O templo-indivíduo versus templo-edifício: o “corpo todo” é o templo de Deus

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O templo-indivíduo versus templo-edifício: o “corpo todo” é o templo de Deus (Art. Y, 2.2.; p. 50-54). Livro O Templo – Resgate do sentido original da doutrina de Jesus http://tribodossantos.com.br/pdf/O%20Templo%20-20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf

  O Mestre concebe o “corpo” do indivíduo não somente como o único e exclusivo templo, que o Espírito Santo do Deus Pai pode habitar. Ele o concebe, também, como a base da igreja que estava fundando. Isto em distinção e oposição aos ideólogos hegemônicos judeus (sacerdotes e teólogos fariseus e saduceus, sábios, etc.). Os quais valorizavam como templo de Deus, a exemplo do templo-edifício de Jerusalém, o edifício construído com fins lucrativos, e de culto religioso e outras atividades sórdidas afins. Ideólogos estes que valorizavam, também, e tinham como base das suas igrejas, o grupo social constituído de indivíduos, que esses mesmos ideólogos seduziam, submetiam e controlavam ideologicamente, alienavam e exploravam economicamente.

  O Filho do Homem concebe a noção de “corpo todo” do indivíduo, isto é, o indivíduo, como a única e exclusiva instância em que o Espírito de Deus (consciência coletiva Pai) pode habitar. Ou seja, como “a casa” no sentido de templo ou santuário, em que Deus pode habitar. Ele citou, como exemplo, o seu “corpo” como um santuário de fato, porque Deus nele habita, efetivamente.

Vejamos o texto, que mostra Jesus travando embate ideológico com ideólogos judeus. Embate no qual ele se refere ao seu corpo, como o verdadeiro templo ou santuário de Deus, em oposição aos sacerdotes que consideravam o templo-edifício de Jerusalém como casa de Deus:

“Respondeu-lhes Jesus: ‘Destruí vós este templo e eu o reerguerei em três dias.’ Os judeus replicaram: ‘Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!’ Mas ele falava do templo do seu corpo (os grifos em negrito são nossos)”. (Jo 2, 19-21; cf. Jo 6, 3; Mt 12, 6, 38-40; 26, 61+).

O Mestre se referiu de modo mais específico ao indivíduo, concebendo-o como um conjunto complexo de conduta, e o único “local” de adoração ao Espírito de Deus. E de que modo o indivíduo deve adorá-lo? O Filho do Homem ensinou: Em “espírito”, isto é, a partir do campo subjetivo do indivíduo, enchendo-o de intenso sentimento de amor a Deus e ao próximo. E, em “verdade”, ou seja, na realidade objetiva (ação ou conduta social) produzida ou motivada, a partir do campo subjetivo da conduta individual. Campo subjetivo este dotado de sentimento intenso de amor condicionando todos os demais fatores do campo ou corpo subjetivo (valores, cognição, volição e intencionalidade). Desse modo, o campo subjetivo esteja motivando, no campo objetivo, o aparelho sensitivo do corpo objetivo, e as ações, omissões, etc. exercidas, em relação a outro indivíduo ou coisa.

No sentido indicado acima, o Mestre descredenciou o modelo templo-edifício (tanto o de Jerusalém como o monte Garizim, onde os samaritanos tiveram um templo-edifício) como local de adoração a Deus. Tudo isso, ele ensinou ao indivíduo (unidade mínima componente da sociedade humana), que no texto em tela consiste numa mulher de Samaria. A qual indagou ao Profeta Jesus, qual o local correto, para o indivíduo adorar a Deus: “Nossos pais adoraram nesta montanha, mas vos dizeis: é em Jerusalém que está o lugar onde é preciso adorar” (Jo 4, 20). O Mestre ensinou à mulher samaritana, que o indivíduo é, enquanto um conjunto complexo de conduta, o único e verdadeiro templo de Deus. Ou seja, o único e exclusivo “lugar” possível de se adorar  a Deus: “em espírito” (no campo subjetivo da conduta individual, que motiva o campo subjetivo); e “em verdade” ( no campo objetivo da conduta do mesmo indivíduo).

“Jesus respondeu: ‘Mulher, acredita-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém (…) Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade  (os grifos em negrito são nossos)”. (Jo 4, 21, 23-24).

Por outra perspectiva, Tomé apresenta, também, o indivíduo como o “local” de plena interação e harmonia, entre este e o Reino do céu. Isto é, o Reino do Deus Pai, o Vivente:[1]

   “Disse Jesus: Se vossos guias vos afirmarem: eis que o Reino está no Céu, então, as aves estarão mais perto do Céu que de vós; se vos disserem: eis que ele está no mar, então, os peixes já o conhecem… Pelo contrário, o Reino está dentro de vós e, também, fora de vós. Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai, o Vivente; mas se não vos conhecerdes, então estareis na ilusão, e sereis ilusão (os grifos em negrito são nossos)”.

O Mestre travou diversos embates de ideias contra os ideólogos hegemônicos da sua nação. Num desses embates, ele afirmou que o indivíduo é, a exemplo dele e sobretudo ele mesmo, mais importante que o templo-edifício:

“Ora, eu vos declaro que aqui está quem é maior que o templo. Se compreendesses o sentido desta palavra: Quero a misericórdia e não o sacrifício…, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Mt 12, 6-8).

[1]. O evangelho de Tomé, tradução de Leloup, J., p. 15, item 3.