo-se aos quatro gigantes) Hipócritas! A maior miséria do indivíduo, hoje, é o estado de extrema alienação e prostração em que vocês o mantém. Nem só de pão vive o indivíduo, mas de toda palavra de Deus voltada para libertá-lo desse estado! (Virando-se para o público). É preciso uma revolução fraternal, radicalmente pacifista e igualitária e horizontal. Edificada, sobretudo, no indivíduo convertido de alienado para autoconsciente, autônomo, crítico e transformador. Porque só é possível transformar a coletividade, transformando suas unidades mínimas componentes: os indivíduos!

MATUSALÉM – Você não tem como mobilizar os indivíduos contra nós, porque nós quatro controlamos toda a mídia e os meios de coerção. Junte-se a nós e construiremos os mais suntuosos e inúmeros templos-edifício para o teu Deus, um em cada esquina do mundo!

ESCOLHIDO – O que é a mídia e a repressão diante do poder da verdadeira palavra de Deus? Os templos-edifício são covis de ladrões, ou seja, de sacerdotes! O indivíduo autoconsciente, autônomo e dotado de consciência crítica e transformadora é o único templo de Deus! É nele, (sinalizando aspas) nessa “pedra”, que estou edificando a insurreição!

MATUSALÉM – Esse tipo de indivíduo é muito perigoso, para a manutenção da ordem social que nos convém. Por isso é que moldamos e mantemos as condutas dos indivíduos, do modo que nos interessa!

ESCOLHIDO – Vocês são as portas do inferno da alienação! Mas, não prevalecerão sobre o indivíduo que conhece e domina seus próprios sentimentos e valores, e que estimula os sentimentos de ordem amorosa e valores fraternais, enquanto contém o ódio e o individualismo! Somente assim o indivíduo pode tornar-se autoclarificado, autodiligente, crítico e transformador. Porque os sentimentos e valores condicionam o pensamento, a vontade e as intenções, e são básicos na motivação da conduta prática! A esse indivíduo eu darei as chaves do Reino da Práxis de Deus!

29ª CENA – Os quatro gigantes acercam-se mansamente do Escolhido, e com discursos sedutores tentam cooptá-lo.

MATUSALÉM (Acercando-se mansamente do Escolhido) – Deixa as coisas como estão, e tire partido delas em seu benefício… O indivíduo humano não vale o seu holocausto perpétuo! Ajunte-se a nós e serás poderoso e rico!

LAMEC (dirigindo-se brandamente ao Escolhido) – O Criador pouco vale… São as criaturas que têm valor. Veja a magnânima pessoa humana que você é! Isto é que fez de você o Escolhido. Você vale mais do que ele! Orgulhe-se e seja um deus como nós.

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL (Aproximando-se mansamente do Escolhido) – Faça como Buda, Paulo de Tarso, Maomé, Lutero… Agrupe alguns intelectuais funcionais em torno de si, crie sua própria religião hierarquizada e seja o seu sumo santo sacerdote. Assim, tu estarás aliado a nós, todas as nossas divergências se acabam, e manteremos a Paz Global!

IMAGEM DA BESTA (Aproximando-se do Escolhido, com passos sensuais e tentando acariciar a face deste, que se afasta dela) – Alie-se a nós e adora-me e receberás 10% de todo empréstimo, que presidentes de governos corruptos pegarem comigo. E, farei que todo dinheiro tenha a sua efígie.

ESCOLHIDO (Desvencilhando-se dos quatro gigantes) – Afastem-se de mim! … Gangue de monstros satânicos! Só o meu Pai adoro e presto o culto perpétuo! (Voltando-se para o Público e apontando para os quatro gigantes) Todos os argumentos deles parecem muito coerentes, corretos e baseados em coisas bem naturais e tentadoras. Isto ocorre porque os indivíduos foram cedendo e adaptando-se às imposições e necessidades desses monstros, e agora estão vivenciando a banalização do mal maior: o estilo da vida cotidiana que os monstros lhes impõem. Eu lhes peço, ajudem-me a dominá-los!

30ª CENA – Retorno do debate centralizado entre o Escolhido e Matusalém.

MATUSALÉM – Escolhido! Ouça-me! Não seja ingrato comigo… Se Junta a mim. Afinal, eu venho enaltecendo o teu nome a dois mil anos!

ESCOLHIDO – Mentira! Eu te conheço muito bem. Você é mais sutil, ardiloso, perigoso e resistente que seus três cúmplices! Isto é que faz você existir por mais tempo que todos os outros sucessores de Adão, e ser dominado somente após seus três cúmplices! Você mente dizendo que fala em meu nome e no do meu Pai, mas, vive pronunciando nossos nomes, precisamente para afastar os indivíduos da minha verdadeira doutrina, e nestes inculcar o falso cristianismo: seus dogmas e a doutrina paulina! Você engana, entorpece e explora os seus seguidores… Você é o grande dragão vermelho, a antiga serpente, o próprio Diabo e Satanás!

MATUSALÉM (Com ar de irado) – Agora, você se excedeu! O que disse é heresia… Se houvesse falado isso na época do meu apogeu, irias para a fogueira da inquisição!

ESCOLHIDO (Sorrindo e balançando a cabeça em sinal de desaprovação da atitude irada de Matusalém) – O Espírito de Deus e o meu inspiramos os Apóstolos, no sentido de inaugur a minha verdadeira igreja. O templo dessa igreja era cada um dos indivíduos autoclarificados, autodiligentes e revolucionários, que procuravam congregar, horizontalmente, o modelo igualitário, fraternal e radicalmente pacifista de comunidade. Sua expansão para outras nações sob o Império Romano se dava através da libertação e proliferação desse tipo de indivíduo.

MATUSALÉM (Dirigindo-se ao Escolhido) – Foi exatamente assim que eu comecei!

ESCOLHIDO – Mentira! Eu preparei minhas lideranças, os verdadeiros Apóstolos, segundo o modelo “servo” de liderança. Ou seja, servir como exemplo e orientando os membros mais humildes da comunidade horizontal. E, libertar e formar novos indivíduos revolucionários. Mas, nunca se elitizar e nem se aliar às elites das nações. Ao contrário disto, você seguiu as pegadas da indigna igreja do Anticristo, Paula de Tarso: hierarquizando sua igreja, com um clero elitizado e aliado às elites das nações!

MATUSALÉM – Basta! Não fale mal do maior santo e criador da sagrada e santa Igreja Católica, e também dos pastores protestantes e evangélicos. Foi ele quem institucionalizou a hierarquia clerical, criando os primeiros bispos, presbíteros, diácono… Ele propôs e conduziu a aliança de sua elite sacerdotal com as elites das nações!

ESCOLHIDO – Na verdade, Paulo formou lideranças elitistas e criou uma igreja hierarquizada, para combater a igreja horizontal dotada de lideranças anti elitistas. A qual fora criada pelo Espírito do meu Pai e pelo meu, na Galileia, e se estendeu para Jerusalém, e daí para o mundo. O Anticristo se destacou na reação do conjunto das elites intelectuais das classes médias grego-judaicas. Ele era um pródigo sofista educado na Grécia e ex-fariseu, que lutou pela preservação da postura elitista dos intelectuais.

MATUSALÉM – Você insiste em dizer heresia contra o santo Paulo de Tarso. O fato é que o Senhor apareceu para ele, no caminho para Damasco, e o incumbiu de levar a doutrina cristã aos gentios!

ESCOLHIDO – O Anticristo é mentiroso como você! Na verdade, esse foi o ardil por ele empregado, estrategicamente, para se infiltrar entre os verdadeiros Apóstolos. E, assim, passar, falsamente, como apóstolo, e também para conhecer minha doutrina, e se aproveitar do forte carisma que eu desfrutava junto ao povo. Assim, ele forjou uma doutrina pseudocristã. Adulterou, sutilmente, neutralizando todos os pontos que instruem e dão vigor e destemor aos que quisessem seguir-me, avançando com a fraternidade horizontal entre os gentios, mesmo com o sacrifício da própria vida, o holocausto perpétuo! Paulo fez tudo isso para resistir ao avanço do revolucionário movimento  horizontal e igualitário entre os gentios!

MATUSALÉM – Não é nada disso! Paulo queria adaptar a tua doutrina à cultura grego-romana, visando propagá-la pelo Império… Ele teve boa intenção!

ESCOLHIDO – Dessa boa intenção o inferno está cheio! Havia um acordo tácito entre o grupo de ideólogos elitistas chefiados por Paulo, e as elites políticas e econômicas do Império. Por um lado, o grupo do Anticristo pervertia e combatia ideologicamente minha verdadeira doutrina, a qual era defendida pelos verdadeiros Apóstolos, nas suas comunidades horizontais. Por outro lado, as elites políticas combatiam fisicamente, os meus genuínos seguidores, martirizando-os até levá-los ao extermínio!

MATUSALÉM – Ó! Que mente doentia! Como você pode supor que o santo Paulo fosse tão maquiavélico?

ESCOLHIDO – Por fim, os malditos santos Padres e o Imperador Constantino I celebraram, em 325, a maldita aliança e o completo extermínio dos membros da minha verdadeira igreja!

MATUSALÉM – Por fim, reconheces que foi a igreja de Paulo e não a sua que venceu?

ESCOLHIDO – Sim… Mas, isso resultou na desgraça da humanidade… Podia ter sido diferente! Paulo arrebatou todo refugo: os da desistência em continuar a revolução que desencadeei; mais aqueles que queriam uma religião fácil, cômoda e resumida em estéreis e repetidos rituais; e ainda todo embusteiro que se prestava a ganhar dinheiro exercendo a função de sacerdote e ser chamada de bispo nesse tipo satânica de religião. Foi assim que você surgiu e contigo a Idade das Trevas! (Apontando para os outros três monstros) Depois, vieram seus três cúmplices!

31ª CENA – Retomada e conclusão do embate entre, de um lado, o Escolhido, e do outro, Lamec, o Fero C. I. e a Imagem da Besta.

LAMEC (Dirigindo-se ameaçadoramente ao Escolhido) – Mais respeito quando se referir a nós! Até chegar a época do Armagedom, quem manda aqui somos nós!

ESCOLHIDO – Em breve eu e meus exércitos celestes vamos criar novas tribos comunais, mais fortes, amplas e duradouras que as comunidades horizontais de outrora! Observe e verás, que eu já venho enviando gente minha, para preparar o meu caminho…

FERO CAPITALISMO INDUSTRIAL – Será? Acho que nós quatro venceremos a batalha do Armagedom… E essa tribo da fraternidade horizontal e pacifista nunca acontecerá!

ESCOLHIDO (No fundo musical, ouve-se “O que será”, de Chico Buarque) – Deus cumpre sua palavra! Você, Lamec, e mais o Fero Capitalismo Industrial criado por Lutero, o falso profeta serão purificados vivos, no lago de ardente fogo de uma nova ordem de conhecimentos! (dirigindo-se a Imagem da Besta) Você e seus adoradores serão eliminados, pelas minhas contundentes palavras, e o Criador convocará todas as aves do céu, para se fartarem das suas carnes alienadas e de suas posses… (Pausa) Num grande banquete!

IMAGEM DA BESTA – Aves do céu!… O quê significa isso?

ESCOLHIDO – Não sabes? Vocês que as criaram!… São os meninos de rua, os bandidos, os desvalidos, os endividados, a soldadesca sem receber seu soldo, as milícias sem terem onde tirar o sustento, guerrilheiros revolucionários movidos por ideologias políticas ou religiosas… Elas devastarão as carnes alienadas e as posses: dos líderes políticos, dos generais, dos ricos e poderosos; dos que conduzem e dos que são conduzidos; das gentes das classes médias e inferiores, pequenos e grandes!

(Enquanto o escolhido vai concluindo sua fala, as cortinas vão sendo fechadas e cessa o som da música. Assim, encerra-se a quarta parte da peça)

EPÍLOGO – A batalha final (Armagedom): a vitória do Escolhido, o Cordeiro de Deus e sua gente de Sião, sobre os quatro gigantes.

32ª CENA – As cortinas vão sendo reabertas e a jovem Noé adentra ao palco, carregando um livro (a Bíblia) em sua mão. Matusalém entra logo a seguir e senta-se numa cadeira previamente colocada na parte recuada de uma das laterais do palco. Noé caminha em direção a uma outra cadeira, situada no centro do palco e próxima ao público. Ela se senta nessa cadeira, abre o livro e começa a lê-lo em voz alta, para o público. De novo ouve-se a música “O que será”, de Chico Buarque, num volume não prejudicial ao público ouvir a voz de Noé. A leitura feita pela jovem é interrompida, quando ela percebe que o Escolhido e seus seguidores estão retornando ao palco.

NOÉ (Dirigindo-se ao público) – Vi o céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chame-se fiel e verdadeiro e é com justiça que ele julga e guerreia (…) Está vestido com um manto tinto de sangue e o seu nome é verbo de Deus. Seguiam-no em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de linho fino de uma brancura imaculada. De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com cedro de ferro, e pisar o lagar da ardente ira de Deus Dominador (…) Eu vi a Besta e os reis da terra com os seus exércitos para fazer guerra ao cavaleiro e ao seu exército. Mas a Besta foi presa, e com ela o falso profeta. Ambos foram lançados vivos no lago de fogo sulfuroso. Os restantes foram mortos pelo cavaleiro, com a espada que lhe saía da boca. E todas as aves dos céus fartaram-se das suas carnes. Vi, então, descer do céu…

33ª CENA – Enquanto a música “O que será” continua tocando, o Escolhido e seus dois fiéis seguidores entram no palco, interrompendo a fala de Noé, que se levanta da cadeira e observa-os. Os fiéis seguidores do Escolhido pegam Matusalém pelos braços e começam a arrastá-lo em direção aos bastidores. Matusalém resiste, mas é dominado e levado para fora do palco. O Escolhido observa esta cena. Seus seguidores retornam imediatamente, e junto com seu líder aproximam-se da jovem Noé. O Escolhido coloca o braço sobre os ombros da jovem, esta lhe sorri e conclui a leitura.

NOÉ (Dirigindo-se ao público) – Vi, então, descer do céu um anjo forte que tinha as chaves do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o Dragão, a primitiva serpente, que é o Demônio e Satanás, e o acorrentou por mil anos. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para que já não seduzisse as nações…

34ª CENA – O som do fundo musical (a música “O que será”) cessa. O Escolhido abraça e beija ardentemente a boca da jovem Noé, e dirige-se ao público.

ESCOLHIDO (Dirigindo-se ao público) – Tenham certeza, muitos de vocês atenderão aos meus reiterados pedidos, e me ajudarão a combater e vencer àqueles quatro monstros. Assim, a humanidade ficará livre destes, apesar dos sacrifícios que essa vitória possa custar a alguns de nós! Estas pessoas vencedoras reinarão comigo por mil anos, nas Tribos dos Santos.

35ª CENA – Ouve-se música alegre (“Apesar de você”, de Chico Buarque), então, a jovem Noé se dirige ao público, proclamando e convidando todos para as Bodas do Cordeiro, isto é, a preparação para a inauguração da Tribo dos Santos. Enquanto a jovem vai terminando de falar, os demais membros do elenco vão adentrando ao palco, já com seus trajes pessoais. Todos dançam e cantam animadamente. O Escolhido abraça Noé, e as cortinas vão sendo fechadas.

A JOVEM NOÉ (Dirigindo-se ao público) – Eu convido todos vocês para prepararmos as Bodas do Cordeiro! Vamos celebrar o começo de uma sociedade horizontal, justa e fraterna, projetada por todos os profetas, e que em breve será inaugurada pelo profeta maior, o Escolhido… (Pausa) A Tribo dos Santos!

FIM

[1]. Livro: Cf. Tribo dos Santos – O nascimento de Noé e a parousia na genealogia de Adão. Drama sócio-histórico transcorrido em tempo muito longohttp://tribodossantos.com.br/pdf/Tribo%20dos%20Santos.pdf